É oficial. O meu filho Afonso quer ser escritor e anda a escrever histórias nos intervalos da escola, para depois oferecer. Bem... começou por oferecê-las... Mas, felizmente, para além dos genes da mãe, herdou também os genes do pai, por isso a dada altura resolveu começar a vendê-las.
- Vendê-las, Afonso?!
- Sim. Mas o Diogo Alves (leia-se compincha das escritas e do negócio) quer vender as histórias dele a 1 euro. E as minhas, como são mais pequenas, ele diz que só podem ser 50 cêntimos.
- Mas vocês estão mesmo a vender as histórias?! - eu ainda estava incrédula.
- Sabes que mais? Quem perde é ele... Como as minhas histórias são mais baratas as pessoas vão preferir as minhas... e eu vou ganhar mais.
Definitivamente, o meu filho vai safar-se muito melhor do que eu...

PS - O Duarte já corre tudo! Acabaram-se os gatinhanços em nossa casa. Já anda tudo a duas patas!
(Afonso) Ó mãe, eu acho que tenho o poder da água...

Tinha acabado de abrir uma caixa para um novo post. Não tinha nada a ver com poderes, mas o rumo da conversa não me deixou alternativa.

(Afonso) Eu não sei bem... mas acho que controlo a água. Vinha um bocado de água contra mim e eu afastei-a com a minha mão. Não tenho a certeza, mas acho que fui eu que a afastei...

Definitivamente, o meu filho anda a ver televisão a mais...
E, definitivamente, a mãe também...

(Mãe) Que sorte, Afonso. Agora só te falta controlar o ar, a terra e o fogo...
Gostava de não fazer tantas coisas. E de ter mais coisas feitas.
Gostava de não precisar de dormir. E de poder dormir mais.
Gostava de ter estado com o meu filho Sebastião quando ele levou 6 pontos no lábio. De ter atendido o telefonema da minha amiga no momento em que fez o teste de gravidez. De ter curado a gripe do meu marido. De ter estado na sala do Afonso quando ele teve azul na leitura. De não me ter esquecido de ligar à minha cliente a fazer o ponto da situação. De ter tido tempo para cortar a franja ao Duarte. De ter sido eu a ensinar a Leonor a chamar tonto ao irmão. De já ter acabado o meu romance. De não me ter esquecido de dar o antibiótico ao Sebastião. E de já ter pago o Seguro. Gostava de ter feito metade da lista de coisas que programei para hoje. E de ter jantado com a minha família sem ouvir o telemóvel. Gostava de hoje não ter pesadelos. E de amanhã já achar outra vez que chego para as encomendas.
Enquanto as televisões dissecavam o orçamento de Estado, e alarmavam o país com a palavra de ordem repetida vezes sem conta (CRISE, CRISE, CRISE, CRISE) resolvi ter uma conversa séria com os meus filhos mais velhos sobre o futuro.
- Então digam-me lá... o que é que vocês pensam fazer no futuro? - perguntei, depois de me cansar de berrar para eles comerem os cereais antes que estes empapem.
O Sebastião disse que queria ser polícia. Para matar os ladrões.
- Mas olha que ser polícia é perigoso... - disse o Afonso, preocupado com o irmão.
- Então não quero. Vou ser antes jogador de futebol.
- E consegues passar o dia todo a treinar? - perguntei eu. Ok, tendenciosa. Mas não me apetecia nada ter um filho futebolista, e ter que andar de estádio em estádio a dar-lhe força para ele enfiar uma bola na baliza.
- Ah, não... Assim ficava cansado.
- Então o que é que vocês gostavam de fazer o dia todo, que nunca vos cansasse?
Ficaram os dois calados. Mas a resposta era óbvia: brincar. O pai deu uma boa ideia ao Afonso:
- Podes ser tester de jogos. Passavas o dia a jogar.
Também podiam ser animadores da kidzania e passar o dia a brincar. Ou ser tratadores de animais e passar o dia no Zoo. E a conversa descambou para o disparate, mas a verdade é esta: mesmo com os tempos de crise que se avizinham, o melhor conselho que posso dar aos meus filhos é que eles descubram o que gostam realmente de fazer e o que lhes apetece fazer o dia todo, sem parar, com todo o gosto e vontade de fazer cada vez mais e melhor. Porque, com mais ou menos dinheiro, com melhor ou pior orçamento de Estado, com mais imposto ou menos portagem, não tenho dúvidas que é isso que os fará felizes...
Fim-de-semana sem Mila (leia-se o meu braço direito com a casa e com a filharada) é fim-de-semana de arrancar cabelos. Os mais velhos ainda conseguem estupidificar-se um pouco em frente à televisão, sossegados, enquanto eu arrumo a cozinha, e faço as camas, e preparo as refeições, entre telefonemas profissionais que não se compadecem do meu fim-de-semana por mês sem apoio (sim, felizmente a minha Mila só me abandona um fim-de-semana por mês. Um longuíiiissimo fim-de-semana de três dias que parecem três semanas). Mas os mais catititos não dão tréguas. Nem a televisão trava a sua ânsia de vida. A Leonor já corre tudo e o Duarte, embora mais preguiçoso, já faz longos trajectos sozinhos, e a melhor imagem que me ocorre é de duas baratas que, soltas no chão, disparam em velocidade contra o primeiro disparate. Ora é um que deita uma cadeira abaixo, ora é outro que despeja uma prateleira com roupa, outro entala os dedos na gaveta, outro trepa para cima da mesa, depois é um cocó até à costas, e outro logo a seguir que me obriga a mudar um e outro enquanto o outro e o outro se empoleira nas minhas pernas a gritar por atenção... São lindos, são a melhor coisa do mundo, mas o raio dos gaiatos dão trabalhooooo... Parecem caracóis, por onde passam deixam rasto, e por mais que eu lhes dê brinquedos eles sentem uma atracção fatal pelos talheres, os comandos, os telemóveis, os papéis da mãe, os TPCs dos manos, a máquina fotográfica do pai, o cabo do computador da mãe, as tomadas... e tudo o que tenha um grande P de Perigoso ou D de Disparate.
Amanhã pego neles todos e ponho-os a correr num sítio qualquer (depois de os vestir, preparar os lanches, as fraldas, as mudas, metê-los a todos no carro, chegar a qualquer lado... ui! Acho que vou sonhar com um plano B qualquer...)
É oficial! O Afonso aprendeu a andar de bicicleta. Depois de umas investidas da mãe, sem grande jeito para a didáctica do desporto (e eu lá conseguia largar o selim do rapaz? Só o imaginava a despenhar-se no passeio, por isso percorri quilómetros agarrada ao selim da bicicleta mínima, o que me valeu uma grandessíssima dor nas costas), o pai resolveu intervir e resolveu os medos do nosso filho mais velho (e os receios da mãe) com uns empurrões certeiros que o puseram a pedalar. Falta aperfeiçoar, mas se é como dizem, e de andar de bicicleta nunca se esquece, hoje o Afonso teve uma lição para a vida toda...
Enquanto os meus filhos cresciam, fiz tantos planos para o dia em que eles estivessem na escola Primária (ah, desculpem... 1º ciclo!). A escola vai ser uma descoberta, pensava. Vou transformar os TPC em magia, e a aprendizagem numa saborosa aventura. Imaginei-me a fazer teatros, a criar textos com eles, a desenhar letras nas paredes e a cantar a tabuada.
A verdade é que o meu único filho que já anda na Primária (ah, desculpem... 1º ciclo) chega a casa cansado de um dia inteiro na escola, eu também já estou cansada de um dia inteiro a trabalhar, e as fichas cinzentonas que ele traz para fazer não têm qualquer cor ou magia. Nem eu tenho já forças para transformá-las em tudo aquilo que tinha imaginado. Por isso saem-me aquelas frases que eu jurei a mim mesma que nunca iria dizer: "Escreve!", "Despacha-te", "Faz o que lá está", "Apaga e torna a fazer", "Não distraias o teu irmão", "Tens um boneco escondido no meio das pernas?!", "Não jogas Nintendo a semana toda" - e isto, claro, num crescendo absurdo de décibeis, enquanto o Sebastião aproveita para fazer disparates, os gémeos gritam para chamar a atenção e o jantar queima no forno.
Não é fácil... e todos os dias me deito e penso: Bolas! Eu queria tanto fazer da escola uma coisa mais divertida!
Felizmente, há dias diferentes. Hoje estava particularmente aliviada de trabalho, a Mila tratou dos gémeos, o jantar esperou porque amanhã é feriado e que se lixem as 8 horas em ponto para jantar, e estive a folhear revistas com o meu filho para descobrir animais, recortar partes deles e criar uma criatura imaginária a quem teríamos de dar um nome, um habitat, um tipo de alimentação e actividades preferidas. Não foi criação minha (com pena), era mesmo uma proposta do livro de Português do 2º ano, e fiquei feliz por saber que aqueles que se preocupam com a educação dos nossos filhos e concebem os manuais também procuram dar magia à vida deles...
Para que conste, a criatura cá de casa chama-se Olivar, tem cabeça de zebra, corpo de ovelha, pernas de cavalo, cauda de martim-pescador, chifre de veado e asas de andorinha, vive na casinha de plástico do nosso jardim, come gomas e adora brincar... comigo. (É como eu... - terminou o Afonso. Vivam os manuais escolares!)
Acho que os pais têm um dom. Um dom de nos tirar do sério quando os filhos choram à noite e eles não ouvem, quando eles estão a fazer uma asneira ao lado deles e eles não notam, quando os deixámos a cargo deles e eles se esqueceram da hora do almoço ou do lanche, ou lhes deram fast food para não terem trabalho. Os pais têm o dom de se esquecer dos filhos e usufruírem das férias em casal, e ainda acharem que podiam ter ficado mais dias. Os pais têm o dom de se esquecerem de tudo quando dá futebol, e de não conseguirem distinguir que roupas pertencem a que filho, nem a arrumação que a mãe resolveu dar às roupas.
Pais e mães são de espécies diferentes, definitivamente. E isso é tãooo bom! É verdade que estes pequenos dons dos homens (e atenção que estou a generalizar, para além de estar a exagerar, claro) às vezes nos irritam, mas os homens, depois, têm outros dons maravilhosos que nos escapam. Como brincar com os filhos sem os stresses do chapéu, e do agasalho, e da hora de comer e da hora de dormir. Brincam com gosto, e geralmente brincam melhor do que nós. Ontem à noite o pai dos meus filhos soltou esse seu dom maravilhoso e apareceu no quarto do Afonso enquanto eu lia a história. E começou a fazer batuques nas prateleiras dos livros. Um batuque aqui, um batuque acolá... uns minutos depois os meus filhos estavam a dançar que nem uns doidos no quarto, ao som dos ritmos improvisados do pai, e a noite terminou com grandes abraços e beijinhos de todos, e uma noite muito descansada. Os homens são assim (generalizando outra vez). Cozinham pouco, mas quando cozinham são grandes chefs. Brincam pouco, mas quando brincam criam momentos verdadeiramente mágicos aos filhos. Somos, de facto, de espécies diferentes, e por isso é que os filhos crescem dentro de nós, porque nós estamos cá para o bom e para o mau, para as brincadeiras e para os cocós e as birras. Mas sem um pai ao nosso lado a tornar o bom ainda melhor, também não teria tanta graça...
O meu Sebastianeto fez anos. 5. Uma mão cheia, como ele diz. O problema é que o irmão mais velho está quase nos 7 e põe e dispõe da vida do Sebastião. É sempre assim com os irmãos mais novos. E então quando eles ficam entalados no meio de outros, não há nada a fazer. São os esquecidos e aqueles que mais facilmente tendem a copiar uns e outros, em busca de um lugar e do merecido reconhecimento dos pais.
(mãe) - Sebastião, queres um bolo do quê?
(Sebastião) - Afonso, o meu bolo vai ser do quê?
O Afonso já ia mandar a sua laracha e comandar os destinos do aniversário do irmão, mas travei-o a tempo.
(mãe) - O teu irmão é que vai escolher o bolo! Estás proibido de dar sugestões, Afonso!
Depois de muito pensar (e como é indeciso este meu pequeno Balança) lá se decidiu pelo Odd do Code Lyoko. Não sabem o que é? Pois... eu também não sabia. Lá fui pesquisar na net e descobrir o boneco maravilha, difícil à brava de adaptar a um bolo, mas lá descobri uma senhora que me fizesse um bolo com aquele tema.
(mãe) - Sebastião, a mãe já conseguiu um bolo do Code Lyoko.
(Sebastião com olhinhos a brilhar) - A sério, mãe?
(mãe) - A sério. Quem vai fazer o teu bolo é uma senhora chamada Maria Biscoito.
(Sebastião com olhos tristes) - O quê? Não vais ser tu, mamã?
Não resisti a uma mentirinha piedosa. Disse que era eu... e a Maria Biscoito. Uma espécie de bolo a 4 mãos. Só omiti que a minha parte foi só a logística, mas quem aguenta ver uns olhos tristes como os do meu Sebastião?
O meu piolho mais velho escreveu o seu primeiro livro... (baba, baba, baba). Prestes a fazer 7 anos, quase que escapava àquele que eu desejava ser o desígnio da nossa família: escrever o primeiro livro aos 6 anos. A minha mãe ajudou-me a escrever o meu primeiro aos 6 ("Um pico meu amigo", qualquer dia vem a lume) e eu já andava de roda do Afonso há algum tempo para o ajudar a escrever o dele: Ó filho, se queres ser escritor, tens de escrever, okay? Foi com mais preguiça do que a mãe (mas pronto, não se pode herdar tudo. Ele tem outras coisas que eu gostava de ter herdado, como a lábia, tão importante nos dias que correm...), mas lá pegou nos lápis e escreveu na folha dobrada que eu lhe arranjei. Fez 2 pequenas histórias, inspiradas no meu livro das 100 Histórias do Outro Mundo, e escreveu "No planeta das caixas" e "No planeta dos jogos", cada uma com um pequeno desenho (ilustrados nunca será... valha-me Deus!). No dia seguinte fez a capa: escolheu o título, fez o desenho e pôs o nome (Afonso do Ó, nome artístico), e depois perguntou-me o que pôr na contra-capa. "Não precisas de pôr nada, Afonso. Já está muito giro assim", disse-lhe eu. Pedir-lhe que fizesse uma pequena sinopse do livro para encher o olho aos potenciais leitores era um pouco too much. Mas ele lá achou que tinha de pôr qualquer coisa nas costas, e passado algum tempo apareceu-me com algo escrito:

P: O que é um ladrão em cima de um saco de arroz?
R: Arroz malandro.

Resolvera pôr uma anedota... Nada mau para encher o olho aos colegas. Depois fizemos cópia para as avós, para a professora e para 2 amigos da escola. No meu tempo não havia scanners nem cópias a cores, por isso o original (e único exemplar) de "O Pico meu amigo" ficou mesmo perdido nas gavetas da minha querida professora da primária. Como os tempos são outros, e há que zelar pela matéria-prima, cedi as cópias scanerizadas e fiquei com o original. Não vá o rapaz ter mesmo futuro na área e o primeiro "livro", ainda que tirado meio a ferros, valha muito dinheiro. Uma coisa já valeu certamente, e essa não tem preço: o orgulho da sua "mami"...
Pronto, já está. Livros forrados, farda aprumada, mochila e material arrumado e identificado, e miudagem toda na escola a horas de se conseguir trabalhar sem a Disney de fundo, as picardias de irmãos, os pulos no sofá, as bolachas esmigalhadas no chão...
Poder trabalhar em casa é muito bom, mas o mês de Agosto é de arrancar cabelos. A verdade é que, agora que os "despejei" na escola, sinto a casa tãoooooo vazia... Valham-me os guinchos ultra-femininos da Leonor e os tombos do destravado do Duarte para dar algum colorido à coisa. Quando chegar a altura de também os "despejar" na escola, acho que arrendo um escritório no edifício dos Maristas só para não perder o "barulhinho" de fundo...
É oficial! A minha Leonor já anda!!! Aos 15 meses começou a dar uns passinhos sozinha, e hoje perdeu o medo e lançou-se pela casa fora, debitando aquele enxurrilho de sílabas que só ela entende, meio português meio ucraniano. Está esperta como tudo. Ralha com os irmãos, põe o chapéu para ir à rua, calça os sapatos, quer vestir-se sozinha, finge que está a ler livros, e agarra na sua escova dos dentes cor-de-rosa e no copo para lavar os dentes, tal e qual os irmãos!
O Dudu, mais abebezado, ainda dá uns passinhos de bailarinha, mas quando se trata de trapar às coisas passa à frente da mana. Já conseguiu saltar de uma cadeira da papa (atado!) e de uma cama de viagem, trepa pelas costas do sofá e pelas costas das cadeiras, para tentar ir para as minhas cavalitas. É bruto como tudo a defender o seu território, sobretudo da irmã. Mas quando se trata de receber miminhos da mamã, todo ele se enrosca e aninha como um bebé.
É impressionante como dois gémeos criados da mesma forma podem ser tão diferentes. Ele tão rapazola. Ela tão menininha. Ele tão abrutalhado mas ao mesmo tempo tão menino da mamã. Ela tão independente, de nariz no ar a querer fazer tudo sozinha. E ainda dizem que a educação dos pais é tudo. Eles já nascem com tanto, mas tanto deles... Nós, pais, fazemos o que podemos. Mas eles, de facto, são muito mais deles próprios do que nossos, e a nós cabe-nos (para além de fazermos o que podemos) assistir ao milagre da vida que se desenrola sob o nosso tecto, todos os dias...
(Sebastião a caminhar para mim, puxando os dois olhos com os dois):
- Ó mãe, os chineses devem ver mesmo mal...

(Afonso a chegar à esplanada):
- Estou a ver o pai ali ao fundo. Está a tomar café com outra loura...
(Mãe pitosga)
- O quê?! Aonde, Afonso?
(Afonso gozão, ultimamente viciado em séries juvenis da Disney e Nick)
- A mamã tem ciúmes do papá, a mamã tem ciúmes do papá...

Juro que nunca mais o deixo ver o Drake & Josh!
Depois de uma versão muito própria do "wakawakaué" do Mundial, os meus filhos mais velhos (4 e 6 anos. Tão velhos que eles são...) resolveram dedicar as viagens de ida e volta até Espanha a novas conspirações musicais. O primeiro alvo foi o hino dos Maristas, que acabou assim:

Somos Maristas de Carcavelos,
a nossa mãe é Sarinha
(supostamente era Maria...)
Somos Maristas de Carcavelos
e o Pai Pedro é o nosso guia,
E o pai Pedro é o nosso guia...
(pobre Champagnat, completamente relegado para segundo plano)

Em seguida resolveram discutir a letra de "Carta", dos Toranja:

(Afonso)
É que hoje acordei, lembrei-me, sou magro e feiticeiro...
(Sebastião)
Não é magro!
(Afonso)
Então como é que é?
(Sebastião)
É que hoje acordei, lembrei-me, de chamar o feiticeiro...
(Afonso)
Não é nada! Isto é a história de um homem e uma mulher! Vão chamar o feiticeiro para quê?
(Sebastião)
Por causa da bola de cristal que é feita de papel... Dahhh!
Depois de muito insistir, o Afonso lá teve a sua primeira carteira, para guardar o dinheiro que a avó lhe dera nas férias.
- Ó mami, posso ter semanada, posso? O Diogo Alves já tem...
Lá decidi com o pai que era demasiado cedo, e que ele teria de mostrar primeiro como geria o seu dinheiro, para nós começarmos a confiar nele.
- E cartões, mãe? Quando é que posso ter cartões?
- Se estiveres um mês sem perderes a tua carteira, a mãe dá-te um cartão.
O Afonso rejubilou. E desde então que não larga a sua preciosa carteira. Guarda-a, sobretudo, do Sebastião, irmão lampão que, como bom filho mais novo (ainda que tenha outros mais novos, mas que ainda não têm idade para entrar no campeonato), cobiça tudo o que o mais velho tem.
- Só podes ter carteira quando tiveres 6 anos, Titão. Ainda te faltam 2 anos. Mas o mano paga-te um Happy Meal.
Depois de dois dias a fazer contas, a pensar de que forma poderia dar uso ao seu dinheiro (decidiu inclusive ajudar o seu amigo Diogo Alves a juntar 50 euros. Porque ele gastava tudo o que recebia e precisava de ajuda...), resolveu que o primeiro gasto seria mesmo no Mac Donald's. Ainda comprou um pequeno dragão na livraria do Pingo Doce (para partilhar com o irmão) e depois levámo-lo ao Mac Donald's, para ele mostrar o que valia. Nervoso, fez a encomenda ao senhor. Um Happy Meal para ele e outro para o irmão. Pagou com a sua nota. Recebeu e guardou o troco. E ficou feliz. Muito feliz.
- Sebastião, quando tiveres 6 anos e tiveres a tua carteira, também vais pagar um Happy Meal ao mano, não vais?
E o Sebastião abanou a cabeça, contente. Foi quando o Afonso se saiu com esta:
- Ó mãe... daqui a quantos dias é que vou ter o meu cartão de crédito?
Bem... estava mais a pensar num cartão de uma loja... Quanto muito, no cartão de cidadão... Se bem que o meu filho portou-se à altura. Poupou, ponderou, acabou por gastar o dinheiro em comida, e ainda ajudou o irmão. Talvez ganhe um cartão de crédito a fingir...
Mas o melhor de tudo ainda foi vê-lo entrar no Aki, constatar que tinha dinheiro para comprar um tapete, e uma pequena torneira, e exclamar, satisfeito:
- É bom viver no mundo do dinheiro...
Bem, meu filho... Nem sempre é assim tão bom. Mas goza lá todas as vantagens enquanto podes...
A Leonor deu o seu primeiro passinho. Sozinha. Cheia de vontade de fazer sozinha e mostrar que não precisa de ninguém. A Leonor é assim. Mulher, nos seus quase 15 meses. Primeiro treinou sozinha a pôr-se de pé sem se segurar a nada. Treinou, treinou, treinou, e até batia palminhas a si própria quando conseguia. Ontem estava de pé, olhou para mim com aquele ar maroto, de desafio, que ela tem, e deu um passo. Depois riu-se, divertida, e bateu palminhas a si própria. Estava farta de tentar que ela andasse sozinha. "Anda, Nhocas! Vá... Um passinho... Aqui, Leonor...!" Mas nada. Ela nunca se deixou enganar. Pela mão já vai. Sem mão, não há nada para ninguém. Mas ontem fê-lo sozinha. Fez questão de fazer sozinha. E mostrar-me que era capaz. Promete...
Depois de uns dias sem os filhotes mais velhos, que foram para a praia com a avó, foi tempo de regressar a casa, aos quartos, aos brinquedos, aos mealheiros (para guardar a notinha de despedida da avó)... e também aos velhos disparates, claro. E também às histórias antes do deitar, que nas férias foram substituídas pelo Quem Quer Ser Milionário, dentro na cama, na ronha com a avó (e é para estas diferenças que também servem as férias... e os avós). E a história de hoje terminava com o velho provérbio "Mais vale tarde do que nunca". O Afonso aproveitou logo para concluir:
- Mais vale fazer os trabalhos no último dia de férias do que não os fazer...
Pois é, querido Afonso, mas não vais ter sorte nenhuma...
A conversa depois descambou (ou descambei-a) para os nossos sonhos mais profundos.
- Que sonhos é que vocês gostavam mesmo de realizar, meninos? Têm de ser aqueles sonhos que, mesmo que os realizem já muito velhinhos, valerão a pena...
- (Sebastião, o prático) Ter um Gormitti.
- (Afonso, o místico) Nunca morrer.
Definitivamente, tenho filhos muito diferentes... Só espero ter unhas para tocar as cordas todas...
Antes de mandar os mais velhinhos de férias, tive de proceder à sessão quinzenal de cortadela de unhas. Entre os 4 foram oitenta unhacas... Ainda tentei ir às do pai para chegar à centena, mas ele rabuja mais que os filhos...
Qualquer dia tenho unhas cortadas que cheguem para um diploma de manicura.


PS - Já como cabeleireira nunca conseguirei diploma... Cortei a franja ao Dudu mas não ousei tirar-lhe os caracóis que lhe serpenteiam o rosto. Resultado: transformei-o num pequeno Bee Gee... Lá se vão 10 euros no cabeleireiro, para remediar os estragos.
A propósito da morte do actor António Feio, voltou o tema da morte. Não nos filhos. Na mãe. Recebi vários mailes hoje sobre palavras que o actor tinha dito, conselhos que tinha deixado aos amigos, despedidas ao público em geral... e lembrei-me da carta que, em tempos, escrevi aos meus filhos. Não era uma carta qualquer. Era a carta que eu queria que eles lessem se um dia morresse de repente. Os gémeos ainda não existiam (e tempo para reescrever a carta?), e ainda não me pesava tanto a pergunta que carrego hoje: Como é que o meu marido se desenrascaria sozinho com 4 filhos?! Naquela altura a preocupação maior era outra (e ela continua grande): Que memórias guardarão os meus filhos da mãe, se eu partir agora? Sei que a memória é traiçoeira, e a das crianças apaga-se frequentemente para deixar espaço para tudo o que elas têm de aprender ainda (como perguntava o meu sobrinho Manel: Eu depois vou-me esquecer disto?). Quando se é adulto e nos morre alguém querido, guardamos dessa pessoa o melhor dela. Apaga-se o resto. E isso não é mau. Quando se é criança e morre alguém querido, não se apaga só o mau. Apaga-se também o bom. Frequentemente, apaga-se toda a pessoa. Tudo. Por isso, se eu desaparecesse naquela altura, desapareceria tudo. Na memória dos meus filhos ficaria apenas aquilo que o pai, a família e os amigos lhe diriam. A explicação das fotografias que veriam. A tristeza dos adultos, que passaria para as crianças. Ao ponto de as marcar. Ao ponto de os fazer associar à ideia da mãe uma tristeza infinita. Uma perda irreparável, de uma memória que nem é real, porque foi fabricada pelos outros.
Posso não estar certa. Espero continuar por cá para não ter de o comprovar. Mas, pelo sim pelo não, escrevi uma carta aos meus filhos. Uma carta bem disposta, a dizer-lhes que fui muito feliz com eles, e que a felicidade deles, daí em diante (depois de me perderem) não estava de modo nenhum dependente de mim. Chegara a altura de seguirem o seu caminho, e outras pessoas igualmente competentes os acompanhariam nessa viagem. E que eu tinha pena de não estar presente, mas que o exemplo de me perderem cedo lhes fizesse sentir uma responsabilidade maior de serem felizes todos os dias.
Poderia ter-lhes dito que ia ficar numa estrelinha. Num céu. Sempre ao lado deles. Mas essas mentiras (só porque não tenho a felicidade de acreditar nelas) deixaria para a boca dos outros. A minha carta seria para o caso de eles, assim como eu, não terem também a capacidade de acreditar em algo para além daquilo que temos aqui em baixo. Seria a minha verdade. E eu nunca minto aos meus filhos.

A carta existe. Terá de ser reescrita. E espero ainda escrevê-la muitas e mais vezes. Não porque conto ter mais filhos que me forcem a uma necessária actualização. Mas porque espero viver o suficiente para ver os meus filhos seguir os seus sonhos e serem felizes, anulando (por ausência de necessidade) linhas de conselhos e vontades minhas, até que a minha partida seja entendida como natural, a lei da vida, a memória já não seja uma traição, e não sejam já precisas mais cartas de despedida... Ou, a ela ainda existir, que seja apenas uma linha: "Foi um prazer estar convosco".
Amo os meus bebés! Mas não é que amo mesmo? E se estou espantada é que, depois de ter o Afonso e o Sebastião, perguntei-me várias vezes se ter mais filhos não implicaria ter de gostar menos de todos. Distribuir amor por tantos, não daria menos a cada um? E, de facto, quando os gémeos nasceram, senti-me culpabilizada, sem tempo para as histórias dos "mais velhos" (coitadinhos, tão pequeninos!), sem tempo para os miminhos, para as conversas, para as idas e vindas do colégio, os programas ao fim-de-semana... Pouco a pouco, felizmente, tenho recuperado isso tudo e agora... também estou apaixonada pelos meus gémeos. O Duarte com o seu sorriso fácil, destravado nas horas, trepa a tudo e gatinha mais veloz que um aranhiço, mas depois chora com o som da batedeira e dos estores, e trepa por mim acima quando vê a irmã a aproximar-se. Depois a Leonor, esperta como tudo, que faz gracinhas e bate palmas a si próprio, grita "três" depois de dizermos "um, dois" e só quer comer e vestir-se sozinha. É a minha bonequinha espertalhona. Amo-os muito, e penso, sempre que entro na cozinha, a preparar-me para os ouvir chorar e estender os bracinhos para eu lhes pegar: "em qual pego primeiro? Se eu gosto o mesmo e tanto dos dois..." Faço à vez, começo pelo que grita mais alto, ou pelo primeiro que apanho, e quase sempre acabo com os dois ao colo, a atropelarem-se pela minha atenção. Com os "mais velhos" (coitadinhos, tão pequeninos!) de férias, sou puxada daqui e dali, de atenção em atenção, de conversa em conversa, de proeza em proeza, de asneira em asneira... e é tãooooo bom! Se o meu amor chega para todos? Chega para estes e para muitos mais! Mas, pelo sim pelo não, acho que me vou ficar por aqui...