Na segunda aula de Competências Sociais dos meus filhos mais novos, falaram-lhes sobre o funcionamento do cérebro, para que eles se conheçam melhor e tenham mais consciência dos seus talentos, dificuldades e emoções... assim como dos outros.

O Dudu resmungou um pouco, estava com receio que aquilo que a psicóloga lhes explicou saísse em algum teste...

(Dudu) E ela falou de nomes tão esquisitos, mãe!

Quando lhe expliquei que não, não era para avaliação (o grande terror do meu filho), mas que saber como é que a cabeça dele funcionava até podia ajudá-lo a ter melhores notas - ou, pelo menos, a relaxar mais, face a elas - ficou mais interessado. E ao deitar saiu-se com esta:

(Dudu) Acho que o lado direito do meu cérebro funciona melhor do que o esquerdo, mãe. O esquerdo anda um bocadinho avariado...
Os filhotes ainda andam entusiasmados com a escola.
Digo ainda porque os últimos anos têm sido tão penosos, que estou sempre à espera que este "estado de graça" tenha um fim...
A verdade é que a flexibilização curricular tem conseguido, até ver, esse milagre de conseguir devolver os meus filhos com entusiasmo, ao invés de mos mandarem para casa com um ódio de morte à escola, que eles depois confundem com um ódio ao saber.
Mas não é que o saber pode mesmo ser um prazer?
E não é que, com pequenas mudanças no ensino, conseguem-se logo melhores resultados?
Depois é claro que nós, pais, também podemos dar uma ajudinha...

(Sebastião na sua primeira tarde livre) Adorei as experiências que fizemos. A professora tinha lá uma massa que parecia líquida, mas que se lhe tocássemos com força ficava rija de repente e não nos sujava as mãos.

Filho a gostar de experiências?
Vamos a elas!
Felizmente não nos faltam kits da Science For You cá casa, acumulados dos aniversários. Só tínhamos de escolher o certo. E o certo, neste caso, era o da "Ciência Viscosa", onde por acaso conseguimos encontrar a experiência da massa que mais o tinha entusiasmado, na escola.
Meteu os óculos de cientista... e mãos à obra!


Não ficou tão consistente como a da professora, mas já deu para nos surpreendermos com o resultado (sobretudo porque esta, ao contrário da da escola, teve o dedo do Sebastião).

Seguiu-se a da plasticina moldável, que não ficou tão bonita, mas ainda deu para moldar algumas coisas...


Quando os irmãos mais novos chegaram a casa, entusiasmaram-se com o entusiasmo do irmão (porque o desânimo é contagiante, mas o entusiasmo, felizmente, também o é) e quiseram fazer também a sua experiência. Construíram um vulcão, que agora vai ficar a secar 2 dias para depois o fazermos explodir.



Não decoraram os distritos nem decoraram a tabuada (e bem precisam!), mas acabaram o dia a pensar que ser cientista deve ser uma coisa bem gira. Já valeu a pena...
Depois da revolta ditatorial imposta ontem pela mamã (AQUI), o dia de hoje encheu-se de sol, de paciência e vontade de fazer melhor.

E hoje, no regresso a casa, a mamã lançou um desafio:

(Mãe) Vamos arranjar em nossa casa um espaço que seja o cantinho da Calma. Sempre que começarem a perder o controlo, vão lá acalmar-se um bocadinho e depois voltam.

(Afonso) E se não quisermos ir?

(Mãe) Ficam de castigo!!!


Pronto, a mãe esteve a pensar numa solução para pôr fim à sua própria ditadura, mas ainda não é nenhuma santa...


(Mãe) O que têm de fazer hoje é pensarem em objetos ou atividades que vos acalmem, para depois montarmos o nosso cantinho.


A Leonor foi a mais participativa. Adora estas coisas! E, rapidamente, foi buscar um cesto para pormos as coisas de cada um, e fez uma lista dos seus objetos "calmantes":

- Almofada em forma de coração
- Livro de mantras para pintar
- Porta-chaves peludo
- Rádio e CDs de meditação
- Puff
- A nossa gata

Os rapazes demoraram mais tempo a decidir-se, mas as ideias começaram a aparecer:

- Uma bola para mandar à parede
- Saco de boxe
- Nerf para mandar uns tirinhos


Desporto e ação, portanto. Quanto mais físico, melhor.
Se calhar vou ter de arranjar 2 cantinhos da calma... Ou deixar os rapazes dar murros no saco de boxe ao som de uma música para meditar. Jogar futebol com a almofada em forma de coração... Ou mandar tirinhos com bolas peludos...

Ai, Sara, Sara... Quem disse que a democracia era fácil?




(Mãe) Meninos, vamos fazer uma experiência... qual é o som que vocês acham que se assemelha mais ao som do universo?


Experimentámos copos, panelas, vento com folhas... até que o Dudu se lembra de ir buscar um objeto mágico...




(Dudu) Dahhhhh! Este é que faz o som do universo!


E não é que parece mesmo?
Palmas para o hoverboard!


PS - E se não sabem qual o som do universo, toca a ir ao Google, que está cheio de vídeos com sons reais.
Por circunstâncias várias, todos os meus filhos tiveram este fim-de-semana uma noite fora, em casa de amigos.
E claro que uma noite fora é sinónimo de noite mal dormida... e um humor de cão no dia seguinte!

Elétricos, quezilentos, impossíveis. Implicaram tanto uns com os outros, teimaram tanto, chatearam-me tanto, que a dada altura a mãe também perdeu a paciência.

(Mãe) Vão todos escrever dez vezes "Não vou chamar nomes aos meus irmãos".

Ah, e tal, isso é uma parvoíce, castigo parvo, não faz sentido...

(Mãe) Tu escreves 20. E tu 30!

Resmungaram mais um bocadinho, mas como o castigo ia acumulando, acabaram mesmo todos sentados a escrever o que lhes impus. Parvo e sem sentido, é certo, mas a mãe também tem os seus limites.

(Afonso) A mãe, com o cabelinho preto curtinho, passava bem por Kim Jong-Un...

(Mãe) Isto é assim, meninos: a democracia só funciona quando as pessoas são conscientes e cumprem as regras. Quando a democracia se transforma numa anarquia, sabem o que é que acontece?

(Afonso) Aparece um maluco qualquer a impor uma ditadura.

(Mãe) Ora aí está! Eu sou a maluca e esta casa só volta a ser uma democracia quando vocês se souberem comportar.

E foi a maluca da mãe que escolheu a história da noite, e foi a maluca da mãe que a leu sem interrupções, distribuiu mais meia dúzia de berros e outros tantos beijinhos.
E, com jeitinho, amanhã acorda tudo mais sereno (mãe incluída), a ditadura volta a ser uma democracia e a maluca da mãe pode deixar de fazer coisas parvas e sem sentido para impor à força a ordem e o respeito...
(Mãe) Filhote, amanhã já tens aulas o dia todo... Queres que a mãe te vá buscar, para vires almoçar a casa?

(Titão) Hum... Hã... É que eu já combinei com uns amigos meus, vamos almoçar todos juntos.

(Mãe) Amigos? Mas é o terceiro dia de aulas. Já se combinaram?


Pois claro que sim.
Ah, que saudades do meu 7º ano! Da escola nova, dos portões abertos, da liberdade conquistada...


(Mãe) Sabes a regra, não sabes? Liberdade exige...

(Titão) Responsabilidade!

(Mãe) Se não houver responsabilidade acaba-se a...

(Titão) Liberdade!


Pelo menos em teoria a lição está sabida. Vamos ver na prática...
E quando o nosso filho mais velho (9. ano, supostamente nem abrangido pelas mudanças) chega a casa a contar que nas aulas de hoje teve de se descrever criativamente, e responder a um questionário sobre quem era, o que mais o tinha orgulhado até agora, o que era para ele o sucesso, o que esperavam do professor e da disciplina, etc, etc. Auto-conhecimento e espírito crítico no seu melhor, fomentando ainda os laços entre professores a alunos, tantas vezes inexistentes, nesta fase.
E não é que a escola está mesmo a mudar?

(Afonso) Depois ainda perguntavam qual tinha sido a coisa mais criativa que eu fiz até hoje...

(Mãe) E o que é que respondeste?

(Afonso) Quando estivemos a recriar quadros famosos! Fizemos coisas bem criativas nestas férias, mas acho que esta bateu todas...

E a mamã até corou um bocadinho :)
(Dudu) Mãe, se tu e o pai se separassem, eu ia querer ficar contigo, mas também com o pai.

(Mãe) Claro, filho. Quando as pessoas, por alguma razão, se separam, os filhos são sempre filhos dos dois pais. E eles organizam-se para que os filhos estejam com a mãe e com o pai.

(Dudu) Mas os pais vivem na mesma casa?

(Mãe) Não, geralmente vão viver para casas separadas. E os filhos, é como se ficassem com duas casas... Pode ser confuso, ao início, mas depois, com muito amor, tudo se resolve.

(Dudu) E depois os pais e as mães arranjam outros namorados?

(Mãe) Sim, é possível que sim. Podem apaixonar-se outra vez e até casar...


Dudu fica pensativo durante algum tempo.


(Dudu) Se vocês se separassem e arranjassem outros namorados, eu acho que ia gostar de os conhecer. Eu gosto de conhecer pessoas diferentes...


Não é um assunto que se fale, habitualmente, cá em casa, mas as crianças lidam, diariamente, com colegas filhos de pais divorciados. É natural que se questionem. Alguns podem preferir não imaginar o que seria, se os pais se divorciassem. Outros, como o Dudu, gostam de colocar em cima da mesa todas as hipóteses. Quando assim é, não vale a pena dizer-lhe que os pais nunca se vão separar e que vamos ser a família "perfeita" para o resto da vida (who knows?). É preferível explicar-lhe que, independentemente daquilo que vier a acontecer, ele será sempre muito amado, e vamos fazer o possível por descomplicar tanto quanto ele próprio já descomplicou, na sua cabecinha de 8 anos...
As escolas dos meus filhos aderiram à flexibilização curricular, e o dia de hoje foi passado entre reuniões numa e noutra, a ouvir o que vai mudar e os resultados que os professores esperam obter com essas mudanças.

Nem tudo vai ser perfeito. Nem tudo vai funcionar como gostaríamos (alunos, pais e professores). Mas começar o ano com espírito de mudança e entusiasmo contagiante, só pode resultar em coisas boas.

Amanhã o meu filho do 7º vai passar o dia em workshops sobre alimentação saudável e cidadania. No dia a seguir tem um peddy paper. Depois começa a ter aulas "a sério", mas pelo meio haverá semanas temáticas e interdisciplinares com jogos, apresentações, teatros, arte... e um ensino mais centrado no aluno e no seu desenvolvimento de competências essenciais (mais do que conteúdos descontextualizados).

Na escola dos mais novos, agora no 3º ano, aposta-se em aulas de projeto, Expressão Dramática, Assembleias de Escola e aulas de Competências Sociais. E hoje o Dudu e a Nonô já regressaram a casa entusiasmados com um papelinho cheio de elogios, colado nas costas.

(Nonô) Cada um de nós tinha de escrever um papel a outro colega, com elogios. Escreveram coisas tão bonitas, mamã!


Perguntarão alguns para que serve perder tempo a escrever elogios, com tanta Matemática e Português para aprender?
É que hoje, felizmente, a Neurociência conhece melhor o funcionamento do nosso cérebro, e crianças com boa auto-estima aprendem melhor. Assim como crianças entusiasmadas com uma escola que fomenta relacionamentos saudáveis e espírito de grupo.

Força, professores! Para a frente é o caminho...


"Estou aqui para ensinar umas coisas e aprender outras. Ensinar, não: falar delas. Aqui e no pátio, e na rua e no vapor, e no comboio e no jardim, e onde quer que nos encontremos..." (frase de Sebastião da Gama, partilhada hoje numa das escolas)
Começou a escola, retomaram os treinos desportivos... e começou a correria para conseguir pôr os filhotes na cama a tempo e horas, sem
perder um momento de brincadeira e a história de boa noite, e os 1001 beijinhos... Ufa!


(Dudu) Mãe, podemos jogar à bisca a seguir ao jantar?

(Mãe) Já não vai dar tempo, Dudu.

(Dudu) Bolas, agora já não há tempo para nada!


Estávamos só nós os três (eu e os gémeos), o papá com os manos mais velhos no treino, por isso havia ainda espaço na mesa para uns quantos disparates.
Não há tempo para jogar a seguir à refeição? Muito bem... coma-se enquanto se joga!

E foi assim que, entre uma garfada e outra, deitávamos cartas e vencíamos ou perdíamos a jogada.

Se o ideal é comer tranquilamente, com boa postura e os talheres alinhados? Sem dúvida!
Mas nem sempre o ideal é o melhor...

E já agora... a mãe ganhou :)
O jornal Público organizou um Festival - o Festival P - para pôr jornalistas e convidados à conversa com os leitores.
A jornalista Bárbara Wong, que escreve amiúde sobre temáticas ligadas à Educação e Parentalidade, convidou-me a participar num dos painéis - "Os pais, os filhos e a escola" - com a nutricionista Alexandra Bento, Bastonária da Ordem dos Nutricionistas, e o resultado foi uma hora e tal de boa conversa (com este Coisas de Filhos e o Coisas à Pais à mistura) e até muitas gargalhadas!



Esta foto é do fotógrafo Nuno Ferreira Santos, mas as restantes foram da minha filha Leonor, que adora participar nestas coisas e ainda me dá sempre dicas preciosas sobre o que vestir, como me pentear, sobre o que falar... (eu bem digo que ela vai ser minha agente um dia destes!).
Pelo meio, ainda participou num workshop de ilustração com a Teresa Cortez, a provar que o Público também pensa nas famílias e não as esquece na hora de informar e debater (às vezes também de entreter!)


Obrigada, Bárbara Wong!
Go on, Público!
... primeiro ao sol, a "sorver" os bons ares do mar.


Depois no Oceanário, um dos tópicos da lista feita por eles para as nossas férias, que ainda ficara por cumprir.



Dudu suspira, a ver os peixes:


(Dudu) Ai, mãe... Se eu fosse um peixe, amanhã não tinha de ir à escola.


E hoje, ao acordar, saiu-se com outra:


(Dudu) Mãe, vê lá se não está a never. Se estivesse, podia ser que as escolas fechassem e não houvesse aulas para ninguém!


Não tenho filhos que sejam fãs da escola. Pelo menos deste modelo de ensino. Passaram as férias a passear, a aprender, a jogar, a visitar, a interagir, a descobrir, a criar. São fãs de tudo isso. Aulas expositivas durante um dia inteiro é que estraga a magia do Saber.
E este ano, no entanto, as escolas onde eles estudam (um colégio privado e uma escola secundária) integram a lista das 200 e quarenta e tal escolas que vão experimentar coisas novas, em 25% do tempo. Workshops, área de projeto, horas interdisciplinares, competências sociais, teatro, cidadania, são algumas das excelentes novidades. E eu faço votos para que corra tudo muito bem, e os meus filhos (a par de tantas outras crianças e jovens), cheguem a meio de setembro sem vontade de serem peixes...

Um bom ano letivo para todos!