Coisas de Pilinhas

- 7.11.06

Coisas de Pais
“Tem puxado pouco a pilinha do seu filho...” – aproximei o ouvido, não fosse a médica ter dito orelha, ou nariz, ou pernas, e a minha audição ter-me simplesmente pregado uma partida, fugindo para o sexo. “Puxado pouco, doutora?” – questionei, à espera da confirmação. E ela confirmou-o, sem pruridos: “Sim, devia andar a puxar esta pilinha para trás... Não sei se não vamos ter que operar o seu filho...”. Pum! Um bloco de mármore com a inscrição de “Má Mãe” caiu-me sobre a cabeça. Então eu devia andar a puxar a pilinha do meu filho para trás e ninguém me disse? O meu filho corre o risco de ser operado porque eu não lhe puxei a pilinha para trás? Mas que espécie de mãe sou eu? Tantas “Pais e Filhos” e “Bebés de Hoje” desperdiçadas com artigos sobre nada, quando se devia ensinar às mães deste país que alguns filhos precisam das pilinhas puxadas para trás...
Saída do consultório, fiz logo uma série de telefonemas para outras mães com filhos, e todas elas sabiam um pouco sobre o assunto. Algumas sabiam simplesmente que os filhos nunca tinham precisado. Os filhos de outras já tinham sido operados. Talvez elas também não lhes tivessem puxado a pilinha para trás... Devia sentir-me mais acompanhada, na minha culpa, mas ainda tinha que partilhá-la com alguém que não tivesse puxado para trás a mesma pilinha do que eu... E o meu marido, é bom de ver, levou um sermão assim que cheguei a casa: “Mas porque é que não me avisaste que tínhamos que puxar para trás a pilinha do Afonso?” Como ele já não me tinha a mim para descarregar a sua dose de culpa, disparou contra a médica: “Mas porque é que ela não nos avisou que tínhamos de lhe puxar a pilinha para trás?”. Com os seus dotes de argumentação, extravasou em segundos para uma acusação por negligência que nos poupasse as custas da intervenção. Deixei-o a falar sozinho e fui dar ao banho aos miúdos. Afinal de contas, puxar uma pilinha para trás não devia ser tão difícil quanto isso. “Vamos lá, Afonso. É até ver a bolinha” – e ele agora já pratica o exercício como quem toma um remédio. Não sei se ainda vai a tempo, mas pelo menos o Sebastião imita-o e, com sorte, não vou ter que ouvir sermões às custas de mais nenhuma pilinha cá de casa...

PS – Amanhã volto ao tema das pilinhas. Mas para falar do tamanho. É a tua deixa, Toutinegra.

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3 comentários

  1. Cara amiga
    Vejo o clima de reinação que vai por sua casa! Em El Salvador, onde me encontro presentemente, mais precisamente em San Salvador, não há esse clima de alegria em que as crianças livremente puxam pilinhas a pedido das mães. Mas, vamos ao que interessa. Projecte-se uns anos mais à frente e verá a vantajem. Imagino, isto sou em em pleno exercício conjectural, que o Afornso e o Sebastião já estão em idade escolar.

    Diálogo1:
    -Ó Afonso, e os trabalhos de casa?
    -Estão aqui Stôra, a ficha de Matemática, o ensaio sobre agentes secretos fomosos do século xx em Portugal e a minha pilinha com a pele toda para trás!
    -Muito bem, Afonso, a pilinha então, está espectacular!

    Diálogo2:
    -Ó Afonso, e os trabalhos de casa?
    -Ó Stôra, não tive tempo de fazer a ficha de matemática e a composição sobre São José Sócrates mas... Puxei a pilinha toda, oito vezes.
    -Bem...

    Diálogo 3:
    -Ó Afonso, e os trabalhos de casa?
    -Ó Stôra não consegui fazer a cópia, nem li o texto sobre a aparição da Drª Edite Estrela aos três meninos desempregados de Paços de Ferreira. A minha mãe nem me deixou puxar a pilinha...
    -Temos de falar com a sua mãe...

    E volta tudo outra vez... Ó D.Mãe do Afonso, então e a pililnha não tem sido puxada porquê? A vexação, a ignomínia estampadas no seu rosto... Tudo isso será evitado agora que os seus filhos tentam desesperadamente que a cabecinha de Ruca que há dentro deles apareça à luz do dia, emergendo graciosa, 'saindo dos seus pequeninos armários' em forma de trombinha de elefante. Se tal não acontecer, então, será pente zero na pilinha e o Ruca poderá livremente respirar e assumir a sua alopécia congénita que tanto a intriga. Só que aí... "Ó MAMÃ, porque é que o meu Ruquinha não tem olhinhos e tem a boca no cimo da cabeça?"
    Poderá sempre assumir que é má m~es e responder: "Sei lá eu, quando o vês na televisão sem cabelo ris-te e pedes para ver mais e mais. Agora que o tens (literalmente) à mão de semear, ainda te queixas?"
    Poderá ser uma mãe contemporânea e dirá: "O que aí tens, não é bem um Ruca mas, se fosse, teríamos de o respeitar na sua diferença. Todos diferentes, todos iguais..."
    Talvez quando for tempo de explicar que o Ruquinha do Afonso gostaria de praticar espeleologia, ele já não precise da sua ajuda, pelo caminho já perdeu o Pai Natal, a fé nos Super-heróis e já nem se lembra que o Engº Sócrates existiu... Aúnica coisa boa que a passagem do tempo provavelmente nos dará...

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  2. Finalmente o tão aguardado blog!
    Parabéns. Fantástico... Como sempre!
    Beijinhos grandes

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  3. Caro Toutinegra
    sugiro que faça um blog só com os comentários que faz aos outros blogs. Depois avise-me que eu quero ler...

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