(Amiga da Nonô) Ó mãe da Nonô, a Nonô não me quer dar a mão!

Mãe ralha com a Nonô.

(Mãe) Então, filhota? Não estás a ser amiga... Porque é que não lhe dás a mão?
(Nonô) Porque ela tem as unhas compridas e arranha-me...

E é nestes singelos momentos, em que se degladiam a boa-educação e o instinto de sobrevivência, que nos perguntamos exatamente o que é o certo e o errado...
(Dudu) Mãe, eu queria dormir com o Mogli...

O Mogli é um boneco do tamanho de um dedo mindinho, que um menino da escola lhe deu. Descobri-lo às 21.30h da noite não seria tarefa fácil. Mas os olhinhos do Dudu eram de súplica sincera, foi impossível resistir-lhes.
Procurei no quarto, depois na sala, obriguei o pai a levantar-se para ver se não estava entre as almofadas do sofá, e quando estava prestes a desistir da busca o pequeno Mogli apareceu, no meio do chão.

(Mãe) Consegui, Dudu!
(Dudu) Obrigada, mamã. Vou dizer ao Pai Natal para ele te dar aquilo que tu queres. Pode ser um telemóvel novo, que o teu já está velhinho?

O sorriso agradecido dele já foi uma grande recompensa. Mas uma cunha ao Pai Natal para um telemóvel novo também nunca se recusa...
O Afonso já vai estudando sozinho para os testes, tenho-me limitado a imprimir-lhe testes e exercícios que felizmente se arranjam facilmente na internet, para ele treinar e testar se efetivamente sabe ou não sabe a matéria.
Mas sempre que ele tem teste de História, entusiasmo-me! Digo-lhe que o quero testar, para ver se ele sabe bem a matéria, e acabamos os dois a pesquisar coisas giras na internet sobre os temas que ele está a estudar.

(Mãe) Mas olha, filho... não é para pores isto tudo no teste... Isto é interessante para falares com o teu professor e discutirem isto na aula...

É que a pedra negra que está em Meca, na mesquita sagrada do Islão, foi, segundo os muçulmanos, a pedra que Adão terá levado consigo quando foi expulso do paraíso. Sendo que dizem que a pedra é um meteorito, será que o Adão era afinal uma criatura de outro planeta, e o paraíso uma civilização de outra galáxia ou dimensão? (e não posso descrever o que o meu filho delirou com estas possibilidades...)

E reza a lenda que o verdadeiro Afonso filho do conde D. Henrique e D. Teresa era na verdade uma criança raquítica que acabou por falecer. E que o Ega Moniz terá "dado" o seu filho aos condes para que ele assumisse o lugar do primeiro Afonso. A segunda hipótese é ainda mais falada: a de que, Egas Moniz, para substituir o frágil Afonso, terá levado para a corte o filho de um homem que encontrou pelo caminho. Este rapaz era forte e desembaraçado, um lutador por natureza, que efetivamente não teria problemas em lutar contra D. Teresa, que nem era sua mãe...

Enfim... e há tanto ainda por descobrir e revelar! Mas pelo sim pelo não, é melhor o Afonso ir debitando o que está nos livros, e deixe todas as outras histórias para o reino da ficção...


A Nonô mascarou-se, claro está, de princesa.
O Dudu, depois de dois meses a dizer que se ia mascarar de Homem Aranha, resolveu ontem à tarde que ia de Guerreiro Medieval, o grande protetor da princesa Nonô.
O Titão foi de guerreiro branco da Guerra das Estrelas.
E o Afonso, que este ano disse que já não ia mascarar-se (até porque hoje tinha aulas e até um teste), apareceu à última da hora com uns cornos na cabeça.

(Mãe) Vais de touro, filho?
(Afonso) Achas? Sou um minotauro...

Pois claro!

À falta de bom tempo para começar a preparar a nossa hortinha, vamo-nos valendo de uns "sucedâneos". A mãe arranjou uma mini-estufa (espreitar aqui) e o pai ontem apareceu em casa com esta nova forma de plantar cogumelos. Na mini-estufa só vimos crescer. Deste pequeno caixote espero que possamos ver... e comer!

O Sebastião andava com a mania de chamar os adultos de "você". Ouvi uma, ouvi duas, ouvi três, e finalmente lá arranjei um tempinho para ter com ele uma conversinha de pé de orelha.

(Mãe) Porque é que tratas os adultos por "você"?
(Titão) O pai é que me disse!
(Mãe) O pai disse-te para não tratares os adultos por "tu". Mas não precisas de os chamar de "você".
(Titão) Então chamo-lhes o quê?
(Mãe) Os avós tratas por avós, os tios por tios, os amigos que conheces bem pelo nome... e os outros, ou não tratas por nada, ou tratas por "senhor" e "senhora".

Franziu o sobrolho, pouco convencido. Eu sou a primeira a pôr em causa todas estas formas de tratamento e formalidades - para mim tratávamo-nos todos por "tu" e estava o assunto resolvido - mas parece-me importante ensinar aos meus filhos como lidar com quem gosta de ser tratado de determinada maneira, para que eles não pareçam grosseiros ou ofendam sem querer.

(Titão) "Senhor" e "senhora"?!

Comecei por dar exemplos, mas o sobrolho dele continuava franzido. Parti então para aquilo que eu acho que mais fica na cabeça das crianças: a simulação e a teatrada. Ele fazia de Sebastião, eu fazia dos outros todos. Comecei por ser os avós. Depois fui os tios. E depois fui os outros. Primeiro uma velhinha simpática a quem ele precisa de pedir passagem: "A senhora dá-me licença?". Depois, um homem numa casa de banho masculina, a quem ele precisa de pedir papel higiénico, porque fez as suas necessidades sem assegurar a respetiva quantidade.

Eu sei, eu sei... foi uma ideia imbecil! Mas como ele agora quer ir sempre à casa de banho dos homens, já me tinha perguntado imensas vezes o que ele faria se se visse sem papel. E só quando dei por mim a fazer de homem num urinol, com ele a fazer um rapaz na sanita, é que percebi a embrulhada em que me metera...
Claro que a gargalhada foi inevitável, e o exercício teve de ser ficar por ali. Mas a verdade é que agora, sempre que ele agora se dirige a alguém mais velho, olha para mim com ar maroto e diz-me: "Como na casa de banho dos homens..." A prova de que, pela via do disparate, se podem passar bons ensinamentos para a vida...


O Dudu escolheu este livro na biblioteca da escola e a mamã, que já era fã do outro livro infantil do João Miguel Tavares ("Uma Baleia no Quarto!), imaginou logo uma bela sessão de leitura e gargalhada. Não se enganou. A história era, na verdade, muito simples: um menino endiabrado achava que o seu pai era o mais horrível do mundo porque não o deixava fazer as suas diabruras. Mas as lições a tirar eram muitas. E claro que a pergunta se impôs:

(Mamã) Dudu, quem é te faz lembrar este menino?
(Dudu) Eu!
(Mama) E quem é que te faz lembrar este pai?
(Dudu) Tu!

Eu diria que a consciencialização do problema é um primeiro passo para a sua resolução. Mas enquanto não damos todos os outros passos que faltam, ele continuará a ser o filho endiabrado e eu a mãe mais horrível do mundo...

Uma feirinha imperdível por todas as razões e mais algumas. Deixo apenas três:

- Promovida pela Sofia do blog 4D, que é cheia de iniciativa e não vai perder esta oportunidade de fazer uma grande festa para pais e filhos.
- É em Évora, cidade lindíssima onde tive a sorte de crescer e viver até aos 18 anos.
- Eu vou lá estar para contar um conto. Darei mais pormenores muito em breve.

12 de abril: esperamos por vocês!
À conversa sobre o nascimento dos gémeos, acabei por revelar ao meu filho Afonso que ele também teve um gémeo, na minha barriga, durante 8 semanas. O outro embrião acabou por não se desenvolver e o Afonso cresceu sozinho. Não sei porque nunca lho tinha contado,
se já lhe falei tantas coisas do tempo em que ele estava na minha barriga. Mas a verdade é que acabei por me arrepender logo a seguir, depois de o ouvir conversa com o "Kevin".

(Mãe) Quem é o Kevin?
(Afonso) O meu mano gémeo. A partir de agora vou conversar muito com ele.
(Mãe) NMas Kevin?!
(Afonso) Deste-lhe nome?
(Mãe) Não, filho. Foi mesmo no início da gravidez.
(Afonso) Então é o Kevin. Deseja boa noite ao Kevin, mãe.

Nunca foi de ter amigos imaginários, mas ao 10 anos arranjou um demasiado especial...
Dudu faz o seu xixi na casa de banho do hall de entrada. Segundo descrição do avô, distrai-se e lança um esguicho em direção ao chão. Descontraidamente pega na toalha de secar as mãos e limpa o chão sujo, voltando depois a colocar a toalha no sítio.

Agora percebem porque é que convidamos tão pouca gente a vir a nossa casa...
Quando tinha 18 anos, resolvi inscrever-me num casting para um musical. Gostava de cantar, de dançar e de representar e, no dia marcado, lá apareci, bem disposta, sem noção nenhuma do que se iria passar. O casting era na Malaposta e, quando entrei, é que percebi o grande erro que cometera. À minha volta via jovens a fazer vocalizos complexos, outros a aquecer com passos de dança complicados... Pareciam todos profissionais e eu não passava de uma menina que simplesmente gostava de dançar, de cantar e de representar.
O meu casting foi uma desgraça completa. Os outros candidatos levavam peças e coreografias preparadas, e eu limitei-me a cantar o “Arménio” à capela e a dançar tristemente uma música que o júri pôs a tocar, do Pedro Abrunhosa.
Quando contei no outro dia este episódio humilhante da minha vida aos meus filhos, eles riram-se muito e o mais velho perguntou-me:

(Afonso) Porque é que nos estás a contar isso? Não era suposto teres vergonha?
(Mãe) Vergonha de quê? Os nossos erros não devem envergonhar-nos. Nunca! Se a mãe não tivesse lá ido, nunca saberia o que era um casting, nem poderia ensinar-vos o que era, ou ajudar-vos a fazer melhor figura do que eu, se um dia quiserem participar num. E além disso, se a mãe não tivesse esta história para contar, vocês nunca se teriam rido como acabaram de rir. Só por isso, não acham que já valeu a pena?

Eles acharam que sim e eu também. E dei por mim a pensar no que eu gostava de ouvir a minha mãe contar como era teimosa em pequena, ou as histórias das aventuras endiabradas do meu pai. Os filhos não estão à espera que sejamos super-homens e super-mulheres. Que tenhamos tido uma vida imaculada e que tudo tivesse resultado sempre de forma perfeita. Os filhos gostam de saber que os pais erraram, que têm defeitos e que os assumem, e sobretudo que se fizeram à vida. Que foram atrás dela, arriscaram, aventuraram-se, experimentaram, viveram! Que erraram umas quantas vezes, sim, como eles também vão errar e ainda bem.
Viver é uma excelente oportunidade para errar, ou não fosse errando que se acerta também...
(Afonso) Mãe, um dia vais ter de me ensinar a pôr esta criatividade toda que eu tenho ao serviço de alguma coisa de jeito.
(Mãe) Claro que sim, filho. O importante é que vás sempre atrás daquilo que gostas de fazer. Se és criativo, já sabes que terás de fazer alguma coisa criativa.
(Afonso) Mas imagina que eu me torno um assassino que mata pessoas criativamente?

E só mesmo um filho criativo teria uma ideia destas.......
(Dudu) Mãe, agora para entrares no meu quarto tens de pôr o código...


Com uma caderneta dos AngryBirds, aberta na lista de números em cima de um balde, improvisou um sistema potente de código, alterável todos os dias.

(Dudu) Eu agora ensino-te. Mas amanhã já mudou.

Nem o que ele me ensinou, composto por alguns vinte números, consegui fixar. E o de amanhã promete ser pior (ou não estivesse ele a imitar o seu papá, que todos os dias muda o código do iPad). Acho que tão cedo não vou conseguir entrar no quarto do meu filhote...

(Afonso) Olha, mãe, desenhei a minha mente...

Da janela do seu quarto - a sua realidade - Afonso vê, no topo, os seus medos e dos seus ódios (com uns coleguinhas e uns professores). A meio, os seus sonhos: "Eu sempre sonhei ter uma casa no cimo de uma montanha!". Em baixo, a sua imaginação, onde está um Templo do Sol Maia, onde ele tantas vezes se imagina a viver. A separá-lo dos seus três mundos, o Afonso tem uma grandiosa cascata mental.

Algumas conclusões possíveis:
- Os medos e os ódios estão a ocupar espaço que podia ser dos sonhos e da imaginação. Devemos eliminá-los para que o resto tenha mais espaço para fluir.
- A cascata mental, às vezes, torna-se uma barreira intransponível. Não podemos deixar que a mente nos bloqueie o acesso aos sonhos e a imaginação. Em última instância, se quisermos, podemos trazê-los para a nossa realidade...

(Afonso) Tipo... trazer um templo Maia para o nosso jardim?!
(Mãe) Ou talvez possas construir um no topo de uma montanha...
Sebastião furioso com o mano mais velho:

(Mãe) Não podes ligar ao que ele diz...
(Sebastião) Eu sei! A água do rio tem de correr...
(Mãe) ???
(Sebastião) As palavras dele têm de passar por mim como a água de um rio. Passam e seguem o seu caminho.
(Mãe) É isso mesmo! Mas onde é que tu ouviste isso?
(Sebastião) Nas tartarugas Ninja!

E pronto, é isto. A mãe esforça-se por dar sermões atrás de sermões, e os grandes ensinamentos eles aprendem-nos... nos desenhos animados!
Há quem se dedique a fazer vídeos inspiradores para mudar a nossa concepção do mundo e nos encher de força para o mudar. Não sei quem são, mas estão a conseguir fazer a diferença, a avaliar pelos milhares de visualizações que cada um capta e os comentários maravilhosos que cada um deles recebe.
Há muita coisa que os meus filhos têm de ouvir da boca da sua "mãe chata", que se calhar podem simplesmente ver num vídeo que o fará rir e entender o porquê das coisas sem sermões... Se santos da casa não fazem milagres, talvez os milagrosos filmes o consigam...

Hoje, quando chegarem da escola, em vez de me ouvirem, os meus filhos vão ver este vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=FQEM6JcRUrY
E espero que acreditem mais um bocadinho (para a chata da mãe deles não ter de estar sempre a repeti-lo) de que, por mais minúsculos que eles se sintam, eles são mesmo capazes de mudar o mundo. Só precisam de ter coragem, fé, persistência e criatividade...
E quando recebemos um mail de uma mãe do escola, com informações importantes, e todos os pais respondem? (28 emailes)
E quando recebemos o mesmo de uma mãe da turma de outro filho nosso? (+ 28)
E ainda mais outro, de outra mãe da turma de outro filho nosso? (+ 28)

Fora todos os outros emailes do trabalho e dos amigos, são cerca de 80 emails por ler e arrumar.

É caso para dizer: ainda bem que tive dois filhos gémeos!
A maravilhosa e poderosa inocência das crianças, aqui testada neste vídeo delicioso, onde se tenta convencer 4 meninos de que havia um senhor com um pássaro dentro da barriga...

https://www.facebook.com/video/embed?video_id=10201607427566050
Mãe a dar pressa aos filhotes. Para aqui, para acolá, para cima, para baixo, depressa, veloz.

(Afonso) Quem me dera ser filho de uma mãe-caracol! Andar devagarinho, a apanhar sol e curtir a vida... Nunca mais faço apostas com Deus!
(Mãe) O quê?!
(Afonso) Ele garantiu-me que 7+7 era igual a 7x2. Mas não é! O resultado pode ser o mesmo, mas a maneira de lá chegar não é igual! E agora é isto...
(Mãe) Sabes que a esperança média de vida de um caracol é entre 5 a 10 anos. Se não forem esmagados ou comidos entretanto. Por isso não te queixes e despacha-te.
(Afonso) Se calhar vou antes pedir para ser mosca. Ah, não, espera! Vivem para aí uns 10 dias. E comem cocó...
(Mãe) Eu se fosse a ti aproveitava a vida que tens. E a mãe também...

Há diálogos que não são para comentar. Limito-me a postá-los para o caso de um dia não acreditar que eles existiram mesmo a caminho de casa...


Afonso observa, no carro, a pele do Sebastião, e grita:

(Afonso) Socorro, mãe! O Sebastião está a sofrer uma metamorfose!!!!

Era só uma alergia. Mas as metamorfoses não tardarão, cá por casa...