Nonô deitada na cama, aborrecida.

(Mamã) O que é que se passa, Nonô?

(Nonô) É aquele problema que tu sabes... Tenho manos a mais!

(Mamã) Ó filha, mas isso tem coisas boas.

(Nonô) Só de vez em quando. Já sei, mãe: tu podias mandar os manos para um colégio interno e ficávamos só eu, tu e o pai, sossegados... E os manos vinham ao fim de semana.
Gritaria e confusão...

A mãe chama o Titão.


(Mãe) O que é que aconteceu?

(Titão) A Nonô irritou o Dudu, o Dudu bateu na Nonô, o Afonso bateu no Dudu. Enfim... o ciclo da vida.
Quando o nosso filho mais velho nos pede com jeitinho que lhe reencaminhemos um código (porque teve de dar o nosso número e tal), e esse código surge num SMS com o título "MLovers"...


(Mãe) No que é que tu andas metido, meu rico filho?!?!


E afinal o MLovers é só uma abreviatura de MacLovers, da MacDonald's...

Dahhhh!


Paixões, por agora (ou que eu saiba!) o meu filho só tem por hambúrgueres.

Mas ficou com matéria de sobra para gozar comigo durante um bom mês...


(Afonso) Se receberes outro código de "MTinder", reencaminha-mo logo, por favor... Brincadeirinha!



O Titão andava a pedir este jogo há séculos, e a mamã encontrou-o finalmente na Norte Escolar, uma empresa muito eficaz que envia todo o tipo de material didático para todo o país.

E, ao fim de meia hora, já tinha percebido porque é que o Titão me pedia o jogo. Português, História e Inglês podem não ser com ele (terão de o ser por mais uns anos. Nada a fazer!). Mas habilidade e criatividade não lhe faltam...


Depois de uma noitada a estudar o conjuntivo, verbos transitivos, intransitivos e copulativos, grupos adverbiais, sujeitos da passiva, modificadores e voz passiva (ufa!), com um filho que detesta Português, e passou o fim-de-semana a estudar 70 páginas de História para o teste da véspera, resolvi arriscar um SMS a seguir ao teste.


(Mãe) Como correu, filhote?

(Sebastião) Só me atrazei e ficai no entrevalo


Quero muito, e com todas as minhas forças, pensar que o corretor ortográfico "bugou" (como ele diz) e que ele, no meio de tanta gramática, tenha conseguido acertar um bocadinho mais no Português...

Mãe a "flipar" com a quantidade de matéria que os 4 filhos têm de enfiar na cabeça (ou que a mãe tem de lhes enfiar na cabeça) numa semana.

Filhos a reagir de maneiras diferentes:


(Afonso-o-adolescente-em-luta-com-as-hormonas) Isto é tudo uma seca! Tortura! Não aguento mais isto!!! Fui...

(Sebastião-o-conciliador-das-soluções-naif) O pai baldava-se um bocado nos estudos, não era? Se calhar era melhor teres arranjado um marido que fosse todo aplicadinho como tu, mãe. Ias ter menos trabalho...

(Nonô-a-que-não-dá-parte-fraca-era-o-que-mais-faltava) Eu sei tudo, mãe. Não te preocupes. Estou a errar de propósito para ver se tu estás atenta.

(Dudu-o-apanhado-dos-carretos) Não stresses, mãezinha. Respira fundo. Vou cantar-te uma canção: Ó mãe/ do meu coração/ Estás a precisar de férias/ Vai ao... Azerbeijão.




(Titão) E depois, em 1933, começou a ditadura "Salesiana"...

Pobre Dom Bosco. Para o que estaria guardado...
Tosca, mal amanhada, sem glamour algum... mas já tem sido albergue dos telemóveis cá de casa, ao final da tarde e fim de semana.

E viva o diálogo e a boa confusão em família!

Mãe convencida de que o Afonso não estudou o suficiente para Ciências, resolve abrir o livro e fazer-lhe algumas perguntas.


(Mãe) Dá-me então alguns exemplos de catástrofes provocadas pelo homem:

(Afonso) Temos mesmo de fazer isto, mãe?!

(Mãe) Estou à espera.

(Afonso impaciente) Ora... catástrofes causadas pelo homem: ataques nucleares, químicos... programas de televendas. Esse género de coisas que desequilibram os nossos ecossistemas.

A Nonô deu uma queda de bicicleta que lhe valeu um pequeno golpe no sobrolho e um olho inchado.

Hoje, a sua preocupação não era a dor nem o sangue (até porque já nem doía por aí além, e o sangue já tinha estancado há muito). Era, sim, o facto de toda a gente lhe perguntar o que tinha acontecido, desde os amigos às pessoas das lojas onde tivemos de ir.


(Mãe) Estás farta de contar sempre a mesma coisa, não estás?

(Nonô) Sim. Mas sabes? Pelo menos hoje ninguém me disse que eu era bonita...


É que criança bonita sofre...
Mãe zangada com o Afonso, que deixou crescer as unhas dos pés mais do que o permitido por lei (a lei cá de casa, pois claro!)

(Afonso) Cortar as unhas é uma seca, mãe. Um dia ainda vou inventar qualquer coisa para que as pessoas não tenham de andar sempre a cortar as unhas dos pés. Tipo uma máquina a laser que não deixe as unhas crescer.

(Mãe) É uma boa ideia. Mas também podes manipular geneticamente os humanos para começarem a nascer sem unhas.

(Afonso) Ya! Para que é que nós precisamos das unhas? (reflete) Hum... Espera. Se calhar não é boa ideia. Imagina que acontece qualquer coisa no futuro e os humanos voltam a precisar das unhas... Tipo, voltarem a viver nas montanhas. E depois vão passar a vida a dizer "Maldito daquele Afonso Dias que nos fez nascer sem unhas". Ya. É melhor deixar as unhas como estão.
No dia 16 de maio, há 8 anos, estava eu no hospital a pensar no tanto que mudaria a minha vida, poucas horas depois. De dois filhos, ainda pequenos, endiabrados como é suposto, passaria a quatro. "Nunca mais vou conseguir escrever um linha!", pensava. Não há criatividade que resista. Energia que não se esgote. Caberia a Sara-mamã-de-quatro, a Sara-escritora e a Sara-com-mania-que-tem-de-mudar-o-mundo num único corpo frágil?
Eram receios infundados, próprios da ansiedade do momento. Porque se há coisa que a maternidade nos dá, é a percepção de que somos efetivamente super-mulheres, não porque somos perfeitas e chegamos a todo o lado, mas porque, apesar da fabilidade com que nos confrontamos todos os dias (a nossa, nua e crua), que às vezes parece desmoronar tudo à nossa volta, e desmoronar-nos também, continuamos de mangas arregaçadas a dar o nosso melhor, todos os dias.
Não há duas mães iguais (nem dois pais), mas a maternidade é um exercício diário de auto-conhecimento, conhecimento do outro, gestão de conflitos, criatividade, recomeços e superações. E estou tão grata aos meus filhos (e ao pai deles também!) por tudo o que me têm ensinado!
Já vou escrevendo umas linhas, sim. Mudando o mundo um bocadinho. Às vezes melhor, às vezes pior. Às vezes só à custa de vitaminas e café, para trabalhar noite dentro. Corridas furiosas na praia para me esquecer das "guerras" do veste-despe, come-e-lava-os-dentes da manhã. Meditação para esquecer palavras menos doces (deles e minhas). Fazendo o que se pode e como se pode, e sobretudo encarando tudo isso (as conquistas e os fracassos, os choros e os risos) como uma enorme aventura. A grande aventura da minha vida...

Família. Relações. Descobertas e Afetos.
Sou uma privilegiada por receber destes amigos, livros que ajudam os meus filhos a crescer.
Obrigada, Susana Amorim! Obrigada, António Mota!