A ver o filme "Inteligência Artificial". Tinha-o visto uma única vez, quando estreou, ainda não era mãe. Já era um dos filmes da minha vida. Não sabia era que, a vê-lo na qualidade de mãe, passados estes anos todos, conseguiria chorar tanto...
(Mami para Afonso, a 3 semanas da sua 1ª Comunhão):
- Afonso, a mãe quer que tu leias um livrinho que escrevi no dia da minha 1ª Comunhão, a contar tudo aquilo que senti quando comunguei.
- Ah! Tipo se a hóstia te ficou colocada no céu da boca, e essas coisas?
(Definitivamente, acho que o meu filho anda a ler "Diários de um Banana" a mais!)
Esta noite, o livro "Francisca e os Irmãos Alces" transformou-se em "Nonô e os Irmãos Alces... Afonso, Titão e Dudu". A pequena Nonô não tinha irmãos e decidiu adoptar três alces, que levou para o seu quarto. O problema é que os Alces comiam os seus legos, estragavam as suas roupas, não sabiam pintar com os seus lápis... e a Nonô acabou por expulsá-los de sua casa. Claro que, na nossa versão, a Nonô aceita-os de volta, mas obriga-os a portarem-se melhor. E, sobretudo, a não encher o seu quarto de caganitas de alce!!
E a risota foi tanta, que a seguir foi bem difícil sossegar os alces e a Nonô, para aquele que se queria um soninho descansado. Há livros muito giros, e este é um deles. Mas, não desfazendo, as versões cá de casa são bem mais divertidas!
E enquanto a mami ajuda o Afonso a descrever uma formiga em inglês, e o Sebastião bodega o caderno de ZZZZ, o Dudu e a Nonô despejam uma bisnaga de creme anti-rugas (carooooo!) numa boneca despida. Calma, Sara. Respira fundo. Só já faltam 30 horas para terminar o fim-de-semana...
Dantes despachava as 80 unhas dos meus filhos à noite, depois do banho. As unhas ficavam mais molinhas, e tal. Mas era sempre um desgaste tão grande, que quando ia para a cama ainda tinha nos ouvidos os berros deles, e nos olhos o seu espernear. Agora mudei de estratégia: as unhas cortam-se de manhã. Quando a mãe ainda tem energia para lhes segurar as pernocas, ainda tem voz para mandar uns berros mais audíveis do que os deles e, sobretudo, quando ainda não tomou banho. É que, depois de cortar 80 unhas a 4 diabretes, o suor é tanto, que tenho mesmo de ir para dentro da banheira!
Cada vez os jovens lidam pior com a frustração de não terem o que querem e revoltam-se contra os pais. São cada vez mais os episódios de violência denunciados na APAV, vindos sobretudo da classe média e alta, e teme-se o futuro desta nova geração onde estão os adultos do amanhã. Ouvi a reportagem na SIC Notícias e fiquei colada ao ecrã. Cada vez mais vemos pais sem tempo, que tentam compensar os filhos com bens materiais (porque é para isso que trabalham tanto). Pais que estão cansados demais para dizer Não e querem ser pais bacanos no pouco tempo que têm. Compreendo-os perfeitamente, porque é difícil fugir ao modelo do consumo imposto, é difícil ter tempo, é difícil gerir a paciência e ser pai "carrasco" no tempo que nos sobra! Penso que só não me incluo neste grupo de pais porque tive 4 filhos assim meio de repente, o que me obrigou a adaptar a minha profissão de forma a trabalhar em casa (e ter mais tempo), e a encarnar uma versão "militar" de mim mesma, para não perder o controlo das hostes. O pai, exigente e autoritário quando é preciso, também ajudou. E as suas chamadas de atenção para os meus momentos de permissividade, também. Hoje, acho que sou carinhosa e amiga, mas não tolero faltas de respeito nem o incumprimento das regras. Os presentes são controlados (ai de mim, que não ganhava para isso!) e ai deles que não se mostrem agradecidos pelo esforço dos pais. Estou longe de ser um modelo perfeito de mãe, mas acho que a quantidade de filhos me aguçou o engenho. Não sei se verei neles os resultados que gostaria, porque a dada altura há muitos outros factores que nos ultrapassam. Mas pelo menos não me revi na notícia da Sic Notícias. Revejo-me mais no exemplo dos meus pais, de quem hoje entendo cada ralhete, cada apre, cada não e cada castigo. Se conseguir seguir o seu exemplo, já me darei por muito satisfeita!
Na semana internacional da alergia, escrevi mais um artigo para o Consulta Click, a contar as aventuras cá de casa. Felizmente a minha experiência na matéria é pouca... mas a que tive bastou-me para hoje transmitir a minha força a todos os pais e a todos os filhos que têm que viver com ela:
http://consultaclick.pt/blog/2012/04/20/coisas-de-alergias/
E por fim convenci o meu filho Afonso (8) a ditar-me a letra da música que ele fez sobre não desistir:
Não posso parar/
Nunca desistir/
Tenho que alcançar/
Tenho que conseguir/
Com bola no pé/
Raquete na mão/
Eu vou conseguir/
Ao som desta canção/
A melodia também é simples, mas fica no ouvido. O pai não quer, mas acho que este nosso filho vai mesmo sair artista :).
A Nonô tinha uma boneca cujos olhos não se mantinham abertos. Pestanuda até mais não, estava sempre de olhos fechados, talvez por defeito de fabrico, talvez porque o seu criador não se tivesse preocupado com esse pequeno grande problema na vida de uma boneca. Mas como é óbvio... a minha pequena Nonô reparou! E andou uma tarde inteira de roda de mim:
- Abre os olhos, mamã.
A mamã abria os olhos da boneca, e eles fechavam. A mamã abria, e eles fechavam. Abria, fechavam. E, a dada altura a Nonô chateou-se e foi buscar uma fita-cola.
- Mamã... prende os olhos, mamã.
E a boneca agora tem sempre os olhos abertos... e uma valente cruz de fita-cola por cima de cada olho, para que nenhum deles, jamais, se volte a fechar. Só espero que a minha filha nunca se ponha com ideias de experimentar algo semelhante em nenhuma amiguinha mais sonolenta lá da escola...
Ontem o meu filho Sebastião (6) chegou a casa com um pequeno dentinho na mão e aquele sorriso que só ele tem, rasgado, meiguinho, sem grandes palavras, porque um verdadeiro sorriso não precisa delas.
(Mãe) Finalmente, Sebastião! Estava a ver que esse dentinho maroto nunca mais saltava! Vai buscar um guardanapo para o enrolarmos. Temos que o pôr debaixo da almofada.
(O Sebastião foi, satisfeito, e o seu sorriso foi ganhando contornos de marotice. Enrolou delicadamente o seu dentinho e depois aproximou-se do meu ouvido e disse baixinho:)
(Sebastião) Eu já sei que és tu a Fadinha dos Dentes... Disse-me a Madalena Vivas!
(Mãe) A mãe? Então como é que a mãe ia deixar moedas debaixo de todas as almofadas dos meninos? (a conversa já tinha resultado com o Pai Natal, mas verdade seja dita... por pouco tempo!)
(Sebastião) Não há Fadinha dos Dentes! És tu que me deixas lá a moedinha. E naqueles dias em que não havia moeda, foste tu que te esqueceste!
(Ora bolas! Apanhada na curva, sem escapatória possível!)
(Mãe) E agora, Sebastião? O que é que fazemos ao teu dente?
(Sebastião olha para o dente, pensativo)
(Sebastião) Pomos à mesma debaixo da almofada e tu deixas uma moeda. Ah, não... Sem moeda é que eu não fico!
(E assim continuam eles a receber presentes no Natal e moedinhas quando os dentes caem. Vão-se as histórias... ficam os anéis!)
(Afonso, 8 anos, em reflexão) Há pessoas que se estão sempre a queixar de tudo! Se elas vivessem em África, sem ter o que comer e sem casa para viver, é que se podiam queixar, não era, mami?
(Terei que lhe explicar que por todo o lado há quem não tenha casa nem o que comer, e que em África também há quem tenha tudo, e até demais. De qualquer forma, admiro o seu positivismo, que todos os dias me faz estar ainda mais grata por tudo o que tenho).
(Mamã para a pequena Nonô, apontando a sua barriga):
- De quem é esta barrigota gorda, de quem?
- É da Nonô!
(Nonô para a pequena mamã, apontando as suas maminhas):
- E a mamã tem duas!
Ontem à noite o Sebastião encontrou um pauzinho de Mikado e não sabia o que era. O Mikado, esse grande jogo da minha infância! E o meu filhote de 6 anos nunca tinha visto nenhum...
- A mãe tem um jogo de Mikado guardado, Sebastião. Amanhã pedes-me, que eu mostro-te.
- Amanhã, mãe? - perguntou-me, aflito.
- Sim, filho. Hoje já é tarde. Tens que dormir.
- Então é melhor dizeres ao Afonso para te lembrar. Já sabes que eu me vou esquecer...
Pobre Titão! Já tem perfeita noção de que é esquecido. Mas a mamã está cá para o ajudar a contornar este pequeno problema (no meio de tantas outras virtudes!).
- Vamos pôr esta caixinha com o pau do Mikado ao pé da tua cama. Assim, quando acordares, vais-te lembrar que esta caixa quer dizer alguma coisa. E de certeza que te lembras do que é.
E não é que o meu Sebastiãozinho, hoje de manhã, chegou triunfante à mesa do pequeno-almoço com um pauzinho de Mikado na mão?
- Lembrei-me, mamã! Lembrei-me!
Haverá sempre estratégias para contornar as nossas dificuldades. E uns lembretes aqui e além nunca fizeram mal a ninguém... O que seria de mim sem eles?
Não sei se motivado pelo seu primeiro golo num jogo de hóquei, este fim-de-semana, o Afonso hoje saiu-se com esta ao jantar:
- Hoje compus a minha primeira música em português.
O pai começou-se logo a rir. Só a mãe é que é lamechas e fica logo embevecida com estas coisas.
- Então e em inglês, quantas músicas já compuseste? - perguntou o pai.
Já a mãe, continuava na pieguice:
- Que bom, filho! E como é a música?
- Estava na sala de aula, a fazer uma ficha, e veio-me uma melodia à cabeça. Agora estou a fazer a letra. Mas ainda não posso dizer como é.
No entanto, assim que ficámos só nós os dois, ele chegou-se bem pertinho do meu ouvido e revelou-me o seu segredo:
- É sobre não desistir, mami.
E só não chorei porque, então, é que seria uma novela mexicana! Mas apeteceu-me. De orgulho, claro está. Já sei um bocadinho da letra e tudo. Mas só posso contar quando ele me deixar...
E quando o nosso pequenote de 2 anos solta um grito e vem a correr ter connosco, com a mão no ar? Achamos que se entalou, mas a mão não está vermelha. O choro dele é de assustado. Vamos ao quarto e ele aponta para a tomada. E vemos um prego, que ele descobriu não sei onde, enfiado na tomada. Tinha apanhado um choque! Felizmente pequenino. Mas o choque da mãe foi grande! Agarrei-me a ele e culpei-me vezes sem conta por não ter protecções nas tomadas. Nunca tinha tido um acidente desta natureza, com nenhum filho. Mas, de facto, não podemos pensar que só acontece aos outros...
(Hoje de manhã a minha pequena Nonô apontou para as letras de uma garrafa de sumo e disse:)
- Mamã... Letras. Maria.
- Maria o quê, filha?
(Ela apontou para o "M":)
- “Maria”.
- É o M de Maria, é isso?
- Sim.
(Não achei possível e mandei-a olhar para o meu computador:)
- Vê lá se descobres aqui o M de Maria.
(E não é que ela olhou, olhou, e depois apontou o M? Ainda não tem 3 anos, o raio da miúda! Não há dúvida... Adoro os meus ricos rapazolas, mas as miúdas têm outro despacho...)
(A propósito do Golpe de Estado na Guiné-Bissau)
(Afonso) Mãe, o que é um golpe de Estado?
(Mãe) Sabes que às vezes há pessoas que não estão contentes com o presidente ou com o governo do seu país.
(Afonso) Então porque é que não votam noutro?
(Porque não é assim tão simples, meu filho. Mas se assim pensas, é sinal que és filho da democracia, e não imaginas a sorte que tens...)
Fizemos obras em nossa casa para dar um quarto a cada filho. Pintámos paredes, enchemos os quartos com as preciosas ofertas da madrinha Cristiana Resina (quem não conhece tem de espreitar, por favor: www.cristianaresina.com. Decoradora dos quartos dos meus filhos, ilustradora dos meus livros, amiga incontornável desta vida!), demos-lhes cor e brinquedos e tudo aquilo que era necessário para fazer deles quartos de sonho. O da pequena Nonô era o mais aldrabado, porque aproveitámos os restos das mobílias dos manos, com umas ofertas e trocas ali e acolá, mas até essa "salganhada" quisemos melhor. Chamámos a Cristiana, chamámos a Carma (que pinta maravilhosamente) e despejámos a Nonô do seu quartinho por duas semanas para o transformar num quarto de princesa.
O curioso é que, nos entretantos, a Nonô foi dormir para a cama-gaveta do quarto do Sebastião. E, de repente aquele quarto de rapaz, nascido numa das obras que transformaram um antigo escritório em 2 quartos, improvisado com o que havia cá por casa e uns pozinhos de magia (leia-se "pozinhos de Cristiana"), tornou-se no quarto mais apetecível da casa! E aquilo que eu pensei que seria um problema (ter dois filhotes de idades diferentes e ritmos diferentes de vida e de sono a dormir no mesmo quarto) tornou-se afinal numa grande aventura de duas semanas. À hora da história, juntam-se os 4 manos no quarto do Sebastião e por lá ficam até eu os devolver à força aos respectivos quartos. Gostam dos seus, e não há dúvida que me sabe bem poder proporcionar-lhes um espaço só deles, criado para eles, adaptados aos seus gostos e necessidades, mas nestas duas semanas tive a prova de que às vezes queremos dar tudo aos nossos filhos, quando eles precisam de tão pouco para serem felizes. Desde que esse pouco seja feito de afectos, atenção e brincadeira.
E os meus 4 filhos, enfiados numa cama e num gavetão de um quarto pequeno, encaixados 2 a 2 durante 2 semanas, foram surpreendentemente felizes!
(Sebastião, a deglutir um prato de canja):
- Mãe, tenho uma pergunta para ti... "Easy Bananisy" é canja de galinha, arroz de pato ou bacalhau?
É preciso ser-se realmente entendido no mundo infantil para responder às perguntas do meu filho...
Há uns tempos, trabalhou em minha casa a Susana. Durante meses, foi o meu braço direito para tudo. Nas pesquisas, nas escritas, nos telefonemas, até nas coisas de mãe, porque os meus gémeos (na altura ainda por casa) adoravam-na e ela lá me ia dando uma mãozinha nas horas de maior aperto, brincando, rindo e conversando com o jeitinho natural que ela tem. Na altura os gémeos ainda não falavam mas, sobretudo o Duarte, ficava de olhinhos a brilhar quando ela aparecia, e ia à porta quando ela saía.
Há cerca de um ano, a Susana abraçou um novo desafio profissional, que a tem levado para outros voos. E o Duarte, entretanto, começou a falar. E, um dia, chegou à porta do meu escritório, bateu à porta e gritou "Su-jjja-naaaa. Su-jjja-naaaa". A Susana não estava, mas eu fiquei tão impressionada por ele ainda se lembrar dela, que lhe liguei imediatamente a pedir-lhe que ela viesse a minha casa. Ela veio, cheia de receio que o Duarte não a conhecesse (até porque tinha cortado o cabelo), mas o Duarte correu para ela a abraçá-la. Depois mexeu-lhe no cabelo e perguntou: "O cabelo?".
Passaram-se outros tantos meses, a Susana não tem conseguido voltar, mas hoje de manhã abri o computador e fui espeitar um e-mail dela, para retirar um documento de trabalho que precisava. Estive caladinha o tempo todo, atrapalhada com trabalho, como sempre, mas o pequeno Dudu, sentado à minha frente a beber o seu leite, acabadinho de acordar, saiu-se com esta:
- Mamã... a Sujjana??
E quem é que explica como nascem estes laços? Coincidências? Talvez. Ou talvez não.
(No regresso da escola)
- Mãe, hoje dei uma letra nova.
- Que bom, Sebastião!
- Não foi assim tão bom... Ela nem sequer tem som!
Com as férias terminadas, voltámos às histórias "pedagógicas" de boa-noite e, com elas, também as aulas nocturnas de Filosofia para os mais velhos. Hoje, sobre a liberdade. Começámos com aquilo que eles eram livres de fazer. Seguimos para aquilo que eles não tinham liberdade para fazer. E o Afonso (8) lançou a polémica:
- Nós não temos liberdade para nos suicidarmos.
Murro no estômago! E recordei a peça de teatro que escrevi aos 12 anos, sobre o tema, que deixou a minha mãe de cabelos em pé, a querer levar-me ao psicólogo. Respirei fundo e prossegui:
- Na verdade, filho, temos liberdade para nos suicidarmos. Só estamos a fazer mal a nós próprios. Mas deixamos os outros muito tristes. E a vida é tão boa... que é um grande disparate, não é?
E os meus filhos riram, e riram, e riram, como se eu tivesse dito a coisa mais divertida do mundo. O Afonso até exclamou.
- Isso foi uma piada de morrer a rir, mami!
Deixei-os pensar que sim e, alegremente, prosseguimos viagem até à nossa liberdade e a dos outros. Onde começa e acaba uma e outra. Mas o Afonso ficara a remoer a questão antiga, e lá o deixei dizer o que o perturbava:
- O suicídio é um disparate. Mas se dermos a vida pelos outros já não é, pois não?
Novo murro no estômago. Filosofar com o meu filho Afonso é um verdadeiro desafio às minhas capacidades de mãe!
- É assim, filho... Quem dá a vida pelos outros tenta salvá-los. E a si próprio também. Só que às vezes não corre bem. Não é errado dar a vida pelos outros, mas é preferível que se salvem todos.
E os meus filhos riram muito outra vez. De quê, não sei ao certo. Mas enquanto se forem rindo dos dilemas da vida, estão eles muitíssimo bem!
E não podia falar da "Segunda-feira de festa" (como é conhecida no Alentejo) sem falar do Domingo de Páscoa, passado em Évora, que este ano meteu torneio de ping-pong e demonstrações de pião pelos mais velhos (que tentaram ensinar aos mais novos, mas sem grande resultado. É que os Beyblades rodam mais facilmente!), futebolada debaixo do chorão e passeio pela horta. Os folares foram feitos na véspera, pela criançada (4 meus, 3 da minha irmã, 2 da nora dela, 2 de outra amiga... 11 mãos sapudas com as mãos na massa. Está-se a ver o resultado! Havia massa até dentro das cuecas!), e no Domingo éramos 18 adultos e 9 crianças. Uma boa média. Uma grande família, em muito mais do que um sentido. E, só por isso, com mais ou menos fé, já se deu mais uma Páscoa.
Hoje foi casa cheia cá em casa. No Alentejo é feriado, em Braga é feriado, e em Lisboa não é feriado, mas tivemos de "feriadar" mais ao menos cá em casa, porque a criançada não teve escola e a mãe tem esta vantagem de conseguir mandar o trabalho para trás das costas de vez em quando (que é a mesma coisa que dizer, deitá-lo para fora de horas, depois de deitar as crianças).
Aos meus juntou-se a amiga Frederica. Depois apareceu a avó com três sobrinhos. E a tarde terminou com crepes, futebolada e cama elástica. Mas, claro, porque amanhã recomeça a escola, lá iam surgindo umas perguntinhas pelo meio:
- Meninos, qual é a capital da Grécia?
(silêncios, olhares, risos, bocas cheias de crepe. A mãe põe dois dedinhos agitados na cabeça)
- O que é que a mãe tem na cabeça?
- Cornos!
Eram antenas, mas pronto. Com as crianças nem sempre podemos arriscar determinadas macacadas...
(Afonso) Mami... acabaste de passar um vermelho!
(Mamã) Não era não, filho.
(Afonso) Então o que era?
(Mamã) Um verde tinto.
(Afonso com voz de censura) Mãeeeee...
(Mamã) Ó filho... a mãe está com pressa, não há ninguém nas ruas, isto é Beja...
(Afonso) E vais-me dizer que em Beja não é preciso parar quando o sinal passa a vermelho?
É bom saber que o meu filho mais velho já tem uma boa noção do que é certo e errado. Falta-lhe ainda perceber que às vezes a mãe também erra um bocadinho...
(A avó a apresentar os seus netinhos às amigas):
(Avó babada) Esta é a Nonô.
(Nonô) Princesa!
(Dudu) E eu o Dudu... "p'íncipe".
E depois não há-de a avó babar-se... (e a mãe também!)
Anda um verdadeiro forró cá em casa! Um a um dos meus filhos, por motivos diferentes, tem-se vindo enfiar nos lençóis da minha cama durante a noite. O Afonso é porque acordou e não consegue adormecer (mas com o meu abracinho já consegue). O Sebastião tem pesadelos e não quer ficar no quarto dele (mas no meu os pesadelos já não entram). E a Nonô volta e meia acorda para a vida mais cedo do que o costume, não vê ninguém na sala, por isso vai pedir "teeevisão" ao meu quarto. O Dudu era o único, até então, que se escapava a estas visitas à mamã. É o único que ainda dorme em cama de grades (andamos a adiar a mudança por preguicite aguda), para além de que dorme sempre a noite toda e é sempre o último a acordar. O filho perfeito, portanto, pelo menos em horário nocturno e madrugadeiro.
O problema é que, esta semana, começou a acordar a meio da noite com ataques de tosse. Na primeira noite dei-lhe miminhos, xarope e voltei a deitá-lo. Na segunda deitei-lhe miminhos, xarope e voltei a deitá-lo. Na terceira peguei nele e, já sem paciência para passeios nocturnos, levei-o para a minha cama. E aquilo foi uma grande novidades para o Dudu! Tão grande a novidade... que ele quis ver e perceber tudo sobre esse ainda inexplorado mundo dos pais dormitando na cama grande onde ele gosta de saltar. Resultado: a mãe não dormitou nada!
- Ó mãe... o que é i'to?
- É o meu nariz, Dudu.
- E i'to?
- É o meu olho, Dudu.
(...)
- Tá aco'dada, mamã?
- Não, Dudu. Estou a dormir. A ten-tar.
- Mamã...
- DIZ, DUDU.
- É o cabelo, mamã?
- Sim, é o meu cabelo.
- É o olho, mamã?
- SIM, É O MEU OLHO!! DEIXA-ME DORMIR, DUDU!!!!
E foi assim durante muito, muito, muito, muito tempo..... E entretanto apareceu o Afonso. E depois o Sebastião. E depois a Nonô. E poderão vocês pensar que, na cama grande da mamã e do papá, não havia mais ninguém para além de uma mãe desesperada e dos seus filhotes. Mas a verdade é que existia lá também um pai. Um pai que acorda muito cedo mas que, inexplicavelmente, no curto espaço em que dura o seu sono pesado, não dá por este vaivém de filhos a entrar e sair da nossa cama pelas mais variadas razões. Há homens com muita sorte...
(Afonso, 8 anos, a ver os anúncios):
- O Pingo Doce diz que baixa os preços e ataca o Continente. O Continente diz que baixa ainda mais os preços e ataca o Pingo Doce. O Pingo Doce baixa outra vez os preços. Depois o Continente. Qualquer dia temos tudo a dez cêntimos! E se calhar há pessoas que não vão ter dez cêntimos para dar.
E assim, enquanto rói a sua maçã, o meu filho vai desfiando as mentiras e as verdades do negócio...
- Afonso, não vais acreditar... Mas o blog CoisasdePais já teve mais de 100 mil visitas.
- Aquele em que contas as nossas histórias?
- Sim, filho. E até já foi lido por pessoas do Brasil e da Venezuela...
(Afonso de mão no peito e olhos esbugalhados)
- Não acredito, mãe... Então já sou famoso!!!
E se o meu filho já era um rapaz com uma auto-estima elevada, agora não lhe cabe uma azeitoninha num sítio que eu cá sei...
Obrigada aos leitores! Não por isto, mas por tudo o resto.
Na TV repetem a notícia: um pobre senhor que se deslocava de bicicleta, levava cerca de 2 mil euros no bolso das calças. Sem dar conta, as notas começam a voar-lhe das calças. Notas de 50 euros que os locais apanham... e levam à polícia. Raro nos dias que correm. Gostei e sorri. Mas o que me fez verdadeiramente rir foi o comentário do meu filho Afonso (8 anos), muito sério:
- É o que dá comprarem calças baratas. Às vezes o barato sai caro.
Não sei que espécie de calças acha ele que usa, mas deve imaginá-las bem baratinhas, porque tudo o que lhes entra nos bolsos (lápis, borrachas, cromos, etc) desaparece misteriosamente... sem devolução!
E quando a minha pequena Nonô encontra um pacotinho cor-de-rosa, cheio de fatiotas e sapatilhas de ballet (uns restos da mãe, uns restos da prima) e se "emballeteza" da cabeça aos pés? E quando ela rodopia pela sala toda, de bracinhos no ar, queixo erguido e muita vontade de dar espectáculo? A mãe baba... e pensa que valeu a pena carregar na sua barriga um gémeo "extra", para agora ver alguém igual a si em miniatura.
E, pela primeira vez, a minha pequena Nonô sentiu uma trovoada por cima da sua cabeça. Arregalou os olhos, olhou o céu, e o seu coraçãozinho acelerou. Correu para o alpendre e agarrou com força as minhas pernas:
- Muito assustador, mamã! Muito assustador!
Felizmente, esta é a idade em que as coisas assustadoras deixam de o ser com um colinho e um beijinho. E desafiámos juntas o medo, por baixo do céu revoltado, correndo para o alpendre sempre o relâmpago dava lugar ao trovão. E foi assim até vir a chuva. O céu chorou e ficou mais calminho. Como acontece com todos nós. No fundo, enfrentar as coisas assustadoras é conhecê-las e entender que até nós, nas nossas birras e revoltas, podemos ser uma trovoada assustadora para os outros. Até chovermos.
Madrid! Parque Warner, Museu do Prado, Sky na pista artificial, Portas do Sol, Estádio do Real Madrid, Praça Callao, tapas, gelados, danças na rua ao sabor da música dos artistas pontuais, fotos e vídeos de recordação, conversas, mimos, alegria. Foram 4 dias com os 2 mais velhos, sem os gémeos a "atrapalhar". É verdade que a família não estava completa. É verdade que faltavam as gracinhas dos pequenos. Parecíamos poucos. Até ficámos num quarto normal!!! Mas também é verdade que os mais velhinhos estavam a precisar de nós, da nossa atenção e das nossas conversas e programas "para a idade deles".
É claro que também houve ralhetes. Nem sempre eles foram os filhos que nós queríamos que eles fossem naquelas férias especiais. Assim como se calhar nós também não fomos sempre os pais que eles gostavam que nós fôssemos. Mas o balanço, para ambas as partes, foi claramente positivo.
E agora, claro, as gracinhas...
- Como é que se chama o Museu onde fomos, Sebastião?
- Hummm... Ahhhh.....
- Lembra-te de Parvo, Sebastião.
- Ah, Museu do Prado! (que agora, para nós, será sempre o Museu do Parvo)
(Afonso à saída do Museu)
- Eu sou mais tipo Picasso, não é, mãe?
(Sebastião, a olhar para um Homem Estátua)
- Deve ser bom, passar o dia sem fazer nada... Eles ganham muito dinheiro, mãe?
Volta e meia regresso ao tema. Os miúdos crescem e continuo sem saber ao certo o que lhes dizer ao certo, quando o assunto é "pilinhas e pipis"!
Hoje desafiaram-me a escrever um artigo sobre isto, para a ConsultaClick. Quem acompanha este blog já conhece as histórias... Mas reforço o pedido de ajuda: formação para pais precisa-se, pf!
http://consultaclick.pt/blog/2012/03/23/pilinha-e-pipi/
A fechar, a fechar, a fechar, a fechar.
Sinto-me uma formiguinha nos seus últimos dias antes do Inverno. Que, quando se é mãe, se tem uma profissão liberal e um escritório em casa, se chama "Férias dos Filhos"!
Um delicioso "Inverno" de 2 semanas que está mesmo aí à porta... Vou mas é trabalhar!
Quase 8 horas da noite. Depois de uma semana de testes, fui buscar o Afonso ao último da semana. Guitarra. Muito Bom! Foi uma semana cansativa para ele, e isso notava-se no cansaço escondido nas olheiras, a pedir um fim-de-semana sem horários e correrias (como se isso fosse possível...).
Pus uma música mais suave, para relaxarmos, mas ele pediu o "Um contra o Outro", a música dos Deolinda que ele sabia que eu gostava.
- Eu canto contigo, mami!
E a música, com toda a sua energia, contagiou-nos, mandou o nosso cansaço pela janela, e fez-nos gritar a plenos pulmões: Sai de casa e vem comigo para a rua/ Vem, que essa vida que tens/ Por mais vidas que tu ganhes/ É a tua que mais perde se não vens.
Já na nossa rua, o Afonso tirou o cinto, veio para a frente e cantou comigo, a esbracejar, como se estivesse num concerto. A chuva caía do lado de fora e os dois ali, a ver quem berrava mais alto, estávamos felizes como nunca. E, quando a música acabou e a mãe desligou o carro, o Afonso respirou fundo e disse:
- Foi bom, mãe. Hoje até o limpa-vidros dançou...
Depois de lermos o livro "Sou Especial porque sou Eu", resolvi perguntar ao Afonso (8) e ao Sebastião (6) se eles gostavam do que viam, quando se viam ao espelho.
O Afonso, com a sua auto-confiança ao rubro, disse logo que sim. E o que ele adora ver-se ao espelho e fazer caretas e danças, imaginando coisas que eu às vezes nem me atrevo a perguntar o que são!
O Sebastião, que também nunca é de se queixar, surpreendeu-me no entanto com um "mais ou menos".
- Mais ou menos? Então o que é que gostas menos? - questionei.
E arrependi-me logo da pergunta, porque me lembrei das suas orelhinhas saídas, lindas de morrer mas muito abertas ao mundo, para ouvir tudo o que se passa à sua volta. E pensei para comigo que tinha chegado aquela altura dos complexos, ou porque os amigos gozavam, ou porque ele próprio se sentia diferente... Mas nada disso! A mãe estava a ver o problema no lado errado do seu rosto:
- Não gosto das minhas bochechas. São muito gorduchas...
E eu ri. Ri a bom rir e lembrei-me de tudo o que eu passava quando a família e os amigos me apertavam as bochechas. Também eu as tinha rechonchudas. E também eu não gostava delas. E a minha mãe dizia-me:
- A mãe também tinha bochechas. Mas desapareceram com a idade.
E ontem fui eu que disse ao meu filho, já com umas valentes rugas no lugar das bochechas:
- A mãe também tinha bochechas. Mas desapareceram com a idade.
E o coitado do Sebastião foi ver-se ao espelho, e imaginar-se trintão, já com as bochechas mirradas, tal como eu fazia na idade dele.
A verdade é que não há muito a fazer, meu filho. Para as orelhas, ainda há conserto. As bochechas... são nossas e são lindas! É aproveitá-las enquanto elas duram...
O Dudu (2 anos) passeou hoje pela primeira vez a nossa Cuca, uma linda cadelinha Beagle que sofre de desatenção, nesta família, coitadinha. Mas hoje teve uma hora cheia de atenções, com o Dudu a puxá-la pela trela, muito satisfeito. E ai de quem lhe tentasse tirar a trela!
Foram muitos os momentos hilariantes, entre quedas, embrulhanços e gritos histéricos (da Nonô, a medrosa), mas gostei particularmente quando o Dudu puxou a trela com força e a Cuca, meia enrolada nela, tossicou aflita. E o Dudu sai-se com esta, continuando a puxar, indiferente:
- "Shantinho", Cuca...
Voltámos aos testes. Help! Português, Matemática e Estudo do Meio. Nem quero pensar no que vai ser quando chegarem ao segundo e terceiro ciclo!!! Ando a tentar que os mais velhos comecem a estudar sozinhos, mas, segundo eles, sabem sempre tudo, lêem uma vez e são peritos no assunto. Mas quando a mãe pergunta... "Ah, pois... isso não sei, não sei bem explicar, essa escapou-me..."
Então lá foi a mãe rever os rios e os distritos, os relevos e os pontos cardeais... (com tanta coisa que tenho para fazer!)
- Lê outra vez, Afonso. Faz outra vez, Afonso. (o Sebastião já tinha sido dispensado, depois de meia dúzia de ditados)
Mas estudar assim é uma seca! Essa é que é essa! Por isso, antes de desesperar de vez (e ele comigo), resolvi puxar pela cabeça. Fui buscar uma folha branca e desenhei um Portugal jeitoso. Depois fui buscar uns mapas e pedi ao Afonso que desenhasse no jeitoso do Portugal tudo aquilo que via de interessante. Um rio aqui, uma cidade ali, uma montanha acolá. E consegui que ele ficasse uma hora inteirinha de volta daquilo, de língua de fora, todo contente, a construir o seu país à sua maneira.
E não é que, depois disso, quando lhe fiz as mesmas perguntas que tinha feito antes, ele já sabia as respostas? Não sei que resultados vai ter no teste, mas que foi bem mais interessante (e tranquilo!) para nós, isso foi!
O pai é perito em soluções radicais. Enquanto a mãe vai atrás das psicologias e das filosofias, das histórias e das explicações infinitas, o pai diz três palavras e resolve o assunto. Acho que é para isso que os pais servem (entre outras coisas). As mães rodeiam, os pais atacam. O equilíbrio perfeito, sendo possível.
E assim o pai resolveu o assunto do "papi" e "mami" cá em casa, que ninguém percebeu de onde vinha:
- Se me voltares a chamar "papi", começo a chamar-te "princesa", Afonso...
E pronto. Não é que agora já somos "pai" e "mãe" outra vez?
Nonô, 2 anos, a descer as escadas:
(Nonô) 1, 2, 3, 4, 5, 6, 9...
(Mãe) Não, Nonô. A seguir ao 6 vem o 7. 6, 7, 8...
(Nonô parada no degrau) Não, este é o 9. (desce mais um) Este é o 7, 8.
E pronto. Até para contar a porcaria das escadas, tem de ser como ela quer! Isto promete...
(Nonô) 1, 2, 3, 4, 5, 6, 9...
(Mãe) Não, Nonô. A seguir ao 6 vem o 7. 6, 7, 8...
(Nonô parada no degrau) Não, este é o 9. (desce mais um) Este é o 7, 8.
E pronto. Até para contar a porcaria das escadas, tem de ser como ela quer! Isto promete...
(Dudu, 2 anos, chega a casa da escola. A mãe está de fato de treino, porque ainda acha que vai ter tempo para dar uma corridinha... a mãe é uma sonhadora!)
(Dudu olha a mãe, desagradado) Mamã, o que é "ito"?
(Mãe) O quê, filho?
(Dudu aponta para o fato de treino) "Ito".
(Mãe) O fato de treino, filho?!
(Dudu) Sim. Tira, mamã. Dudu não g'ota. Mamã feia.
Tudo bem, meu filho. Amanhã, enquanto estiveres na escola, a mamã vai ao ginásio e ao SPA, depois vai ao cabeleireiro, vai maquilhar-se e pôr o vestido de noite. E quando chegares vai estar linda para te receber, sem outro sonho que não seja agradar-te. (e depois acordamos os dois, ok?)
(Dudu olha a mãe, desagradado) Mamã, o que é "ito"?
(Mãe) O quê, filho?
(Dudu aponta para o fato de treino) "Ito".
(Mãe) O fato de treino, filho?!
(Dudu) Sim. Tira, mamã. Dudu não g'ota. Mamã feia.
Tudo bem, meu filho. Amanhã, enquanto estiveres na escola, a mamã vai ao ginásio e ao SPA, depois vai ao cabeleireiro, vai maquilhar-se e pôr o vestido de noite. E quando chegares vai estar linda para te receber, sem outro sonho que não seja agradar-te. (e depois acordamos os dois, ok?)
(a ouvir "Um contra o Outro", Deolinda. Mãe ao volante, Afonso e Sebastião nos bancos de trás):
(Mãe) Meninos, quando ouvem esta música não ficam cheiiiinhos de energia?
(Afonso e Sebastião olham-se, sem entender. Mãe observa-os pelo retrovisor)
(Mãe) Não ficam com vontade de saltar e pular e dançar e cantar?
(Afonso e Sebastião olham-se novamente, agora com expressões preocupadas)
(Sebastião) Do que é que estás a falar?
(Afonso) Eu fico com vontade de cantar. Mas só isso.
Pronto, ok, ok. Mãe desvia o olhar do retrovisor e pensa para si mesmo que é mesmo a única maluca da família. Mas depois fica com pena dos filhos. E muda para "Como uma Força", Nelly Furtado. Eles entusiasmam-se mais um bocadinho.
(Mãe) E agora, o que é que sentem?
(Afonso) Esta música é boa para ouvir antes dos jogos de Hoquéi.
(Mãe) Ah! Então dá-vos energia...
Mas eu queria mais. E mudei para "Os Filhos da Nação", Quinta do Bill. E o Afonso e Sebastião começaram a bater palmas e a cantar mais ferozmente. E quando, no refrão, substituíram "Que a cruz é salvação" por "Que o Porto é campeão" vi-os verdadeiramente em êxtase. E fiquei mais descansada. É verdade que com outros acordes, é verdade que com motivos "clubísticos", mas pelo menos percebi que os meus filhos conseguem vibrar com alguma coisa... e isso é muito bom!
(Mãe) Meninos, quando ouvem esta música não ficam cheiiiinhos de energia?
(Afonso e Sebastião olham-se, sem entender. Mãe observa-os pelo retrovisor)
(Mãe) Não ficam com vontade de saltar e pular e dançar e cantar?
(Afonso e Sebastião olham-se novamente, agora com expressões preocupadas)
(Sebastião) Do que é que estás a falar?
(Afonso) Eu fico com vontade de cantar. Mas só isso.
Pronto, ok, ok. Mãe desvia o olhar do retrovisor e pensa para si mesmo que é mesmo a única maluca da família. Mas depois fica com pena dos filhos. E muda para "Como uma Força", Nelly Furtado. Eles entusiasmam-se mais um bocadinho.
(Mãe) E agora, o que é que sentem?
(Afonso) Esta música é boa para ouvir antes dos jogos de Hoquéi.
(Mãe) Ah! Então dá-vos energia...
Mas eu queria mais. E mudei para "Os Filhos da Nação", Quinta do Bill. E o Afonso e Sebastião começaram a bater palmas e a cantar mais ferozmente. E quando, no refrão, substituíram "Que a cruz é salvação" por "Que o Porto é campeão" vi-os verdadeiramente em êxtase. E fiquei mais descansada. É verdade que com outros acordes, é verdade que com motivos "clubísticos", mas pelo menos percebi que os meus filhos conseguem vibrar com alguma coisa... e isso é muito bom!
(Afonso, antes de se deitar)
- Amanhã, na escola, vamos continuar a ler a história da Ervinha Danada.
- Não conheço, Afonso. Quem é o autor?
- Não sei.
- Então amanhã vais ver. Deve aparecer no final do texto, em baixo, à direita.
(Afonso em pausa pensativa)
- Achas que o escritor se pode chamar "Continua"?
(Enfim.......)
- Amanhã, na escola, vamos continuar a ler a história da Ervinha Danada.
- Não conheço, Afonso. Quem é o autor?
- Não sei.
- Então amanhã vais ver. Deve aparecer no final do texto, em baixo, à direita.
(Afonso em pausa pensativa)
- Achas que o escritor se pode chamar "Continua"?
(Enfim.......)
Ena! 100 pessoas que vêem este blog??
Jurei a mim mesma que neste dia me penitenciava e vos dizia obrigada por acompanharem a minha saga maternal. É verdade que raramente respondo aos vossos comentários, mas é porque não tenho mesmo tempo e, entre comentar e deixar um novo post, acabo sempre por escolher a segunda opção. Mas gosto muito de vos ter comigo e os meus filhos mais velhos já me perguntam quantos são vocês e o que escreveram sobre os seus disparates. Prometo que, quando eles crescerem mais um bocadinho e derem menos trabalho (daqui a uns 20 anos, portanto, quando este blog já versar sobre os meus netos, e eu já ditar tudo sem precisar de o escrever), eu começo a ser mais "interactiva" e comento os vossos comentários.
Obrigada pela paciência!
Jurei a mim mesma que neste dia me penitenciava e vos dizia obrigada por acompanharem a minha saga maternal. É verdade que raramente respondo aos vossos comentários, mas é porque não tenho mesmo tempo e, entre comentar e deixar um novo post, acabo sempre por escolher a segunda opção. Mas gosto muito de vos ter comigo e os meus filhos mais velhos já me perguntam quantos são vocês e o que escreveram sobre os seus disparates. Prometo que, quando eles crescerem mais um bocadinho e derem menos trabalho (daqui a uns 20 anos, portanto, quando este blog já versar sobre os meus netos, e eu já ditar tudo sem precisar de o escrever), eu começo a ser mais "interactiva" e comento os vossos comentários.
Obrigada pela paciência!
(Nonô, 2 anos, a ver o meu livro "Os Miaus" - adaptação livre de "Os Maias" de Eça de Queirós):
- Olha, a mamã aqui! (foto da contra-capa). E a Nonô? Nonô não há!
- A Nonô pode ser esta gatinha aqui (aponto para a pequena Rosinha - ilustração).
(Nonô olha, muito atenta)
- Não, não "podi". Nonô não tem "ito" (orelhas de gato). Nem bigodes... Nonô quer aqui (e aponta para a contra-capa).
Parece que vamos ter outra escritora na família...
- Olha, a mamã aqui! (foto da contra-capa). E a Nonô? Nonô não há!
- A Nonô pode ser esta gatinha aqui (aponto para a pequena Rosinha - ilustração).
(Nonô olha, muito atenta)
- Não, não "podi". Nonô não tem "ito" (orelhas de gato). Nem bigodes... Nonô quer aqui (e aponta para a contra-capa).
Parece que vamos ter outra escritora na família...
(A deitar o Sebastião, filho do meio)
- Vá, Afonso. Rápido!
- Não sou o Afonso, mamã. Sou o Sebastião! Como é que tu, que és a minha própria mãe, te enganas?
(peso, muito peso, na consciência)
- Ó filho, é que vocês são muitos, cá em casa.
- Muitos?! Só somos quatro...
Tem toda a razão, o pequenote. O problema é que a mãe também é "só" uma...
- Vá, Afonso. Rápido!
- Não sou o Afonso, mamã. Sou o Sebastião! Como é que tu, que és a minha própria mãe, te enganas?
(peso, muito peso, na consciência)
- Ó filho, é que vocês são muitos, cá em casa.
- Muitos?! Só somos quatro...
Tem toda a razão, o pequenote. O problema é que a mãe também é "só" uma...
Depois de o Sebastião chorar baba e ranho, no seu quarto, porque o mandei ficar lá até acabar os trabalhos de casa, lá se despachou depressa e, não contente com isso... resolveu fazer a cama dele!
- Estava tão irritado, mamã, que até fiz a cama. Foi uma coisa boa, não foi?
Parece que afinal não é só a mãe que descarrega nas arrumações, quando se irrita... Sim, é uma coisa boa. Podia dar para partir pratos, em vez de arrumá-los. Vistas bem as coisas, até nos podíamos irritar mais vezes...
- Estava tão irritado, mamã, que até fiz a cama. Foi uma coisa boa, não foi?
Parece que afinal não é só a mãe que descarrega nas arrumações, quando se irrita... Sim, é uma coisa boa. Podia dar para partir pratos, em vez de arrumá-los. Vistas bem as coisas, até nos podíamos irritar mais vezes...
Recebi esta semana o estudo "The Changing Face of Motherhood", da P&G, e estaquei logo nas primeiras conclusões. As mulheres portuguesas são as que menos tempo têm para si próprias, é triste, mas são também aquelas que recebem mais sinais de gratidão dos filhos. E há melhor do que isto?
De facto, lembro-me de apanhar um episódio da última Casa dos Segredos, em que a produção deixou que as mães visitassem os seus filhos, no confessionário, e de assistir, de lágrima no olho, à forma agradecida como cada um dos filhos falava com a respectiva mãe. Elas, algumas com vidas desfeitas, casamentos traumáticos, vidas enxovalhadas na imprensa, eram a luz dos olhos dos seus filhos, as melhores mães do mundo, as heroínas das suas crias. E o que mais pode desejar uma mãe?
De facto, muito se pode dizer do povo português. Sofremos de alguma falta de organização, de mobilização e de pessimismo. Mas se há coisa que ninguém pode dizer, é que não temos as melhores mães do mundo! (sim, pronto... pais também. Mas hoje deixem-nos lá ficar com os louros, ok?).
De facto, lembro-me de apanhar um episódio da última Casa dos Segredos, em que a produção deixou que as mães visitassem os seus filhos, no confessionário, e de assistir, de lágrima no olho, à forma agradecida como cada um dos filhos falava com a respectiva mãe. Elas, algumas com vidas desfeitas, casamentos traumáticos, vidas enxovalhadas na imprensa, eram a luz dos olhos dos seus filhos, as melhores mães do mundo, as heroínas das suas crias. E o que mais pode desejar uma mãe?
De facto, muito se pode dizer do povo português. Sofremos de alguma falta de organização, de mobilização e de pessimismo. Mas se há coisa que ninguém pode dizer, é que não temos as melhores mães do mundo! (sim, pronto... pais também. Mas hoje deixem-nos lá ficar com os louros, ok?).
Mais desperta para os gostos musicais dos meus filhos, depois que o meu pequeno Dudu começou a cantar Michel Teló, hoje deliciei-me a ver o meu filho Afonso (8) a cantar "Que Parva que Eu Sou". Afinadinho, com as respirações no lugar, dinâmica e interpretação dramática perfeita. Não fosse estarmos a caminho da escola e ele entoar, em plenos pulmões:
"Que Mundo Tão Parvo onde, para ser escravo, é preciso estudar!".
Pois é, meu filho... e ainda te faltam uma carrada de anos!
"Que Mundo Tão Parvo onde, para ser escravo, é preciso estudar!".
Pois é, meu filho... e ainda te faltam uma carrada de anos!
É oficial. O meu pequeno Dudu, de 2 anos, adormece a cantarolar baixinho o "Ai se eu te pego, ai, ai... delícia".
Anda uma mãe de "Estrelas e Ouriços" em punho, a tentar marcar mais sessões de música para bebés que não esgotem antes de saber se os manos mais velhos têm jogo de hóquei ou festa de anos ou testes ou-ou-ou-não-sei-mais-o-quê-que-nos-estraga-os-fins-de-semana-todos, a comprar CDs com as Machadinhas da vida para cantar com eles e a investir em aulas de música na escola, para lhe ficar no ouvido o quê? O amigo Teló, que ele ouviu 2 ou 3 vezes na televisão, e foi o bastante para lhe dar as honras de João Pestana.
Estou em crer que aquele "ai, ai" tem uma mensagem subliminar qualquer, semelhante, auditivamente, ao "Babyfirst"... Alguém se importa de estudar o fenómeno?
Anda uma mãe de "Estrelas e Ouriços" em punho, a tentar marcar mais sessões de música para bebés que não esgotem antes de saber se os manos mais velhos têm jogo de hóquei ou festa de anos ou testes ou-ou-ou-não-sei-mais-o-quê-que-nos-estraga-os-fins-de-semana-todos, a comprar CDs com as Machadinhas da vida para cantar com eles e a investir em aulas de música na escola, para lhe ficar no ouvido o quê? O amigo Teló, que ele ouviu 2 ou 3 vezes na televisão, e foi o bastante para lhe dar as honras de João Pestana.
Estou em crer que aquele "ai, ai" tem uma mensagem subliminar qualquer, semelhante, auditivamente, ao "Babyfirst"... Alguém se importa de estudar o fenómeno?
Pela primeira vez desde que o baloiço de pau foi montado no nosso pinheiro, a mamã sentou-se nele e subiu, subiu, subiuuuuuuuu...
- Mamã, posso andar contigo? - perguntou o Sebastião.
Temi que o baloiço não aguentasse, mas lá fomos os dois, primeiro devagar, depois com mais balanço, e mais, e mais... o sol punha-se à nossa frente e o Sebastião, sentado ao meu colinho, com os seus bracinhos apoiados nos meus, saiu-se com esta:
- Ah, mamã... Como é boa, a vida.
E pronto, a mamã ganhou o dia.
- Mamã, posso andar contigo? - perguntou o Sebastião.
Temi que o baloiço não aguentasse, mas lá fomos os dois, primeiro devagar, depois com mais balanço, e mais, e mais... o sol punha-se à nossa frente e o Sebastião, sentado ao meu colinho, com os seus bracinhos apoiados nos meus, saiu-se com esta:
- Ah, mamã... Como é boa, a vida.
E pronto, a mamã ganhou o dia.
Manhã: uma hora de brincadeiras na praia.
Tarde: uma hora de saltos no trampolim e corrida de triciclos.
Resto do dia: chatices, amuos, birras, gritos histéricos da mamã, TPC, refeições, banhos e ralhetes.
Bem... vistas as coisas, acho que o balanço do Domingo até foi positivo.
Tarde: uma hora de saltos no trampolim e corrida de triciclos.
Resto do dia: chatices, amuos, birras, gritos histéricos da mamã, TPC, refeições, banhos e ralhetes.
Bem... vistas as coisas, acho que o balanço do Domingo até foi positivo.
E quando os meus 4 piolhos, ainda tão pequeninos, já devoram uma pizza familiar sozinhos, e ainda guincham por mais?
Teme-se o pior no nosso orçamento familiar...
Teme-se o pior no nosso orçamento familiar...
Um teste digital que permite identificar o período de ovulação?
Um teste digital de gravidez que pode ser usado 4 dias antes de faltar o período?
Estive a ler informações sobre os novos testes digitais da Clearblue, e senti-me um pouco como a minha mãe, há trinta anos, quando soube que havia umas máquinas chamadas ecógrafos, que permitiam ver o bebé dentro da barriga. E até saber o seu sexo!
À parte os exageros da comparação, é bom saber que a ciência, ao resolver questões fundamentais, consegue também atenuar as nossas ansiedades de mães...
Até fiquei com vontade de engravidar outra vez! (foi só um pensamento breve, ok? Como veio, se foi).
Um teste digital de gravidez que pode ser usado 4 dias antes de faltar o período?
Estive a ler informações sobre os novos testes digitais da Clearblue, e senti-me um pouco como a minha mãe, há trinta anos, quando soube que havia umas máquinas chamadas ecógrafos, que permitiam ver o bebé dentro da barriga. E até saber o seu sexo!
À parte os exageros da comparação, é bom saber que a ciência, ao resolver questões fundamentais, consegue também atenuar as nossas ansiedades de mães...
Até fiquei com vontade de engravidar outra vez! (foi só um pensamento breve, ok? Como veio, se foi).
(Afonso, 8 anos)
- Mami, sabes o que é que eu gosto mais de fazer na escola?
- De jogar à bola.
- Não... sem ser no recreio.
- Matemática.
- Não, sem ser das matérias.
(Mãe sem alternativas aparentes)
- É arquivar folhas no dossier.
Estou em crer que lhe vai passar depressa. Mas há que aproveitar enquanto dura. Este fim-de-semana o meu filho Afonso vai arquivar a pilha de facturas que se acumula há meses na minha secretária...
- Mami, sabes o que é que eu gosto mais de fazer na escola?
- De jogar à bola.
- Não... sem ser no recreio.
- Matemática.
- Não, sem ser das matérias.
(Mãe sem alternativas aparentes)
- É arquivar folhas no dossier.
Estou em crer que lhe vai passar depressa. Mas há que aproveitar enquanto dura. Este fim-de-semana o meu filho Afonso vai arquivar a pilha de facturas que se acumula há meses na minha secretária...
Hoje o meu filho mais velho (8 anos) resolveu recortar um coração para me oferecer. Achei o gesto muito bonito, vindo de um menino que está cada vez mais naquela fase em que é piroso mostrar afecto por alguém. Mas tive a triste ideia de lhe pedir que escrevesse qualquer coisa no coração de papel. E o resultado foi o seguinte:
Olá mãe,
digo-te já que este belo coração não foi fácil de fazer. E eu dou-to porque não sou uma menina, para gostar de corações, por isso fica tu com ele.
Obrigada!
Afonso
Bem... à sua maneira, acho que tentou dizer-me que gosta muito de mim... (ou, pelo menos, eu prefiro acreditar que sim).
Olá mãe,
digo-te já que este belo coração não foi fácil de fazer. E eu dou-to porque não sou uma menina, para gostar de corações, por isso fica tu com ele.
Obrigada!
Afonso
Bem... à sua maneira, acho que tentou dizer-me que gosta muito de mim... (ou, pelo menos, eu prefiro acreditar que sim).
(Nonô, doente, ao colo, numa perna da mamã. Dudu, também doente, aproxima-se, reivindicativo).
- Mamã, Dudu quer colo!
- Ó Dudu... mas a mamã já tem a Nonô ao colo.
- Dudu quer uma perna. Nonô tem perna. Dudu quer perna.
Era justo, pois claro. E a mamã não conseguiu dizer que não.
- Ainda bem que a mamã tem duas pernas. Uma para a Nonô, outra para o Dudu - observei.
- Pois, pois - diz o Dudu. - A Cuca (nossa cadela) não tem perna.
E assim se percebe porque é que a nossa cadela tem tão poucas atenções cá em casa...
- Mamã, Dudu quer colo!
- Ó Dudu... mas a mamã já tem a Nonô ao colo.
- Dudu quer uma perna. Nonô tem perna. Dudu quer perna.
Era justo, pois claro. E a mamã não conseguiu dizer que não.
- Ainda bem que a mamã tem duas pernas. Uma para a Nonô, outra para o Dudu - observei.
- Pois, pois - diz o Dudu. - A Cuca (nossa cadela) não tem perna.
E assim se percebe porque é que a nossa cadela tem tão poucas atenções cá em casa...
Responsabilidade. Amor. Solidariedade. Paz. Amizade.
Eram estas as palavras que vinham numa ficha do Sebastião (6 anos), das quais ele tinha de escolher uma, para desenvolver ao longo do ano.
- Já escolheste, Sebastião?
Este meu filho é particularmente indeciso. E fica sempre a pensar se fez (ou não) uma boa escolha. Mas desta vez estava muito certo da sua decisão.
- Já. Escolho o amor.
- E porquê, Sebastião?
- Porque é o mais fácil e o mais importante.
A resposta tem a sua dose de preguicite associada, é certo. Mas se o meu filho acha que amar os outros, para além de importante, é fácil, creio que está no bom caminho...
Eram estas as palavras que vinham numa ficha do Sebastião (6 anos), das quais ele tinha de escolher uma, para desenvolver ao longo do ano.
- Já escolheste, Sebastião?
Este meu filho é particularmente indeciso. E fica sempre a pensar se fez (ou não) uma boa escolha. Mas desta vez estava muito certo da sua decisão.
- Já. Escolho o amor.
- E porquê, Sebastião?
- Porque é o mais fácil e o mais importante.
A resposta tem a sua dose de preguicite associada, é certo. Mas se o meu filho acha que amar os outros, para além de importante, é fácil, creio que está no bom caminho...
(Sebastião no carro novo, ainda - e só ainda! - por sujar)
- Ó mami! Se tirasses um macaco do nariz neste carro, onde é que o punhas?
(Ainda bem que ele não fez a pergunta ao papi...)
- Ó mami! Se tirasses um macaco do nariz neste carro, onde é que o punhas?
(Ainda bem que ele não fez a pergunta ao papi...)
Todos nós, em algum momento da nossa vida, por um instante que seja, já pensámos que podíamos perder os nossos filhos. Assumi-lo, é pôr o dedo numa ferida que não queremos sentir. Mas é também uma forma de nos encher o coração de uma vontade imensa de amar os nossos filhos todos os dias...
É este o tema do terceiro artigo que escrevi para o blog da ConsultaClick.com, que podem espreitar no link:
http://consultaclick.pt/blog/2012/02/15/porque-devemos-ama-los-todos-os-dias/
É este o tema do terceiro artigo que escrevi para o blog da ConsultaClick.com, que podem espreitar no link:
http://consultaclick.pt/blog/2012/02/15/porque-devemos-ama-los-todos-os-dias/
O meu filho Sebastião tem memória de galinha. Eu sei, não devia falar assim, por causa da psicologia, e da pedagogia, e das coisas todas acabadas em ia. Mas disse. Disse uma vez e outra, e outra ainda, irritada por ele esquecer, esquecer, esquecer, esquecer. É esperto, tem boas notas na escola, mas não consegue decorar as coisas! Há uns dias, olhei-o nos olhos e fiz-lhe uma promessa:
- A tua memória vai ser de elefante, meu filho! Ai vai, vai.
E desde aí que o ponho a declamar vezes sem conta os textos dos trabalhos de casa (O Cágado veio comigo. Deitei-o na água do lago. Ao pé do lago vi o gato. O cágado é amigo do gato), até os dizer de cor. E hoje começámos nas lengalengas.
Ó Anacleto, come o caldo.
Não como, que me escaldo.
Ó Anacleto, come a sardina.
Não como, que tem espinha.
Ó Anacleto, come o bacalhau.
Isso sim, que não é mau.
Ao fim de lhe dizer dezenas de vezes "Ó Anacleto, come o bacalhau", e de ele me responder outras vezes sem conta "Isso sim, porque gosto", o Afonso desatou a rir (de gozo). E a mãe riu também (de desespero). E o Sebastião riu também (de sei lá o quê). Porque depois chorou.
- Estás a chorar do quê, Sebastião?
- De errar sempre!
E senti o coração pequenino. Minúsculo. Do tamanho de uma mãe insignificante, que é capaz de deixar o seu filho frustrado. Uma mãe culpada. Cheia de falta de bom-senso. Uma mãe que erra. Mas que, felizmente, ainda ia a tempo de emendar o seu erro.
O Afonso foi para a cama. O papá ficou no sofá. E eu fui com o Sebastião esconder-me na sua cama, e sussurrámos ao ouvido um do outro a malfadada legalenga do Anacleto. Até o Sebastião acertar. E acertar sempre. Então peguei nele, dentro do saco de cama, como se fosse o meu saquinho de batatas, e levei-o até ao quarto, para que o Afonso ouvisse o Sebastião dizer a legalenga toda. Até as partes da mamã! Depois descemos as escadas e o Sebastião repetiu a legalenga ao pai. Sem se enganar uma única vez! E depois (já eu estava com umas valente dores nas costas) subimos as escadas e repetimos uma última vez a lengalenga na cama. E o Sebastião era um menino feliz novamente.
- Amanhã perguntas-me outra vez, mamã?
- Claro, Sebastião. Mas também vais aprender uma nova.
E ele disse que sim, satisfeito.
- Até eu ter uma memória de elefante...
- A tua memória vai ser de elefante, meu filho! Ai vai, vai.
E desde aí que o ponho a declamar vezes sem conta os textos dos trabalhos de casa (O Cágado veio comigo. Deitei-o na água do lago. Ao pé do lago vi o gato. O cágado é amigo do gato), até os dizer de cor. E hoje começámos nas lengalengas.
Ó Anacleto, come o caldo.
Não como, que me escaldo.
Ó Anacleto, come a sardina.
Não como, que tem espinha.
Ó Anacleto, come o bacalhau.
Isso sim, que não é mau.
Ao fim de lhe dizer dezenas de vezes "Ó Anacleto, come o bacalhau", e de ele me responder outras vezes sem conta "Isso sim, porque gosto", o Afonso desatou a rir (de gozo). E a mãe riu também (de desespero). E o Sebastião riu também (de sei lá o quê). Porque depois chorou.
- Estás a chorar do quê, Sebastião?
- De errar sempre!
E senti o coração pequenino. Minúsculo. Do tamanho de uma mãe insignificante, que é capaz de deixar o seu filho frustrado. Uma mãe culpada. Cheia de falta de bom-senso. Uma mãe que erra. Mas que, felizmente, ainda ia a tempo de emendar o seu erro.
O Afonso foi para a cama. O papá ficou no sofá. E eu fui com o Sebastião esconder-me na sua cama, e sussurrámos ao ouvido um do outro a malfadada legalenga do Anacleto. Até o Sebastião acertar. E acertar sempre. Então peguei nele, dentro do saco de cama, como se fosse o meu saquinho de batatas, e levei-o até ao quarto, para que o Afonso ouvisse o Sebastião dizer a legalenga toda. Até as partes da mamã! Depois descemos as escadas e o Sebastião repetiu a legalenga ao pai. Sem se enganar uma única vez! E depois (já eu estava com umas valente dores nas costas) subimos as escadas e repetimos uma última vez a lengalenga na cama. E o Sebastião era um menino feliz novamente.
- Amanhã perguntas-me outra vez, mamã?
- Claro, Sebastião. Mas também vais aprender uma nova.
E ele disse que sim, satisfeito.
- Até eu ter uma memória de elefante...
Fiz pela primeira vez uma coisa chamada "gelinho". As mulheres saberão do que estou a falar. É mais rijo que o verniz (mas menos que o gel) e dura três semanas (disseram-me), mesmo depois de esfregar os miúdos na banheira e passar a loiça toda por água.
Cheguei orgulhosamente à escola dos meus gémeos com umas unhas cor-de-rosa, rijas, de mãe cuidada (pelo menos por fora). E o Dudu, que corre sempre para mim, sorridente, para me abraçar, hoje correu para as minhas mãos, torceu o nariz e disse, no seu português aldrabado:
- Dudu n'ã gosta. Tira.
Frustração. O que será de mim se, para além de querer agradar ao marido, ainda tenho que agradar aos filhos? Se o pequeno Dudu já opina sobre a cor das minhas unhas aos 2 anos, imagino o que não fará os 16!
Bem, felizmente, a Nonô avançou para mim, excitadíssima, e em vez do beijo (que se faz sempre de difícil para dar), agarrou-se às minhas mãos e gritou:
- Nonô gosta, mamã. Nonô também quer!
Ai, minha rica filha... Com o marido e os filhos posso eu bem! Vamos ver como te safas, de unhas cor-de-rosa, com um pai e três irmãos rapazes...
Cheguei orgulhosamente à escola dos meus gémeos com umas unhas cor-de-rosa, rijas, de mãe cuidada (pelo menos por fora). E o Dudu, que corre sempre para mim, sorridente, para me abraçar, hoje correu para as minhas mãos, torceu o nariz e disse, no seu português aldrabado:
- Dudu n'ã gosta. Tira.
Frustração. O que será de mim se, para além de querer agradar ao marido, ainda tenho que agradar aos filhos? Se o pequeno Dudu já opina sobre a cor das minhas unhas aos 2 anos, imagino o que não fará os 16!
Bem, felizmente, a Nonô avançou para mim, excitadíssima, e em vez do beijo (que se faz sempre de difícil para dar), agarrou-se às minhas mãos e gritou:
- Nonô gosta, mamã. Nonô também quer!
Ai, minha rica filha... Com o marido e os filhos posso eu bem! Vamos ver como te safas, de unhas cor-de-rosa, com um pai e três irmãos rapazes...
A minha filha pulula pelo corredor, cheia de vida, despachada, independente, cheia de certezas sobre tudo. Refila quando acha que tem razão, é chata, chata, chata, até conseguir o que quer. Teimosa, chamo-lhe vezes sem conta. Mas responsável. "Mamã, a mala?". "Mamã, vamos t'abalhar?". "Dudu, põe capuz". "Fonso, senta". "Titão, come". Quer tomar conta de todos, com uma energia que não se esgota.
Tanto eu... e é tão engraçado! Lembro-me de perguntar vezes sem conta à minha mãe se não se tinha esquecido de isto ou daquilo. De querer tomar conta de tudo. De ser responsável (às vezes até demais). De achar que tinha sempre razão e que ninguém tinha o direito de me contrariar. E de não parar. Nunca. E da célebre frase da minha professora da Primária: "Pula, filha! Faz-te cabra."
Todos os meus filhos têm algo de mim. Mas a pequena Nonô, talvez por ser menina, tem quase tudo aquilo que eu era na sua idade. O que é muito bom de ver. Mas também me dá uma responsabilidade tremenda, porque, para além das qualidades, há os defeitos que hoje, à distância, consigo apontar com mais clareza. E cabe-nos a nós, pais, tentar fortificar os primeiros, e contrariar os segundos, para que aqueles que vêm depois de nós sejam melhor do que fomos.
Tanto eu... e é tão engraçado! Lembro-me de perguntar vezes sem conta à minha mãe se não se tinha esquecido de isto ou daquilo. De querer tomar conta de tudo. De ser responsável (às vezes até demais). De achar que tinha sempre razão e que ninguém tinha o direito de me contrariar. E de não parar. Nunca. E da célebre frase da minha professora da Primária: "Pula, filha! Faz-te cabra."
Todos os meus filhos têm algo de mim. Mas a pequena Nonô, talvez por ser menina, tem quase tudo aquilo que eu era na sua idade. O que é muito bom de ver. Mas também me dá uma responsabilidade tremenda, porque, para além das qualidades, há os defeitos que hoje, à distância, consigo apontar com mais clareza. E cabe-nos a nós, pais, tentar fortificar os primeiros, e contrariar os segundos, para que aqueles que vêm depois de nós sejam melhor do que fomos.
Enquanto a mamã toma banho, o WC é um mundo a explorar. Abrem-se gavetas, experimentam-se colares e pulseiras, as escovas dos papás (às vezes também as dos dentes), e de vez em quando ainda se fazem disparates maiores. Mesmo com a mamã de olhos postos neles, através do vidro embaciado que se vai desembaciando com a mão, o Sebastião já comeu uma pílula, o Dudu já fez a barba com a máquina do papá, e a Nonô já se besuntou com anti-rugas. Em segundos, a mãe salta da banheira, molhada, e espalha ainda mais o caos pelo cubículo.
- Doutora Ceucéu, o Sebastião comeu uma pílula...
- Ainda não lhe cresceram as maminhas, pois não?
A barba do Dudu também ainda não enrijou, e a pele da Nonô não tem menos rugas do que aquelas que tinha, porque ainda eram nenhumas. Até hoje, nenhuns efeitos secundários. Com excepção dos meus cabelos brancos e das minhas rugas marcadas, à custa dos sustos que estes marotos me pregam...
- Doutora Ceucéu, o Sebastião comeu uma pílula...
- Ainda não lhe cresceram as maminhas, pois não?
A barba do Dudu também ainda não enrijou, e a pele da Nonô não tem menos rugas do que aquelas que tinha, porque ainda eram nenhumas. Até hoje, nenhuns efeitos secundários. Com excepção dos meus cabelos brancos e das minhas rugas marcadas, à custa dos sustos que estes marotos me pregam...
De há dois meses para cá que os nossos fins-de-semana andam virados do avesso. O pai experimentou levá-los um dia ao hóquei, eles gostaram, e dois meses depois já são federados e têm jogos todos os fins-de-semana.
E o pai lá anda a reboque deles, enquanto a mãe fica com os mais pequenos, e lá nos cruzamos, entre as idas e as vindas, com sticks, bolas e caneleira pelo meio. O pai leva os das coquilhas, eu fico com os das fraldas. É justo. A lei da vida.
Tenho de confessar que não sou muito dada a desportos de grupo. Gosto da parte do "espírito de grupo", nunca gostei da parte da competição. Por isso cedo troquei as corridas e o voley pela dança e pela música. E custava-me ver o pai nervoso com os jogos deles, a dar-lhe dicas como "mais garra", "é para ganhar", ou "faz-te à bola".
Até que fui a um jogo. Enchi a mala de livros e cadernos para poder distrair-me, enquanto durava, mas tive vergonha de os tirar para fora. Vi mães e pais e irmãos com os nervos em franja, à espera de um bom resultado. Atrás de mim tinha uma senhora que quase me furava os tímpanos, chamando nomes ao árbitro, e gritando pelos miúdos que iam à bola. E pensei que, definitivamente, não era feita para aquilo, e nem os livros, ali, me valiam.
Foi quando comecei a prestar atenção. O meu filho Afonso patinava artisticamente de um lado para o outro, mas fazer-se à bola, nada! E, timidamente, soltei um "Vá, Afonso". Depois um "Rápido". E quando me apercebi, já estava a gritar para o campo "Mais garra" e "faz-te à bola". Tinha a barriga às voltas e só me apetecia saltar para o campo para ajudar o meu filho a enfiar a bola na baliza.
Sempre me imaginei a vibrar com os espectáculos de ballet da minha filha, e com as audições de música dos 4. Mas talvez venha também a conseguir ser uma mãe "de bancada", quem sabe... Com três filhos rapazolas (e para o ano o pequeno Dudu também já vai para o hóquei), é melhor que o seja, ou perderei certamente uma parte importante do seu crescimento...
E o pai lá anda a reboque deles, enquanto a mãe fica com os mais pequenos, e lá nos cruzamos, entre as idas e as vindas, com sticks, bolas e caneleira pelo meio. O pai leva os das coquilhas, eu fico com os das fraldas. É justo. A lei da vida.
Tenho de confessar que não sou muito dada a desportos de grupo. Gosto da parte do "espírito de grupo", nunca gostei da parte da competição. Por isso cedo troquei as corridas e o voley pela dança e pela música. E custava-me ver o pai nervoso com os jogos deles, a dar-lhe dicas como "mais garra", "é para ganhar", ou "faz-te à bola".
Até que fui a um jogo. Enchi a mala de livros e cadernos para poder distrair-me, enquanto durava, mas tive vergonha de os tirar para fora. Vi mães e pais e irmãos com os nervos em franja, à espera de um bom resultado. Atrás de mim tinha uma senhora que quase me furava os tímpanos, chamando nomes ao árbitro, e gritando pelos miúdos que iam à bola. E pensei que, definitivamente, não era feita para aquilo, e nem os livros, ali, me valiam.
Foi quando comecei a prestar atenção. O meu filho Afonso patinava artisticamente de um lado para o outro, mas fazer-se à bola, nada! E, timidamente, soltei um "Vá, Afonso". Depois um "Rápido". E quando me apercebi, já estava a gritar para o campo "Mais garra" e "faz-te à bola". Tinha a barriga às voltas e só me apetecia saltar para o campo para ajudar o meu filho a enfiar a bola na baliza.
Sempre me imaginei a vibrar com os espectáculos de ballet da minha filha, e com as audições de música dos 4. Mas talvez venha também a conseguir ser uma mãe "de bancada", quem sabe... Com três filhos rapazolas (e para o ano o pequeno Dudu também já vai para o hóquei), é melhor que o seja, ou perderei certamente uma parte importante do seu crescimento...
Hoje a mami e o papi foram buscar os gémeos à escolinha. E, como os seus pesos já rondam os 15 quilos (o que explica os meus bíceps delineados, mesmo sem uma única ao ginásio em dois anos... experimentem andar a subir e descer escadas com 30 quilos ao colo! Se não fossem as dores as costas, seria uma mulher em forma!), viajaram nas cadeiras dos crescidos. Mas com muitos avisos...
(Papi) Meninos! Não podem tirar o cinto!
(Dudu) Não. Senão papá tau-tau.
(Mami) E a mamã também tau-tau, se tirarem o cinto!
(Nonô) Não, não! Mamã tau-tau, não. Mamã grita.
Raios partam os miúdos, que nos conhecem tão bem...
(Papi) Meninos! Não podem tirar o cinto!
(Dudu) Não. Senão papá tau-tau.
(Mami) E a mamã também tau-tau, se tirarem o cinto!
(Nonô) Não, não! Mamã tau-tau, não. Mamã grita.
Raios partam os miúdos, que nos conhecem tão bem...
(Conversa entre o Afonso, 8 anos e o Sebastião, 6 anos, no WC da mamã):
Sebastião: O que é isto, Afonso?
Afonso: São as fraldas da mami.
Sebastião: O quê?! Mas a mami não usa fraldas.
Afonso: É só às vezes. Quando sangra do pipi.
Fingi que não estava a ouvi-los e afastei-me de fininho. E prefiro não imaginar as conversas que eles terão na escola, a propósito das fraldas das mamis... Há coisas que é melhor mesmo não sabermos nem ouvirmos...
Sebastião: O que é isto, Afonso?
Afonso: São as fraldas da mami.
Sebastião: O quê?! Mas a mami não usa fraldas.
Afonso: É só às vezes. Quando sangra do pipi.
Fingi que não estava a ouvi-los e afastei-me de fininho. E prefiro não imaginar as conversas que eles terão na escola, a propósito das fraldas das mamis... Há coisas que é melhor mesmo não sabermos nem ouvirmos...
(Sebastião, 6 anos, enquanto atava um balão à sua cama):
- Vou atar aqui este balão para nunca mais me esquecer da festa da prima Madalena.
(pausa)
- Ah, e também para um dia voar na minha cama...
Existe melhor fonte de inspiração do que esta?
- Vou atar aqui este balão para nunca mais me esquecer da festa da prima Madalena.
(pausa)
- Ah, e também para um dia voar na minha cama...
Existe melhor fonte de inspiração do que esta?
Não aguento mais TPCs, testes e trabalhos de casa!!!
(os dos meus filhos, claro. Não, não voltei a estudar. Essa minha vontade passou-me quando ultrapassei a barreira dos dois filhos, e agora, se voltar a pensar nela, será só daqui a uns 20 anos, partindo do princípio que não estarei já xexé... o que é absolutamente provável!)
Todos os fins de tarde, em vez de estar tranquilamente com os meus filhos a contar as novidades do dia a dia, ando a berrar atrás de um e de outro (com os outros dois ao colo), ora por causa da letra do Afonso, ora por causa da distracção do Sebastião. A um falta uma borracha, o outro esqueceu-se que tinha teste, um não sabe se é "o" ou "u", o outro tem de saber a diferença entre raiz fasciculada e tuberculosa. Socorro!! Quando os gémeos chegarem à Primária, e os outros estiverem já no 2º e 3º ciclos (onde existem quinhentas mil disciplinas com quinhentos mil testes e trabalhos), dou em louca!
"Os TPC são importantes para os pais acompanharem os filhos em casa". E que tal deixarem-nos acompanhá-los com conversas interessantes sobre História, Geografia, Filosofia, Literatura ou Ciências, entre mimos e reflexão, criatividade e interacção? Há três noites que não consigo ler uma história aos meus filhos mais velhos, antes de dormir. O Sebastião já lê e escreve bem, e o Afonso descreve correctamente o processo de germinação e distingue o sujeito do predicado. Mas não descobrimos mais um planeta no globo, não reflectimos sobre os porquês da vida, nem aprendemos uma lição com La Fontaine. Acho que vão ter Muito Bons nos testes. Mas eu vou ter Insuficiente no volume dos ralhetes, Suficientemente Menos na paciência, e Bom Menos na gestão do tempo. Com tendência a descer as notas à medida que o ano passa...
(os dos meus filhos, claro. Não, não voltei a estudar. Essa minha vontade passou-me quando ultrapassei a barreira dos dois filhos, e agora, se voltar a pensar nela, será só daqui a uns 20 anos, partindo do princípio que não estarei já xexé... o que é absolutamente provável!)
Todos os fins de tarde, em vez de estar tranquilamente com os meus filhos a contar as novidades do dia a dia, ando a berrar atrás de um e de outro (com os outros dois ao colo), ora por causa da letra do Afonso, ora por causa da distracção do Sebastião. A um falta uma borracha, o outro esqueceu-se que tinha teste, um não sabe se é "o" ou "u", o outro tem de saber a diferença entre raiz fasciculada e tuberculosa. Socorro!! Quando os gémeos chegarem à Primária, e os outros estiverem já no 2º e 3º ciclos (onde existem quinhentas mil disciplinas com quinhentos mil testes e trabalhos), dou em louca!
"Os TPC são importantes para os pais acompanharem os filhos em casa". E que tal deixarem-nos acompanhá-los com conversas interessantes sobre História, Geografia, Filosofia, Literatura ou Ciências, entre mimos e reflexão, criatividade e interacção? Há três noites que não consigo ler uma história aos meus filhos mais velhos, antes de dormir. O Sebastião já lê e escreve bem, e o Afonso descreve correctamente o processo de germinação e distingue o sujeito do predicado. Mas não descobrimos mais um planeta no globo, não reflectimos sobre os porquês da vida, nem aprendemos uma lição com La Fontaine. Acho que vão ter Muito Bons nos testes. Mas eu vou ter Insuficiente no volume dos ralhetes, Suficientemente Menos na paciência, e Bom Menos na gestão do tempo. Com tendência a descer as notas à medida que o ano passa...
- Leonor, queres destas bolacha?
- Não, pá.
- E destas?
- Não, pá! Outras.
- Leonor, não podes.
- Opá!
- O que é isso do "Opá"?
- Nada... pá!
A minha caganita de 2 anos agora lembrou-se de meter "pás" em tudo. Não sei o que lhe faça... pá!
- Não, pá.
- E destas?
- Não, pá! Outras.
- Leonor, não podes.
- Opá!
- O que é isso do "Opá"?
- Nada... pá!
A minha caganita de 2 anos agora lembrou-se de meter "pás" em tudo. Não sei o que lhe faça... pá!
Hoje a tarde foi dedicada ao teatro. A ideia era fazer uma festa, mas quando apareci com as caixas da roupa de Carnaval, em vez de baile, tivemos esepectáculo. O Sebastião era o cowboy que conhecia a espanholita Nonoi e a pedia em casamento. Montados no cavalinho de pau, os dois passeavam-se pelo meio dos sofás, até que o tigre Dudu os assustava e perseguia pelo resto do quarto dos brinquedos.
O Afonso chegou entretanto do jogo de hóquei e rapidamente enfiou um fato de pirata para o episódio 2 da saga dos manos. Pois que o Sebastião e a Nonoi casaram entretanto, e a Nonoi até trocou a sua flor vermelha por um chapéu de cowboy. A lua de mel foi a bordo de um cruzeiro (barco de borracha insuflável). E tudo corria bem até que o cruzeiro foi atacado pelo terrível pirata dos mares Afonso. Sebastião, valente cowboy, começa a lutar com o pirata Afonso para defender a sua amada, e a luta só acaba porque, escondido na mala de viagem da Nonoi, ia o tigre Dudu, que assusta novamente toda a gente. Mas afinal ele só queria diversão (e até trocara a sua cabeça de tigre pela flor vermelha da Nonoi), por isso acabam todos contentes, a dançar ao som do CD da Leopoldina.
A mami filmava e fazia a narração possível dos acontecimentos. Daqui a uns anos, o que nos vamos rir a ver tanto disparate......
O Afonso chegou entretanto do jogo de hóquei e rapidamente enfiou um fato de pirata para o episódio 2 da saga dos manos. Pois que o Sebastião e a Nonoi casaram entretanto, e a Nonoi até trocou a sua flor vermelha por um chapéu de cowboy. A lua de mel foi a bordo de um cruzeiro (barco de borracha insuflável). E tudo corria bem até que o cruzeiro foi atacado pelo terrível pirata dos mares Afonso. Sebastião, valente cowboy, começa a lutar com o pirata Afonso para defender a sua amada, e a luta só acaba porque, escondido na mala de viagem da Nonoi, ia o tigre Dudu, que assusta novamente toda a gente. Mas afinal ele só queria diversão (e até trocara a sua cabeça de tigre pela flor vermelha da Nonoi), por isso acabam todos contentes, a dançar ao som do CD da Leopoldina.
A mami filmava e fazia a narração possível dos acontecimentos. Daqui a uns anos, o que nos vamos rir a ver tanto disparate......
Dois gémeos a chorar ao meu colo. A Nonô com tosse e ataque de birra. O Dudu com febre e dores de barriga depois de ter vomitado umas poucas de vezes. Toca o telefone. Maristas.
- Sim? Não me dê nenhuma má notícia, por favor...
- O Afonso caiu na ginástica. Está consciente, mas tem um galo muito grande, e é melhor ser visto na clínica.
- O pai já vai buscá-lo. E ao Sebastião, não lhe aconteceu nada?
Estava tudo bem com ele. A vantagem de ter muitos filhos é que as nossas preocupações têm de dividir-se por muitos, por isso raramente são excessivas com algum deles. A desvantagem é que, a atenção que damos a cada um deles, nos seus acidentes de percurso, também são menores. E o Dudu foi para a cama com a pressa de todos os dias, entupido de xarope. A Nonô não teve direito a história e o Afonso, mesmo com galo, teve de fazer os trabalhos de casa para não deixar para o fim-de-semana. O Sebastião, hoje intocável, ainda está ao meu lado a fazer contas. E resmunga:
- Grande sorte, tiveram os manos! Já foram todos descansar...
- Sim? Não me dê nenhuma má notícia, por favor...
- O Afonso caiu na ginástica. Está consciente, mas tem um galo muito grande, e é melhor ser visto na clínica.
- O pai já vai buscá-lo. E ao Sebastião, não lhe aconteceu nada?
Estava tudo bem com ele. A vantagem de ter muitos filhos é que as nossas preocupações têm de dividir-se por muitos, por isso raramente são excessivas com algum deles. A desvantagem é que, a atenção que damos a cada um deles, nos seus acidentes de percurso, também são menores. E o Dudu foi para a cama com a pressa de todos os dias, entupido de xarope. A Nonô não teve direito a história e o Afonso, mesmo com galo, teve de fazer os trabalhos de casa para não deixar para o fim-de-semana. O Sebastião, hoje intocável, ainda está ao meu lado a fazer contas. E resmunga:
- Grande sorte, tiveram os manos! Já foram todos descansar...
(Sebastião, 6 anos, ao ver um moopie da capital da cultura)
- Olha, mãe! Está ali o Afonso Henriques.
- Boa, Sebastião. E ainda te lembras onde é que viste aquela estátua?
- Sim. Em Guimarães.
- Boa. E já sabes em que dia fazes anos?
- Claro, mami. A 29 de Setembro de 2005.
(Mãe espantada)
- Ó Sebastião... a mãe no verão disse-te tantas vezes estas coisas, e tu não conseguias decorar. Agora de repente sabes tudo! Como é que dantes tinhas memória de galinha, e agora tens memória de elefante?
(Sebastião ri. Depois fica pensativo)
- Ó mãe, é que eu dantes era pequeno, e agora sou crescido.
Pois é. Simples, não é, Sebastião? A mãe escusava de ter desesperado no verão, e devia ter percebido mais cedo que há alturas certas para aprender certas coisas, e alturas certas para crescer...
- Olha, mãe! Está ali o Afonso Henriques.
- Boa, Sebastião. E ainda te lembras onde é que viste aquela estátua?
- Sim. Em Guimarães.
- Boa. E já sabes em que dia fazes anos?
- Claro, mami. A 29 de Setembro de 2005.
(Mãe espantada)
- Ó Sebastião... a mãe no verão disse-te tantas vezes estas coisas, e tu não conseguias decorar. Agora de repente sabes tudo! Como é que dantes tinhas memória de galinha, e agora tens memória de elefante?
(Sebastião ri. Depois fica pensativo)
- Ó mãe, é que eu dantes era pequeno, e agora sou crescido.
Pois é. Simples, não é, Sebastião? A mãe escusava de ter desesperado no verão, e devia ter percebido mais cedo que há alturas certas para aprender certas coisas, e alturas certas para crescer...
Temos um problema cá em casa. Um problema GRAVE! O meu pequeno Dudu resolveu ser do Benfica!
Medo. Pânico. Terror. Do papi, claro. A mami só tem de se rir às escondidas. É que ver um "caganito" de 2 anos a gritar pelo Benfica, quando toda a sua família é do Porto, e há cachecóis, equipamentos, cartões de sócio, etc, etc, etc, é mesmo ser do contra! Os irmãos desesperam a tentar convencê-lo. A Nonô (gémea) desespera-se porque, na sua cabecinha obcecadamente metódica, o irmão não pode ser de uma coisa diferente, sobretudo porque o pai fica triste. E o pai desespera-se porque... bem, vocês entendem porquê. Eu é que não, porque sofro daquela doença que às vezes ataca as mulheres, e que as faz pensar que é um profundo disparate sofrer tanto e gastar tanto dinheiro com simples jogadores que andam a correr atrás de bolas. Eu sei, eu sei... tenho este problema, talvez um dia me cure. Por enquanto, tenho de ir tentando convencer o Dudu a ser do Porto, e rir-me só às escondidas quando ele bate o pé e afirma, de peito cheio:
- Dudu Pôto, não. Dudu Benfica. Ben-fi-ca! Ben-fi-ca! Ben-fi-ca!
Medo. Pânico. Terror. Do papi, claro. A mami só tem de se rir às escondidas. É que ver um "caganito" de 2 anos a gritar pelo Benfica, quando toda a sua família é do Porto, e há cachecóis, equipamentos, cartões de sócio, etc, etc, etc, é mesmo ser do contra! Os irmãos desesperam a tentar convencê-lo. A Nonô (gémea) desespera-se porque, na sua cabecinha obcecadamente metódica, o irmão não pode ser de uma coisa diferente, sobretudo porque o pai fica triste. E o pai desespera-se porque... bem, vocês entendem porquê. Eu é que não, porque sofro daquela doença que às vezes ataca as mulheres, e que as faz pensar que é um profundo disparate sofrer tanto e gastar tanto dinheiro com simples jogadores que andam a correr atrás de bolas. Eu sei, eu sei... tenho este problema, talvez um dia me cure. Por enquanto, tenho de ir tentando convencer o Dudu a ser do Porto, e rir-me só às escondidas quando ele bate o pé e afirma, de peito cheio:
- Dudu Pôto, não. Dudu Benfica. Ben-fi-ca! Ben-fi-ca! Ben-fi-ca!
- Ó mami! Não consigo dormir! Tens de tirar aquele quadro da minha parede...
- Qual quadro, Afonso?
- Aquele assustador que está por cima da minha cabeça.
- Aquele és tu, filho! E estás lindo!
- Não estou nada... Pareço um zoombie. Se não tirares o quadro não consigo dormir.
(Mãe, sem paciência, esconde o quadro no gavetão da cama)
- Ó mami! Continuo sem dormir.
- Sabes o que é que a mãe faz quando não consegue adormecer? Penso num quadro branco e depois vou percorrendo os cantos, um a um, até me chegar o sono.
- E eu, sabes o que faço quando não consigo adormecer? Vou para a cama da mamã...
(Mãe, sem paciência, levanta-lhe o lençol. Eu sabia que não era boa ideia deixá-lo ver o Scary Movie hoje de manhã...)
- Qual quadro, Afonso?
- Aquele assustador que está por cima da minha cabeça.
- Aquele és tu, filho! E estás lindo!
- Não estou nada... Pareço um zoombie. Se não tirares o quadro não consigo dormir.
(Mãe, sem paciência, esconde o quadro no gavetão da cama)
- Ó mami! Continuo sem dormir.
- Sabes o que é que a mãe faz quando não consegue adormecer? Penso num quadro branco e depois vou percorrendo os cantos, um a um, até me chegar o sono.
- E eu, sabes o que faço quando não consigo adormecer? Vou para a cama da mamã...
(Mãe, sem paciência, levanta-lhe o lençol. Eu sabia que não era boa ideia deixá-lo ver o Scary Movie hoje de manhã...)
(Mamã com pressa)
- Meninos, vamos embora!
(Nonô, 2 anos, a única princesa da casa)
- E as meninas, mamã?
- Meninos, vamos embora!
(Nonô, 2 anos, a única princesa da casa)
- E as meninas, mamã?
- O meu outro filho não fazia assim, o meu outro filho não dizia assado...
Porque comparamos os filhos? Será essa uma forma de aprendermos a ser pais?
E quando o fazemos à frente deles? Será uma forma de os ensinarmos a ser filhos?
Se o assunto vos interessar, espreitem o segundo artigo que escrevi para o blog do Consultaclick.
http://consultaclick.pt/blog/2012/01/20/comparar-ou-nao-comparar-eis-a-questao/
Porque comparamos os filhos? Será essa uma forma de aprendermos a ser pais?
E quando o fazemos à frente deles? Será uma forma de os ensinarmos a ser filhos?
Se o assunto vos interessar, espreitem o segundo artigo que escrevi para o blog do Consultaclick.
http://consultaclick.pt/blog/2012/01/20/comparar-ou-nao-comparar-eis-a-questao/
- Meninos, prometam-me que se vão portar bem. POR FAVOR!
O aviso estava dado aos mais velhos, que, já com três meses de atraso, iam finalmente à consulta anual. Vinham excitados da escola, ainda não tinham levado o apertão habitual do final do dia para fazerem os trabalhos de casa e se comportarem à mesa e, assim que entraram no gabinete da pediatra, soltaram toda a palermice que ainda havia por gastar. Enquanto tentava manter a serenidade em frente à pediatra (que felizmente conhece melhor do que eu a idade da parvoíce), vi meias a voar, desfiles em cuecas e ouvidos moucos aos meus olhos arregalados (que soltaram berros).
Controlei a fúria até ao estacionamento das Amoreiras, onde lhes dei uma ensaboadela das antigas. "Desculpa, mami", "Desculpa, mãezinha", "Não tornamos a fazer", mas nos entretantos a pediatra deve ter respirado de alívio e pensado que ainda bem que as consultas nesta fase são só uma vez por ano... Já eu, não só respirei de alívio como prometi a mim mesma que, para o ano, levo o pai comigo (é que os olhos dele falam ainda mais alto!!)
O aviso estava dado aos mais velhos, que, já com três meses de atraso, iam finalmente à consulta anual. Vinham excitados da escola, ainda não tinham levado o apertão habitual do final do dia para fazerem os trabalhos de casa e se comportarem à mesa e, assim que entraram no gabinete da pediatra, soltaram toda a palermice que ainda havia por gastar. Enquanto tentava manter a serenidade em frente à pediatra (que felizmente conhece melhor do que eu a idade da parvoíce), vi meias a voar, desfiles em cuecas e ouvidos moucos aos meus olhos arregalados (que soltaram berros).
Controlei a fúria até ao estacionamento das Amoreiras, onde lhes dei uma ensaboadela das antigas. "Desculpa, mami", "Desculpa, mãezinha", "Não tornamos a fazer", mas nos entretantos a pediatra deve ter respirado de alívio e pensado que ainda bem que as consultas nesta fase são só uma vez por ano... Já eu, não só respirei de alívio como prometi a mim mesma que, para o ano, levo o pai comigo (é que os olhos dele falam ainda mais alto!!)
Os gémeos e a disputa de sua mamã:
(Nonô, 2 anos, gémea menina)
- Nonô é da mamã, Dudu é da Lana (empregada ucraniana).
- Não. A mamã é dos dois.
- Na, na, na. Mamã Nonô, Nonô Mamã.
(Dudu, 2 anos, gémeo menino, a ver-me com a mana ao colo numa perna)
- Mamã, qu'ei colo.
(Mamã ergue-o para cima da sua perna livre)
- Não, mamã. Qu'ei colo dois.
- E a mamã tem os dois ao colo, Dudu. Os dois maninhos.
- Não! Dudu qu'ei colo dois pernas.
(Nonô, 2 anos, gémea menina)
- Nonô é da mamã, Dudu é da Lana (empregada ucraniana).
- Não. A mamã é dos dois.
- Na, na, na. Mamã Nonô, Nonô Mamã.
(Dudu, 2 anos, gémeo menino, a ver-me com a mana ao colo numa perna)
- Mamã, qu'ei colo.
(Mamã ergue-o para cima da sua perna livre)
- Não, mamã. Qu'ei colo dois.
- E a mamã tem os dois ao colo, Dudu. Os dois maninhos.
- Não! Dudu qu'ei colo dois pernas.
(Sebastião, 6 anos, após o banho)
- Ó mami, por que é que eu tenho o rabinho durinho, e tu tens o rabinho molinho?
Sem comentários, ok?
- Ó mami, por que é que eu tenho o rabinho durinho, e tu tens o rabinho molinho?
Sem comentários, ok?
"Muita imaginação, mas é preciso atenção à pontuação".
Era mais ao menos isso que dizia na ficha de avaliação do meu filho mais velho (8), e que me fez sentir a pior mãe do mundo. É verdade que estou sempre a puxar pela imaginação dos meus filhos... mas como posso ter negligenciado a pontuação? Que espécie de mãe escritora sou eu?
Ontem, decidi sentar-me ao lado do meu filho para o ajudar na sua composição. Ele pegou no lápis para começar a escrever e eu mandei-o pousá-lo:
- O que é que vais escrever, Afonso?
- Uma história sobre os Reis Magos.
- Mas já sabes o princípio, o meio e o fim da tua história?
Não sabia, claro. Ia contar umas coisas. Então a obriguei-o a puxar pela cabeça. E a pensar no que queria dizer a quem o fosse ler.
- Ó mami, mas ninguém vai ler isto. Nem sei se a professora vai ter tempo!
- Não interessa, Afonso. Não estás a escrever para ti. Estás a escrever para que te leiam. Por isso tens de escrever sempre a melhor história que conseguires para aqueles que te poderão ler.
Ficou entusiasmado. E pegou novamente no lápis. Mandei-o pousá-lo novamente.
- Tens de pensar no teu arranque, Afonso. Se as tuas duas primeiras linhas forem uma seca, ninguém vai querer ler o resto. Nem a tua professora!
Pensou. E a história dos Reis Magos começou com uma noite fria em que estes andavam perdidos no deserto. Quando dei por ele, já tinha criado um quarto Rei Mago e já queria que ele partisse uma perna e vivesse uma aventura no castelo do HErodes. Tive de refreá-lo e pedir-lhe que guardasse a imaginação para histórias menos sagradas. Mas, mesmo com freio, ficou uma história bem construída, com princípio, meio e fim. E ele percebeu exactamente que tipo de erros cometia na pontuação.
- Há escritores que quase nao usam pontuação, nem separam as falas do texto, Afonso. Mas primeiro precisas de escrever correctamente. Depois logo podes criar um estilo próprio. E encontrar a tua própria originalidade.
- O que é isso, mami?
- É encontrares qualquer coisa que só tu faças. Para, quando os teus colegas lerem um texto teu, saberem logo que foste tu que o escreveste. Porque só tu escreverias assim.
- E qual é a tua originalidade, mamã?
- Bem... a mamã também ainda está à procura dela. Por isso ainda escrevo de forma muito certinha. Mas um dia vou encontrá-la... E tu vais encontrar a tua.
E ontem, perante uma nova composição, decidiu acabá-la com uma rima escrita no centro do texto.
- Posso fazer isto, mami?
- Podes. Vai ser a tua originalidade?
- Vai. Mas não podes copiá-la, mami!
Combinado, pequeno Afonso. E que a tua imaginação nunca te falte...
Era mais ao menos isso que dizia na ficha de avaliação do meu filho mais velho (8), e que me fez sentir a pior mãe do mundo. É verdade que estou sempre a puxar pela imaginação dos meus filhos... mas como posso ter negligenciado a pontuação? Que espécie de mãe escritora sou eu?
Ontem, decidi sentar-me ao lado do meu filho para o ajudar na sua composição. Ele pegou no lápis para começar a escrever e eu mandei-o pousá-lo:
- O que é que vais escrever, Afonso?
- Uma história sobre os Reis Magos.
- Mas já sabes o princípio, o meio e o fim da tua história?
Não sabia, claro. Ia contar umas coisas. Então a obriguei-o a puxar pela cabeça. E a pensar no que queria dizer a quem o fosse ler.
- Ó mami, mas ninguém vai ler isto. Nem sei se a professora vai ter tempo!
- Não interessa, Afonso. Não estás a escrever para ti. Estás a escrever para que te leiam. Por isso tens de escrever sempre a melhor história que conseguires para aqueles que te poderão ler.
Ficou entusiasmado. E pegou novamente no lápis. Mandei-o pousá-lo novamente.
- Tens de pensar no teu arranque, Afonso. Se as tuas duas primeiras linhas forem uma seca, ninguém vai querer ler o resto. Nem a tua professora!
Pensou. E a história dos Reis Magos começou com uma noite fria em que estes andavam perdidos no deserto. Quando dei por ele, já tinha criado um quarto Rei Mago e já queria que ele partisse uma perna e vivesse uma aventura no castelo do HErodes. Tive de refreá-lo e pedir-lhe que guardasse a imaginação para histórias menos sagradas. Mas, mesmo com freio, ficou uma história bem construída, com princípio, meio e fim. E ele percebeu exactamente que tipo de erros cometia na pontuação.
- Há escritores que quase nao usam pontuação, nem separam as falas do texto, Afonso. Mas primeiro precisas de escrever correctamente. Depois logo podes criar um estilo próprio. E encontrar a tua própria originalidade.
- O que é isso, mami?
- É encontrares qualquer coisa que só tu faças. Para, quando os teus colegas lerem um texto teu, saberem logo que foste tu que o escreveste. Porque só tu escreverias assim.
- E qual é a tua originalidade, mamã?
- Bem... a mamã também ainda está à procura dela. Por isso ainda escrevo de forma muito certinha. Mas um dia vou encontrá-la... E tu vais encontrar a tua.
E ontem, perante uma nova composição, decidiu acabá-la com uma rima escrita no centro do texto.
- Posso fazer isto, mami?
- Podes. Vai ser a tua originalidade?
- Vai. Mas não podes copiá-la, mami!
Combinado, pequeno Afonso. E que a tua imaginação nunca te falte...
O meu filho mais velho (8 anos) anda completamente viciado na leitura! De manhã lê o Capitão Cuecas, aos intervalos lê o Principezinho, à noite lê o livro que requisitou na biblioteca. Nas aulas, despacha o que a professora pede aos alunos com rapidez para ler o livro que tem debaixo da mesa ("É para não ficar parado, mami. Antes isso do que me pôr a conversar, não achas?"), e os TPC também são feitos muito mais depressa para despachar mais um livrito ou dois.
Depois de três anos a julgar que não ia ter um grande leitor (mesmo depois de todo o investimento em livros e histórias de boa-noite), o meu escritorzinho em potência despertou finalmente para a leitura, e agora até me pergunto se não será demais. "Agora podes ir brincar, ok, Afonso?". "Mas eu estou a ler, mami..." E no outro dia um pai de um coleguinha veio dizer-me que se meteu com ele num intervalo, enquanto ele lia o seu livro, e que ele foi respondendo com monossílabos, forçando um sorriso para não ser antipático, mas com um nítido ar de "cala-te lá, pá, que eu estou a ler".
- E o que mais me impressionou - contava o pai - é que estava uma barulheira enorme, e ele conseguia concentrar-se.
Pois... digamos que, para ler livros numa casa com três irmãos mais pequenos, o meu filho foi obrigado a desenvolver capacidades especiais de concentração. O problema é conseguir que ele regresse à Terra antes de ler a última página...
Depois de três anos a julgar que não ia ter um grande leitor (mesmo depois de todo o investimento em livros e histórias de boa-noite), o meu escritorzinho em potência despertou finalmente para a leitura, e agora até me pergunto se não será demais. "Agora podes ir brincar, ok, Afonso?". "Mas eu estou a ler, mami..." E no outro dia um pai de um coleguinha veio dizer-me que se meteu com ele num intervalo, enquanto ele lia o seu livro, e que ele foi respondendo com monossílabos, forçando um sorriso para não ser antipático, mas com um nítido ar de "cala-te lá, pá, que eu estou a ler".
- E o que mais me impressionou - contava o pai - é que estava uma barulheira enorme, e ele conseguia concentrar-se.
Pois... digamos que, para ler livros numa casa com três irmãos mais pequenos, o meu filho foi obrigado a desenvolver capacidades especiais de concentração. O problema é conseguir que ele regresse à Terra antes de ler a última página...
(Afonso, 8 anos)
- Mami, podes contar a história aos manos, enquanto eu leio o meu livro no quarto?
Eu sabia que este dia chegaria... Custa, mas um dia eles têm de crescer, e preferir o seu momento sossegado de leitura à história atrapalhada contada pela mamã, tentando manter todos sentados enquanto se debate com diferentes vozes e gestos.
- Mas depois vais dar-me um beijinho de boa-noite?
Felizmente, não se perde tudo de uma vez...
- Mami, podes contar a história aos manos, enquanto eu leio o meu livro no quarto?
Eu sabia que este dia chegaria... Custa, mas um dia eles têm de crescer, e preferir o seu momento sossegado de leitura à história atrapalhada contada pela mamã, tentando manter todos sentados enquanto se debate com diferentes vozes e gestos.
- Mas depois vais dar-me um beijinho de boa-noite?
Felizmente, não se perde tudo de uma vez...
Despachada a varicela cá em casa, voltámos à tranquilidade (dentro do género) e às histórias de boa noite, sem comichões nem birras febris. E voltou também a aula semanal de Filosofia para os mais velhos. Que talvez tenha que chamar antes de "aula semanal de criatividade", dada a loucura em que habitualmente ela termina. Hoje, o tema foi "Porque existimos". E, entre uma reflexão sobre a nossa espécie e o que ela cá anda a fazer, o Afonso recordou que veio de outro planeta depois de ter sido coroado herói. Foi trazido pelas vacas voadoras, que o fizeram descer nas suas tetas até à barriga da mamãe. O costume. O que me surpreendeu desta vez foi a história do Sebastião, que habitualmente fica calado, com dificuldade em acompanhar os delírios do irmão mais velho. Hoje, tinha uma história. E era bem boa!
- Eu decidi nascer porque tinha muita fome!
- Fome, Sebastião?
- Sim, nas nuvens só bebia água. E eu lá de cima via as pessoas a comer, a comer... Então resolvi nascer para comer muito.
E pronto. Ficou explicada a história do meu Anjinho Sebastião, e a razão do seu percentil 95 durante os primeiros 6 meses de vida...
- Eu decidi nascer porque tinha muita fome!
- Fome, Sebastião?
- Sim, nas nuvens só bebia água. E eu lá de cima via as pessoas a comer, a comer... Então resolvi nascer para comer muito.
E pronto. Ficou explicada a história do meu Anjinho Sebastião, e a razão do seu percentil 95 durante os primeiros 6 meses de vida...
A minha Nonôzinha, de 2 anos e meio, põe o colar da kitty, a pulseira das estrelas, a mala dos lápis cor-de-rosa ao ombro e o computador das princesas na outra mão. Vem ter comigo e diz:
- Mamã... Nonô igual à mamã, não é?
Não é de os comermos com beijinhos?
- Mamã... Nonô igual à mamã, não é?
Não é de os comermos com beijinhos?
As borbulhas a crescer... e a paciência da mãe a diminuir, diminuir, diminuir...
Depois de um dia inteiro a sossegar as borbulhas dos meus gémeos, ainda recebo o telefonema alarmado da minha cunhada, com quem passei ontem o dia:
- Os meus filhos estão com piolhos. É melhor veres as cabeças dos teus...
Não achei nenhum, finalmente, mas o fim de tarde foi maravilhoso, entre banhos de Maizena, Caladryl, Stop Piolhos e catagem com pente de metal. Se achava que uma empresa de catagem ao domicílio me deixaria rica, agora acho que uma empresa que combinasse catagem com tratamento anti-varicela 7 Dias ao domicílio me deixaria milionária! O problema é que os filhos, quando têm estas coisas, só querem as mamãs, e isso não há empresa nenhuma que consiga contornar...
Depois de um dia inteiro a sossegar as borbulhas dos meus gémeos, ainda recebo o telefonema alarmado da minha cunhada, com quem passei ontem o dia:
- Os meus filhos estão com piolhos. É melhor veres as cabeças dos teus...
Não achei nenhum, finalmente, mas o fim de tarde foi maravilhoso, entre banhos de Maizena, Caladryl, Stop Piolhos e catagem com pente de metal. Se achava que uma empresa de catagem ao domicílio me deixaria rica, agora acho que uma empresa que combinasse catagem com tratamento anti-varicela 7 Dias ao domicílio me deixaria milionária! O problema é que os filhos, quando têm estas coisas, só querem as mamãs, e isso não há empresa nenhuma que consiga contornar...
Refeição em família, entre as aulas da manhã e as aulas da tarde dos filhos, é um privilégio para muito poucos, hoje em dia. O que se perdeu? Numa casa com quatro filhos que gostam pouco de comer, e uma mãe a precisar de algum tempo e serenidade para conseguir trabalhar, o que se ganhou?
Este é o primeiro de alguns artigos que estou a escrever para o blog da Consulta Click, e que podem ler em:
http://consultaclick.pt/blog/2011/12/20/comer-em-casa-ou-na-escola/
Agora vou tratar de pensar no almoço dos 4 filhos que tenho em casa de férias...
Este é o primeiro de alguns artigos que estou a escrever para o blog da Consulta Click, e que podem ler em:
http://consultaclick.pt/blog/2011/12/20/comer-em-casa-ou-na-escola/
Agora vou tratar de pensar no almoço dos 4 filhos que tenho em casa de férias...
Depois de uma semana de férias sem filhos, onde dormi uma média de dez horas por noite, regressei a tempo do Natal, dos miminhos, dos abracinhos, dos sorrisos, das fotos de família, dos doces e dos presentes. Com a paciência renovada, senti-me preparada para qualquer birra, qualquer resposta torta, qualquer choro sem razão, qualquer impaciência. Avizinhava-se uma semana em casa com todos, muito trabalho e muita imaginação necessária para entreter os piolhos. Não sabia era que teria que me preparar também para um extra: varicela... a dobrar! Hoje, entre brincadeiras, trabalho no computador, filmes na tv e arrumações, ainda tenho que lidar com banhos de maizena e caladryl nas borbulhas de água que invadem a pele dos meus gémeos de dois anos... Acho que, de hoje a uma semana, estarei a precisar de outra semana de férias sem fihos... Bom Natal!!!
Prestes a deixar os nossos filhos uns dias com os avós, para descansarmos o corpo e a alma, resolvemos perguntar à Nonô (2 anos e meio) se ela queria um presente das nossas férias.
- Sim... Colar Kitty. Colar Kitty.
O pai abraçou-a, já cheio de saudades.
- O pai vai comprar um colar da Kitty à Nonô.
E eu fui logo atrás, juntando-me à festa.
- Os papás vão procurar um colar lindo para a Nonô, está bem?
- Não, não - disse logo ela. - Papá colar Kitty à Nonô.
- É só o Papá? E a mamã? Não oferece nada?
Momentos de introspecção.
- Sim. Mamã brincos à Nonô. Brincos Kitty.
Não há hipótese. Mesmo com 3 irmãos à perna, esta miúda é mulher e pronto!
- Sim... Colar Kitty. Colar Kitty.
O pai abraçou-a, já cheio de saudades.
- O pai vai comprar um colar da Kitty à Nonô.
E eu fui logo atrás, juntando-me à festa.
- Os papás vão procurar um colar lindo para a Nonô, está bem?
- Não, não - disse logo ela. - Papá colar Kitty à Nonô.
- É só o Papá? E a mamã? Não oferece nada?
Momentos de introspecção.
- Sim. Mamã brincos à Nonô. Brincos Kitty.
Não há hipótese. Mesmo com 3 irmãos à perna, esta miúda é mulher e pronto!
Eu explico a minha ausência no blog: A MINHA QUERIDA MILA FOI-SE EMBORA!!! E a minha vida está um caos. Entre trabalho extra mega redobrado, presentes de Natal, filhos gémeos doentes, filhos mais velhos com testes, festas de Natal e encontros inesperados para trocar prendas, a minha empregada ainda resolveu ir-se embora. Um dia depois de obter a autorização de residência no SEF, veio comunicar-me, a chorar, que queria voltar para a Ucrânia. Depois, a ferros, lá consegui arrancar-lhe que ia só à Ucrânia passar o Natal, e depois voltava, mas já não estava para nos aturar. E como eu a percebo!! Eu no lugar dela também já me tinha posto na alheta há muito tempo!
Entrevistas, agências, mailes, perfis... e acabámos por ficar com uma amiga da nossa Mila, que fala tão mal português como ela. Assim que a vimos com um sorriso disponível e vontade de arregaçar as mangas, perguntámos-lhes logo quando podia começar. E o Afonso saiu-se com esta:
- Ó Mila, as suas amigas têm todas dentes de ouro?
Chama-se Lana, diminutivo de qualquer coisa impronunciável para um português. Sabe fazer massas de empadas e bacalhau à brás. Fora isso, não percebe o que lhe digo, não sabe onde guardar a roupa de tanta gente diferente, não faz ideia o que os miúdos têm de vestir e comer em cada dia da semana, e eu também não tenho tempo para lhe explicar. O que vale é que, no próximo sábado, vai Lana, e filhos, e cão, e tudo para casa dos meus pais, enquanto eu e o meu marido vamos... DORMIR NUM HOTEL ARRUMADO!!!
Entrevistas, agências, mailes, perfis... e acabámos por ficar com uma amiga da nossa Mila, que fala tão mal português como ela. Assim que a vimos com um sorriso disponível e vontade de arregaçar as mangas, perguntámos-lhes logo quando podia começar. E o Afonso saiu-se com esta:
- Ó Mila, as suas amigas têm todas dentes de ouro?
Chama-se Lana, diminutivo de qualquer coisa impronunciável para um português. Sabe fazer massas de empadas e bacalhau à brás. Fora isso, não percebe o que lhe digo, não sabe onde guardar a roupa de tanta gente diferente, não faz ideia o que os miúdos têm de vestir e comer em cada dia da semana, e eu também não tenho tempo para lhe explicar. O que vale é que, no próximo sábado, vai Lana, e filhos, e cão, e tudo para casa dos meus pais, enquanto eu e o meu marido vamos... DORMIR NUM HOTEL ARRUMADO!!!
Há anos que luto para que os meus filhos mais velhos desçam dos quartos com os robes vestidos e as pantufas calçadas. Sem resultados à vista...
- Outra vez sem robe?! E as pantufas?! Ficam constipados, meninos!!!
Pois a minha filha Leonor, com apenas 2 anos, assim que acorda vai buscar as pantufas, ajeita o seu robe e pega num gancho para eu lhe prender o cabelo durante o pequeno-almoço. E, muito direitinha, assoma no cimo das escadas:
- Mamã... a Nonô já acordou.
Somos espécies diferentes, não restam dúvidas...
- Outra vez sem robe?! E as pantufas?! Ficam constipados, meninos!!!
Pois a minha filha Leonor, com apenas 2 anos, assim que acorda vai buscar as pantufas, ajeita o seu robe e pega num gancho para eu lhe prender o cabelo durante o pequeno-almoço. E, muito direitinha, assoma no cimo das escadas:
- Mamã... a Nonô já acordou.
Somos espécies diferentes, não restam dúvidas...
No carro, de regresso a casa:
(Mãe) - Então, filho, como é que te correu o teste de Estudo do Meio?
(Afonso, 8 anos) - Correu bem, mami. Só não sabia se o "ténis" pertencia ao aparelho reprodutor masculino ou feminino...
Aulas de sexualidade precisam-se com urgência cá em casa...
(Mãe) - Então, filho, como é que te correu o teste de Estudo do Meio?
(Afonso, 8 anos) - Correu bem, mami. Só não sabia se o "ténis" pertencia ao aparelho reprodutor masculino ou feminino...
Aulas de sexualidade precisam-se com urgência cá em casa...
(mamã e Sebastião, 6 anos)
- Sebastião, queres que a mamã te ajude a fazer o teu primeiro livro?
- Não, mamã. Eu não quero ser escritor. Isso é o Afonso.
- Então queres ser o quê? A mãe faz qualquer coisa que tu queiras ser.
- Quero ser construtor de casas.
- Boa! Então vamos construir uma casa... de legos.
- Não, espera... eu quero ser construtor de casas... se não ganhar o euromilhões.
- Então se ganhares o euromilhões... não fazes nada, Sebastião?
- Estava a brincar... Faço, claro.
- Então fazes o quê? Constróis casas?
- Não. Conto as notas...
- Sebastião, queres que a mamã te ajude a fazer o teu primeiro livro?
- Não, mamã. Eu não quero ser escritor. Isso é o Afonso.
- Então queres ser o quê? A mãe faz qualquer coisa que tu queiras ser.
- Quero ser construtor de casas.
- Boa! Então vamos construir uma casa... de legos.
- Não, espera... eu quero ser construtor de casas... se não ganhar o euromilhões.
- Então se ganhares o euromilhões... não fazes nada, Sebastião?
- Estava a brincar... Faço, claro.
- Então fazes o quê? Constróis casas?
- Não. Conto as notas...
Faz hoje uma semana, enviei os meus filhos para a escola com os seus ténis xpto para participarem no primeiro corta-mato deste ano. Os pais eram convidados a assistir, mas não me dava jeitinho nenhum, por causa do trabalho acumulado da semana e a perspectiva de uma fim-de-semana sem conseguir fazer nenhum. Mas às dez da manhã começou a subir-me um formigueiro de boa mãe, das teclas do computador já não me saía nada, por isso resolvi meter-me à estrada e dar uma saltada à escola. O corta-mato do Sebastião já estava a terminar, só tive tempo de o ver chegar à meta cá bem atrás, e de lhe dar um beijo de consolo.
- Ouviste a mãe a gritar por ti?
- Não... Onde é que estavas?
- Ah... hum... ali atrás.
Mentirinha piedosa. Culpa! Porque é que o formigueiro não me deu mais cedo? Cinco minutos e ainda gritava a plenos pulmões um SE-BAS-TI-ÃO que lhe daria asas.
Mas ainda tinha uma derradeira oportunidade. Começava agora o corta-mato do Afonso. Esqueci os pais, esqueci os padres, esqueci as figurinhas que estava a fazer, e comecei a dar indicações ao meu filho:
- Encostas-te à direita... Tens de correr logo depressa, depois quando estiveres no pelotão da frente é que começas a dosear a velocidade. E respira. Nariz, nariz, boca. Nariz, nariz, boca.
E lá foi ele que nem uma seta. Encostado à direita, no pelotão da frente, a respirar, com uma mãe que esqueceu as figurinhas e ia gritando a plenos pulmões: "Vai, Afonso! Força! Está quase!"
Ficou em segundo. E, quando subiu ao pódio para receber a medalha, até tive que disfarçar uma lagrimita.
São coisas de nada. Se calhar, se eu não tivesse lá ido, ele tinha em segundo de qualquer forma. E se eu tivesse ido mais cedo, o Sebastião tinha ficado lá para trás de qualquer forma. Mas o estar lá para um e para outro, com mais atraso ou menos figurinhas, com medalhas ou sem elas, naquele dia, para mim, fez toda a diferença.
- Ouviste a mãe a gritar por ti?
- Não... Onde é que estavas?
- Ah... hum... ali atrás.
Mentirinha piedosa. Culpa! Porque é que o formigueiro não me deu mais cedo? Cinco minutos e ainda gritava a plenos pulmões um SE-BAS-TI-ÃO que lhe daria asas.
Mas ainda tinha uma derradeira oportunidade. Começava agora o corta-mato do Afonso. Esqueci os pais, esqueci os padres, esqueci as figurinhas que estava a fazer, e comecei a dar indicações ao meu filho:
- Encostas-te à direita... Tens de correr logo depressa, depois quando estiveres no pelotão da frente é que começas a dosear a velocidade. E respira. Nariz, nariz, boca. Nariz, nariz, boca.
E lá foi ele que nem uma seta. Encostado à direita, no pelotão da frente, a respirar, com uma mãe que esqueceu as figurinhas e ia gritando a plenos pulmões: "Vai, Afonso! Força! Está quase!"
Ficou em segundo. E, quando subiu ao pódio para receber a medalha, até tive que disfarçar uma lagrimita.
São coisas de nada. Se calhar, se eu não tivesse lá ido, ele tinha em segundo de qualquer forma. E se eu tivesse ido mais cedo, o Sebastião tinha ficado lá para trás de qualquer forma. Mas o estar lá para um e para outro, com mais atraso ou menos figurinhas, com medalhas ou sem elas, naquele dia, para mim, fez toda a diferença.
Depois de quinhentos mil disparates seguidos do meu endiabrado Dudu (2 anos), olhei para ele, furiosa, e saiu-me um:
- Grrrrrrrrrrrrrrrrr!
Depois virei costas, respirando fundo, para não o virar ao contrário. Mas o meu Dudu tem esse condão de conseguir ser maroto e irresistível ao mesmo tempo. Por isso chamou-me, com o seu melhor sorriso:
- Mamãaaaaa....
Olhei para ele, já mais calma, e ele imita-me, com o mesmo ar enfurecido:
- Grrrrrrrrrrrrrrrr! Mamã leão. Grrrrrrrrrrrrrr!
Pronto... antes "mamã leão" do que "mamã louca". Pelo sim, pelo não, vou cortar a "juba".
- Grrrrrrrrrrrrrrrrr!
Depois virei costas, respirando fundo, para não o virar ao contrário. Mas o meu Dudu tem esse condão de conseguir ser maroto e irresistível ao mesmo tempo. Por isso chamou-me, com o seu melhor sorriso:
- Mamãaaaaa....
Olhei para ele, já mais calma, e ele imita-me, com o mesmo ar enfurecido:
- Grrrrrrrrrrrrrrrr! Mamã leão. Grrrrrrrrrrrrrr!
Pronto... antes "mamã leão" do que "mamã louca". Pelo sim, pelo não, vou cortar a "juba".
Sistemas digestivo e respiratório, frases com ditongos, pautas com sustenidos, problemas matemáticos e sólidos, solfejo, conjuntos e operações... Se dantes trabalhava até às 17.30h, era motorista até às 18.30h, e mãe até às 21.30h, para voltar a ser novamente trabalhadora (quando deveria ser companheira do marido, outra profissão exigente, mas a falta de tempo não tem ajudado :(), agora ainda tenho de ser professora das 18.30h às 19.30h e professora de música das 21h às 21.30h. Eu nem quero pensar o que vai ser quando tiver os meus quatro filhos com trabalhos de casa, testes, avaliações, treinos e audições... Ser mãe também é isto, mas também é abraçá-los e ouvi-los sem ralhetes, exigências e obrigações. Façam mais Domingos por semana, por favor!
Depois de um bom banho, mãe inspecciona ao espelho a pele do rosto, o cabelo, as sobrancelhas, os dentes. E, ainda que não totalmente satisfeita com o que vê, sorri, para começar bem o dia. Foi quando percebeu que tinha o pequeno Dudu, qual duende maroto, atrás de si, a olhar também para o espelho. Sorria também (e é impressionante como o sorriso dele é igual ao da mamã!) e disse baixinho "Mãe linda".
E o sorriso da mãe encheu-se de uma satisfação que nenhumas olheiras, pêlos supérfulos ou cabelos ressequidos podem apagar...
E o sorriso da mãe encheu-se de uma satisfação que nenhumas olheiras, pêlos supérfulos ou cabelos ressequidos podem apagar...
(Sebastião, 6 anos, aflito) Mãe, o que é isto aqui na tua cabeça?!?
(Mãe) É um gancho, filho.
(Sebastião) Ufa! Pensava que te estava a nascer uma antena...
Dantes temiam-se os corninhos. Agora temem-se as antenas...
(Mãe) É um gancho, filho.
(Sebastião) Ufa! Pensava que te estava a nascer uma antena...
Dantes temiam-se os corninhos. Agora temem-se as antenas...
Todos os dias, entre as 21.15h e as 21.30h, depois do jantar (das 20h às 20.30h), da história dos mais novos (das 20.30h às 21h, enquanto os mais velhos recebem miminhos do pai) e da história dos mais velhos (das 21h às 21.15h, enquanto os mais novos adormecem ), é a hora da música cá em casa. Ou melhor... o quarto de hora! A rigidez nos horários às vezes chateia, mas é a única forma de conseguirmos pôr ordem numa casa com tanto piolho irrequieto.
O quarto de hora da música começou por ser algo semelhante a "uma mãe chata a querer ouvir o filho mais velho tocar notas nos tempos certos". Depois passou a ser algo tipo "uma mãe chata a obrigar o filho mais velho a treinar as músicas compasso a compasso". Depois transformou-se em "mãe e filho mais velho tocam músicas em conjunto enquanto segundo filho chateia que também quer tocar". E, nas últimas semanas, depois de algumas de "mãe toca com o filho mais velho e depois obriga o segundo filho a treinar", temos finalmente "mãe e seus dois filhotes tocam em conjunto". Ainda só vamos no "Balão do João", nada de muito complicado, mas naquele quarto de hora mágico não há "Come!", nem "Despacha-te", nem "Estão-me a tirar do sério!". São 15 minutos de música e só música... e que bem que sabe!
E aposto que qualquer dia vamos ter "filhos que obrigam a mãe a treinar para poder acompanhá-los".......
O quarto de hora da música começou por ser algo semelhante a "uma mãe chata a querer ouvir o filho mais velho tocar notas nos tempos certos". Depois passou a ser algo tipo "uma mãe chata a obrigar o filho mais velho a treinar as músicas compasso a compasso". Depois transformou-se em "mãe e filho mais velho tocam músicas em conjunto enquanto segundo filho chateia que também quer tocar". E, nas últimas semanas, depois de algumas de "mãe toca com o filho mais velho e depois obriga o segundo filho a treinar", temos finalmente "mãe e seus dois filhotes tocam em conjunto". Ainda só vamos no "Balão do João", nada de muito complicado, mas naquele quarto de hora mágico não há "Come!", nem "Despacha-te", nem "Estão-me a tirar do sério!". São 15 minutos de música e só música... e que bem que sabe!
E aposto que qualquer dia vamos ter "filhos que obrigam a mãe a treinar para poder acompanhá-los".......