O Dudu tem (a par do Afonso) uma letra péssima, mas adora inventar formas diferentes de as compor. Por isso, de uma viagem que fiz recentemente a Bruxelas, trouxe-lhe um livro sobre dezenas de formas diferentes de desenhar letras, para ele poder explorar o assunto à sua vontade, com total liberdade. Resultado? Ainda não largou o livro...





(Dudu) Mãe, vou começar a usar estas letras diferentes na escola... Posso, não posso? Ou não me digas que também não posso? Até são mais difíceis do que as outras! Não podem proibir-me, pois não?

Vai correr tão mal...
Chegaram a casa os testes finais e, como sempre, o Dudu teve um conjunto de respostas erradas que me deixaram intrigada... Algumas por distração, outras porque ele tem, por vezes, um pensamento fora do comum.

Teste de Português


(Difícil para os meus filhos, que não conheciam parte do vocabulário, pouco usado nos nossos dias, mas isso daria outro post!)

Começo a ver as respostas dele...


(Mãe) Porque é que disseste que a árvore se parecia um pato feio, se no texto a comparam a uma galinha?

(Dudu) Só estão a perguntar a que é que pode ser comparada a árvore. Porque é que eu tinha de pôr o que está no texto? Eu acho que a árvore parece o patinho feio, sempre rejeitada por todos, nenhum passarinho lá vai... Não sei porque é que a professora me marcou errado!

Está errado? Não, de todo!
Vai ter errado sempre que, nos testes, responder desta forma? Sim, sempre.
E eu fico naquele misto de "Cinge-te ao que te pedem, o mais simples e sem pensar muito, para teres melhor nota" e o "Não deixes de pensar dessa forma diferente, porque é isso que te torna único..."
Ontem, na rádio, perguntaram à Nonô o que é que a mãe ia fazer às escolas, e mais recentemente ao Parlamento Europeu...

(Nonô) Vai lá fazer as coisas dela. As coisas que a deixam feliz.

Ao que a locutora perguntou:

(Teresa) E o que é que tu achas sobre as coisas que fazem a tua mãe feliz?

(Nonô) Acho bem. Quando ela está a fazer coisas que a deixam feliz, eu deixo-a um bocadinho em paz...


E é isto. Tão simples quanto respeitarmos os momentos em que os outros se sentem felizes a fazer algo. É só deixá-los um bocadinho em paz...
Hoje, entre as 18h e as 20h, eu e a minha filhota iremos à rádio conversar sobre a Escola dos nossos sonhos, outros sonhos, livros e afins. Quem tiver interesse, pode acompanhar-nos online, pelo Facebook da Rádio. Até já :)

(Nonô) Ó mãe... sabes que eu nunca sei quando é que se diz calças ou calções.

(Mãe) ?!?

(Dudu) Eu também não! Nunca sei qual é qual...

(Nonô) Eu digo sempre ao calhas.

(Dudu) Também eu.

(Mãe) Mas como não sabem? As calças são compridas, os calções são curtos...

(Dudu) Mas é que isso é confuso, mãe! "Calções" acaba em "ões", e geralmente as palavras acabadas em "ão" e "ões" são coisas grandes. É o grau aumentativo. Por isso os "calções" deviam ter as pernas maiores.

(Nonô) Sim! Calções eram calças que chegavam até ao chão...


E esta, hein?!
Ó meu rico Santo António

o que me apetecia ir bailar...

Mas à custa do programa de Matemática

passo o santo feriado a estudar!



Dá para fazer um milagre

E adequar os programas à idade?

Os meus filhos mais velhos deram tudo isto no quinto

Quando já tinham outra maturidade



Não foi preciso chamar Santo António

Nem recorrer à Santa Explicação

Ninguém ficou mais burro por isso

E a Matemática não era um bicho papão



Vou comprar um manjerico

Cheio de fórmulas e uma simples equação:

o Ensino só é sinónimo de resultados

Quando há compreensão... e motivação!






Palavras para quê?
<3 <3 <3
(Mãe) Meninos, sabem o que é que a mãe sonhou hoje? Que a nossa família andava a fugir de um grupo radical qualquer... Tínhamos de andar em túneis, escondidos. O pai é que nos guiava, mas de vez em quando apetecia-lhe um café e um bolinho, e tínhamos de correr o risco de ir até um café... Eu tinha tanto medo que nos vissem!

Afonso salta do banco do carro, onde estava sentado.

(Afonso) Isso explica tanto da sua visão da vida! A mãe vive com medo do que possa acontecer à sua família, e vê o pai como o nosso líder. Mas também sabe que ele tem alguns vícios e gostos peculiares que nos podem pôr em risco...

(Mãe) Boa, Afonso!

(Afonso) Boa, não. São 5 euros. A próxima consulta sai mais cara...
A quem quiser fazer-me uma visitinha...

Há uns tempos, andava eu a conversar com o meu filho Afonso sobre o facto de ele parecer alheado de tudo, sem preocupações sobre o mundo e sobre os outros, demasiado centrado nele próprio, sem objetivos, etc, etc... Quando ele, já fartinho de me ouvir, resolveu sentar-me na cama dele e olhar-me bem fundo, nos meus olhos.

(Afonso) Então conte lá, mãe... Quando tinha 14 anos, o que é que fez pelo mundo e pelos outros? O que é que transformou exatamente, de relevante para a sociedade?

Caiu-me a ficha nesse momento, mas só ontem o percebi completamente, quando, à procura de uns papéis, dei de caras com alguns dos meus diários da adolescência. Folhei-os ao calhas, e fiquei num misto de riso e choque. Quem era aquela Sara preocupada com o corpo a crescer, as paixonetas, as trocas e baldrocas das amigas, as saídas à noite..? Ora bem, ainda bem que assim foi, e foi vivido na altura certa. Mas nunca mais, nunquinha mais, me atrevo a fazer discursos moralistas aos meus filhos adolescentes...
Cresçam e apareçam, lá diz o ditado. Agora é mesmo deixá-los crescer e aproveitarem, dentro de alguns parâmetros que evitem (ou tentem evitar) as asneiras que possam deixar marcas.

E fica o conselho a quem por aqui anda, com filhos nestas idades. Se escreveram diários na vossa adolescência, esta é uma boa altura para os irem espreitar. Vai ficar tudo tãaaaaaao mais claro!
Demoraram-se a arranjar (os mais novos), resmungaram (os mais velhos), bateram-se (todos), mas lá fomos em busca das festa da criança. Havia muitas, e por todo o lado, mas escolhemos a dos Jardins da Presidência e a Oeiras Kids Fest.






Terminámos com um piquenique no Parque dos Poetas, com vista para o mar.



Pelo caminho ainda tivemos tempo de perguntar o vocabulário de Inglês ao Titão e, aos gémeos, se os animais com quem nos cruzávamos eram carnívoros, herbívoros ou omnívoros, e se as árvores eram de folha caduca ou perene. Fora as conversas soltas e as partilhas variadas.
Nem sempre é fácil arrancar 4 filhos (2 adolescentes) de casa... mas a minha teoria confirma-se: compensa sempre tanto!

Diz que nem sempre é entendido, e que se interessa por coisas que nem sempre interessam aos amigos. "Sou diferente", explica. E a mãe lá vai dizendo que ser diferente é bom. Todos somos diferentes, em alguma medida. E que há uns mais diferentes do que outros, o que não é mau. Ele só precisa de saber lidar com a sua diferença e tirar dela o melhor partido.

(Dudu) Mãe, posso ir falar com aquele pescador? Quero saber mais coisas sobre a pesca...

Foi, e a mãe achou que não devia ir com ele. Era a sua curiosidade. As suas perguntas. A sua autonomia. A sua diferença.


Segui-o, à distância, a aprender a lançar o isco, a ouvir falar sobre os peixes que ali vivem... até que regressou, satisfeito.

(Mãe) E então, Dudu?

(Dudu) Este pescador não vai ter sorte... Há poucos peixes, estamos ao pé da praia. Ele devia ir para o fundo do pontão... Mas pronto. Acho que ele só veio aqui para se divertir.

(Mãe) E para falar com meninos como tu.

(Dudu) Sim. Ensinou-me várias coisas. Não comi foi a fruta que ele me ofereceu.

(Mãe) Não te apeteceu?

(Dudu) Nunca se sabe, mãe... Imagina que ele tinha posto droga na fruta. Temos sempre de ter cuidado, não é verdade?
Já estávamos para ir ver há uns tempos, e finalmente se proporcionou, numa noite inexplicavelmente sem treinos até às tantas.

(Afonso) Espetáculo imersivo? O que é?

A mãe tinha o assunto na ponta da língua, ou no seu último livro da "Escola das Artes" não tivesse desafiado os alunos a criar um espetáculo imersivo no bosque da escola.

(Mãe) Quanto mais sentidos envolvermos, melhor registamos uma experiência. Um espetáculo imersivo apela a vários dos nossos sentidos. O objetivo é tornar-se inesquecível...

E foi!




Os filhotes ficaram a conhecer melhor a história de Lisboa e do país, e aposto que não se vão esquecer tão cedo deste Dia da Criança com "tanto sentido" :)
Uma amiga, que sabe bem como eu sou uma "menina certinha", ligou-me hoje a desejar um feliz dia da criança e a deixar-me um desafio: fazer um "disparate" qualquer que me soubesse bem.

"Disparate"? Mas qual "disparate".

Foi quando fiquei uma hora com o pequeno Dudu e, em passeio com ele (enquanto esperávamos pela irmã), acabei por confessar-lhe o desafio da minha amiga.

(Mãe) Acho que não sei fazer disparates, Dudu...

E o Dudu pensou. Sabia bem que não podia ser um disparate qualquer, ou a mamã não fazia. Por isso sugeriu uma coisa bem simples:

(Dudu) Vamos lanchar em cima daquele barco pirata...

(Mãe) Aquilo deve ser para crianças até aos 10 anos, Dudu. No máximo!

(Dudu) Por isso mesmo.


E lá fomos...


A mamã quase que não cabia lá em cima, mas soube-lhe tão bem beber um iogurte com o meu pequeno Dudu em cima de um barco pirata de dez palmos, no meio da praia...

(Dudu) Diz à tua amiga que conseguiste, mamã...

Obrigada, Dudu!
Feliz Dia da Criança!

São os votos da criançada (eu incluída!) cá de casa...


E quando calha a mãe entrar no quarto onde os filhotes estão a ver desenhos animados antes de irmos embora, e ouve dizer, de bonecos parvos, que a Economia da Partilha é uma porcaria porque assim acabam-se todas as lojas onde se podem comprar coisas - como a loja de escova de dentes, ou a loja onde se vendem avós -, e a Economia da Partilha não pode substituir a Economia Total, e a Economia da Partilha está ligada aos robots que nos roubam os empregos (e todos os robots foram mortos no episódio)...

Isto é só uma brincadeira parva, ou uma verdadeira lavagem cerebral aos miúdos, sem que os pais se apercebam?
Dantes, quando queriam fazer trabalhos em vídeo, a mãe ajudava no guião e o pai filmava e editava.

Agora...

- Afonso chega a casa com amigos. Escrevem o guião e filmam o que querem no telemóvel.
- Afonso senta-se ao computador e, num ápice, edita. Corta e cola pequenos excertos de coisas, põe legendas, adiciona músicas, afina o audio...

(Mãe) Precisas de ajuda, filho?

Só mesmo para ver e opinar. Saber mexer naqueles programas... já só noutra vida!



Dantes, o pai fazia pequenas brincadeiras com fotografias e pequenos vídeos que encontrava na internet.

Agora...

- Sebastião, a meio do estudo, vai à casa de banho.
- 5 minutos depois, a mãe começa a receber vídeos no seu telemóvel, dobrados por ele com um programita que ele arranjou, a falar da sua falta de vontade para estudar...





Sim, a tecnologia tem as suas coisas negativas. Mas esta geração que já nasceu com ela, manipula-a com uma facilidade incrível, usa-a também em seu benefício, e isso é algo irreversível. Se há algo que podemos fazer, não é diabolizar a tecnologia (podemos dosear o seu uso, isso sim), mas antes educarmos os nossos filhos para valores fundamentais, que poderão fazer a diferença na hora de criar, escolher e manipular tudo aquilo de tecnologia que, num futuro vertiginoso, vier a surgir...

(Mãe) Adorei os teus vídeos, Titão... mas agora dá para saíres da casa de banho e voltar ao estudo, sff?
Calçam 40, não gostam de abraços nem beijinhos, não gostam que lhes tire fotos, e já não me autorizam a contar tudo o que dizem ou lhes acontece.
Estão a caminho dos 15 e dos 13 anos. E eu juro que não percebo como é que isto tudo aconteceu tão depressa...

Haverá lugar certo para ler?


Haverá lugar certo para estudar?


Ou os os meus filhos são definitivamente estranhos (e temo que tenham a quem sair...)?