Agora que já consigo dormir 2 horas seguidas à noite, aqui vai um breve resumo do que tem sido este mês e meio:
- Os gémeos são lindos e fofinhos, excepto entre as 7 e as 9 (para azar do pai, quando ele chega a casa), quando choram em stereo.
- Já consigo dar de mamar a um, adormecer o outro com o pé e escrever com uma mão no computador. Não me posso queixar... ainda me sobra um pé e uma maminha!
- Os irmãos estão a crescer no meio da confusão, mas quando não estão a fazer asneiras (80%do tempo) continuam a ter saídas muito engraçadas. O Afonso teve a sua primeira verruga (que o encheu de orgulho), um dente a abanar e outro já atrás a espreitar. Já nada e sabe ler (junta letras, sem desprimor da proeza). O Sebastião aprendeu a comer pastilha elástica e a comer com faca e garfo. O Afonso continua refilão (e o Duarte vai ser igual) e o Sebastião bom vivant e inocente, por isso promovi-os a Timon e Pumba. Afonso-Timon e Sebastião-Pumba. Só lhes falta comer insectos!

Best-off do dia:
(Sebas, depois de eu me zangar com ele):
- Mãe, estás despedida!
- Não se podem despedir as mães de mães, Sebastião. Assim como as mães não podem despedir os filhos de filhos...
(Afonso) - Podem sim. Aquelas mães que ababdonam os filhos despedem-nos!
E pronto... às 35 semanas e 2 dias, os gémeos nasceram. Quando começar a conseguir dormir mais do que uma hora seguida, darei notícias sobre o casalinho mais esperado de toda a história da família Dias...
Agora que os gémeos estão mais perto de nascer, tenho tentado aproveitar os últimos momentos na qualidade de "mãe de dois filhos". O Afonso e o Sebastião estão a crescer, e apesar de serem muito amigos e brincarem muito juntos, têm necessidades diferentes. O Afonso está a poucos meses de entrar na primária ("É 1º ciclo" - corrige-me ele), já junta letras e diz que ler é delicioso. Tem um quarto novo com uma cama grande, e um Magalhães em cima da secretária (porque o pai não resistiu, e porque sempre é melhor o Magalhães que a consola de jogos, disse eu). O Sebastião quer aprender tudo e está cada vez mais criativo. Embora ande a debater-se com um grande dilema: ser grande ou pequeno? Porque, nesta família prestes a crescer, ele nunca será o mais velho nem o mais novo. E enquanto quase-irmão-do-meio, ora lhe dá para falar à bebé, ora pega num livro e finge que está a ler, como o mano.
Quando consigo estar sozinha com cada um deles, tento responder às necessidades individuais de cada um. É muito bom ter irmãos, mas também é bom que os pais consigam não perder esta atenção individual.
E aí começa o meu dilema. Já não me assusta a ideia de ter gémeos. Não me assusta o parto. Não me assusta a amamentação. Não me assusta a gestão de uma casa com quatro filhos, porque felizmente tenho ajuda e hei-de dar conta do recado. O que me assusta é deixar de ter tempo para os outros filhos que tenho em casa, e que ainda precisam tanto de mim! Quando o Sebastião nasceu, conseguia arranjar um buraquinho todos os dias para estar sozinha com o Afonso. Mas agora vão nascer dois... e eu tenho mais dois a quem dar atenção...
Claro que o meu susto não é pavor. Tentarei dar o meu melhor e tudo se há-de compor. E se calhar, daqui a seis meses ou um ano, estarei orgulhosamente a escrever que consegui, mais do que ser mãe de todos, ser uma mãe para todos... Vou acreditar que sim!
Hoje os meus filhos brindaram-me com esta música:

«Mãe, sem ti
Eu não estaria aqui.
És a mais bela flor
Do meu jardim...»

O Afonso aprendeu-a na escola e ensinou-a ao mano para que os dois pudessem cantar-ma quando eu chegasse a casa. Não é de os comer com beijos?

PS - Comprámos hoje o carrinho de gémeos. O pai divertiu-se a montá-lo e o Sebastião veio dizer-me, com voz abebezada: «Têm de comprar um carrinho com três cadeiras... Eu também ainda sou bebé!»...
O meu filho Afonso aprendeu a colocar a mão debaixo do braço e a abaná-lo, para soltar aqueles sons esquisitos que soam a "traques" mas sem cheiro.
- Vês, mãe? Vês? - disse-me ele, animado - É só pôr a mão no "cuvaco".
- Não é "cuvaco", Afonso, é "sovaco".
- O meu é "cuvaco". "Cuvaco Silva"...
Tive de me desatar a rir, claro, e ele achou piada à brincadeira. Foi de tal maneira, que passou o resto da tarde a inventar nomes alternativos para o nosso Presidente da República (pobre coitado). Venceu o "Churrasco Silva". Vamos ver se o "Contra-Informação" não aproveita a ideia...
Com o nascimento dos gémeos a aproximar-se, os meus filhos "mais velhos" tiveram de crescer um bocadinho. Acabaram-se os colos (e tanto que o meu Sebastião ainda pedia um "colinho em pé"), as ajudas para apanhar os brinquedos, e até para se vestirem os meus piolhos aprenderam a precisar menos da mamã. O Afonso ganhou um quarto novo com uma cama nova, maior, e uma secretária. O Sebastião deixou o "quarto dos bebés" (e a cama de grades, finalmente!) e passou para o antigo quarto do Afonso. O entusiasmo foi enorme, mas claro que as mudanças às vezes assustam, e os meus filhos tiveram de arrastar com eles, para esta nova etapa, uns restinhos da etapa anterior. O Afonso passou para o quarto "de menino grande", mas teve de levar com ele o seu boneco de trapos. O Sebastião passou para o quarto de "menino do meio", mas pediu-me a meio da noite os bonecos com música (daqueles de bebés, que se penduram nas grades da cama). E ontem foi dia de disputar os livros, que os meus filhos trataram de dividir em "livros de bebé" (para ficarem no futuro quarto dos gémeos), "livros de menino" e "livros de menino crescido", distribuídos pelos respectivos quartos.
Certamente que muita coisa vai mudar na nossa casa, depois do Duarte e da Leonor nascerem... Os meus filhos estão a preparar-se para esta nova fase com muita coragem. Agora é só eu e o pai seguirmos o exemplo e olharmos para esta nova aventura como mais um salto no nosso crescimento pessoal e familiar...
Estava de regresso a casa com o meu filho Afonso, quando passamos por um senhor chinês, de mão dada com duas lindas meninas chinesas. Caminhavam no passeio, e o Afonso viu-os através do vidro, e ficou colado a ele.
- Olha mamã... Para onde vai aquele senhor com aquelas meninas?
- Não sei, filho. Deve ir para casa, como nós.
- Mas nós vamos de carro. E ele, coitadinho, vai a pé até à China...
O meu filho Afonso anda a insistir há uns tempos para eu lhe comprar uns sapatos Geox. "Malditas publicidades", pensei sempre. "Com cinco anos e já pensa em marcas... estamos mal!"
Mas só hoje me lembrei de lhe perguntar a razão para querer um ténis dessa marca:
- É que com esses ténis eu consigo dar saltos muito grandes. E até posso dar um salto até ao céu e ver a cara dos Jesus. E até ir dar um beijinho à Bisa (bisavó que morreu há poucos meses)...
Com uma resposta destas, acho que vou comprar sapatos Geox para toda a família!
- Ó mãe, quem é que vai morrer primeiro? Eu ou o Sebastião?
A conversa surgiu no carro, com a frieza habitual do meu filho Afonso em relação a estas matérias.
- Ó filho... mas para que é que te pões a pensar nisso? Não queres falar noutra coisa?
Chuto sempre esta frase para tentar mudar de assunto, mas é inútil. Ele não desiste!
- Diz lá, mãe! É que eu sou o mais velho. Por isso vou morrer primeiro, não é?
Podia dizer-lhe que qualquer pessoa pode morrer a qualquer momento, independentemente da idade, mas isso já lhe causou pesadelos que chegasse, por isso preferi sossegá-lo seguindo a linha de raciocínio dele.
- Sabes que tu e o Sebastião só têm dois anos de diferença. E se agora isso se nota, qualquer dia já não se vai notar. É como se tivessem a mesma idade. Olha a tia Ana (minha irmã)... Quem é que é mais velha? Eu ou a tia Ana?
Nem ele nem o Sebastião souberam responder. A minha irmã vai gostar de saber...
- Estás a ver? Vocês não sabem qual é a mais velha, mas a tia Ana é quatro anos mais velha do que eu. O que quer dizer que quando tu e o Sebastião forem adultos, é como se fossem da mesma idade.
- Ah, boa, mamã! - rematou o Afonso, satisfeito. E em seguida olhou para o irmão, triunfante. - Vês, Sebastião? Isso quer dizer que eu não vou morrer primeiro... vamos morrer ao mesmo tempo!
O meu filho Afonso anda a levar tão a sério as suas aulas de catequese no Colégio, que no outro dia, em plena história sobre bruxas, antes do deitar, saiu-se com esta:
- Ó mãe... já sei porque é que a bruxa é má... Ela não deve ter sido baptizada...
O "esotérico" da família costuma ser o Afonso, mas o Sebastião também já vai dando o ar da sua graça. No outro dia, a subir as escadas em direcção ao quarto, para ir dormir, saiu-se com esta:
- Já sei como é que os manos foram para a tua barriga.
- Ai sim, Sebastião? Então como é que foi?
- Eles eram dois anjinhos no céu. Apareceu uma luz muito forte, eles derreteram e foram para dentro da tua barriga...

No nosso tempo havia as cegonhas. Mas esta nova geração Gormitti-Pokemon já não vai lá com pássaros...
- Mamã, onde é que tu vives?
A pergunta assaltou-me em pleno trabalho ao computador, e não soube logo dar-lhe resposta à altura (pelo menos, à altura da imaginação dos meus filhos).
- Neste casa, meninos. Então vocês não moram aqui?
Claro que não moravam! O Sebastião morava nas nuvens "porque era mais fofinho". E o Afonso era um fantasma e morava na lua. Lá tive de arranjar uma casa alternativa: o mar, e tornei-me uma sereia. E de vez em quando, diziam os meus filhos, todos nos visitávamos. De vez em quando o vento levava a nuvem do Sebastião até à lua, e o meu filho fantasma conseguia respirar debaixo de água e ia visitar a mamã.

Entretanto, hoje à saída da escola, o meu filho Afonso viu a lua no céu. Quarto Minguante. E saiu-se com esta:
- A lua está assim porque eu ontem estava com fome e comi-lhe um grande pedaço.
- Mas quando é que foste à lua, filho? (lá perguntei eu, distraída, a atá-lo à cadeira)
- Então, mãe? Esqueceste-te que eu vivo lá? À noite, quando me deixas na cama, os meus amigos monstros vêm buscar-me e levam-me para lá. E eu como sempre um bocado de lua. Às vezes tenho muita fome e como muita. Às vezes tenho menos fome e como menos. Por isso é que a lua está sempre com um tamanho diferente...
- E por isso é que tu durante o dia não comes nada! - disse eu, finalmente entrando na brincadeira. - Fartas-te de comer lua à noite!
- Pois é... - e acho que o meu filho vai passar a usar esta desculpa durante o dia, quando não quiser comer (que é quase sempre).
- E olha, Afonso? A tua lua sabe a quê? A queijo?
- Não... Essa é a lua do ratinho. Como eu não gosto de queijo, a minha sabe a fiambre...
(Sebastião à hora do banho)
- Eu vou ser doutor...
- Ai é, Sebastião? E doutor do quê? Dos olhos? Da garganta?
- Não... Das maminhas!

Bom, não se pode dizer que não seja uma profissão com bastante futuro...
Por muito que eu me esforce a explicar o funcionamento do corpo humano ao meu filho mais velho, ele prefere as explicações que ele próprio inventa (e eu confesso que também!)

(Afonso, sobre o movimento do corpo)
- Nós temos um grande osso dentro do nosso corpo, com ossinhos mais pequeninos onde estão pendurados muitos homenzinhos pequeninos. Os homenzinhos estão sempre a escalar, a escalar, a escalar, e à medida que se vão mexendo o nosso corpo também mexe.

(Afonso, sobre as doenças)
- O nosso corpo é uma espécie de auto-estrada com muitos carros. Quando estamos doentes e tomamos remédios, o remédio chama todos os carros, e eles vão todos chocar contra a nossa doença. Ela morre atropelada e nós ficamos bons.
(conversa com o Sebastião no carro)
- Onde é que é a tua escola, mamã?
- A mamã já não anda na escola. Quando as crianças ficam adultas deixam de ir à escola e começam a trabalhar, percebes? Escolhem aquilo que mais gostam de fazer (era bom que fosse assim tão simples, mas pronto...) e trabalham, ou seja, passam o dia a fazer isso. Um dia também vais escolher aquilo que mais gostas de fazer para começares a trabalhar...
- Mas o que eu mais gosto de fazer é asneiras...
Sempre ouvi dizer que os filhos têm uma adoração especial pelas suas mães (assim como as filhas a têm pelos seus pais) e, ultimamente, talvez por estar nesta condição "barriguda", os meus piolhos têm-me brindado com verdadeiros mimos para o ego:

(Sebastião, no carro)
- Mamã... a tua casa já foi a do avô Luís?
- Já, filho. E sabes... um dia tu também vais crescer e vais ter a tua casa, onde vais viver com a tua mulher.
- Mulher, mamã?! Mas a minha mulher és tu!

(Afonso, ao deitar)
- Mamã... quando é que posso ser eu a dormir contigo, em vez do pai?

Não é de os cobrir de beijos?
(Afonso na sua sinceridade máxima):
- Mamã, a partir de agora vou chamar-te "super-gorda"!
Lá me tentei defender, como pude, do ataque sincero do meu filho mais velho.
- Ó filho... mas a mamã só tem uma grande barriga porque tens os bebés na barriga. Depois, quando eles saírem, a mamã fica magrinha outra vez...
- Eu sei. Quando eles nascerem, vais ficar outra vez a "super-magricela".
Que conversa animadora :( O meu filho sabe mesmo como me encher o ego!
(Afonso e mais uma das suas tentativas de explicar o mundo):
- Ó mãe, sabes como é que foram criados os Pokemons?
- Os Pokemons não são criaturas de outros planetas? - perguntei eu, na minha santa ignorância.
- Não, mãe... eu explico-te. Como Jesus criou tudo, quando criou o homem, também lançou uns raios de super-potência e a terra levantou-se. Saíram umas criaturas com poderes mágicos que evoluem e...
A história continuou, rebuscada. Não a reproduzo mais porque, sinceramente, não sou capaz. Corria o risco de falsear a sua "verdade". Só me pergunto como é que as crianças de hoje em dia, futuros adultos amanhã, depois de desenhos animados tão rebuscados e cheios de criaturas imaginárias, magia e mundos paralelos, como os que passam na televisão, vão encarar a realidade, a religião, a morte e a vida, o universo e a pequenez da nossa condição humana. Que estarão mais abertos a outras realidades possíveis, isso não tenho dúvidas. E, ou muito me engano, ou isso será muito bom. Talvez represente mesmo um grande passo para uma evolução necessária da nossa espécie...
(Sebastião a olhar para a minha barriga, cada vez maior)
- Mamã... se tu tens aí bebés, temos que chamar o caçador para te abrir a barriga...
Acho que o meu filho Sebastião me vê como um lobo mau que comeu uns gémeos... Só espero que depois ninguém me encha a barriga de pedras e me atire para dentro de um poço... :(
- Ó mãe... porque é que as árvores se chamam árvores?
Pronto. Começava a primeira crise linguística do meu filho Afonso.
- Foram as pessoas que deram o nome às coisas, filho.
- Mas porque é que chamaram árvore à árvore?
- Não sei, filho. Um dia que tu encontres alguma coisa que nunca ninguém viu, ou inventes alguma coisa que não exista, também podes dar-lhe o nome que tu quiseres.
- Mas quando os humanos apareceram na terra as árvores já eram árvores?
- Não, filho... quando os humanos apareceram na terra nem havia palavras. Os pré-históricos, que foram os primeiros homens, comunicavam com gestos, e depois com sons, como os animais, até que se começou a dar nomes às coisas. - respondi eu, certa de que teria que investigar o assunto assim que chegasse a casa - E em cada zona do planeta foram-se dando nomes diferentes às coisas. Por isso é que há línguas diferentes.
E subitamente, vejo o meu filho no banco de trás a apontar para uma casa, chamando a atenção do Sebastião, que estava ao seu lado, com gestos pré-históricos e sons guturais:
- Bastião... Ca-ca, ca-ca, ca-sa! Casa! Casa! Foi assim, mamã?