Mamã e Dudu a sacudirem a toalha de mesa, na escuridão:

- Onde é que está a Lua, mamã?

Mamã olha à sua volta. Vê as estrelas, mas não vê a Lua.

- Se calhar está escondida atrás de uma nuvem.
- Que dia é hoje, mãe?
- Domingo.
- Ah, é isso. Aos Domingos a Lua não vem.

E pronto. O Dudu é que percebe destas coisas...
Os distritos, ao meu filho Titão, causavam-lhe a mesma repugnância que eu teria pelos clubes de futebol, se me obrigassem a decorá-los. Sem qualquer sentimento de ligação ao nome de terras que desconhece (até mesmo à sua, que não sente propriamente como sua, porque o nosso envolvimento na comunidade local é escasso), o seu cérebro, simplesmente, ignorava tal matéria.
O corpo humano interessava-lhe - e decorar o que se entende é outra coisa... - mas decorar os distritos soava-lhe a verdade massacre (e obrigá-lo a decorá-los, uma verdadeira tortura também para mim!).
Só conseguimos contornar a questão quando fomos criar "relação" com cada um dos distritos: Porto é onde a mãe nasceu, em Aveiro é onde o F. passa férias, em Coimbra nasceu o teu primo, em Évora vivem os avós, em Setúbal trabalha o pai do T., e por aí fora. Depois treinámos a localização espacial, com treino visual, baralhando os nomes que ele tinha de associar a um determinado espaço, no mapa de Portugal.



Distritos assimilados (espero eu)! Faltava atacar as ilhas, e aí não havia relação empática possível, porque nem eu nem ele temos conhecimentos para aquelas bandas. Mas sendo os nomes das ilhas tão sugestivos, fomos lá pela via da parvoíce.

- O grupo oriental fica do lado do Oriente, no planisfério. Tem duas ilhas - dois olhinhos em bico - com nome de gente: Maria e Miguel. São bem santinhos, por sinal. Santa Maria e São Miguel (que é o maior, ou não fossem os rapazes, em geral, maiores dos que as miúdas).
- O grupo ocidental fica do lado do Ocidente, no planisfério. Tem também duas ilhas, que lembram o nosso jardim, com um Corvo em cima de Flores.
- O grupo central, como o nome indica, é o do meio. Lá encontramos o Jorge (que tem o nome do primo, que também é um santinho), apaixonado pela Graciosa, que está por cima dele. Por ela, ele subiu ao Pico (em baixo), com o seu cão Faial (à esquerda). À direita, está a Terceira. Porquê, não sei. Não houve imaginação para mais.


Se isto é pedagógico ou não, não faço ideia. Mas sei que até eu, que não sabia bem a disposição das ilhas açorianas, já não me esqueço delas tão cedo!

Agora é ver como corre o teste de amanhã...
(Mãe) Afonso, vai estudar!

(Afonso) (Olhos molhados)

(Mãe) Afonso?!

(Afonso) Os fins-de-semana deviam servir para as crianças descansarem, não era para terem de estudar ainda mais.


Opá... partiu-me o coração! Mas e os três testes que tem para a semana?
E quando o filho leva o livro da mamã para a escola, apresenta-o à turma e leva 4 Estrelas em "Cidadão Ecológico"?

A escritora ficou orgulhosa. Mas foi a mãe quem ficou mais feliz. Há alguma coisa que pague um abraço e um "Obrigado" de um filhote?

http://www.fnac.pt/Sermao-dos-Peixes-aos-Meninos-Sara-Rodrigues/a327565
A teatrada deste mês foi o "D. Quixote", no Teatro Armando Cortez. A peça era para maiores de 6 e os pequenotes só tinham 4, mas aguentaram-se muito bem, de olhos pregados nas maluquices do D. Quixote, no mau feitio da Dulcineia, na graça do Sancho Pança e do barbeiro...
Resultado: uma tarde bem passada e uma brincadeira boa a seguir:

(Dudu) Eu sou o D. Caixote.
(Nonô) Eu sou a Dulce.

Sobrou para mim o Sancho Pancho...

As coisas que eu descubro nos cadernos do meu filho...

E quando os manos mais velhos apontam no quadro da cozinha os seus testes e os manos mais novos se divertem a ir, à socapa, apagar as datas? E o fim de semana ainda só começou...

Foram hoje aprovadas no Parlamento recomendações ao governo para que as famílias numerosas paguem menos impostos. Daqui a 15 dias vota-se a redução do IMI. São migalhas, num país que já não vai a tempo de inverter a sua taxa de natalidade, o que consequentemente se traduzirá, a médio prazo, numa gravíssima carência de mão de obra ativa. Contorná-la, só se o número de horas semanais de trabalho subir para as 60, ou se a reforma passar para os 80 anos... Não sei... Sei que, em qualquer das hipóteses, vai "sobrar" para todos nós.
Enfim, são migalhas, num país em que toda e qualquer criança devia ser tratada como um bem valioso, e os seus progenitores, educadores e professores preparados e valorizados para serem árvores sólidas, suportes necessários para as sementes do futuro.
Mas grão a grão enche a galinha o papo. São migalhas, mas venham elas e depressa!
Obrigada, APFN, pela vossa luta, que é não só em prol das famílias numerosas, mas de todo o país e de todos os portugueses, para um futuro próximo que todos tendemos a esquecer...

http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2013/10/18/aprovadas-recomendacoes-para-que-familias-numerosas-paguem-menos-impostos



Dudu e Nonô terminam de se lambuzar num gelado da Olá:

(Dudu) Posso pôr o papel no chão?
(Mãe) Claro que não, filho! E tu sabes porquê. Não podemos poluir o nosso planeta, que é a nossa casa.
(Nonô) Pois não. Senão a Terra fica muito fraquinha, desmaia e depois vai começar a tremer.

A ideia é um bocadinho assustadora, mas não anda muito longe da verdade, não senhora...
E depois de uma hora a tentar "despachar" os filhotes, por entre vozes de comando e ralhetes diversos, meto-os no carro, faço umas curvas por entre novos raspanetes e recomendações, e eis que me deparo com isto:


O raspanete ficou a meio, e não consegui dizer mais nada que não fosse isto:

- Já viram como o céu e o mar estão bonitos?

Colaram os vidros à janela do carro, contemplando.

- É o sol a acordar.
- Mamã, quando é podemos voltar à praia para apanhar conchinhas?

Pus uma musiquinha suave e seguimos, embalados, até à escola, sem mais ralhetes nem confusão, que de repente perderam todo o sentido. Mais um dia nascia no horizonte. E era belo, como todos os outros. Estragá-lo para quê?
Uma reportagem sobre o ensino em casa, que dá que pensar.

http://sic.sapo.pt/Programas/boatarde/2013/10/16/boa-tarde---programa-de-15-de-outubro

Nos dias 26 e 27 de outubro a MEL (Associação Movimento Educação Livre) promove um Encontro sobre Educação Livre. Prometo divulgar as conclusões.
Afonso em êxtase a investigar sobre ecologia:

- Mãe, sabes que quando me lançam um desafio, fico logo super empenhado? Acho que é essa a minha mais-valia.
- Isso foi algum professor que te disse?
- Não, fui eu que cheguei a essa conclusão.

De convencido e gabarolas, já não passa. Mas neste ponto não lhe podia dar mais razão.


- O problema é quando os trabalhos são em grupo e alguns colegas não se empenham. É um bocadinho desmotivante, porque não perdem só eles. Perdemos todos.


E sou obrigada a concordar novamente. Sei que devia dizer-lhe que a obrigação dele era motivar os colegas... e que o trabalho de equipa é isso mesmo. Mas eu bem me lembro da tortura que era trabalhar com colegas desmotivados! Felizmente, também me cruzei a vida toda com pessoas com quem adorei trabalhar, prova irrefutável das virtudes do trabalho de equipa, cruzando as pessoas certas no trabalho certo.

Acabei a investigar com ele. E o que é uma família senão uma equipa, desejavelmente hipermotivada para os desafios que lhe surgem todos os dias?


Acabo de constatar que a minha geração foi a primeira a crescer a comer carne e peixe todos os dias, às vezes em doses "industriais" e recheados de molhos de pacote. A comer com frequência todo o tipo de fast food e a ir lanchar bolos processados, folhados, pacotes de tudo e mais alguma coisa cheios de químicos e conservantes.
Basta recuar uma geração para perceber como era diferente a alimentação no país. Na infância dos nossos pais, comia-se carne e peixe de vez em quando e esta ainda crescia no campo ou no mar/rio, de forma natural. O recurso a pesticidas, hormonas, rações industriais estava muito longe de ser o que era hoje. Os legumes, frutas e cereais cresciam no campo, ao sabor das estações, sujeitos às intempéries, sim, mas com tudo aquilo de natural que, sempre, ao longo da História do Homem, foi o seu sustento.
Que consequências teremos, de tudo aquilo que fizemos da nossa alimentação?
É certo que se fala cada vez mais no combate ao sedentarismo e no regresso a uma alimentação mais "natural" e biológica. Mas ainda há tanto por fazer nessa matéria... Basta passear por um supermercado para perceber como as alternativas são poucas e caras. Em muitos casos mesmo inexistentes. E a verdade é que, atrás de nós, vem toda uma geração criada, desde logo, com aquilo que começamos a perceber ser um atentado ao natural funcionamento do nosso organismo. E, entre o perceber e o colocar na prática, ninguém faz ideia nenhuma do que o "progresso", a este nível (como a tantos outros), pode fazer de nós.


Ainda hoje é Terça-feira e a semana já está a revelar-se das mais desastrosas do ano, em termos de comportamento... um vermelho para um, um "vai lá fora apanhar ar" para outro, a Nonô teve de mudar de mesa para comer em silêncio, e só do pestinha Dudu é que ninguém, milagrosamente, ainda fez queixa. Mas a semana ainda nem vai a meio...
Excesso de energia, falta de controlo, irrequietude crónica... o que fazer? Relativizar ou aplicar um daqueles castigos que os vai fazer pensar duas vezes antes de voltarem a portar-se mal?
É difícil encontrar a solução milagrosa que os transforme em anjinhos na sala de aula, mas entre uns castigos e umas ensaboadelas das antigas, resolvi experimentar pedir-lhes que fizessem o seu compromisso para o resto da semana. O do Sebastião foi oral, mas ao Afonso já pedi que escrevesse.

- Vais escrever o que pretendes fazer para mudar o teu comportamento.

Começou por fazer um plano de intenções: não posso falar nas aulas, tenho de esperar a minha vez para falar, e blablablablablabla.

- O que escreveste são coisas que tu já sabes e que mesmo assim não fazes, porque te esqueces e não te controlas. O que eu te pedi que escrevesses foi estratégias novas para não te esqueceres e te conseguires controlar.
- Mas como é que eu sei?
- Inventas!


"- Quanto tenho muitas coisas para dizer, passo-as (no caderno) e espero pela minha vez.
- Antes de entrar na aula respiro fundo.
- Penso que sou um menino de 9 anos antes de dar uma resposta."

Não sei se terá resultados práticos, mas pelo menos saiu-lhe qualquer coisa de diferente. Se uma das estratégias já o ajudar a melhorar, acho que valeu a pena.
Com o teste de Português à porta, pedi ao Afonso que escrevesse uma carta, para treinar o registo.

- Queres que escreva uma carta a quem?
- Sei lá, Afonso. Qualquer coisa criativa.
- Posso escrever uma carta à Cuca (cadela).
- Se isso é o mais criativo que consegues fazer...

Ui! Piquei-o. Pouco depois tinha isto em cima da minha secretária:


"Ex.ma Voz da Casa dos Segredos,
estou a comunicar-te para te pedir que expulses a Doriana Mirandolino, porque ela mandou um biface à Madelene.

Do teu futuro amigo,
Afonso"

A data da carta era 205 a.C. Um biface é um instrumento pré-histórico. A Doriana e a Madelene são nomes que ele imagina da pré-história.
Acabei a pedir-lhe que moderasse a sua criatividade no teste, ou pode correr-lhe muito mal...
A caminho da escola:

- Ó mãe... se há tantas religiões com ideias diferentes, porque é que eu hei-de acreditar numa e não acreditar noutra? Como é que eu sei que uma está mais certa do que as outras? É só porque me dizem que sim?

Depois de uns bons anos a dizer-lhe para pensar pela sua cabeça, porque as grandes respostas são aquelas que nós encontramos dentro de nós, não me surpreendeu, de todo, a pergunta. E o que dizer-lhe, senão a verdade que encontrei dentro de mim (e que lhe transmiti mais ou menos assim)?

- Mais importante do que a religião em que acredites, é a forma como vives a tua vida. Tu já sabes como te deves comportar, como deves lidar com os outros, a importância de respeitar e ajudar... Sabes que deves lutar pelos teus sonhos e tentar tornar este mundo um bocadinho melhor, da forma que souberes e puderes. E sabes isto porquê? Porque te sentes bem, quando o fazes. Isto é aquilo que eu acho o mais importante e é que aquilo que eu acho que te pode fazer feliz, fazendo os outros também mais felizes. Fora isso, podes questionar-te o que quiseres, sobre o que quiseres, e procurares as tuas próprias respostas e certezas. Desde que respeites quem já encontrou as suas, e que podem ser diferentes das tuas.

Mandou-me um sorriso pelo espelho retrovisor e seguiu sorridente, em direção à escola. Não faço ideia se disse o que devia dizer ou não (haverá quem ache que sim, quem achará que não, como em tudo na vida) mas não saberia dizer nada diferente.




Dudu, do nada:

- Ó mãeeee... eu não quero que tu sejas velhinha.
- Então porquê, filho?
- Porque eu não quero. Podes ficar sempre assim?

A resposta é não, mas não disse nada e calei-o com um abraço apertadinho. Um dia aceitará o ciclo da vida, e talvez nessa altura, se tudo correr bem, a mãe já será velhinha e sorrirá de satisfação...
(Nonô) Mamã... quando eu fizer anos quero um bolo das Winx.
(Dudu, logo em seguida) Mamã... quando eu fizer anos quero um bolo do Marcelino!

O Marcelino (Champagnat) é o santo fundador da escolinha que eles frequentam. Como fazer um bolo dele sem cair em heresia, é que não vai ser fácil...

Hoje a tia I. deixou cá em casa uns 6 sacos gigantes com roupa que já não serve aos primos. E a alegria foi tanta, que estivemos mais uma hora de roda deles, a ver o que servia a quem, o que havia de igual para os manos, e quantos palmos tinha a Nonô de crescer para caber na roupa da prima M.
Lembro-me tão bem quando chegavam a minha casa os sacos com roupas das minhas primas... eu era a mais nova do lado materno e fui a mais nova, durante uns bons anos, do lado paterno, por isso chegava-me lá a casa um pouco de tudo, para eu escolher e experimentar.
Agora a história repete-se e, depois dos meus filhos, a roupa tem servido a muitos amigos, num vai e volta que me dá muito gozo, e que tem enchido a minha cave de caixotes com roupinhas de todos os tamanhos, para ambos os sexos.

Obrigada, tia I!
Depois de ouvir o anúncio da Gillette que pergunta ao telespetador "Do que é que está à espera para usar?", o Afonso saiu-se com a resposta óbvia:

- Estou à espera de ter barba!