E já é oficial! A mãe do Afonso e do Sebastião (que sou eu), está grávida. E de gémeos! E a reacção dos dois piolhos não se fez esperar:

- Cuidado com a barriga da mãe, Afonso!
- Porquê? O teu bebé é de vidro?

(Afonso)
- Ó mãe, abre a boca...
(Abri a boca e o Afonso aproximou-se, gritando para dento de mim)
- Está tudo bem aí dentro? Não torçam o pescoço um ao outro...

(Sebastião)
- Se for um menino e uma menina, como é que lhes queres chamar, Sebastião?
- Pode ser mamã e papá?
- Mãe, hoje a Carlota estava a afogar-se na natação e eu ajudei-a. Estendi-lhe o esparguete.
- Boa, filho!
- Salvei-a, não salvei, mamã?
- Sim, Afonso. Foste um herói.
- E agora? Já me podem começar a chamar santo?

Continua a saga do meu filho pela santidade. E hoje andou a fazer compras connosco no Continente a cantar, a plenos pulmões:

Guiado pela mão
Com Jesus, eu vou
E sigo como ovelha
que encontrou pastor
(etc, etc)

E até ensinava o irmão Sebastião, que depois de uma hora de compras também já sabia parte da letra. É a chamada Evangelização nos hipermercados...
O meu filho Afonso está um verdadeiro beato! No outro dia disse-me que queria ser santo.
- Santo, filho?
- Sim... assim vocês lembravam-se de mim no dia de todos os santos...
Ri-me um bocado e avancei para a história da noite, que era tudo menos beata (metia bruxas e piratas). Mas daí a pouco tempo o Afonso voltou a atacar:
- Ó mãe, se eu morrer agora já fico santo?
- Não, filho... ainda tens de viver muito e fazer muitas coisas boas por muita gente!
Acho que o convenci a não ser mártir aos 5 anos...

PS - Na catequese, o projecto-de-santo-Afonso tem aprendido a história do Adão e da Eva, do Sansão e Dalila, do Abel e Caim... Mas como em casa as "histórias" são outras, faltam-lhe alguns conceitos básicos para ser o beato perfeito. No outro dia a professora entregou a todos os meninos a imagem de uma gruta para eles desenharem o presépio, e o meu filho, que não sabia bem o que isso era, resolveu aproveitar a gruta para desenhar uma casa de extra-terrestres!!!
(à mesa comigo, com o pai, o irmão e os avós)
- O que é que vocês eram antes de serem humanos?
Silêncio... O meu filho Afonso consegue calar qualquer pessoa com as suas perguntas.
- Não sei, Afonso. O que é que tu eras?
- Um fantasma que vivia na lua. Mas depois pedi ao polvo com uma pata para vir para a tua barriga, mamã...
E as certezas dele são sempre tantas, que não há quem consiga convencê-lo de outra versão qualquer...
Sebastião a começar a dar o ar da sua graça:

(depois de rodopiar pela casa toda, a soprar)
- Sebastião, o que estás a fazer?
- Estou a brincar aos furacões!

(antes de ir jantar)
- Mãe, podes pôr no Pause?
- Tu sabes o que é o Pause, Sebastião?
- Sei. É um pauzinho assim (I) e outro assim (I).
(Afonso no dia das Bruxas)
- Eu não tenho medo de fantasmas. Sabes porque é que não, mãe? Porque eu sei como é que os fantasmas são feitos...
Pensei que ia falar em lençóis com buracos, ou pessoas disfarçadas de fantasmas, mas a teoria era mais elaborada:
- São feitos nas fábricas. Há pessoas que sopram bolas de sabão, depois atiram poderes e os fantasmas podem sair pelas janelas, a voar. Primeiro são bolas, mas depois começam a ficar esticadinhos, e é assim que se fazem os fantasmas.
- Quem é que te disse isso, Afonso?
- Ninguém. Eu sei.
O meu filho Afonso sabe tanto... Acho que no futuro vai ser um sabão...
O meu filho Afonso está o perfeito beato! Tirando o facto de não conseguir decorar que o avô é diácono (e dizer sempre que ele é "drácula"), em tudo o resto está o perfeito menino de coro. Passa o dia a cantar a música "Quando Jesus passa... tudo se transforma" (e Jesus, segundo ele, é uma espécie de Gormiti que deita magia e transforma tudo em seu redor), já me pediu "uma daquelas coisinhas com bolas para rezar" (um terço, para quem não domina o assunto) e todas as noites me explica que rezar é pôr-se de joelhos e juntar as duas mãozinhas à frente do peito.
Esta é a parte menos complicada. A complicada é eu já lhe ter falado várias vezes na teoria do bang bang, na formação do universo, e na raça humana como uma espécie entre outras que poderão haver no espaço (e que, segundo o meu filho, um dia ainda vai acabar como os dinossauros) e depois ele aprender que o mundo foi criado por Deus, que também criou o Adão e a Eva. "Ó mãe... tu mentiste-me! Foi Deus que criou o mundo!". Lá lhe expliquei que não menti... que tudo pode co-existir e nada se invalida necessariamente. Em relação ao Adão e à Eva, é que tive de ser peremptória: "Isso é uma história, filho...". Não ficou muito convencido, mas a verdade é que a história que ouviu na catequese também não o convenceu: "Ó mãe... não percebo como é que Deus só criou o Adão e a Eva e depois há tanta gente no mundo... Eles tiveram assim tantos filhos?"
Enfim... teremos tanto que discutir à mesa daqui para a frente...
(Afonso, depois do pai o ter estado a ensinar a jogar playstation):
- Ó mãe, queres jogar comigo à pistola digital?
- Como é que isso se joga?
- Há um pai e um filho que entram no jogo com uma pistola digital que deita raios laser. Depois aparece o papa-formigas ninja e nós temos de lhe deitar um laser. Depois a seguir temos de apanhar uma estrela e a seguir vem o frango que fala. O frango só se cala quando nós o apanharmos e o comermos...
(agora digam-me que o meu filho não tem uma grande imaginação...)
O best-off da semana:

(Mãe depois de ter sido acordada pelo Afonso umas cinco vezes, ora porque viu uma mosca, ora porque teve uma comichão, ora porque tem um pé de fora e não está a conseguir tapá-lo sozinho):
Mãe: Afonso, a mãe não se vai levantar mais. Escusas de me chamar...
Afonso: Nunca mais, nunca mais te vais levantar para vires ter comigo ou com o sebastião?
Mãe: Não, filho. Só se forem coisas muito graves.
(A mãe volta para a cama. 5 minutos depois ouve a voz estridente do filho a gritar)
Afonso: Ó mãeeeee! Anda cá! Eu estou a morrerrrrrrr!

Sebastião: Ó mãe, esta noite veio uma mosca até à minha cabeça e pôs-me um pico...
Depois de uma sessão experimental de ioga, na escola, o meu Sebastião chegou a casa capaz de resistir a qualquer reprimenda. Qualquer chamada de atenção que lhe fazia, o Sebastião fechava os olhos, colocava os dedos nas extremidades da testa e, com a boca fechada soltava um "Aummmmm". Obviamente que me ri mais do que ralhei com ele. Quem é que resiste a uma coisinha de palmo e meio, com umas bochechas enormes e o sorriso mais malandro do mundo? A mãe não é certamente...

PS - Outra do Sebastião:
- Sebastião, já sabes como é que chama a escola do mano?
- Já. É a escola dos Maricas...
(só espero que os irmãos Maristas nunca leiam este blogue)
- Ó mãe, não consigo adormecer!
A frase típica do Afonso cinco minutos depois de se deitar...
- Então porquê? O que é que se passa hoje?
- Quando olho para a direita, os buraquinho (da rede protectora da cama) mostram-me imagens de coisas más. Se olho para a esquerda (para o seu inseparável boneco de dormir) o boneco ganha vida e ataca-me...
- Se não podes olhar para a direita... nem podes olhar para a esquerda... olha para o tecto!
- Mas se olho para o tecto não vejo os ladrões a entrar pela porta...
(de regresso a casa, depois da escola, quando as conversas fluem e os quilómetros nos levam em filósoficas viagens sem destino):
AFONSO: Mamã, tu gostaste de crescer?
MÃE: Gostei, filho. É bom crescer. Tu também vais gostar.
AFONSO: Acho que não, mamã...
MÃE: Mas é bom crescer, piolho. Aprendes coisas novas, começas a decidir por ti...
AFONSO: Mas eu acho que há uma coisa no mundo que é injusta...
(antecipei imediatamente a resposta. Ele é TÃO meu filho! Impressionante. Os mesmos medos. As mesmas angústias. As mesmas injustiças...)
MÃE: O que é, filho?
AFONSO: Eu não queria morrer e tornar-me numa estrelinha... Por isso é que eu não queria crescer...
(só não engoli em seco porque já tinha antecipado a resposta. Olhei-o, sorri-lhe e percebi que ele estava à espera que eu dissesse alguma coisa. E eu tinha a minha resposta. Só não sabia se era cedo para lhe dizer)
AFONSO: Há alguma maneira de não morrermos, mamã?
(tinha que lhe dar a única resposta que sabia. Havia outras bem mais simples. Mas, à custa de fazer tantas vezes as mesmas perguntas que o meu filho acabara de fazer, acabei por deixar de acreditar nelas)
MÃE: Acho que não, filho. Mas se esta vida é a que temos, e é tão boa, tens que a aproveitar. E gostar de crescer...
(calou-se. Ficou a pensar. Depois pegou em dois Gormittis e começou a brincar. Há respostas que nunca dão serenidade. Mas há que aprender a viver sem ela... e levar a vida a brincar...)
(no carro, a caminho da escola)
AFONSO: Ó mãe, eu gostava de ser jogador de futebol, mas também tenho que ser piloto de naves.
MÃE: Então, filho... podes ser as duas coisas...
AFONSO: Posso?
MÃE: Podes ser piloto de naves e jogar futebol no espaço...
AFONSO: Boa! Dou pontapés aos planetas...

SEBASTIÃO: E eu, mamã?
MÃE: O que é que queres ser, 'Batião?
SEBASTIÃO: Não sei...
MÃE: Gostas muito da tua lanterna... e de animais... Podias ser explorador!
SEBASTIÃO: Sim! Sim!
AFONSO: Não pode não, mamã. Senão ainda pode ser comido por um crocodilo.
MÃE: E polícia? Tu gostas de andar atrás dos ladrões com a tua pistola, 'Bastião.
AFONSO: Também não pode ser, mãmã. Porque o Sebastião ainda não sabe que há pistolas a brincar e pistolas a sério. Pode dar um tiro nele com uma pistola a sério e morrer.

Do mal o menos, ficou explorador... Com argumentos destes...
Uma semana e meia depois do meu filho Afonso ter entrado nos Maristas, começaram as perguntas difíceis:
- Ó mãe, como é que as pessoas morrem e vão para o céu?
- Ó mãe, porque é que as pessoas falam com Jesus e ele não lhes responde?
- Ó mãe, se não tivermos cruzes ao pé de nós, Jesus não está connosco?
Eu, fervorosa adepta do cepticismo, respondo a tudo dando vários exemplos de como as pessoas das várias religiões encaram os diferentes dogmas das Igrejas. E convenço-me que devo passar informação aos meus filhos para que eles decidam no que devem acreditar e como. Será muito, para uma criança de 4 anos (o Sebastião ainda não fica a pensar nas minhas respostas)? Será que as crianças devem ter pais que tenham verdades absolutas e respostas para lhe dar? Será que estou a confundir os meus filhos? Ou a dar-lhes liberdade suficientemente para eles pensarem o mundo, a vida e a morte e chegarem às suas próprias conclusões?
A mãe anda a escrever um livro sobre extra-terrestres. O pai anda a papar as séries todas do Stargates. E o filho, talvez entusiasmado com a capa da nova Courrier International (sobre o tema) e os pedaços de Stargate que apanha na televisão, não tem parado de soltar teorias do outro mundo:
- Ó mãe, eu quando nascer outra vez vai ser num país cheio de extra-terrestres e vai ser muito mais divertido.
(...)
- Ó mãe, eu daqui a uns tempos vou comandar uma nave e vou a outros planetas. Não posso é ter janelas, porque no espaço há sempre pedras a bater nas naves.
- É uma nave ou um foguetão?
- Uma nave, mãe. Os foguetões já existem agora. Eu vou numa nave.
- Ah! Então vais inventar uma nave.
- Não. Isso vai ser outra pessoa. Eu só vou comandá-la.
- E levas a mãe a ver outros planetas, filho?
- Não, mãe. Tu nessa altura já morreste...
(espera aí... não é suposto as crianças de 4 anos acharem que os pais são imortais?!)
(Afonso a meio de um doloroso e interminável pequeno-almoço, daqueles em que ele se queixa vinte vezes que lhe dói a barriga e quando chega a hora de ir para a escola ainda só vai a meio do pão):
- Ó mãe, queres que eu te explique como é que se faz o vomitado?
(Adoro sempre as explicações que o meu filho arranja para explicar os fenómenos que ainda não conhece)
- A comida desce e dentro da barriga há muitos martelos que começam a bater-lhe para a transformarem em vomitado. Às vezes a barriga fica muito cheia e um dos martelos bate com força no vomitado para ele vir para cima. É assim que se vomita...
E pronto. Assim se faz ciência cá em casa. Com especulações e alguma imaginação...
- Então, Afonso, o que é que fizeste na escola?
- Um desenho que dei à minha professora.
- E o que é que desenhaste?
- Era para fazer uma pessoa. Mas fiz uma cabeça muito grande e já não cabia mais nada. Então tive uma ideia. Desenhei muitas bolhas ao pé daquela e fiquei com muitas cabeças. Depois fiz uma bolha gigante à volta das cabeças todas.
- Mas para quê, Afonso?
- Eram muitas pessoas a sair de um ovo...
(ok, o meu filho continua a pensar que há pessoas especiais - onde ele se inclui - que nascem de ovos. Imagino a cara da professora da escola nova, que só o conhece há cinco dias...)
(Sebastião para a mamã)
- Quero colo!!!
- Então anda cá, piolho... A mamã dá-te colo...
(colinho)
- Ó mamã... eu afinal quero dois...
Enquanto jantávamos e na televisão passavam reportagens sobre a onda de crime que tem assaltado o país nos últimos meses, o Afonso saiu-se com esta:
- Eu sei o que são os ladrões...
Respondi com o habitual "Ai sim?" que é sempre a melhor maneira de puxar por ele.
- São pessoas que roubam coisas. E também roubam crianças. Entram nas casas das pessoas com sacos, enquanto elas estão a dormir, metem as crianças lá dentro e levam-nas.
Assustei-me, porque não queria o meu filho assustado...
- Não é bem assim, Afonso. É verdade que algumas crianças já foram raptadas (e como negá-lo, se o caso Maddie andou tanto tempo naquela cabecinha a querer ser adulta), mas isso não te vai acontecer a ti... Tu estás connosco. Nós protegemos-te...
- Mas à noite vocês estão a dormir. Por isso é que eu nunca durmo. Durmo de olhos abertos. Para não ser raptado...
- Ó mãe, eu pensava que este Gormitti era um Espírito...
Pronto, lá vinha mais uma conversa profunda com o meu filho Afonso...
- E o que é um Espírito, Afonso?
- Então mãe... ele anda no céu. E decide se as pessoas vivem ou morrem. Ele decide sobre a vida e a morte das pessoas...
- Ai é?
- Sim. E as pessoas precisam de poderes para lutarem contra os Espíritos e não morrerem...
- Então os espíritos matam?
- Só os maus, mãe. Os bons deixam as pessoas viver. Só as deixam morrer quando elas são velhinhas.
- E os maus?
- Os maus matam as pessoas antes de serem velhinhas. Os espíritos que matam as crianças são os "mais maus" de todos!
- Piores... - não resisti a corrigir.
- Mas tu não sabias que havia espírios, mãe?
- Não...
- Oh... (desilusão!) Eles são os amigos do Jesus, mãe. Os bons! Vivem ao pé dos Anjos.
- Ah...
- E há uns muito bonzinhos que ajudam os meninos a saber jogar futebol. E algumas meninas também, como a prima Madalena... Ela tem muita sorte em ter um Espírito que a ajuda a jogar futebol tão bem como eu...
E agora digam-me o que é que eu faço ao meu filhote...