Estava de regresso a casa com o meu filho Afonso, quando passamos por um senhor chinês, de mão dada com duas lindas meninas chinesas. Caminhavam no passeio, e o Afonso viu-os através do vidro, e ficou colado a ele.
- Olha mamã... Para onde vai aquele senhor com aquelas meninas?
- Não sei, filho. Deve ir para casa, como nós.
- Mas nós vamos de carro. E ele, coitadinho, vai a pé até à China...
O meu filho Afonso anda a insistir há uns tempos para eu lhe comprar uns sapatos Geox. "Malditas publicidades", pensei sempre. "Com cinco anos e já pensa em marcas... estamos mal!"
Mas só hoje me lembrei de lhe perguntar a razão para querer um ténis dessa marca:
- É que com esses ténis eu consigo dar saltos muito grandes. E até posso dar um salto até ao céu e ver a cara dos Jesus. E até ir dar um beijinho à Bisa (bisavó que morreu há poucos meses)...
Com uma resposta destas, acho que vou comprar sapatos Geox para toda a família!
- Ó mãe, quem é que vai morrer primeiro? Eu ou o Sebastião?
A conversa surgiu no carro, com a frieza habitual do meu filho Afonso em relação a estas matérias.
- Ó filho... mas para que é que te pões a pensar nisso? Não queres falar noutra coisa?
Chuto sempre esta frase para tentar mudar de assunto, mas é inútil. Ele não desiste!
- Diz lá, mãe! É que eu sou o mais velho. Por isso vou morrer primeiro, não é?
Podia dizer-lhe que qualquer pessoa pode morrer a qualquer momento, independentemente da idade, mas isso já lhe causou pesadelos que chegasse, por isso preferi sossegá-lo seguindo a linha de raciocínio dele.
- Sabes que tu e o Sebastião só têm dois anos de diferença. E se agora isso se nota, qualquer dia já não se vai notar. É como se tivessem a mesma idade. Olha a tia Ana (minha irmã)... Quem é que é mais velha? Eu ou a tia Ana?
Nem ele nem o Sebastião souberam responder. A minha irmã vai gostar de saber...
- Estás a ver? Vocês não sabem qual é a mais velha, mas a tia Ana é quatro anos mais velha do que eu. O que quer dizer que quando tu e o Sebastião forem adultos, é como se fossem da mesma idade.
- Ah, boa, mamã! - rematou o Afonso, satisfeito. E em seguida olhou para o irmão, triunfante. - Vês, Sebastião? Isso quer dizer que eu não vou morrer primeiro... vamos morrer ao mesmo tempo!
O meu filho Afonso anda a levar tão a sério as suas aulas de catequese no Colégio, que no outro dia, em plena história sobre bruxas, antes do deitar, saiu-se com esta:
- Ó mãe... já sei porque é que a bruxa é má... Ela não deve ter sido baptizada...
O "esotérico" da família costuma ser o Afonso, mas o Sebastião também já vai dando o ar da sua graça. No outro dia, a subir as escadas em direcção ao quarto, para ir dormir, saiu-se com esta:
- Já sei como é que os manos foram para a tua barriga.
- Ai sim, Sebastião? Então como é que foi?
- Eles eram dois anjinhos no céu. Apareceu uma luz muito forte, eles derreteram e foram para dentro da tua barriga...

No nosso tempo havia as cegonhas. Mas esta nova geração Gormitti-Pokemon já não vai lá com pássaros...
- Mamã, onde é que tu vives?
A pergunta assaltou-me em pleno trabalho ao computador, e não soube logo dar-lhe resposta à altura (pelo menos, à altura da imaginação dos meus filhos).
- Neste casa, meninos. Então vocês não moram aqui?
Claro que não moravam! O Sebastião morava nas nuvens "porque era mais fofinho". E o Afonso era um fantasma e morava na lua. Lá tive de arranjar uma casa alternativa: o mar, e tornei-me uma sereia. E de vez em quando, diziam os meus filhos, todos nos visitávamos. De vez em quando o vento levava a nuvem do Sebastião até à lua, e o meu filho fantasma conseguia respirar debaixo de água e ia visitar a mamã.

Entretanto, hoje à saída da escola, o meu filho Afonso viu a lua no céu. Quarto Minguante. E saiu-se com esta:
- A lua está assim porque eu ontem estava com fome e comi-lhe um grande pedaço.
- Mas quando é que foste à lua, filho? (lá perguntei eu, distraída, a atá-lo à cadeira)
- Então, mãe? Esqueceste-te que eu vivo lá? À noite, quando me deixas na cama, os meus amigos monstros vêm buscar-me e levam-me para lá. E eu como sempre um bocado de lua. Às vezes tenho muita fome e como muita. Às vezes tenho menos fome e como menos. Por isso é que a lua está sempre com um tamanho diferente...
- E por isso é que tu durante o dia não comes nada! - disse eu, finalmente entrando na brincadeira. - Fartas-te de comer lua à noite!
- Pois é... - e acho que o meu filho vai passar a usar esta desculpa durante o dia, quando não quiser comer (que é quase sempre).
- E olha, Afonso? A tua lua sabe a quê? A queijo?
- Não... Essa é a lua do ratinho. Como eu não gosto de queijo, a minha sabe a fiambre...
(Sebastião à hora do banho)
- Eu vou ser doutor...
- Ai é, Sebastião? E doutor do quê? Dos olhos? Da garganta?
- Não... Das maminhas!

Bom, não se pode dizer que não seja uma profissão com bastante futuro...
Por muito que eu me esforce a explicar o funcionamento do corpo humano ao meu filho mais velho, ele prefere as explicações que ele próprio inventa (e eu confesso que também!)

(Afonso, sobre o movimento do corpo)
- Nós temos um grande osso dentro do nosso corpo, com ossinhos mais pequeninos onde estão pendurados muitos homenzinhos pequeninos. Os homenzinhos estão sempre a escalar, a escalar, a escalar, e à medida que se vão mexendo o nosso corpo também mexe.

(Afonso, sobre as doenças)
- O nosso corpo é uma espécie de auto-estrada com muitos carros. Quando estamos doentes e tomamos remédios, o remédio chama todos os carros, e eles vão todos chocar contra a nossa doença. Ela morre atropelada e nós ficamos bons.
(conversa com o Sebastião no carro)
- Onde é que é a tua escola, mamã?
- A mamã já não anda na escola. Quando as crianças ficam adultas deixam de ir à escola e começam a trabalhar, percebes? Escolhem aquilo que mais gostam de fazer (era bom que fosse assim tão simples, mas pronto...) e trabalham, ou seja, passam o dia a fazer isso. Um dia também vais escolher aquilo que mais gostas de fazer para começares a trabalhar...
- Mas o que eu mais gosto de fazer é asneiras...
Sempre ouvi dizer que os filhos têm uma adoração especial pelas suas mães (assim como as filhas a têm pelos seus pais) e, ultimamente, talvez por estar nesta condição "barriguda", os meus piolhos têm-me brindado com verdadeiros mimos para o ego:

(Sebastião, no carro)
- Mamã... a tua casa já foi a do avô Luís?
- Já, filho. E sabes... um dia tu também vais crescer e vais ter a tua casa, onde vais viver com a tua mulher.
- Mulher, mamã?! Mas a minha mulher és tu!

(Afonso, ao deitar)
- Mamã... quando é que posso ser eu a dormir contigo, em vez do pai?

Não é de os cobrir de beijos?
(Afonso na sua sinceridade máxima):
- Mamã, a partir de agora vou chamar-te "super-gorda"!
Lá me tentei defender, como pude, do ataque sincero do meu filho mais velho.
- Ó filho... mas a mamã só tem uma grande barriga porque tens os bebés na barriga. Depois, quando eles saírem, a mamã fica magrinha outra vez...
- Eu sei. Quando eles nascerem, vais ficar outra vez a "super-magricela".
Que conversa animadora :( O meu filho sabe mesmo como me encher o ego!
(Afonso e mais uma das suas tentativas de explicar o mundo):
- Ó mãe, sabes como é que foram criados os Pokemons?
- Os Pokemons não são criaturas de outros planetas? - perguntei eu, na minha santa ignorância.
- Não, mãe... eu explico-te. Como Jesus criou tudo, quando criou o homem, também lançou uns raios de super-potência e a terra levantou-se. Saíram umas criaturas com poderes mágicos que evoluem e...
A história continuou, rebuscada. Não a reproduzo mais porque, sinceramente, não sou capaz. Corria o risco de falsear a sua "verdade". Só me pergunto como é que as crianças de hoje em dia, futuros adultos amanhã, depois de desenhos animados tão rebuscados e cheios de criaturas imaginárias, magia e mundos paralelos, como os que passam na televisão, vão encarar a realidade, a religião, a morte e a vida, o universo e a pequenez da nossa condição humana. Que estarão mais abertos a outras realidades possíveis, isso não tenho dúvidas. E, ou muito me engano, ou isso será muito bom. Talvez represente mesmo um grande passo para uma evolução necessária da nossa espécie...
(Sebastião a olhar para a minha barriga, cada vez maior)
- Mamã... se tu tens aí bebés, temos que chamar o caçador para te abrir a barriga...
Acho que o meu filho Sebastião me vê como um lobo mau que comeu uns gémeos... Só espero que depois ninguém me encha a barriga de pedras e me atire para dentro de um poço... :(
- Ó mãe... porque é que as árvores se chamam árvores?
Pronto. Começava a primeira crise linguística do meu filho Afonso.
- Foram as pessoas que deram o nome às coisas, filho.
- Mas porque é que chamaram árvore à árvore?
- Não sei, filho. Um dia que tu encontres alguma coisa que nunca ninguém viu, ou inventes alguma coisa que não exista, também podes dar-lhe o nome que tu quiseres.
- Mas quando os humanos apareceram na terra as árvores já eram árvores?
- Não, filho... quando os humanos apareceram na terra nem havia palavras. Os pré-históricos, que foram os primeiros homens, comunicavam com gestos, e depois com sons, como os animais, até que se começou a dar nomes às coisas. - respondi eu, certa de que teria que investigar o assunto assim que chegasse a casa - E em cada zona do planeta foram-se dando nomes diferentes às coisas. Por isso é que há línguas diferentes.
E subitamente, vejo o meu filho no banco de trás a apontar para uma casa, chamando a atenção do Sebastião, que estava ao seu lado, com gestos pré-históricos e sons guturais:
- Bastião... Ca-ca, ca-ca, ca-sa! Casa! Casa! Foi assim, mamã?
(conversa entre o Afonso e o Sebastião no carro, no banco de trás, a caminho da escola)

- Sebastião, queres ouvir a primeira história da Bíblia?
- Sim.
- Era uma vez uma girafa. Começou a chover muito e a girafa meteu-se num barco. Mas não cabia no barco e foram ao fundo...
(tinha muitos outros pormenores, mas já não consigo descrevê-los com as palavras do meu filho. E eu entretanto também não resisti a meter-me na conversa.)
- Ó Afonso, tu sabes quem é que escreveu a Bíblia?
- Foi o Jesus.
- Olha que não, Afonso.
- Ah, pois não! Foi o Cavaco Silva!
Espanto!
- E tu sabes quem é o Cavaco Silva?
- Sei. É o Presidente da República.
Fiquei inchada de orgulho por o meu filho já saber o nome do Presidente da República e continuei a conduzir, nuns segundos de silêncio que fizeram o Afonso reatar a sua conversa com o irmão.
- Sebastião? Queres ouvir a terceira história da Bíblia? Esta foi escrita pelo José Sócrates...
Aposto que ele não aprendeu isto na catequese...
(depois de ler a história do rei Midas, que o Afonso trouxe da biblioteca da escola. Para quem não se recorda, o ganacioso rei Midas perseguiu uma das suas muitas moeda que lhe escapou das mãos, caiu das escadas e apareceu-lhe um duende que lhe quis dar uma lição: tudo aquilo em que ele tocasse se transformava em oiro)

- Percebeste, Afonso? Imagina que tudo aquilo em que tu tocavas se transformava em brinquedos...
Abriu muito a boca e os olhos, como ele faz sempre que fica admirado.
- Era muita bom, mãe!
- Não, não era... Depois tocavas na mãe, e eu transformava-me numa boneca de trapos... Tocavas no pai, e ele transformava-se num Gormitti...
- Era giro...
- E depois quem é que te fazia a comida para tu comeres?
- Eu nunca mais comia... - usei, claramente, o argumento errado. Quem dera ao meu filho Afonso nunca mais ser obrigado a comer!
- E quem é que te limpava o rabinho, quando ias à casa de banho? - como ando a tentar que ele aprenda a limpar-se sozinho, achei boa ideia puxar pela escatologia.
- Usava o papel... - ok, ele estava disposto a limpar-se sozinho. Devia ter-me ficado por aqui, mas queria que ele chegasse à conclusão do rei Midas, por isso insisti.
- O papel também se transformava num brinquedo...
- Já sei! Tu não eras uma boneca de trapos? Limpava o cocó aos teus trapos...

Desisti e voltei-me para o Sebastião.
- E tu, Sebastião, percebeste a história do rei Midas?
- Sim, mamã.
- O rei Midas não devia querer as moedas todas para ele, não era? Ele devia ter partilhado com as pessoas que não tinham nada...
- Pois é... - disse o Sebastião, nada convencido. - Ou então devia ter cuidado a descer as escadas, para não cair e não aparecer o duende... "Pois é", mãe?
Meti-os na cama. Os meus dotes de contadora de histórias, definitvamente, ainda deixam muito a desejar...
Depois de fazer mil festas na minha barriga, ora na mana, ora no mano (que ele sabe tão bem de que lado estão), o Sebastião levantou a sua blusa e olhou para a sua barriga, apenas cheia das bolachas do lanche:
- Ó mãe... quando é que eu também vou ter bebés na barriga?
Era uma e tal da manhã, quando o Afonso acorda a gritar, muito aflito. Imaginei logo que estava a ter um pesadelo (e os meus filhos, nessas matérias, bem que podiam não ter saído à mãe) e corri para o quarto, a ver o que se passava.
- Não, mãe. Não era um pesadelo! - tratou o Afonso de explicar, entre as muitas lágrimas que lhe corriam pelo rosto. - É só que eu não quero morrer!
A saga continuava. O pai já anda a pensar que eu sou que lhe falo destas coisas, ou lhes ando a ler histórias tétricas à noite, mas eu juro que evito ao máximo tocar no assunto, até porque já sei os filhos que tenho.
- Ó filho... Mas tu não tens que pensar nisso... Só tens cinco anos!
- Eu sei, mãe. Mas eu não quero morrer... nem quando eu for velhinho!
Ora bolas! Assim ia ser mais difícil tranquilizá-lo. Como dizer-lhe que ele não ia morrer... nem quando fosse velhinho?
- Há alguma maneira das pessoas nunca morrerem, mãe? - continuou ele, de olhos cheios de lágrimas.
Saquei-o da cama e pu-lo ao meu colo, coisa que, com dois bebés na barriga, já não é tarefa fácil.
- Quando as pessoas são velhinhas, filha, ficam cansadas... e precisam de descansar. E elas não desaparecem... Ficam para sempre a olhar por nós, nas estrelinhas...
- Mas eu não quero ir para as estrelinhas, mamã. Eu quero ficar aqui. Nunca quero descansar!
Começa a ser cada vez mais difícil acalmar as dúvidas do meu filho em relação à morte. Já nem as estrelinhas o consolam. Por isso tive que lhe dar uma nova esperança. Uma esperança que eu acho que não virá a tempo, nem na minha vida nem na dele, mas alguma coisa tinha que o fazer voltar para a cama e descansar.
- Sabes que dantes as pessoas morriam muito cedo. Havia muitas doenças. Mas os cientistas foram descobrindo curas para essas doenças, e as pessoas cada vez vivem mais tempo. Dantes as pessoas morriam com a idade da mamã...
Olhou para mim, muito espantado, de boca aberta.
- Mas agora, já há pessoas a viver até aos cem anos! Que são muito anos.
- Então, se eu for cientista, posso descobrir uma maneira das pessoas viverem para sempre...
Hesitei, mas dei-lhe a única resposta possível, à uma e meia da manhã.
- Claro, filho! Vais estudar muito para te tornares cientista, e vais descobrir uma maneira das pessoas viverem para sempre!
- Boa! Então vou ser cientista e bombeiro.
- Bombeiro também, Afonso?
- Sim... para também não deixar que ninguém morra queimado.
E pronto. As lágrimas secaram, e o meu filho Afonso adormeceu com a certeza que um dia vai ser um grande cientista e vai descobrir o elixir da vida eterna. E eu, que já não tenho cinco anos nem acordo a gritar a meio da noite, também me deitei e adormeci com essa esperança...
(Afonso a ver o Liedson na televisão)
- Olha, mãe! Está ali o papá!
- O pai, filho?!
- Sim... mas era quando ele era mais escuro... Depois fez uma operação e ficou branquinho...
(e não conhece ele a história do Michael Jackson...)
O meu filho mais velho continua absolutamente tétrico, e as suas preocupações com a morte revelam-se quase todas as noites, nas nossas conversas antes de ir para a cama. E a de ontem foi assim:
- Ó mãe... se vires formigas na casa de banho, não ponhas veneno. Promete, está bem?
- Mas porquê, filho?
- Porque se eu tocar no veneno posso morrer...
(e arrependi-me imediatamente de lhe ter dito que ele não podia, de modo algum, tocar no buraquinho da parede que estava a servir de porta à entrada às formigas, e eu enchi de veneno)
- E eu não queria morrer já aos cinco anos, mamã... Ainda sou muito novo!
Não podia estar mais de acordo com ele! Mas a conversa tétrica continuou...
- Tu já viveste mais do que eu. És mais velha. Mas também é melhor não morreres, porque senão também morriam os bebés que tu tens na barriga...
Bem, parece que continuo a ter alguma utilidade neste mundo. Enquanto tiver os bebés na barriga, continuo a fazer falta ao meu filho. Espero que, depois deles nascerem, ele arranje outros argumentos para me tornar importante na sua vida...