O meu Sebastianeto fez anos. 5. Uma mão cheia, como ele diz. O problema é que o irmão mais velho está quase nos 7 e põe e dispõe da vida do Sebastião. É sempre assim com os irmãos mais novos. E então quando eles ficam entalados no meio de outros, não há nada a fazer. São os esquecidos e aqueles que mais facilmente tendem a copiar uns e outros, em busca de um lugar e do merecido reconhecimento dos pais.
(mãe) - Sebastião, queres um bolo do quê?
(Sebastião) - Afonso, o meu bolo vai ser do quê?
O Afonso já ia mandar a sua laracha e comandar os destinos do aniversário do irmão, mas travei-o a tempo.
(mãe) - O teu irmão é que vai escolher o bolo! Estás proibido de dar sugestões, Afonso!
Depois de muito pensar (e como é indeciso este meu pequeno Balança) lá se decidiu pelo Odd do Code Lyoko. Não sabem o que é? Pois... eu também não sabia. Lá fui pesquisar na net e descobrir o boneco maravilha, difícil à brava de adaptar a um bolo, mas lá descobri uma senhora que me fizesse um bolo com aquele tema.
(mãe) - Sebastião, a mãe já conseguiu um bolo do Code Lyoko.
(Sebastião com olhinhos a brilhar) - A sério, mãe?
(mãe) - A sério. Quem vai fazer o teu bolo é uma senhora chamada Maria Biscoito.
(Sebastião com olhos tristes) - O quê? Não vais ser tu, mamã?
Não resisti a uma mentirinha piedosa. Disse que era eu... e a Maria Biscoito. Uma espécie de bolo a 4 mãos. Só omiti que a minha parte foi só a logística, mas quem aguenta ver uns olhos tristes como os do meu Sebastião?
O meu piolho mais velho escreveu o seu primeiro livro... (baba, baba, baba). Prestes a fazer 7 anos, quase que escapava àquele que eu desejava ser o desígnio da nossa família: escrever o primeiro livro aos 6 anos. A minha mãe ajudou-me a escrever o meu primeiro aos 6 ("Um pico meu amigo", qualquer dia vem a lume) e eu já andava de roda do Afonso há algum tempo para o ajudar a escrever o dele: Ó filho, se queres ser escritor, tens de escrever, okay? Foi com mais preguiça do que a mãe (mas pronto, não se pode herdar tudo. Ele tem outras coisas que eu gostava de ter herdado, como a lábia, tão importante nos dias que correm...), mas lá pegou nos lápis e escreveu na folha dobrada que eu lhe arranjei. Fez 2 pequenas histórias, inspiradas no meu livro das 100 Histórias do Outro Mundo, e escreveu "No planeta das caixas" e "No planeta dos jogos", cada uma com um pequeno desenho (ilustrados nunca será... valha-me Deus!). No dia seguinte fez a capa: escolheu o título, fez o desenho e pôs o nome (Afonso do Ó, nome artístico), e depois perguntou-me o que pôr na contra-capa. "Não precisas de pôr nada, Afonso. Já está muito giro assim", disse-lhe eu. Pedir-lhe que fizesse uma pequena sinopse do livro para encher o olho aos potenciais leitores era um pouco too much. Mas ele lá achou que tinha de pôr qualquer coisa nas costas, e passado algum tempo apareceu-me com algo escrito:

P: O que é um ladrão em cima de um saco de arroz?
R: Arroz malandro.

Resolvera pôr uma anedota... Nada mau para encher o olho aos colegas. Depois fizemos cópia para as avós, para a professora e para 2 amigos da escola. No meu tempo não havia scanners nem cópias a cores, por isso o original (e único exemplar) de "O Pico meu amigo" ficou mesmo perdido nas gavetas da minha querida professora da primária. Como os tempos são outros, e há que zelar pela matéria-prima, cedi as cópias scanerizadas e fiquei com o original. Não vá o rapaz ter mesmo futuro na área e o primeiro "livro", ainda que tirado meio a ferros, valha muito dinheiro. Uma coisa já valeu certamente, e essa não tem preço: o orgulho da sua "mami"...
Pronto, já está. Livros forrados, farda aprumada, mochila e material arrumado e identificado, e miudagem toda na escola a horas de se conseguir trabalhar sem a Disney de fundo, as picardias de irmãos, os pulos no sofá, as bolachas esmigalhadas no chão...
Poder trabalhar em casa é muito bom, mas o mês de Agosto é de arrancar cabelos. A verdade é que, agora que os "despejei" na escola, sinto a casa tãoooooo vazia... Valham-me os guinchos ultra-femininos da Leonor e os tombos do destravado do Duarte para dar algum colorido à coisa. Quando chegar a altura de também os "despejar" na escola, acho que arrendo um escritório no edifício dos Maristas só para não perder o "barulhinho" de fundo...
É oficial! A minha Leonor já anda!!! Aos 15 meses começou a dar uns passinhos sozinha, e hoje perdeu o medo e lançou-se pela casa fora, debitando aquele enxurrilho de sílabas que só ela entende, meio português meio ucraniano. Está esperta como tudo. Ralha com os irmãos, põe o chapéu para ir à rua, calça os sapatos, quer vestir-se sozinha, finge que está a ler livros, e agarra na sua escova dos dentes cor-de-rosa e no copo para lavar os dentes, tal e qual os irmãos!
O Dudu, mais abebezado, ainda dá uns passinhos de bailarinha, mas quando se trata de trapar às coisas passa à frente da mana. Já conseguiu saltar de uma cadeira da papa (atado!) e de uma cama de viagem, trepa pelas costas do sofá e pelas costas das cadeiras, para tentar ir para as minhas cavalitas. É bruto como tudo a defender o seu território, sobretudo da irmã. Mas quando se trata de receber miminhos da mamã, todo ele se enrosca e aninha como um bebé.
É impressionante como dois gémeos criados da mesma forma podem ser tão diferentes. Ele tão rapazola. Ela tão menininha. Ele tão abrutalhado mas ao mesmo tempo tão menino da mamã. Ela tão independente, de nariz no ar a querer fazer tudo sozinha. E ainda dizem que a educação dos pais é tudo. Eles já nascem com tanto, mas tanto deles... Nós, pais, fazemos o que podemos. Mas eles, de facto, são muito mais deles próprios do que nossos, e a nós cabe-nos (para além de fazermos o que podemos) assistir ao milagre da vida que se desenrola sob o nosso tecto, todos os dias...
(Sebastião a caminhar para mim, puxando os dois olhos com os dois):
- Ó mãe, os chineses devem ver mesmo mal...

(Afonso a chegar à esplanada):
- Estou a ver o pai ali ao fundo. Está a tomar café com outra loura...
(Mãe pitosga)
- O quê?! Aonde, Afonso?
(Afonso gozão, ultimamente viciado em séries juvenis da Disney e Nick)
- A mamã tem ciúmes do papá, a mamã tem ciúmes do papá...

Juro que nunca mais o deixo ver o Drake & Josh!
Depois de uma versão muito própria do "wakawakaué" do Mundial, os meus filhos mais velhos (4 e 6 anos. Tão velhos que eles são...) resolveram dedicar as viagens de ida e volta até Espanha a novas conspirações musicais. O primeiro alvo foi o hino dos Maristas, que acabou assim:

Somos Maristas de Carcavelos,
a nossa mãe é Sarinha
(supostamente era Maria...)
Somos Maristas de Carcavelos
e o Pai Pedro é o nosso guia,
E o pai Pedro é o nosso guia...
(pobre Champagnat, completamente relegado para segundo plano)

Em seguida resolveram discutir a letra de "Carta", dos Toranja:

(Afonso)
É que hoje acordei, lembrei-me, sou magro e feiticeiro...
(Sebastião)
Não é magro!
(Afonso)
Então como é que é?
(Sebastião)
É que hoje acordei, lembrei-me, de chamar o feiticeiro...
(Afonso)
Não é nada! Isto é a história de um homem e uma mulher! Vão chamar o feiticeiro para quê?
(Sebastião)
Por causa da bola de cristal que é feita de papel... Dahhh!
Depois de muito insistir, o Afonso lá teve a sua primeira carteira, para guardar o dinheiro que a avó lhe dera nas férias.
- Ó mami, posso ter semanada, posso? O Diogo Alves já tem...
Lá decidi com o pai que era demasiado cedo, e que ele teria de mostrar primeiro como geria o seu dinheiro, para nós começarmos a confiar nele.
- E cartões, mãe? Quando é que posso ter cartões?
- Se estiveres um mês sem perderes a tua carteira, a mãe dá-te um cartão.
O Afonso rejubilou. E desde então que não larga a sua preciosa carteira. Guarda-a, sobretudo, do Sebastião, irmão lampão que, como bom filho mais novo (ainda que tenha outros mais novos, mas que ainda não têm idade para entrar no campeonato), cobiça tudo o que o mais velho tem.
- Só podes ter carteira quando tiveres 6 anos, Titão. Ainda te faltam 2 anos. Mas o mano paga-te um Happy Meal.
Depois de dois dias a fazer contas, a pensar de que forma poderia dar uso ao seu dinheiro (decidiu inclusive ajudar o seu amigo Diogo Alves a juntar 50 euros. Porque ele gastava tudo o que recebia e precisava de ajuda...), resolveu que o primeiro gasto seria mesmo no Mac Donald's. Ainda comprou um pequeno dragão na livraria do Pingo Doce (para partilhar com o irmão) e depois levámo-lo ao Mac Donald's, para ele mostrar o que valia. Nervoso, fez a encomenda ao senhor. Um Happy Meal para ele e outro para o irmão. Pagou com a sua nota. Recebeu e guardou o troco. E ficou feliz. Muito feliz.
- Sebastião, quando tiveres 6 anos e tiveres a tua carteira, também vais pagar um Happy Meal ao mano, não vais?
E o Sebastião abanou a cabeça, contente. Foi quando o Afonso se saiu com esta:
- Ó mãe... daqui a quantos dias é que vou ter o meu cartão de crédito?
Bem... estava mais a pensar num cartão de uma loja... Quanto muito, no cartão de cidadão... Se bem que o meu filho portou-se à altura. Poupou, ponderou, acabou por gastar o dinheiro em comida, e ainda ajudou o irmão. Talvez ganhe um cartão de crédito a fingir...
Mas o melhor de tudo ainda foi vê-lo entrar no Aki, constatar que tinha dinheiro para comprar um tapete, e uma pequena torneira, e exclamar, satisfeito:
- É bom viver no mundo do dinheiro...
Bem, meu filho... Nem sempre é assim tão bom. Mas goza lá todas as vantagens enquanto podes...
A Leonor deu o seu primeiro passinho. Sozinha. Cheia de vontade de fazer sozinha e mostrar que não precisa de ninguém. A Leonor é assim. Mulher, nos seus quase 15 meses. Primeiro treinou sozinha a pôr-se de pé sem se segurar a nada. Treinou, treinou, treinou, e até batia palminhas a si própria quando conseguia. Ontem estava de pé, olhou para mim com aquele ar maroto, de desafio, que ela tem, e deu um passo. Depois riu-se, divertida, e bateu palminhas a si própria. Estava farta de tentar que ela andasse sozinha. "Anda, Nhocas! Vá... Um passinho... Aqui, Leonor...!" Mas nada. Ela nunca se deixou enganar. Pela mão já vai. Sem mão, não há nada para ninguém. Mas ontem fê-lo sozinha. Fez questão de fazer sozinha. E mostrar-me que era capaz. Promete...
Depois de uns dias sem os filhotes mais velhos, que foram para a praia com a avó, foi tempo de regressar a casa, aos quartos, aos brinquedos, aos mealheiros (para guardar a notinha de despedida da avó)... e também aos velhos disparates, claro. E também às histórias antes do deitar, que nas férias foram substituídas pelo Quem Quer Ser Milionário, dentro na cama, na ronha com a avó (e é para estas diferenças que também servem as férias... e os avós). E a história de hoje terminava com o velho provérbio "Mais vale tarde do que nunca". O Afonso aproveitou logo para concluir:
- Mais vale fazer os trabalhos no último dia de férias do que não os fazer...
Pois é, querido Afonso, mas não vais ter sorte nenhuma...
A conversa depois descambou (ou descambei-a) para os nossos sonhos mais profundos.
- Que sonhos é que vocês gostavam mesmo de realizar, meninos? Têm de ser aqueles sonhos que, mesmo que os realizem já muito velhinhos, valerão a pena...
- (Sebastião, o prático) Ter um Gormitti.
- (Afonso, o místico) Nunca morrer.
Definitivamente, tenho filhos muito diferentes... Só espero ter unhas para tocar as cordas todas...
Antes de mandar os mais velhinhos de férias, tive de proceder à sessão quinzenal de cortadela de unhas. Entre os 4 foram oitenta unhacas... Ainda tentei ir às do pai para chegar à centena, mas ele rabuja mais que os filhos...
Qualquer dia tenho unhas cortadas que cheguem para um diploma de manicura.


PS - Já como cabeleireira nunca conseguirei diploma... Cortei a franja ao Dudu mas não ousei tirar-lhe os caracóis que lhe serpenteiam o rosto. Resultado: transformei-o num pequeno Bee Gee... Lá se vão 10 euros no cabeleireiro, para remediar os estragos.
A propósito da morte do actor António Feio, voltou o tema da morte. Não nos filhos. Na mãe. Recebi vários mailes hoje sobre palavras que o actor tinha dito, conselhos que tinha deixado aos amigos, despedidas ao público em geral... e lembrei-me da carta que, em tempos, escrevi aos meus filhos. Não era uma carta qualquer. Era a carta que eu queria que eles lessem se um dia morresse de repente. Os gémeos ainda não existiam (e tempo para reescrever a carta?), e ainda não me pesava tanto a pergunta que carrego hoje: Como é que o meu marido se desenrascaria sozinho com 4 filhos?! Naquela altura a preocupação maior era outra (e ela continua grande): Que memórias guardarão os meus filhos da mãe, se eu partir agora? Sei que a memória é traiçoeira, e a das crianças apaga-se frequentemente para deixar espaço para tudo o que elas têm de aprender ainda (como perguntava o meu sobrinho Manel: Eu depois vou-me esquecer disto?). Quando se é adulto e nos morre alguém querido, guardamos dessa pessoa o melhor dela. Apaga-se o resto. E isso não é mau. Quando se é criança e morre alguém querido, não se apaga só o mau. Apaga-se também o bom. Frequentemente, apaga-se toda a pessoa. Tudo. Por isso, se eu desaparecesse naquela altura, desapareceria tudo. Na memória dos meus filhos ficaria apenas aquilo que o pai, a família e os amigos lhe diriam. A explicação das fotografias que veriam. A tristeza dos adultos, que passaria para as crianças. Ao ponto de as marcar. Ao ponto de os fazer associar à ideia da mãe uma tristeza infinita. Uma perda irreparável, de uma memória que nem é real, porque foi fabricada pelos outros.
Posso não estar certa. Espero continuar por cá para não ter de o comprovar. Mas, pelo sim pelo não, escrevi uma carta aos meus filhos. Uma carta bem disposta, a dizer-lhes que fui muito feliz com eles, e que a felicidade deles, daí em diante (depois de me perderem) não estava de modo nenhum dependente de mim. Chegara a altura de seguirem o seu caminho, e outras pessoas igualmente competentes os acompanhariam nessa viagem. E que eu tinha pena de não estar presente, mas que o exemplo de me perderem cedo lhes fizesse sentir uma responsabilidade maior de serem felizes todos os dias.
Poderia ter-lhes dito que ia ficar numa estrelinha. Num céu. Sempre ao lado deles. Mas essas mentiras (só porque não tenho a felicidade de acreditar nelas) deixaria para a boca dos outros. A minha carta seria para o caso de eles, assim como eu, não terem também a capacidade de acreditar em algo para além daquilo que temos aqui em baixo. Seria a minha verdade. E eu nunca minto aos meus filhos.

A carta existe. Terá de ser reescrita. E espero ainda escrevê-la muitas e mais vezes. Não porque conto ter mais filhos que me forcem a uma necessária actualização. Mas porque espero viver o suficiente para ver os meus filhos seguir os seus sonhos e serem felizes, anulando (por ausência de necessidade) linhas de conselhos e vontades minhas, até que a minha partida seja entendida como natural, a lei da vida, a memória já não seja uma traição, e não sejam já precisas mais cartas de despedida... Ou, a ela ainda existir, que seja apenas uma linha: "Foi um prazer estar convosco".
Amo os meus bebés! Mas não é que amo mesmo? E se estou espantada é que, depois de ter o Afonso e o Sebastião, perguntei-me várias vezes se ter mais filhos não implicaria ter de gostar menos de todos. Distribuir amor por tantos, não daria menos a cada um? E, de facto, quando os gémeos nasceram, senti-me culpabilizada, sem tempo para as histórias dos "mais velhos" (coitadinhos, tão pequeninos!), sem tempo para os miminhos, para as conversas, para as idas e vindas do colégio, os programas ao fim-de-semana... Pouco a pouco, felizmente, tenho recuperado isso tudo e agora... também estou apaixonada pelos meus gémeos. O Duarte com o seu sorriso fácil, destravado nas horas, trepa a tudo e gatinha mais veloz que um aranhiço, mas depois chora com o som da batedeira e dos estores, e trepa por mim acima quando vê a irmã a aproximar-se. Depois a Leonor, esperta como tudo, que faz gracinhas e bate palmas a si próprio, grita "três" depois de dizermos "um, dois" e só quer comer e vestir-se sozinha. É a minha bonequinha espertalhona. Amo-os muito, e penso, sempre que entro na cozinha, a preparar-me para os ouvir chorar e estender os bracinhos para eu lhes pegar: "em qual pego primeiro? Se eu gosto o mesmo e tanto dos dois..." Faço à vez, começo pelo que grita mais alto, ou pelo primeiro que apanho, e quase sempre acabo com os dois ao colo, a atropelarem-se pela minha atenção. Com os "mais velhos" (coitadinhos, tão pequeninos!) de férias, sou puxada daqui e dali, de atenção em atenção, de conversa em conversa, de proeza em proeza, de asneira em asneira... e é tãooooo bom! Se o meu amor chega para todos? Chega para estes e para muitos mais! Mas, pelo sim pelo não, acho que me vou ficar por aqui...
- Afonso, como hoje temos cá a prima Maria, vamos fazer um g'anda programa... ajudas-me?

(olhos de Afonso a brilhar. Alguns minutos depois)

- Ó mãe... mas um programa é... tipo um filme, ou tipo uma série?

(Só tinha pensado num jantar... mas o rapaz faz logo filmes!)



Caiu mais um dente ao meu filho Afonso (caiu, salvo seja, foi arrancado pelo metal assassino de um alicate, no dentista. O pai é que foi com ele, e diz que ele foi um fortalhaço, mas eu bem vi os restos de lágrimas que lhe vinham nos olhos, no regresso... grande herança a que eu lhe deixei, de dentes a nascer por cima uns dos outros), e a fadinha dos dentes voltou a visitar a nossa casa. Não sei por quanto tempo o meu filho vai acreditar (talvez já nem acredite, mas as moedas dão-lhe jeito para comprar Calipos...), por isso decidi investir no embuste. Em vez do simples dentinho debaixo da almofada, desta vez incentivei o meu filho a escrever uma cartinha à fada. Afinal de contas, ele tinha perdido um dente em casa do amigo e não tinha recebido moeda... E, devido ao seu sofrimento no dentista, merecia a duplicação da do prémio. Enfim... ele lá se desenrascou, e até decidiu pôr uns quadradinhos para a fadinha dizer se SIM, se NÃO satisfazia as suas reivindicações.
E claro que a fadinha disse sim. Respondeu e lá deixou 4 euros no saquinho de plástico que o Afonso colocou debaixo da almofada. Mais uns dentes com mais umas quantas reivindicações, e acabam-se as moedas que o pai deixa no cinzeiro da entrada...
Ontem, antes das compras da semana (que cada vez menos duram uma semana. Nem sequer meia... Mais um ou dois anos - quando esta maltinha estiver toda a comer a sério - e compro uma vaca para não ter de carregar mais paletes de leite. E troco a palmeira e o pinheiro por uma macieira e uma pereira, em vez de rosas planto batatas para a sopa. Será que as pescadas e os polvos se reproduziriam na piscina?), levei o Afonso e o Sebastião à Bulhosa, desta vez não para comprar um livro (ok, acabei por trazer 3 :() mas antes uma revista. Freneticamente, busquei a Pais e Filhos de Julho por entre quinhentas outra mil de interesses mil.

(Sebastião) Mãe, podemos ir para o Barco?
(Mãe) Esperem... a mãe tem de encontrar uma revista.
(Afonso) É a revista do Póvoas? (private joke)
(Mãe) Não, queridos. É outra...

Bordados, fotografia, signos, gadgets... e, finalmente, lá estava ela! Com uma menina quase tão linda como a minha Nhocas na capa. Peguei, trinquei (para romper o plástico de oferta) mas não meti na boca. Meti em cima da mesa do café, onde os livros sabem a scones deliciosos e chupas que deliciam os meus filhos.

(Afonso) Estás à procura do quê, mãe?

Uma página, outra, mais outra... e, finalmente, ele lá estava! O artigo da Sónia Morais Santos, a mãe Cocó (coconafralda.blogspot.com, para quem ainda não conhece), com um cheirinho da revista que O Livro da Minha Vida construiu para a celebração do seu 10º aniversário de casamento. Mesmo sem scones nem chupas, deliciei-me a ler o artigo. É tão bom ter clientes assim... Recordei o pouco tempo que me falta para também eu fazer 10 de casada... Os meus 4 filhos. As surpresas do meu marido. Ai, ai... Suspirava eu para um lado, resmungavam os meus filhos por outro.

(Sebastião) Porque é que estamos aqui sentados, mãe? Estamos de castigo?
(Mãe) Não, Titão. A mãe só estava aqui a ler uma coisa.
(Afonso, lendo o título do artigo) A-mu-lher-mais-fe-liz. Foste tu que escreves, mami?
(Mãe) Não, filho. Foi uma senhora que a mamã conhece.
(Afonso) Ó mãe... mas a mulher mais feliz és tu...

E seguiram-se duas horas de carrinho pelo Continente, ora a puxar um, ora a ralhar com outro, o carrinho a encher, a conta bancária a decrescer, o pai a desesperar com os gémeos em casa... e foi tão bom! Não sei das outras, mas eu cá sou bem feliz!
(Afonso):
- Mãe, podes convidar o Diogo Alves para vir cá a casa? É que nós queremos escrever um livro juntos...

Baba, baba, baba... Lembro-me tão bem de ter a idade dele e passar as férias a escrever a colecção das "Amiguinhas" com a minha amiga Filipa...

- Já tenho uma história e ele tem outra. Mas temos de pensar em mais, para fazermos um livro grosso. Se calhar um dia vamos ser escritores...

Se calhar, meu filho. E a mãe vai ficar tão orgulhosaaaaaa...
No carro, à capela:

Mãe:Na nana nananan...
Sebastião:Wakawakauéué
Mãe: Na nana nananana...
Afonso: Istch time for África...


A Shakira não faria melhor. Amanhã começamos a treinar a coreografia...
- Ó mãe, ó mãe... anda ver a minha última criação!

Enquanto eu me secava do banho, o Afonso tinha "criado" qualquer coisa no meu quarto. Entrei e deparo-me com este espectáculo: uma toalha azul em cima da cama, com alguns animais marinhos (bonecada que ele descobriu nos caixotes de brinquedos) espalhados, em cima. Ele estava por baixo dos lençóis, exactamente nessa zona, a ondular o seu corpo suavemente.
- Olha, mãe, olha... criei o mar...

Agora digam-me lá o que é que eu faço com tanta "criação"?
Acabei de receber do pai o seguinte e-mail:

MÃE: VAI JÁ PARA A MESA!
FILHO: Não vou!
MÃE: Tens de ir! Eu estou a mandar!
FILHO: E porque é que tenho de fazer o que tu dizes?
MÃE: Está no Código Civil Português, ARTIGO 128º.

(ARTIGO 128º – Dever de obediência)
Em tudo o quanto não seja ilícito ou imoral, devem os menores não emancipados obedecer a seus pais ou tutor e cumprir os seus preceitos.

Cá em casa o pai fala e os filhos obedecem. Só a mãe é que parece que vai ter que invocar a Constituição...
Depois de pôr os 4 na cama, enfiei-me no duche para o meu merecido banho. Água a escaldar sobre a pele, sossego, a cabeça a desfiar as trivialidades do dia, para depois analisar o que é mais profundo... Gasto muita água, mas funciona. Limpo o dia e, se ainda tenho que trabalhar (como era o caso), vou para o computador renovada.
- Mami...
O Afonso entrou em pezinhos de lã, com aquela cara de Calimero irresistível...
- Afonso, vai para a cama! O que é que estás aqui a fazer?
- Não consigo dormir. Por causa daquele assunto... Aquilo que tu sabes, mami...
O assunto tabu é a morte. De vez em quando volta, aterrorizadora, de foice na mão, para ceifar os bons sonhos do meu filho mais velho (felizmente, só dele, se bem que os bebés ainda não manifestam os seus terrores nocturnos).
A água estava a saber-me tão bem, ainda não tinha terminado a revisão de vida, mas o assunto impunha que o banho se desse por terminado. Desliguei a água e saí para me secar, enquanto o meu filho se acomodava na sanita.
- A morte dói, mami?
- Não, filho. E tu não devias estar a pensar sobre isso, é muito tarde.
- Mas como é que tu sabes que não dói? Nunca morreste...
Dah! Afonso 1, Mami 0
- E se fosses buscar um livro e lesses um bocadinho, para te distraíres?
- É isso que tu fazes quando pensas na morte?
Novo murro no estômago. Afonso 2, Mami 0. Sim, é verdade. Um bom livro é sempre uma excelente terapia para os meus terrores nocturnos.
- Sabes do que é que eu tenho medo, mami? De morrer e ir para um lugar onde não há ninguém. Depois eu fico lá sozinho e tenho medo...
Abraço. Abraço com muita força, já sequinha!
- Oh, filhote! Tu não vais ficar sozinho. Nunca. A mamã nunca te vai deixar. Não falámos já que as estrelinhas, mesmo estando longe, estão sempre a olhar por nós?
- Sabes o que é que eu queria, mami? Depois de morrer, queria voltar a nascer. E começar tudo outra vez...
Novo abraço. A teoria da reencarnação é um excelente bálsamo para o meu filho. Quem sou eu para opiniar sobre ela?
- Há pessoas que acreditam nisso, Afonso...
- E tu, mami?
- A mamã não sabe... Nunca morreu!
Foi folhear o Ratatui e depois adormeceu. Já eu... bem, no mínimo, fiquei capaz de outro banho!