https://www.youtube.com/watch?v=uRFqzPkc3fo&feature=player_embedded

Um menino de 9 anos a falar sobre o universo e o sentido da vida.
Podemos pensar "Ah, e tal... os meus filhos nunca diriam coisas destas...". E que tal ousar perguntar-lhes?
Ter medo de criar neles perguntas é apenas o reflexo do nosso próprio medo de não termos ainda respostas...
Tão verdade...

- Tens 10 minutos para fazer essa composição, Titão...
O tempo começou a contar e o pobre Titão, perante a sua mãe-Papão, entrou literalmente em stress. Numa aflição tremenda, não conseguia pensar, perante tamanha pressão. Vi-o agitado como nunca, stressado como nunca, e senti-me a pior mãe do mundo, a fazer-lhe a pior coisa do mundo.
É certo que ele vai ter uma prova difícil daqui a algum tempo, e que nessa prova ele vai ter que gerir o tempo para conseguir fazer tudo no tempo proposto... mas não estará isto, afinal, tudo errado?
Levantei-o da cadeira e fomos para a relva respirar fundo. Depois fechámos os olhos e sentimos o vento. Depois imaginámos de olhos fechados o que nos apeteceu. Depois imaginámos o que ele tinha de imaginar para a sua composição. Depois abraçámo-nos.
- Sebastião... vou contar-te um segredo. Ter-te assim tranquilo, aqui ao pé de mim, é muito mais importante do que qualquer composição. Dá o teu melhor, mas não te esqueças que uma composição é só uma composição...
E, mais tranquilo, o Sebastião foi sentar-se e fez a sua composição em 10 minutos. Mas, daqui a um mês, no dia decisivo, a mãe-papão não estará lá, mas a mamã-tranquilizadora também não. Tenho um mês para lhe incutir a certeza de que nada merece a nossa intranquilidade. Muito menos uma composição...
O Afonso perdeu mais um dente de leite. Já não lhe faltam muitos para ficar com a boca cheia daqueles dentes definitivos, grandes e fortes, e com eles também ele grande e forte, maior do que eu, cheio de si e cheio de vida.
É muito bom vê-los crescer, mas custa-me já não lhes esconder os dentinhos na almofada, com recadinhos da fadinha dos dentes. O Sebastião ainda reclama os recados - embora deixe claro, alto e em bom som, que já não acredita nessas coisas - mas o Afonso diz-me logo aquele "já não é preciso" que me faz pensar que, um dia destes, os dias da mãe-das-histórias-de-encantar chegará ao fim.
Mas amanhã, quando acordar, o Afonso vai ter debaixo da almofada um recadinho. Diferente, é certo, mas há que tentar crescer com ele...

"Querido Afonso,
a fadinha dos dentes disse-me que já não acreditavas nela, por isso resolvi vir eu trazer-te a moeda que desejavas e um recado muito especial: podes não acreditar em fadas, mas não podes NUNCA deixar de acreditar nos teus sonhos. Se as fadas já não te podem ajudar, terás de ser tu a fazer por ti, e por isso mesmo sonhares ainda mais e lutares ainda mais pelos teus sonhos. Eu estarei sempre a olhar por ti, mas as moedas que te trago não te vão valer de muito se não as puseres a render, com o melhor que tu és.
Ass: a tua mãe."

Vamos ver se este dentinho vai valer a pena...


Fim de tarde com a Lego.
- Um dia destes vamos à Legolândia, meninos.
- Onde é?
- Na Dinamarca. Ou na Flórida...
Primeiro ainda precisamos de encaixar umas boas peças na nossa vida, mas havemos de conseguir :)
Começou por ir buscar-me os sapatos de pontas. Todos os fins-de-semana o faz, à espera que eu calce os sapatinhos e vá bailar com ela. Mas digamos que a mãe já não dança há tanto tempo, que o mais certo é partir um pezinho...
Por isso lá dei volta à arrecadação e descobri as velhinhas sapatilhas, ideais para um recomeço mais "soft". Hoje, a Nonô e a sua mamã vão dançar na relva...

Tenho-me perguntado muitas vezes como é que, do mesmo "material" e na mesma barriga, nasceram para a vida 4 criaturas tão diferentes, como são os meus filhos. Todos parecidos na aparência, são completamente diferentes no trato, o que às vezes, em bom português, é bem "tramado".
Mas pronto... Ar, Terra, Água e Fogo. É de tudo isto a nossa vida. E eu tenho o privilégio de ter os 4 elementos a fazer das suas na minha vida...

(Na biblioteca com a Nonô)



- Mamã, escolhi três livros de princesas.
- Mas este pequenino não é de princesas... é sobre as mães.
- E as mães são as mães das princesas... São as rainhas!

Ah, pronto!
Como é que eu não hei-de enchê-la de beijos?
O meu filho Afonso lembra-se de cada coisa...

Um texto da psicóloga Lígia Pacheco, que vive do outro lado do oceano, mas que "Filhosofa" como ninguém, para qualquer pai e mãe de qualquer canto do planeta:

Dizia Albert Einstein: “Somos todos geniais. Mas, se você julgar um peixe por sua capacidade de subir em árvores, ele passará sua vida inteira acreditando ser estúpido.”
Quantas vezes não fazemos isto, ainda que inconscientemente, com os nossos próprios filhos ou alunos?
A criança ao nascer é um ser de possibilidades. Não acreditamos mais no determinismo e portanto, a expressão “filho de peixe peixinho é” já não faz mais sentido. E nem os nossos sonhos e conhecimentos passam pela genética. Cuidado, cada ser é cada ser, sendo. E, sendo um ser de possibilidades pode vir a ser um ser qualquer. Pois, para desenvolver seus potenciais, a criança vai depender de oportunidades, mas isto não basta. Não basta colocá-la na melhor escola, nos melhores cursos de línguas, informática, esportes, músicas, artes. Para que ela aproveite estes recursos, em prol de seu desenvolvimento, é necessário que tenha a capacidade. E então, motivação, isto é, que tenha um motivo na ação. E para isto é preciso que a atividade mexa com suas emoções, faça sentido, seja ricamente desafiadora, mas nem aquém e nem além de suas capacidades. Portanto, avaliar nossas crianças a partir de nossos interesses, sonhos, capacidades, conhecimentos, visões e percepções é tirar-lhes delas o que há de mais lindo no humano: o ser especial e essencialmente único. Assim, veja a criança como ela está sendo, ajude-a a desenvolver potenciais, cuide para que ela possa ser uma unidade na diversidade e admire sua genialidade, seja ela qual for.
(http://filhosofar.blogspot.pt/2013/04/67-toda-crianca-e-genial.html)
Composição do meu filho Afonso sobre a natureza:

"Na floresta estava tudo calmo. Todos os animais estavam calmos, até que aparece o homem. Ele vem com as ferramentas e com as máquinas para destruir a floresta. E, num piscar de olhos, ela está toda destruída.
Nós devemos pensar que, ao matar as plantas da floresta, estamos a matar-nos a nós próprios. São as plantas que nos dão oxigénio. São os rios que nos dão água. (...) A poluição está a matar o nosso modo de vida. Poluir devia ser um crime."

É certo que há formas de poluir com as quais não podemos acabar de um dia para o outro, são uma herança pesada da nossa forma errada de evoluir. Mas acredito que, se as crianças crescerem com esta consciência, vão arranjar formas de fazer diferente, de viver melhor. De caminhar para uma evolução que não seja destrutiva.
Hoje, a caminho da escola, resolvi contar aos meus filhos a história que me imaginei a viver com eles (e que podem reler em
http://coisasdepais.blogspot.pt/2013/04/coisas-de-arvore-de-5-troncos.html). E perguntei-lhes que ramo, dos 4 que eu descrevi, eles escolheriam para eles.

- Eu queria o mais alto! - disse imediatamente o Afonso.
- Eu queria o mais grosso, para não voltar a cair. - disse logo em seguida o Sebastião.

A Nonô e o Dudu, mais pequeninos, demoraram mais a responder, mas quando perguntei à Nonô se queria um ramo muito comprido, que a deixasse caminhar pelo ar, como se fosse um trapézio sem rede, ficou logo com os olhinhos a brilhar. E o ramo torto, cheio de "avarias", para macacadas diversas, só podia ser para o meu Dudu, que até começou logo aos pinotes na cadeira, entusiasmado com a ideia. Eram exatamente aqueles os ramos que eu imaginara para eles. E, quando lhes contei que comecei por escolher o ramo mais fininho que a árvore tinha, começaram logo a rir-se.

- Que disparate! Vais parar ao meio do chão outra vez! Tens de escolher um ramo como deve ser!
- Então que tipo de ramo é que a mãe deve escolher? - perguntei-lhes.

E o Afonso, sempre o mais mordaz da família, prontificou-se a responder:

- Um qualquer que tenha tomada para o cabo do computador e ligação à internet. Aliás, o ideal era que a árvore fosse uma macieira, mas que em vez de maçãs desse computadores da Apple...

Eu acho que já os vou conhecendo muito bem. Mas também não há dúvida de que eles, para o bem e para o mal, também já me topam à distância...
Estávamos a meio dos TPC quando os gémeos, deixados ao abandono por causa dos problemas de Matemática e das composições de Português, resolveram aparecer nus na cozinha. Não veio mal ao mundo por isso, eles estavam apenas com calor. Mas o Afonso começou imediatamente a delirar...

- Podiam fazer um "Adão e Eva Júnior"... Dois meninos viviam nus no paraíso, e não podiam comer das bolachas proibidas, que eram as do Ruca de chocolate. Mas um dia eles não resistiram à tentação... Sebastião, tu fazes de serpente!

E claro está que o "pecado" original (e bem original, neste caso) deu origem a uma valente galhofa!
Em dia de liberdade, a mamã armou-se em ditadora e obrigou os filhos a fazer uma composição sobre o 25 de Abril de 1974, data que eles não viveram e da qual muito pouco ou nada sabiam. A mamã contou primeiro o que sabia e cada um dos manos mais velhos escreveu o que entendeu, à sua maneira, misturando aquilo que imaginou. Felizmente, nenhum deles sabe o que é viver numa ditadura. Mas acho que nunca mais se vão esquecer onde estavam os avós, a tia e o pai nesse dia histórico para o nosso país...

O 25 de abril do Afonso:

"Em 1974, na rádio, tocou a música que todos esperavam. Todos sabiam o que queria dizer menos a minha avó que estava no hospital a ter uma filha. Estava na hora de acabar a ditadura! Então, saíram todos à rua, camponeses e soldados. Os soldados, em vez de balas, nas espingardas levavam cravos, para não haver feridos. E todos gritaram:
- Se querem escravos, levam com os cravos!
(...)"

O 25 de abril do Titão:

"No dia 25 de abril de 1974 a minha avó estava no hospital, porque a minha tia tinha nascido há três dias. O avô não tinha chegado porque estavam muitas pessoas a tentarem livrar-se da ditadura. E a minha avó disse:
- Senhor doutor, onde está o meu marido?
O médico disse:
- Ó senhora, eu não faço a mínima ideia.
- Então quem é que sabe?
- Estou aqui! - disse o meu avô. Eu atrasei-me porque havia muitas pessoas a tapar o caminho.
Estavam muitas pessoas na rua porque queriam liberdade.
A minha avó Ti estava em África e o meu pai também. O meu pai tinha três meses."


- Ó Nonô... então pintaste o livro?
- São letras, mamã. É que eu vou ser escritora, não sabias? Como tu.

E pronto. Deixou-me rendida às suas "letras". Isto promete...
Hoje imaginei-me a trepar a uma árvore com os meus filhos. Instintivamente, corremos todos para o mesmo ramo, para ficarmos juntos... e o ramo partiu-se. Cada um de nós já tinha um peso próprio. Cada um de nós já sabia trepar sozinho. Era tempo de cada um de nós viver no seu ramo, ainda que na mesma árvore.
Então, pedi a cada um deles que escolhesse o "seu" ramo. Um escolheu um ramo mais grosso para que ele nunca se partisse, outro um ramo mais alto para poder tocar o céu, outro um ramo mais torto para fazer acrobacias, outro um ramo mais comprido para poder ir e voltar sem sair da árvore.
Deixei-os escolher os seus ramos à vontade e só depois fui sentar-me no meu: o mais fininho que havia na árvore, para dessa forma deixar todos os ramos bons, livres, para eles.
Mas, assim que me sentei, o ramo partiu-se e eu fui parar outra vez ao meio do chão.
Então os meus filhos vieram buscar-me e explicaram-me que eu também tinha que escolher o meu ramo, que tinha de ser forte para aguentar o meu peso, que tinha de ser lá no alto para eu tocar no céu, que podia ter partes tortas para quando eu quisesse fazer acrobacias, e que devia ser igualmente comprido para eu ir e vir as vezes que quisesse, sem sair da árvore.
Eu achava, até então, que não devia preocupar-me em escolher um bom ramo para mim, porque a minha prioridade eram eles. Mas os meus filhos ensinaram-me que, na árvore da vida, todos merecem o seu lugar. Um lugar especial, à nossa medida. E uma mãe que saiba escolher o seu ramo, terá a força, a altura, a forma e o comprimento adequados para dar isso tudo e muito mais aos seus filhotes...



É suposto deixá-los mexer na terra, não é? Quem não gosta de fazer uns bolinhos de terra e umas papas de ervas daninhas?



Vão é levar um banho daqueles à antiga, com direito a escova nas unhas e esfrega vigorosa no couro cabeludo. Até vou pôr o avental e cantar...

"As meninas da Ribeira do Sado é que é...
lavram a terra com as unhas dos pés
As meninas da Ribeira do Sado são como as ovelhas
Têm carrapatos atrás das orelhas!"


Entregou-me primeiro a "estrela" azul...

- Que giro! O que é, Nonô?
- É a missão da mamã. (entregou depois a vermelha) Esta é a missão do papá.

Senti-me pequenina e profundamente ignorante. Mas vou colar a minha missão na parede do escritório e, talvez um dia, consiga entender que missão é essa, minha sábia Nonô.


Há tempos que a Nonô andava a pedir para ser uma sereia. Hoje o Afonso fez-lhe a vontade. É uma versão em terra... mas melhor do que nada!


- Nonô, porque é que tiraste as meias?
- Estou a aquecer os pés ao sol...

E viva o verão!