Primeira manhã sem Mila (o meu braço direito cá em casa há um ano e meio) que foi um mês de férias para a Ucrânia. Balanço:

- Afonso e Sebastião continuam de pijama
- Três mensagens de clientes a pedir-me para lhes atender o telefone
- Cozinha com cheio insuportável dos 4 cocós que os bebés fizeram só hoje de manhã, e que repousam no balde à espera que alguém leve o saco para a rua
- vinte e-mails por responder e mais de quarenta livros por fechar (não estou a exagerar!)
- Sala transformada em pista de obstáculos
- Cozinha varrida, mas com manchas de molho de tomate que alguém terá de ir esfregar (Quem és tu, Sara? Ninguém...)
- Panelas espalhadas por toda a casa. Os meus filhos instauraram o Dia da Panela, e passaram a manhã a marchar com panelas na cabeça.

Só faltam 29 longos dias...
- Nocas, vai ver se o Dudu tem cocó...

Nocas vai, cheira o rabinho do irmão e responde:

- Não há cocó.

- Dudu, vai ser se a Nocas tem cocó...

Dudu vai cheirar o rabinho da irmã e responde:

- Nonô cocó.

A um mês e meio de fazer 2 anos, os meus gémeos já começam a participar nas tarefas cá de casa. E não é nada fácil cheirar o rabinho de um bebé! Eu diria mesmo que é uma tarefa bem arriscada...
Hoje consegui, finalmente, que o meu filho Sebastião (5) contasse um dos seus pesadelos. O pai não pôde tomar o pequeno-almoço connosco, e eu aproveitei para desligar as notícias e puxar por eles. O Afonso contou os seus trezentos e sessenta e cinco sonhos do ano inteiro (e mais contaria, se eu deixasse), eu contei o meu sonho de hoje, e o Sebastião, levado pelo entusiasmo do irmão, lá contou o pesadelo que o tinha levado a enfiar-se hoje na minha cama: pois que o Sebastião tinha entrado sem querer numa gruta e nessa gruta havia um ovo gigante. Ele tocou no ovo e o ovo partiu-se. Então chegou um dinossauro gigante que viu que o ovo estava partido e ficou muito zangado. Pegou numa guitarra e começou a tentar acertar no Sebastião. O Sebastião começou aos saltinhos, a tentar fugir, até que foi salvo por um unicórnio que o levou dali a voar. Levou-o então até ao céu onde estava o Jesus. O Sebastião ficou com medo porque o Jesus tinha ao pé dele uma caixa fechada onde metia as pessoas que se portavam mal. E ele tinha partido um ovo! Ficou com medo e pediu ao Jesus para chamar a mãe, e o pai e os irmãos.
Saltou imediatamente o Afonso, que estava a ouvir o irmão com muita atenção:
- Fogo, Sebastião! Para que é que me chamaste? Eu não quero ir para os anjinhos!
Mas o Sebastião só não queria ficar sozinho, por isso o Jesus mandou-o outra vez para a Terra, no unicórnio.
Expliquei ao Sebastião que partir um ovo não é nada de grave, ainda que o ovo seja de dinossauro, mas o Afonso tratou de dramatizar a situação:
- Sabes que mais, Sebastião? Acho que Deus te quis mandar uma mensagem...

O que é que eu faço com a criatividade dos meus filhos?
O Afonso (7) continua, convictamente, a dizer que quer ser escritor.

(Mãe) Ó Afonso, mas como é que tu queres ser escritor, e não escreves nada?
(Afonso) Então, mãe... eu estou nas minhas folgas. Não vês que eu vou ser daqueles escritores que só escreve 3 livros por ano?

Definitivamente, o meu filho vai ser um escritor muito mais bem sucedido do que eu... :(
Desta vez foi o Sebastião (5) a abordar o tema da morte, e a conversa também não foi meiguinha...

(Sebastião) Ó mãe, tu já alguma vez morreste?
(Mãe) Não, Sebastião. E tu?
(Sebastião) Também não.

...

(Sebastião) Ó mãe, se tu um dia morreres, contas-me como é que é o céu?
(Mãe) Porquê, Sebastião? Achas que é um sítio bonito?
(Sebastião) Não, acho que é um bocadinho feio. Porque as pessoas que se portam mal vão para dentro de uma caixa escura.

(Mãe respira fundo antes de retomar a conversa)

(Mãe) Quem é que te disse isso, Sebastião?
(Sebastião) A minha professora de Catequese hoje contou a história de um homem mau que dava com o chicote nas pessoas. Quando ele morreu chegou ao céu e o Jesus disse que ele tinha que ficar fechado numa caixa. Ele queria pedir desculpa às pessoas a quem tinha dado com o chicote, mas não podia porque já estava morto...

Tentei explicar-lhe que a caixa escura não existe, e que ele vai sempre a tempo de pedir desculpa quando se porta mal. Mas estou a crer que, graças à aula de hoje de Catequese, o Sebastião vai acabar mais uma noite na minha cama...

Entendo que a sociedade precise de regras e de castigos (se fizeres mal vais para a prisão), e que as religiões também se tenham desenvolvido nesse espírito, embora com castigos mais "transcendentais" (se fizeres mal vais para o inferno, ou vais reencarnar em qualquer coisa ou qualquer vida pouco agradável). Não sei se os meus filhos vão ter alguma religião quando crescerem, nem sequer se eles vão acreditar na sociedade como a conhecemos hoje em dia. Mas prefiro ensiná-los que é preciso fazerem o bem e serem correctos em tudo o que fizerem, porque é a única forma de fazermos os outros felizes e sermos também felizes, do que por receio de qualquer castigo, humano ou transcendente. Claro que eles às vezes ainda não sabem bem o que é o correcto, e eu também os castigo. Se calhar, não estou a fazer nada assim de tão diferente... Mas quero acreditar que um dia os meus filhos vão crescer e já não precisarão nem de mim, nem de ninguém, nem de algo, para serem homens correctos. A ver vamos...
Afonso a conversar no carro com o seu vizinho Duarte:

(Afonso) Mas porque é que tu não tens os novos cromos do futebol?
(Duarte) Os meus pais não me compram. Dizem que anda alguém a fazer negócio com isso lá na escola.
(Afonso) Não é negócio. Nós trocamos uns com os outros.
(Duarte) E também não tenho caderneta.
(Afonso) Eu também não. Mas se tiveres cromos podes entrar na nossa sociedade. Eu, o Zé Maria e o Diogo temos uma caderneta a meias.
(Duarte) Ah...

(Dois segundos de silêncio raro)

(Afonso) Ó mãe, estavas a ouvir?
(Mãe) Sim, Afonso.
(Afonso) Diz lá se eu não parecia o Zé Sócrates a falar sobre o governo das cadernetas...

Querem ver que o rapaz, em vez de escritor, ainda me sai político?
A história de hoje à noite era sobre flores que falam. Mas não falavam como nós, humanos. Falavam através do seu perfume.
(Mãe) Já alguma vez cheiraram uma flor e ouviram o que ela diz através do seu perfume?
(Afonso) Eu já!
(Mãe) Já? E o que é que ela te disse, Afonso?
(Afonso) Sai daqui! Tens mau hálito!
O meu post sobre as conversas do meu filho Afonso acerca do facto de as pilinhas crescerem (2 posts atrás) deu que falar. Algumas mães ligaram-me preocupadas: Onde é que ele ouviu essas coisas? Eles falam disso na escola?!
Falam. De facto, falam. Eu, por acaso, tenho a sorte de o meu filho Afonso contar tudo (lá chegará talvez o dia em que não me vai contar nada...), e de eu conseguir ir percebendo os temas que eles abordam. E, de facto, o tema do sexo é um dos assuntos na ordem do dia. O Afonso diz frequentemente coisas como:
- O (...) diz que o (...) vai fazer "sexy" com a (...). O que é que é "sexy", mãe?
- Estou tão cansado... Vou fazer sexy com uma parede...
- Eu sei como é que nascem os bebés. Os pais enfiam a pilinha no pipi das mães.
Não são coisas que ele ouve em casa, não são coisas que ele ouve na televisão. A informação circula na escola, por todo o lado, e eles digerem-na como sabem e podem. Devemos nós começar a ensiná-los e a explicar-lhes conceitos de sexualidade mais cedo? Neste momento acho que sim. Tive alguma dificuldade em perceber o porquê da urgência das aulas de sexualidade nas escolas, sobretudo quando falamos em miúdos do 1º ciclo (a antiga Primária). Mas hoje em dia acho que essas aulas são importantes e tenho uma amiga sexóloga (Vânia Beliz) que está a fazer um trabalho muito interessante nas escolas, junto dos miúdos. Tem sido muito solicitada pelas escolas para dar uma palestra aos miúdos sobre sexualidade, e a resposta deles é muito interessante, porque eles estão ávidos de explicações e têm muito mais dúvidas do que se pensa.
Antigamente falava-se pouco sobre estes assuntos, e muitos de nós fomos digerindo a informação sozinhos. Não veio mal ao mundo, por isso, mas, nos dias de hoje, com a informação que circula e os perigos que espreitam à porta, parece-me importante falarmos com os nossos filhos sobre estas matérias, se queremos uma sexualidade mais feliz e responsável.
Tenho um único filho com orelhas "saídas". É o meu duendezinho Sebastião, que tem as bochechinhas mais apetitosas do universo. Quanto às orelhas, não sei o que lhes deu para se afastarem da cabeça, mas hoje dei por mim a pensar se a culpa não terá sido da minha gigantesca barriga cheia de líquido amniótico, e da natação que fiz até quase à véspera dele nascer. Com tanta água, dentro e fora da minha barriga, talvez o meu Sebastião tenha começado a desenvolver características que o aproximam de uma espécie de "Homem da Atlântida" (sim, eu sou do tempo dessa mítica série!).
Não, o meu filho não tem orelhas saídas. Tem barbatanas ligadas à cabeça por membranas aquáticas! O Sebastião ainda não sabe nadar, mas talvez no dia em que aprender ele desapareça 5 minutos debaixo de água e reapareça depois, com aquele seu sorriso irresistível, a soltar um pirolito de água: "Então, não vêm?"
Depois de ler um livro aos meus filhos sobre Sentimentos (ao Afonso, ao Sebastião e à Leonor, porque o Duarte continua a ir dormir às 8 da noite, e a perder grande parte da paródia que se segue ao jantar), comecei a fazer-lhes perguntas difíceis: O que se sentia quando tínhamos vergonha, onde nos doía quando estávamos tristes, onde é que ficava guardada a inveja...
Até que, a dada altura, resolvi perguntar-lhes:
- E vocês sabem o que é que se sente quando ficamos apaixonados?
Responde-me logo o Afonso (7 anos), prontamente:
- Eu sei! Sente-se a pilinha a crescer e a levantar-se...
Definitivamente, há sentimentos que os homens não guardam só no coração...

PS - Aulas de Sexualidade precisam-se, pf.
Se os meus filhos um dia pertencerão à Geração Rasca, à Geração À Rasca ou à Geração Carrasca, não sei bem. Mas sei que pertencerão, pelo menos, à Geração da Reciclagem, da boa Nutrição e do Não ao Tabaco. Volta e meia, lá entram em campanha e massacram o pai que, por ter nascido noutra Geração, deixou-se viciar em tabaco na adolescência. Ontem, o Afonso (filho mais velho) resolveu ter uma conversa séria comigo:
- Ó mãe, nós temos que pensar em alguma coisa para fazer o pai deixar de fumar.
- Não é fácil, filho...
- Temos que pensar num plano...
E deixou-se ficar em silêncio, pensativo, até o pai s juntar a nós.
- Ó pai... já sabes o que é que vai ser o teu jejum nesta Quaresma?
Ao ouvir falar em jejum, na Catequese, o Afonso decidiu propor ao pai que, em vez de comida, abdicasse do tabaco! Era bom que fosse assim tão simples. Mas foi uma boa tentativa...
A escrever sobre o Futuro, decidi pedir umas ideias ao meu filho Afonso (7), cuja imaginação consegue sempre surpreender-me. E esta vez não foi excepção:

(Mãe)
Afonso, se fosses ao Futuro, o que é que encontravas?
(Afonso)
Dinossauros.
(Mãe)
Dinossauros? Isso não é no Passado?
(Afonso)
No futuro também. Criaram um vírus informático que fez com que os Dinossauros do meu Jogo de Computador ganhassem vida.

Definitivamente, isto é muito à frente para mim. Vou mas é escrever para os adultos, antes de ser chamada de "cota"...
(Afonso a caminho da cama)
- Ó mãe, o primo Zé Maria diz que o Pai Natal não existe... e que é o Jesus que entrega os presentes aos pais, para eles os darem no Natal.
- Mas tu afinal acreditas no Pai Natal?
- Não. Nem acredito no Jesus. Como é que ele podia dar os presentes aos pais, se ele está morto?
- Está morto, filho?
- Claro! O Natal é em Dezembro, e ele só ressuscita em Março, na Páscoa...

Pois...
Diácono Rodrigues, importa-se de ter uma conversinha com o seu neto?
Um sol esplendoroso. 4 filhos enfiados em casa a fazer disparates. Mila de fim-de-semana de folga. A casa de pantanas. A mãe aflita com trabalho. Disse "Basta!" às 11 da manhã, e convenci o pai, que acordara coxo, a ir pelo menos a qualquer lado. A qualquer um. Podíamos nem sair do carro...
Metemos todos no carro, deixámos o cão a fazer mais uns cocós e xixis pela cozinha, e aí fomos nós. Uma rotunda, duas... vomita o Duarte. Três rotundas, quatro... vomita a Leonor. Com um cheiro indescritível no carro, e o Afonso e o Sebastião já quase também a vomitar, voltámos para casa. Onde o cão nos esperava depois de 2 cocós e 3 xixis. Que bela manhã...
Enquanto limpava os cocós e xixis do cão, e dava banho aos gémeos, lembrei-me de uma outra manhã, igualmente linda, que me aconteceu há uns anos. Ainda só tinha o Afonso e o Sebastião, que era bebé. Íamos ao casamento de dois grandes amigos meus, no Alentejo profundo, e eu ia tocar a Avé Maria da entrada. Tinha passado a semana a ensaiar sozinha, mas era suposto chegar mais cedo à Igreja para ensaiar ainda com a rapariga que ia cantar. Claro que saí de casa atrasada. Já não me lembro exactamente porquê, mas metia certamente roupinhas, e cadeirinhas, e xixis, e birras... Chegámos à ponte 25 de Abril e estava tudo parado. Stress! Um calor de morte, e os miúdos já a resmungar. O atraso a acumular. Quando passámos a fase crítica, pedi ao meu marido para pôr o pé no acelerador. A cantora já estava à minha espera, e eu ainda estava a 100 e tal quilómetros! Até Montemor fomos lindamente, prego a fundo. O problema foi depois. Metemo-nos por atalhos para tentar chegar mais depressa, perdemo-nos e, entre as curvas e contra-curvas, o Sebastião vomitou. Depois foi o Afonso. Eu chorava. E a noiva a esturricar dentro do carro, às voltas, à espera que eu chegasse... E eu não cheguei. A horas, não. A noiva entrou. A cantora cantou à capela. Eu entrei de maquilhagem esborratada, de chorar. E, enquanto via a minha amiga noiva dizer o Sim ao meu amigo noivo, e pensava para comigo que aqueles dois já deviam ser tudo menos meus amigos, o meu marido andava pelo jardim que havia em frente à Igreja, com um filho em cuecas e outro de fralda, enquanto as suas roupinhas pipis secavam em cima de uma sebe...
Ter filhos é maravilhoso. Mas ele há dias e dias...
Depois de uma dia intenso de filhos e sobrinhos, daqueles que parece que nunca mais acabam, mas que, depois de acabarem, nos deixam umas saudades imensas, resolvi desafiar o meu filho Afonso para uma meia-hora musical. O meu filho tem sempre preguiça de estudar guitarra, mas quando o acompanho ao piano, nunca se nega. Claro que a façanha só pode acontecer ao fim-de-semana, porque durante a semana o tempo mal chega para os TPCs, os banhos, os jantares e a história. Quando chega a hora da guitarra já os manos bebés estão na cama, e o piano não é, definitivamente, o melhor instrumento para adormecer gémeos. Mas de vez em quando, ao Domingo, lá arranjamos um buraquinho para o concerto, e como as músicas dele são cada vez mais elaboradas, também o são os seus acompanhamentos, e hoje soou-me mesmo bem a nossa comunhão musical. O Sebastião juntou-se a ouvir, e até os gémeos ficaram mais calminhos. Esqueci as birras deles, as más-educações, os vícios da playstation, as preguiças, os gritos e as correrias. Esqueci as minhas faltas de paciência, os meus gritos, o meu vício no trabalho e as minhas pressas. Senti-me a mãe perfeita da família perfeita, qual Von Trapp. Claro que só durou meia-hora. Depois o Afonso já estava fatigado, era hora de jantar, o cão já tinha feito mais um cocó na sala e o pai queria ouvir o futebol. Mas pronto. Se todos os dias tivermos meia-hora de Música no Coração, já teremos direito a um Óscar...
Como se não bastassem os 2 mais velhos e os gémeos, agora temos um pequeno cachorro cá em casa. Sempre disse que gostava de ter mais um filho, mas não estava nos meus planos uma pequena bola de pêlo que despeja cocó e xixi por onde quer que passe. É lindo, fofo, só dá vontade de apertar, mas de repente as xuxas que caíam no chão correm o risco de cair em cima do xixi que ainda não limpámos, as mãos sapudas dos gémeos que mexem em tudo aquilo que alcançam, correm agora um risco acrescido de se embodegarem nos cocós escondidos nos mais recônditos recantos da nossa casa. E, se os meus gémeos já comiam a comida do chão, agora também se lambuzam com a ração do cão e a água que está junto à caminha do cachorro. É mais um bebé cá em casa, para chorar de noite e exigir dois olhos atrás dele. Mas quem resiste a ver 4 crianças doidas com um pequeno cãozinho, esquecendo desenhos animados e playstations?
A afortunada cachorra (se resistir aos apertões e puxões de orelhas dos gémeos) chama-se Cuca, porque das poucas palavras que os meus filhos bebés dizem é "Uca". Assim "Uca" dá para Ruca e dá para Cuca. Economia das palavras. Temos de nos valer de tudo em tempos de crise...
- Ó mãe, se o mano sem querer deixar cair a mana e ela morrer o que é que fazes?
(Mãe ignora)
- Ó mãe, diz lá... se o Sebastião puser a mana ao colo e sem querer a deixar cair pelas escadas abaixo e ela morrer, o que é que tu fazes?
- Afonso... por favor!
- E se for a Mila? Se a for a Mila a matar a mana o que é que tu fazes?

Raios parta o miúdo! Com tanta coisa para herdar de mim, logo tinha que ficar com a projecção da desgraça. Lá acabará a escrever novelas...
Depois de uma ida (atribulada) ao concerto para bebés com os filhos mais novos, levei os mais velhos a ver os Deolinda. Eles conhecem grande parte das músicas, sabem algumas das letras de cor, e achei que seria boa ideia levá-los pela primeira vez a um concerto "a sério". Com o senão de que os concertos "a sério" começam à hora a que eles habitualmente já estão deitados. Resultado: o Sebastião durou 4 músicas. Afonso durou mais umas quantas, mas porque o Pai se lembrou de dizer que no final caíam confetis do tecto e ele queria assistir. Lá chegará o tempo em que eles vão querer ir aos concertos todos e eu vou querer ir atrás (já me imagino aos moches no meio de um estádio qualquer, ou às cavalitas deles, que vão crescer muito mais do que eu...). E também lá chegará o tempo em que eles não vão querer que eu vá atrás deles. Mas, por enquanto, vamos deixar-nos de concertos "a sério" e ficarmo-nos pelos Festivais do Panda e matinés ao Domingo...
E pronto. É isto que os pais sentem quando os professores os mandam chamar e dizem que o filho anda esquisito, a portar-se mal, aéreo e com chamadas de atenção. Os pais estiverem 4 dias no bem bom, deixaram os filhos com os avós para irem dormir e comer à grande e à francesa, sem gritos, nem confusões, nem choros, nem birras, nem fraldas, nem horários, nem TPCs, nem Pandas, nem pesadelos a meio da noite, e quando voltam ouvem estas coisas. E sentem-se mal. Muito mal. E pensam que não deviam ter ido... mas soube-lhes tão bem! Fazia-lhes tanta falta. E eles vieram de lá tão descansadinhos da vida, com os sonos em dia e saudades dos filhotes...
Ser pai é viver neste dilema de termos filhos, mas termos de pensar que eles não são só nossos, e nós não somos só deles, e por isso culpamo-nos quando vivemos demasiado para eles, mas também quando resolvemos pensar um bocadinho em nós.
No caso do Sebastião (o filho em causa, que anda a chamar a atenção), existe um problema acrescido, que não é destes dias, é de sempre. O Sebastião é o "entalado" dos irmãos, aquele que, em virtude de ter nascido no meio e ser um bonzão, nunca ter dado trabalho nenhum, sempre foi aquele com que menos nos preocupávamos. Na fase dos "2", o Afonso ia sempre à frente, foi ele a fazer as primeiras gracinhas, a dizer as primeiras palavras, a fazer as primeiras observações engraçadas, a descobrir as letras, e os números, a entrar na Primária... O Sebastião perdeu a vez da "primeira vez". Já tínhamos assistido às suas novidades, e a nossa reacção foi muitas vezes de "mais uma vez" do que "primeira vez". Com todo o amor do mundo. Mas indisfarçadamente menos surpresa.
Depois começou a fase dos "4". E o Sebastião teve que fazer parelha com o irmão mais velho, porque a mãe estava demasiado ocupada com os irmãos bebés. E, sempre que a mãe conseguia tempo para a "dupla" mais velha, era para dar atenção ao Afonso, por causa dos TPC, das suas exigências, da sua ininterrupta conversa, das suas permanentes negociações, das suas agitações. O Sebastião, pacholas, sempre ficou com os restinhos da mãe. De que lhe tem valido, afinal, ser bonzinho e paciente? Pois que agora começou a dar sinais de impaciência. Talvez estas chamadas de atenção sejam para reivindicar o seu lugar. E com justa causa. Por isso desde hoje que há novas medidas cá em casa:
- À hora dos TPC do Afonso, a mãe faz também uma ficha ou um jogo com o Sebastião (que assim não fica por casa esquecido até à hora do banho e do jantar)
- A escolha dos livros que lemos à noite é alternada, uma noite é o Afonso, na outra o Sebastião (já era assim há umas semanas, mas o Afonso acabava sempre por escolher pelo Sebastião, cujo poder de decisão deixa muito a desejar)
- Os programas do fim-de-semana também vão ser à vez.
- Sempre que o Afonso tiver festas de anos, em vez da mãe aproveitar para trabalhar, vai fazer um programita com o Sebastião.
E pronto. Vamos ver como corre. O problema vai ser quando os gémeos também começarem a chamar a atenção... Inventem-se pais com mais braços e dias com mais horas, por favor!
Este ano os nossos filhos mais velhos foram votar com os pais. Como eu e o pai votávamos em locais diferentes, o Afonso (mais velho) foi com o pai, e o Sebastião (do meio) foi comigo. No caminho, o Pai explicou ao Afonso como decorriam as eleições. Como eram as campanhas, como se votava, como se contavam os votos e o que acontecia ao vencedor e ao vencido. E o Afonso aconselhou o Pai a votar no "Sovaco Silva". Porquê? Porque era o único que conhecia... (e não terá sido por isso que ele teve tantos votos?)
Já eu, que tinha passado o fim-de-semana a trabalhar e estava sem vontade alguma de votar, pedi ajuda ao Sebastião para me escolher um candidato.
- Quais é que são os candidatos, mãe?
- Então... há o Cavaco Silva, que quer que o país seja mais rico. Depois há o Manuel Alegre, que quer que o país seja mais...
- Alegre!
- Isso, Sebastião. E há o Fernando Nobre que quer que o país seja mais...
- Nobre!
- Sim. Pode ser. Os outros... a mãe não se lembra dos nomes. (eu sei, eu sei! Pouco zelosa da sua responsabilidade cívica. Mas a minha capacidade de memória, com tanta personagem e cliente e crianças na escola, está no seu limite. Sem um disco externo não consigo guardar nem mais um nome!)
- Ó mãe... e como é que vai ser? Os candidatos vão pôr-se todos alinhados e eu depois aponto?
- Não, filho... Eles não vão estar lá. Tens que escolher pelas fotografias.
- Ah... Mas eu já sei qual é que vou escolher.
- E qual é, Sebastião?
- Aquele primeiro que tu disseste. Se o país ficar mais rico tu podes comprar mais beyblades...
E pronto. Perante a minha fraca abordagem dos candidatos, ele até fez uma escolha acertada...