(Dudu na FNAC) Mamã, aquela senhora está a olhar para a montra da "Escola das Artes"... Vou dar-te uma ajudinha!


Quando tentei travá-lo, já era tarde. Aproximou-se sorrateiramente e, piscando-me o olho, lá foi dizendo, alto e a bom som:


(Dudu) Mãe, olha! Está aqui a "Escola das Artes"! Eu adoro este livro! É um livro espetacular! A escritora Sara Rodi é a melhor escritora do mundo!


A senhora sorriu mas foi-se embora sem o livro. E eu saí dali mais vermelha do que um tomate, a torcer para que nenhum dos funcionários que me conhece tenha assistido à cena..


(Dudu) Eu sou bom nisto, não sou, mãe? Escusas de agradecer...


Está decidido: nunca mais o levo à FNAC!
A convite da GARE (Associação para a Promoção de uma cultura de segurança rodoviária) e da APCE (Associação de Paralisia cerebral de Évora) associei-me este ano às comemorações do Dia Mundial em memória das vítimas da estrada.
Há 13 anos perdi um irmão (embora prefira pensar que o ganhei durante todos os anos em que o tivemos connosco), perdi amigos, e todos os dias são muitas as famílias e amigos que perdem aqueles que mais amam. Em memória de uns, e por todos aqueles que ficámos, escrevi um poema que ficará exposto no jardim da Memória, e foi hoje lido e coreografado por um estudante de Teatro e Dança - obrigada, Bruno!
Aceitei também o desafio de ser Embaixadora da GARE e desta causa que é de todos. As mortes na estrada são a principal causa de morte nos adolescentes, uma das principais da população em geral, e, como em tantas outras áreas fundamentais, quanto mais cedo começar a sensibilização para uma cultura de segurança rodoviária, melhor...

Contem comigo para espalhar esta mensagem!




(Dudu) Mãe, eu hoje dei os planetas, mas não percebi nada!

(Mãe) Como não?

Era suposto lermos outra história de boa noite, mas lá alterei os planos e fui ensinar-lhes o nome dos planetas, com direito a lengalenga. Depois fomos ver um livro com janelas com curiosidades sobre cada um dos planetas...

(Nonô) Mas eu não me lembro de dar isto!

(Dudu) Estavas distraída, Nonô. Só demos um bocadinho.

E lá continuámos a lengalenga enquanto lavavam os dentes... Planeta para aqui, planeta para acolá.
E só quando ele se enfiou na cama, é que confessou:

(Dudu) Eu estava a brincar, mãe. A professora não deu os planetas. Eu é que queria saber. E assim tu explicaste tudo...


É que, com as tantas outras coisas que eles têm de saber pelo meio, era bem provável que hoje o tivesse mandado esquecer os planetas para vermos o sistema respiratório...
Foi esperto! E eu percebi que tenho de me esquecer mais vezes da lista infinita de matérias para os testes, e dar-lhe mais daquilo que eles querem realmente saber...
Desabafos sobre o ensino:

Quando vou às escolas falo sempre da minha relação com a escrita, desde a infância, e os truques a que recorro para ter inspiração, no meu dia-a-dia. Truques a que geralmente as crianças e jovens não podem aceder, na sala de aula.

1. Música: para mim, escrever é compor. E faz-me muita falta ter uma melodia de suporte para a minha “viagem”. Aliás, antes de começar um livro escolho a música que me transporta para o lugar onde preciso de estar, para a emoção que preciso de sentir. Com excepções (porque há professores a fazer milagres, nesta e noutras matérias), os alunos são desafiados a escrever em salas fechadas e silenciosas, que, a apelar a qualquer sentimento, é somente àquele que terá levado Kafka a escrever “O Castelo”...

2. Prazer: sempre escrevi por prazer. Já os temas impostos, que eu entendo necessários, roubam parte do prazer (que haja, pelo menos, duas ou três alternativas, para os alunos escolherem aquela que lhe possa dar mais prazer). Já a avaliação, pode matar o prazer por completo! Temos um sistema de ensino assente na permanente avaliação, mas a escrita é uma arte. Tal como a música e a dança, implica Técnica, mas implica também emoções, inspiração e libertação. Se passamos a vida a impor a técnica e a avaliar a técnica, nunca permitimos aos alunos que descubram o prazer da arte...

3. Liberdade: se queremos que os jovens escrevam, temos de lhes permitir, pelo menos de vez em quando, que escrevam tudo o que quiserem, o máximo que quiserem. Os limites têm de surgir depois da liberdade. Mal de mim se não tivesse enchido páginas e páginas de profundos disparates. Ora, se a abordagem que é feita à escrita implica, para além da imposição de um tema, um número limite (mínimo e máximo) de caracteres, onde reside a liberdade da criação? Eu tenho um filho que tem boas ideias para textos curtos e cómicos... mas é obrigado a meter “palha”. Tenho outro que enche páginas e páginas, se puder... e passa parte dos testes a riscar palavras para não ser descontado por ter escrito demais. Como é que se descontam palavras “a mais”? A mais porquê? A mais para quem?

4. Bloqueios: explico muitas vezes, aos alunos, o que faço quando estou bloqueada. Ou calço os ténis e vou dar uma volta ao quarteirão - o que os alunos não podem fazer - ou medito - o que os alunos, num exercício de escrita, não têm tempo para fazer. Claro que podem respirar, e é importante explicar aos alunos o que acontece no cérebro quando estamos bloqueados, e o que é que podemos fazer por ele (é importante para todo o tipo de bloqueios e situações de stress com que se vai deparar na vida). Mas às vezes não chega, e é importante que haja compreensão para com estes bloqueios. Se um escritor, habituado a escrever todos os dias, tem momentos de bloqueio, pelas mais diversas situações, como é que os alunos não os podem ter? Sendo que muitos destes bloqueios até são emocionais, e os jovens estão muitas vezes no pico das suas emoções. Há dias em que mais vale mandá-los mesmo dar uma volta ao quarteirão...

Tenho visto, com muito agradado, o esforço que muitos professores fazem para cativar os alunos para a escrita (assim como para a leitura, que dava outro texto). Mas é muito difícil fazê-lo com estas regras, imposições e avaliações. Somos um povo de escritores, e corremos o risco de vir a ser um povo com aversão à escrita...

À saída de uma pastelaria:


(Dudu) O D. da minha turma quer ser pasteleiro. A vida dele vai ser passada numa pastelaria. Eu não era capaz...

(Mãe) Há gostos para tudo, filho.

(Dudu) Tu achas que eu vou ser o quê?

(Mãe) Ui, filho... Podes ser tanta coisa! Tu gostas muito de feridas e de cuidar das feridas. Podes vir a ser médico ou enfermeiro.

(Dudu) Não, acho que não. Eu gosto de ver, sou curioso. Mas não queria fazer isso a vida toda.

(Mãe) Também gostas muito de conhecer países novos... podes vir a fazer coisas em que tenhas de viajar.

(Dudu) Mas tenho de ter muito cuidado com os assaltos. Eu não gosto de sítios perigosos, mãe. Quero viver num sítio em paz.

(Mãe) Tens muito tempo para decidires o que queres fazer, Dudu... Mas acho que tem de ser alguma coisa em que tenhas de ter ideias. Tu és muito bom a ter ideias diferentes.


Reflete. Algum tempo depois.


(Dudu) Eu acho que tenho mesmo de ir para Presidente da República...


Fechado!
(Mãe) Sebastião, o que é que fizeste enquanto estiveste em casa?

(Sebastião) Coisas muito fixes! Já sei como é que os homens-estátua ficam no ar... afinal é muito fácil! E queres saber como é que eu me liberto se estiver com as mãos atadas? Ou fechado num sítio com um cadeado?

(Mãe) Sebastião... era suposto teres estudado Matemática!

(Sebastião) Mas isto também é importante para a minha vida, mãe. Para a minha sobrevivência, aliás! Imagina que eu algum dia sou raptado... Posso vir a precisar de usar estas técnicas para fugir!

(Mãe) E os Homens-estátua, Sebastião?!

(Sebastião) Também pode vir a ser preciso... Se não estudar Matemática!
E quando damos com a nossa filha a escrever no seu diário, ela nos deixa ver o que escreveu (vamos ver durante quanto tempo...), mostramos os diários que escrevemos durante a nossa adolescência, e acabamos deitadas na cama a falar de como as miúdas são complicadas, quando se zangam umas coisas a outras, como os rapazes às vezes conseguem ser tão parvos, e do que sentimos quando nos apaixonamos (porque, afinal de contas, mesmo complicadas e parvos, sempre se vão apaixonando!).

Adoro ter uma filha!
Nonô com a neura (discussão de amigas).
Dudu com a neura (foi ajudar a irmã e ainda levou por tabela).

E a mamã andou atrás de um e de outro, consola daqui, consola dacolá, abracinho para aqui, abracinho para acolá...
Mas, às vezes, nada como nos valermos de quem sabe alegrar melhor do que nós:

(Mamã) Meninos... hoje vamos jantar a ver o Mr. Bean!

Foi tiro e queda! Foram para a mesa cabisbaixos e quezilentos, mas poucos minutos depois já estavam a soltar gargalhadas.
You save my day, Rowan Atkinson!

Desde que o ano letivo começou que o Dudu faz sempre uma fita para tomar banho. Que não quer, que janta primeiro, que não está assim tão sujo, que toma no dia seguinte...


(Mãe) Ó Dudu... Mas desde quando é que tu não gostas de tomar banho?

(Dudu) Desde sempre!

(Mãe) Isso não é verdade. Sempre tomaste banho sem resmungar. O que é que se anda a passar?

(Dudu) Não gosto de tomar banho e pronto. Um dia ainda vou inventar uma vacina para as pessoas não precisarem de tomar banho.

(Mãe) Tomava-se em criança e nunca mais se ia ao banho?

(Dudu) Não. Era uma coisa que se espetava no braço todos os dias, e a pessoa ficava logo limpa, sem micróbios. Assim até se poupava água. Era o melhor para o planeta...

A ver vamos! Até lá... banho todos os dias!
E quando o nosso filho Titão nos explica como fazer os melhores abdominais para ficar com um "six pack" bem definido, e percebemos que andou a ver vídeos sobre o assunto o Youtube?

#adoroaadolescência!
(Dudu) Ó mãe... eu não concordo nada com a Teoria da Evolução. Eu acho que não podemos ter vindo só dos macacos. De certeza que os alliens já estiveram aqui na Terra...

Se calhar ponho-o já a ler os livros do Zecharia Sitchin, não?
Depois de uma atividade dos Escuteiros, um torneio de patinagem, dois de hóquei, tivemos finalmente uma tarde livre... e sem testes na semana seguinte!

Ficar em casa a descansar?

Nãaaaaaa!

E lá fomos nós para Xabregas, ver a extraordinária exposição do Bordalo II.





(Nonô) Esta sala podia chamar-se "O que devia ser, e o que já estragámos"...

Esperámos uma boa meia hora numa filha interminável, numa rua quase sem passeio, mas valeu a pena. Gratuita, esta é uma exposição inspiradora e transformadora, para pessoas de qualquer idade. E é impossível sair de lá e olhar para o nosso lixo da mesma maneira. O que estamos dispostos a fazer, para que artistas como o Bordalo II não precisem de continuar a chamar a nossa atenção através da sua arte?
Ciência ensinada com poesia,
as crianças nem sabem o bem que lhes fazia!

(Dudu) Se vier contra nós um grande meteorito, a Terra não vai ter capacidade de se proteger, pois não? Já alguém está a construir uma nave gigante para tirar a Humanidade da Terra? Não? Como não?! É preciso construir essa nave, pensar como vamos sobreviver no espaço, que pessoas levamos... Não vai dar para levar todas. Temos de começar pelas crianças, estou safo! Ah, não, espera... nessa altura já não sou criança. E temos de descobrir outro planeta! Não vamos aguentar tanto tempo no espaço...

(...)

(Afonso) Às vezes ponho-me a pensar nas viagens no tempo e como elas vão afetar o cérebro humano. Não é só uma questão de se poder mudar a linha temporal. Se nos confrontarmos connosco próprios, no passado, isso vai criar memórias que também vão afetar o cérebro no futuro...


E depois oiço que a WebSumitt tem uma robot Sophie e um Einstein, e que já existem 11 Sophies, e pergunto-me como é que não estamos a aproveitar o potencial desta nova geração que pensa fora da caixa e quer pensar o futuro e repensar paradigmas... e o desperdiçamos com um sistema de ensino limitador, sem espaço para a criatividade, para a reflexão, para os valores e aquilo que vai ser tão ou mais importante do que os conhecimentos, num futuro incerto e desafiador.
Com a inteligência artificial a assumir-se no mundo - e a Sophie pediu aos presentes que não tivessem receio, mas que sim, os robots vão ficar com os nossos empregos - para o que estamos exatamente a preparar os nossos filhos?
(Dudu) Se estamos com falta de água, todos os dia as pessoas deviam ter como missão poupar um balde de água. É difícil, mãe?

(Mãe) Também posso mandar essa ideia ao Presidente?

(Dudu) Podes. Mas não podes dizer que as ideias são minhas. Depois ele ainda quer falar comigo, e eu fico com vergonha. Prefiro que ninguém saiba...


Too late...
Hoje partilhei com o meu filho mais velho o resumo do novo livro de António Damásio, sobre a importância dos sentimentos e das emoções.

(um excerto AQUI e uma Entrevista ACOLÁ)

(Afonso) Eu acho que andamos a procurar respostas nos sítios errados. Ok, é importante concluirmos que determinadas coisas exteriores nos provocam sentimentos e que eles desencadeiam coisas dentro de nós. E estudarmos o que se passa no cérebro. Mas o que temos de perceber é que fenómenos exteriores são esses que nos causam sentimentos, e como podemos repeti-los e usá-los para modificar os sentimentos.

(Mãe) Tipo uma máquina que nos induza fenómenos para trabalhar os sentimentos e resolver emoções? A realidade virtual já faz isso, mas sem critério... Se compreendermos que tipo de fenómenos induzem que tipo de sentimentos em cada pessoa, isso pode vir a tornar-se uma terapia.

(Afonso) Sim. (reflete) O problema é que, se isso cai nas mãos de algum ditador, ele pode usar isso para todos terem sentimentos maus. Ou sentimentos bons. E, se só tivermos sentimentos bons, somos uma folha de papel sem graça...


O sonho do meu filho é um dia poder investigar todas estas questões a fundo.
Já eu... tenho matéria para o meu próximo romance!