Afonso aparece na cozinha, de olhos esbugalhados.

- Ó mãe... é verdade que há cachalotes nos Açores?
- É sim, filho.
- E eles não comem as pessoas que andam a nadar?
- Os cachalotes têm mais que fazer, Afonso. O que eles querem é paz e sossego.

Saiu da cozinha, pensativo, e voltou logo em seguida, de sorriso nos lábios.

- Ó mãe... Tu és como o cachalote.

Olhei-o de alto a baixo, para confirmar se ele me estava mesmo a chamar baleia...

- O que tu queres também é paz e sossego. És uma espécie de "peixe fora de água".

E pronto. Ele lá sabe...
Depois de desenhar tantas coisas esquisitas, nos últimos tempos, o Dudu hoje resolveu desenhar... a mamã!


- Sou mesmo eu, Dudu?
- Sim, és.
- E está a chover?
- Não, tu é que estás num parque "de estimação".

Imagino que seja um parque de diversão...

- E este aqui mais pequenino, és tu?
- Não. É um lagarto pintado.

Pronto. Não podia ser tudo normal...
Domingo (como se a casa não estivesse já virada do avesso) é dia de fazer casinhas...
A mamã não cabe nelas, mas dizem os filhotes que são quentes e fofinhas.




Dudu no carro, em mais uma das suas sagas de perguntas incompreensíveis.

- Mamã, o coração é um relógio?
- É sim, filho, mais ao menos. Porque um relógio é certo e o coração às vezes bate mais depressa e às vezes mais devagar.
- E fica no cérebro?
- Não, filho, fica no peito, do lado esquerdo. Onde eu te estou sempre a dizer para não bateres na mana.
- Mamã, um dia o teu corpo vai transformar-se num tubarão?
- Acho que não, filho. Só se um tubarão me comer.

Soltou uma gargalhada e seguiu viagem, de olhos postos no céu e aquela inconfundível boquinha de riso. Estava satisfeito, por agora. A saga continua amanhã, à mesma hora...
Nonô ao espelho, ao lado da mamã:

- Mamã, sabes que eu um dia vou ser como tu?
- Sei sim, filhinha.
- E sabes que tu um dia vais ser como a avó Antónia?

Sem tirar nem pôr. Uma diferença aqui e acolá, mas entre as 3, não restam dúvidas. Todas farinha do mesmo saco.
A mamã anda a fazer um trabalho sobre diagnóstico e o Sebastião foi dar comigo a ler sobre o diagnóstico através da palma da mão.

- Tu consegues entender estes rabiscos das nossas mãos, mãe?
- Nem por isso, Sebastião. No Oriente é que eles estudam muito isso e através destas linhas tentam perceber como é que nós somos.
- Então como é que eu sou?

A mãe ainda só tinha lido meia dúzia de páginas, por isso não ia ser fácil dizer-lhe alguma coisa de jeito. Mas aventurei-me pela linha do meio, a da cabeça.

- Estás a ver esta linha horizontal que está no meio da tua mão? Dizem os orientais que, se ela for longa, tu tens mais tendência para ser uma pessoa dócil, que se leva bem...

E a linha dele era bem longa.

- A tua linha também é comprida?
- Também.
- E a da Nonô?

Fomos ver e também era.

- Para isto ser verdade, mãe, a linha do Dudu tem de ser bem curtinha.

E pois claro que era. Os orientais é que a sabem toda...
- Mãe, tenho de fazer uma rosa dos ventos. Mas tem de ser um trabalho com alma!

Ui! Escrever com alma, ainda vai! Agora nos trabalhos manuais, a minha alma desfaz-se facilmente na ausência de paciência (e o problema é que a do meu filho Afonso também...)

- Pensei fazer uma rosa dos ventos com copos de plástico.

Decidiu fazer uma rosa dos ventos dentro de uma caixa de sapatos (para ser uma rosa dos ventos "surpresa"), o pai ensinou-o a desenhar e cortar triângulos todos os iguais, e à mãe coube imprimir um mapa antigo e colar a Caravela da revista "Amiguinho". Pelo meio o Sebastião pedia ajuda nos trabalhos de casa e os gémeos resmungavam um com o outro, na disputa do mesmo desenho para pintarem, da mesma cola para colarem e dos mesmos copos para estragarem.

- Achas que vou ter "A", mãe?
- Não faço ideia, filho. Mas tens aí uma rosa dos ventos com a alma da família inteira!


Nonô pensativa, a olhar o tecto:

- Mamã, sabes que quando eu for grande vou ter uma filha chamada Joana. E vou ser professora.
- Ai é?
- Sim. Tu és professora, mamã?
- Não, querida. A mamã escreve livros.
- Mas um dia também vais ser professora.

Se o vaticínio se cumprirá ou não, não faço ideia. Sei que, por enquanto, já tenho muito que fazer entre as disciplinas dos manos mais velhos e a atividades lúdicas dos mais novos. Não sou professora, mas tenho uma bela turma de 4 alunos que já me deixa os cabelos em pé...
E depois de uma semana a ver o meu filho Afonso regressar a casa com metade do lanche por comer, e das minhas tentativas (frustradas) de o ameaçar que punha um vigilante o dia todo atrás dele, hoje tentei uma estratégia diferente:

- Imagina que és um carro. E tu só podes ser um tipo Fórmula 1, cheio de speed... Se não puseres combustível suficiente no carro, ele pára. Se insistires, o motor avaria. O teu corpo é assim, filho. Se não lhe deres suficiente combustível, não vais conseguir andar tão depressa. E podes mesmo avariar, o que no caso do corpo pode significar adoecer. Os pais dão-te a quantidade de combustível necessário para tu te fazeres à pista. Até tentamos dar-te o melhor combustível possível, que é o mais saudável. Agora és tu que tens de decidir se queres continuar a ser um carro veloz ou andares aos solavancos...

Prometeu que ia comer tudo aquilo que levava na lancheira. Vamos ver...

Há alturas em que me sinto "a mãe dos sermões". Por tudo e por nada, lá vai mais um. Mas, com um filho mais velho a aproximar-se perigosamente daquela idade em que já não me vai ouvir, porque já acha que sabe tudo, ando sempre com a sensação de que ainda tenho tudo por lhes dizer...
Mãe a verificar se o seu filho Afonso anda com a matéria em dia:

- E o que é um habitat?
- É o local onde os animais vivem, adaptado às suas necessidades.
- E o homem, achas que vive no habitat certo, adequadas às suas necessidades?
- Nas cidades poluídas e cheias de confusão, claramente não.
- E porque é que o homem terá criado habitats que o prejudicam? Que destroem a sua saúde, que lhe roubam a qualidade de vida... Os outros animais não fazem isso... Não é lá muito inteligente, pois não?
- Ya...


Arrumou os cadernos a matutar naquilo. Se calhar tinha sido mais fácil verificar se ele respondia exatamente o que vinha no livro. Mas acho que o mundo só pode mudar para melhor se conseguirmos fomentar nesta nova geração suficiente sentido crítico para encar de frente os nossos erros e criar formas de fazer melhor.
Tirar e arrumar a loiça da máquina, levantar a mesa, pôr a loiça suja na máquina... não chegou a 10 minutos!
Começo a beneficiar de ter uma casa cheia de filhos com vontade de ajudar...
A primeira história que escrevi foi aos 6 anos, para oferecer à minha querida professora. Quem me ajudou a construí-la foi a minha mãe, também ela professora. Cresci a vê-la preparar fichas, corrigir trabalhos, inventar estratégias. Cresci a ver a forma como os alunos a abraçavam, na rua, e os pais lhe agradeciam. Cresci, eu própria, a entender a importância de cada um dos professores com quem me cruzava, no meu percurso escolar. Não posso dizer que todos me marcaram da mesma maneira, mas tenho a certeza que alguns foram determinantes, na minha vida.
Sou a favor da valorização do papel dos pais, numa sociedade a precisar de se reformular pelas bases, e sou naturalmente a favor também da dignificação do papel dos professores, elementos fulcrais dessa mudança necessária.
Hoje, dia do Professor, agradeço a todos os professores que tive, a todos os professores que hoje marcam a vida dos meus filhos, e a todos os outros que se dedicam de corpo e alma à construção de uma nova geração, mais preparada para os desafios que a esperam.

Dudu aproxima-se com o puzzle do planisfério:


- Ó mãe... diz lá qual é que é o país dos unicórnios?
O dia em que a bonecada foi à escola...

Já tinha feito os disparates todos possíveis e imaginários e parecia agora um anjinho, deitado na sua cama.

(Dudu) Mamã... sabes que quando eu for grande vou ser padre, ao domingo?
(Mãe) Ai é? E só ao domingo?
(Dudu) Sim. À terça-feira vou ser vampiro...

Agora digam-me o que é que eu lhe faço?
A mamã foi ser madrinha de uma linda M. e, só no banco da frente da Igreja, estavam 15 crianças entre os 4 e os 11 anos, pertencentes a apenas 5 famílias. Entre os 15, só 5 eram rapazes, 3 deles meus filhos.
Os números poderiam ser engraçados se, de entre as 15 crianças, só 2 é que se portaram mal durante a cerimónia, e essas 2 eram os meus ricos filhos...

- Primeiro a Nonô "pegou-se" com o Dudu e a Nonô resolveu ir fazer as queixinhas ao padre, em plena missa: "Olha lá... ele roubou-me o lugar!"
- Já lá para o final, espicaçada pelos irmãos, resolveu ir falar ao microfone do púlpito: "Olá... adeus"
- Mas o padre começou verdadeiramente a ver o caso mal parado quando o Dudu trepou a uma coluna de pedra e começou a soprar para tentar apagar o círio...

Valeu-lhes o ar maroto irresistível, que pôs toda a gente a rir. Mas, num próximo baptizado ou casamento, estou tentada a atá-los ao genuflexório...
Leonor a cantarolar, o mais alto que conseguia (e ela consegue MESMO muito alto), na cozinha:

- O meu coração bate muito alto/ Eu vou cantar / E o sol brilha / E o meu coração está cheio do Espirito Santo...

Pareceu-me beatice a mais e fui ver o que se passava.

- Que música é essa, Leonor?
- Sou eu que estou a inventar, para ser feliz.

Na verdade já não a podia ouvir, mas depois de uma explicação destas, tornou-se impossível mandá-la calar...
Afonso no regresso a casa de mais um dia de 5º ano:

- Então, filho? Correu tudo bem?
- Sim. Mas estou a pensar desistir da escola...
Depois de uma valente birra do Dudu, em que voltou a soltar o seu grito de guerra - "Eu quero as coisas que eu quero" - a mamã lembrou-se que tinha um pequeno livrinho chamado "Porque não posso fazer o que eu quero". O livro era giro, mas um nadinha filosófico demais para 4 anos, e assim que as atenções começaram a dispersar, a mãe fechou o livro e interpelou os filhotes diretamente:
- Se pudessem fazer tudo o que queriam, o que é que gostavam de fazer?

Os olhinhos brilharam. E cada um deles pensou nos maiores disparates.

(Dudu) Eu atirava as cadeiras contra a parede!
(Nonô) Eu comia muitas batatas fritas.
(Sebastião) Eu dava murros no Afonso.

- Então agora pensem... Se o Dudu atirasse as cadeiras contra a parede, ficava sem cadeiras e a parede ficava toda estragada. Ou seja, ele ia fazer uma coisa má para ele. Se a Nonô comesse muitas batatas fritas, ia ficar cheia de dores de barriga. Ia ser mau para ela.

(Sebastião) Mas se eu desse murros ao Afonso, ele é que ficava mal!

- Não, porque o Afonso é rijo e a tua mão também te ficava a doer. Além de que ele depois se vingava...
Ou seja, a mãe não vos deixa fazer algumas coisas que vocês querem porque são disparates, e os disparates têm consequências más para vocês. Vai ser assim pela vossa vida fora. Sempre que fizerem asneiras, vão ter consequências. Mas quando forem mais crescidos, serão vocês a decidir se querem fazer asneiras ou não. Por enquanto, a mãe tenta que vocês não as façam e que percebam porquê. E só tento porque gosto muito de vocês.

(Sebastião) Já podias ter explicado isso há mais tempo, mãe!

E a noite acabou serena, sem mais disparates...
E depois dos anos do filhote, é dia de dar os parabéns ao papá!
Dos seus 67 anos de vida, só partilhei 35, pouco mais de metade. Da outra conheço as histórias de aventuras, de coragem e resiliência. Da minha conheço a paciência, a integridade e a entrega. E posso dizer que um pai é sempre um pai, amamo-lo de qualquer maneira. Mas quando nos calha em sorte um ser humano desta natureza, dizemos repetidamente OBRIGADA e parece-nos sempre pouco...

Parabéns, pai L.!