Acho que os pais têm um dom. Um dom de nos tirar do sério quando os filhos choram à noite e eles não ouvem, quando eles estão a fazer uma asneira ao lado deles e eles não notam, quando os deixámos a cargo deles e eles se esqueceram da hora do almoço ou do lanche, ou lhes deram fast food para não terem trabalho. Os pais têm o dom de se esquecer dos filhos e usufruírem das férias em casal, e ainda acharem que podiam ter ficado mais dias. Os pais têm o dom de se esquecerem de tudo quando dá futebol, e de não conseguirem distinguir que roupas pertencem a que filho, nem a arrumação que a mãe resolveu dar às roupas.
Pais e mães são de espécies diferentes, definitivamente. E isso é tãooo bom! É verdade que estes pequenos dons dos homens (e atenção que estou a generalizar, para além de estar a exagerar, claro) às vezes nos irritam, mas os homens, depois, têm outros dons maravilhosos que nos escapam. Como brincar com os filhos sem os stresses do chapéu, e do agasalho, e da hora de comer e da hora de dormir. Brincam com gosto, e geralmente brincam melhor do que nós. Ontem à noite o pai dos meus filhos soltou esse seu dom maravilhoso e apareceu no quarto do Afonso enquanto eu lia a história. E começou a fazer batuques nas prateleiras dos livros. Um batuque aqui, um batuque acolá... uns minutos depois os meus filhos estavam a dançar que nem uns doidos no quarto, ao som dos ritmos improvisados do pai, e a noite terminou com grandes abraços e beijinhos de todos, e uma noite muito descansada. Os homens são assim (generalizando outra vez). Cozinham pouco, mas quando cozinham são grandes chefs. Brincam pouco, mas quando brincam criam momentos verdadeiramente mágicos aos filhos. Somos, de facto, de espécies diferentes, e por isso é que os filhos crescem dentro de nós, porque nós estamos cá para o bom e para o mau, para as brincadeiras e para os cocós e as birras. Mas sem um pai ao nosso lado a tornar o bom ainda melhor, também não teria tanta graça...
O meu Sebastianeto fez anos. 5. Uma mão cheia, como ele diz. O problema é que o irmão mais velho está quase nos 7 e põe e dispõe da vida do Sebastião. É sempre assim com os irmãos mais novos. E então quando eles ficam entalados no meio de outros, não há nada a fazer. São os esquecidos e aqueles que mais facilmente tendem a copiar uns e outros, em busca de um lugar e do merecido reconhecimento dos pais.
(mãe) - Sebastião, queres um bolo do quê?
(Sebastião) - Afonso, o meu bolo vai ser do quê?
O Afonso já ia mandar a sua laracha e comandar os destinos do aniversário do irmão, mas travei-o a tempo.
(mãe) - O teu irmão é que vai escolher o bolo! Estás proibido de dar sugestões, Afonso!
Depois de muito pensar (e como é indeciso este meu pequeno Balança) lá se decidiu pelo Odd do Code Lyoko. Não sabem o que é? Pois... eu também não sabia. Lá fui pesquisar na net e descobrir o boneco maravilha, difícil à brava de adaptar a um bolo, mas lá descobri uma senhora que me fizesse um bolo com aquele tema.
(mãe) - Sebastião, a mãe já conseguiu um bolo do Code Lyoko.
(Sebastião com olhinhos a brilhar) - A sério, mãe?
(mãe) - A sério. Quem vai fazer o teu bolo é uma senhora chamada Maria Biscoito.
(Sebastião com olhos tristes) - O quê? Não vais ser tu, mamã?
Não resisti a uma mentirinha piedosa. Disse que era eu... e a Maria Biscoito. Uma espécie de bolo a 4 mãos. Só omiti que a minha parte foi só a logística, mas quem aguenta ver uns olhos tristes como os do meu Sebastião?
O meu piolho mais velho escreveu o seu primeiro livro... (baba, baba, baba). Prestes a fazer 7 anos, quase que escapava àquele que eu desejava ser o desígnio da nossa família: escrever o primeiro livro aos 6 anos. A minha mãe ajudou-me a escrever o meu primeiro aos 6 ("Um pico meu amigo", qualquer dia vem a lume) e eu já andava de roda do Afonso há algum tempo para o ajudar a escrever o dele: Ó filho, se queres ser escritor, tens de escrever, okay? Foi com mais preguiça do que a mãe (mas pronto, não se pode herdar tudo. Ele tem outras coisas que eu gostava de ter herdado, como a lábia, tão importante nos dias que correm...), mas lá pegou nos lápis e escreveu na folha dobrada que eu lhe arranjei. Fez 2 pequenas histórias, inspiradas no meu livro das 100 Histórias do Outro Mundo, e escreveu "No planeta das caixas" e "No planeta dos jogos", cada uma com um pequeno desenho (ilustrados nunca será... valha-me Deus!). No dia seguinte fez a capa: escolheu o título, fez o desenho e pôs o nome (Afonso do Ó, nome artístico), e depois perguntou-me o que pôr na contra-capa. "Não precisas de pôr nada, Afonso. Já está muito giro assim", disse-lhe eu. Pedir-lhe que fizesse uma pequena sinopse do livro para encher o olho aos potenciais leitores era um pouco too much. Mas ele lá achou que tinha de pôr qualquer coisa nas costas, e passado algum tempo apareceu-me com algo escrito:

P: O que é um ladrão em cima de um saco de arroz?
R: Arroz malandro.

Resolvera pôr uma anedota... Nada mau para encher o olho aos colegas. Depois fizemos cópia para as avós, para a professora e para 2 amigos da escola. No meu tempo não havia scanners nem cópias a cores, por isso o original (e único exemplar) de "O Pico meu amigo" ficou mesmo perdido nas gavetas da minha querida professora da primária. Como os tempos são outros, e há que zelar pela matéria-prima, cedi as cópias scanerizadas e fiquei com o original. Não vá o rapaz ter mesmo futuro na área e o primeiro "livro", ainda que tirado meio a ferros, valha muito dinheiro. Uma coisa já valeu certamente, e essa não tem preço: o orgulho da sua "mami"...
Pronto, já está. Livros forrados, farda aprumada, mochila e material arrumado e identificado, e miudagem toda na escola a horas de se conseguir trabalhar sem a Disney de fundo, as picardias de irmãos, os pulos no sofá, as bolachas esmigalhadas no chão...
Poder trabalhar em casa é muito bom, mas o mês de Agosto é de arrancar cabelos. A verdade é que, agora que os "despejei" na escola, sinto a casa tãoooooo vazia... Valham-me os guinchos ultra-femininos da Leonor e os tombos do destravado do Duarte para dar algum colorido à coisa. Quando chegar a altura de também os "despejar" na escola, acho que arrendo um escritório no edifício dos Maristas só para não perder o "barulhinho" de fundo...
É oficial! A minha Leonor já anda!!! Aos 15 meses começou a dar uns passinhos sozinha, e hoje perdeu o medo e lançou-se pela casa fora, debitando aquele enxurrilho de sílabas que só ela entende, meio português meio ucraniano. Está esperta como tudo. Ralha com os irmãos, põe o chapéu para ir à rua, calça os sapatos, quer vestir-se sozinha, finge que está a ler livros, e agarra na sua escova dos dentes cor-de-rosa e no copo para lavar os dentes, tal e qual os irmãos!
O Dudu, mais abebezado, ainda dá uns passinhos de bailarinha, mas quando se trata de trapar às coisas passa à frente da mana. Já conseguiu saltar de uma cadeira da papa (atado!) e de uma cama de viagem, trepa pelas costas do sofá e pelas costas das cadeiras, para tentar ir para as minhas cavalitas. É bruto como tudo a defender o seu território, sobretudo da irmã. Mas quando se trata de receber miminhos da mamã, todo ele se enrosca e aninha como um bebé.
É impressionante como dois gémeos criados da mesma forma podem ser tão diferentes. Ele tão rapazola. Ela tão menininha. Ele tão abrutalhado mas ao mesmo tempo tão menino da mamã. Ela tão independente, de nariz no ar a querer fazer tudo sozinha. E ainda dizem que a educação dos pais é tudo. Eles já nascem com tanto, mas tanto deles... Nós, pais, fazemos o que podemos. Mas eles, de facto, são muito mais deles próprios do que nossos, e a nós cabe-nos (para além de fazermos o que podemos) assistir ao milagre da vida que se desenrola sob o nosso tecto, todos os dias...
(Sebastião a caminhar para mim, puxando os dois olhos com os dois):
- Ó mãe, os chineses devem ver mesmo mal...

(Afonso a chegar à esplanada):
- Estou a ver o pai ali ao fundo. Está a tomar café com outra loura...
(Mãe pitosga)
- O quê?! Aonde, Afonso?
(Afonso gozão, ultimamente viciado em séries juvenis da Disney e Nick)
- A mamã tem ciúmes do papá, a mamã tem ciúmes do papá...

Juro que nunca mais o deixo ver o Drake & Josh!
Depois de uma versão muito própria do "wakawakaué" do Mundial, os meus filhos mais velhos (4 e 6 anos. Tão velhos que eles são...) resolveram dedicar as viagens de ida e volta até Espanha a novas conspirações musicais. O primeiro alvo foi o hino dos Maristas, que acabou assim:

Somos Maristas de Carcavelos,
a nossa mãe é Sarinha
(supostamente era Maria...)
Somos Maristas de Carcavelos
e o Pai Pedro é o nosso guia,
E o pai Pedro é o nosso guia...
(pobre Champagnat, completamente relegado para segundo plano)

Em seguida resolveram discutir a letra de "Carta", dos Toranja:

(Afonso)
É que hoje acordei, lembrei-me, sou magro e feiticeiro...
(Sebastião)
Não é magro!
(Afonso)
Então como é que é?
(Sebastião)
É que hoje acordei, lembrei-me, de chamar o feiticeiro...
(Afonso)
Não é nada! Isto é a história de um homem e uma mulher! Vão chamar o feiticeiro para quê?
(Sebastião)
Por causa da bola de cristal que é feita de papel... Dahhh!
Depois de muito insistir, o Afonso lá teve a sua primeira carteira, para guardar o dinheiro que a avó lhe dera nas férias.
- Ó mami, posso ter semanada, posso? O Diogo Alves já tem...
Lá decidi com o pai que era demasiado cedo, e que ele teria de mostrar primeiro como geria o seu dinheiro, para nós começarmos a confiar nele.
- E cartões, mãe? Quando é que posso ter cartões?
- Se estiveres um mês sem perderes a tua carteira, a mãe dá-te um cartão.
O Afonso rejubilou. E desde então que não larga a sua preciosa carteira. Guarda-a, sobretudo, do Sebastião, irmão lampão que, como bom filho mais novo (ainda que tenha outros mais novos, mas que ainda não têm idade para entrar no campeonato), cobiça tudo o que o mais velho tem.
- Só podes ter carteira quando tiveres 6 anos, Titão. Ainda te faltam 2 anos. Mas o mano paga-te um Happy Meal.
Depois de dois dias a fazer contas, a pensar de que forma poderia dar uso ao seu dinheiro (decidiu inclusive ajudar o seu amigo Diogo Alves a juntar 50 euros. Porque ele gastava tudo o que recebia e precisava de ajuda...), resolveu que o primeiro gasto seria mesmo no Mac Donald's. Ainda comprou um pequeno dragão na livraria do Pingo Doce (para partilhar com o irmão) e depois levámo-lo ao Mac Donald's, para ele mostrar o que valia. Nervoso, fez a encomenda ao senhor. Um Happy Meal para ele e outro para o irmão. Pagou com a sua nota. Recebeu e guardou o troco. E ficou feliz. Muito feliz.
- Sebastião, quando tiveres 6 anos e tiveres a tua carteira, também vais pagar um Happy Meal ao mano, não vais?
E o Sebastião abanou a cabeça, contente. Foi quando o Afonso se saiu com esta:
- Ó mãe... daqui a quantos dias é que vou ter o meu cartão de crédito?
Bem... estava mais a pensar num cartão de uma loja... Quanto muito, no cartão de cidadão... Se bem que o meu filho portou-se à altura. Poupou, ponderou, acabou por gastar o dinheiro em comida, e ainda ajudou o irmão. Talvez ganhe um cartão de crédito a fingir...
Mas o melhor de tudo ainda foi vê-lo entrar no Aki, constatar que tinha dinheiro para comprar um tapete, e uma pequena torneira, e exclamar, satisfeito:
- É bom viver no mundo do dinheiro...
Bem, meu filho... Nem sempre é assim tão bom. Mas goza lá todas as vantagens enquanto podes...
A Leonor deu o seu primeiro passinho. Sozinha. Cheia de vontade de fazer sozinha e mostrar que não precisa de ninguém. A Leonor é assim. Mulher, nos seus quase 15 meses. Primeiro treinou sozinha a pôr-se de pé sem se segurar a nada. Treinou, treinou, treinou, e até batia palminhas a si própria quando conseguia. Ontem estava de pé, olhou para mim com aquele ar maroto, de desafio, que ela tem, e deu um passo. Depois riu-se, divertida, e bateu palminhas a si própria. Estava farta de tentar que ela andasse sozinha. "Anda, Nhocas! Vá... Um passinho... Aqui, Leonor...!" Mas nada. Ela nunca se deixou enganar. Pela mão já vai. Sem mão, não há nada para ninguém. Mas ontem fê-lo sozinha. Fez questão de fazer sozinha. E mostrar-me que era capaz. Promete...
Depois de uns dias sem os filhotes mais velhos, que foram para a praia com a avó, foi tempo de regressar a casa, aos quartos, aos brinquedos, aos mealheiros (para guardar a notinha de despedida da avó)... e também aos velhos disparates, claro. E também às histórias antes do deitar, que nas férias foram substituídas pelo Quem Quer Ser Milionário, dentro na cama, na ronha com a avó (e é para estas diferenças que também servem as férias... e os avós). E a história de hoje terminava com o velho provérbio "Mais vale tarde do que nunca". O Afonso aproveitou logo para concluir:
- Mais vale fazer os trabalhos no último dia de férias do que não os fazer...
Pois é, querido Afonso, mas não vais ter sorte nenhuma...
A conversa depois descambou (ou descambei-a) para os nossos sonhos mais profundos.
- Que sonhos é que vocês gostavam mesmo de realizar, meninos? Têm de ser aqueles sonhos que, mesmo que os realizem já muito velhinhos, valerão a pena...
- (Sebastião, o prático) Ter um Gormitti.
- (Afonso, o místico) Nunca morrer.
Definitivamente, tenho filhos muito diferentes... Só espero ter unhas para tocar as cordas todas...
Antes de mandar os mais velhinhos de férias, tive de proceder à sessão quinzenal de cortadela de unhas. Entre os 4 foram oitenta unhacas... Ainda tentei ir às do pai para chegar à centena, mas ele rabuja mais que os filhos...
Qualquer dia tenho unhas cortadas que cheguem para um diploma de manicura.


PS - Já como cabeleireira nunca conseguirei diploma... Cortei a franja ao Dudu mas não ousei tirar-lhe os caracóis que lhe serpenteiam o rosto. Resultado: transformei-o num pequeno Bee Gee... Lá se vão 10 euros no cabeleireiro, para remediar os estragos.
A propósito da morte do actor António Feio, voltou o tema da morte. Não nos filhos. Na mãe. Recebi vários mailes hoje sobre palavras que o actor tinha dito, conselhos que tinha deixado aos amigos, despedidas ao público em geral... e lembrei-me da carta que, em tempos, escrevi aos meus filhos. Não era uma carta qualquer. Era a carta que eu queria que eles lessem se um dia morresse de repente. Os gémeos ainda não existiam (e tempo para reescrever a carta?), e ainda não me pesava tanto a pergunta que carrego hoje: Como é que o meu marido se desenrascaria sozinho com 4 filhos?! Naquela altura a preocupação maior era outra (e ela continua grande): Que memórias guardarão os meus filhos da mãe, se eu partir agora? Sei que a memória é traiçoeira, e a das crianças apaga-se frequentemente para deixar espaço para tudo o que elas têm de aprender ainda (como perguntava o meu sobrinho Manel: Eu depois vou-me esquecer disto?). Quando se é adulto e nos morre alguém querido, guardamos dessa pessoa o melhor dela. Apaga-se o resto. E isso não é mau. Quando se é criança e morre alguém querido, não se apaga só o mau. Apaga-se também o bom. Frequentemente, apaga-se toda a pessoa. Tudo. Por isso, se eu desaparecesse naquela altura, desapareceria tudo. Na memória dos meus filhos ficaria apenas aquilo que o pai, a família e os amigos lhe diriam. A explicação das fotografias que veriam. A tristeza dos adultos, que passaria para as crianças. Ao ponto de as marcar. Ao ponto de os fazer associar à ideia da mãe uma tristeza infinita. Uma perda irreparável, de uma memória que nem é real, porque foi fabricada pelos outros.
Posso não estar certa. Espero continuar por cá para não ter de o comprovar. Mas, pelo sim pelo não, escrevi uma carta aos meus filhos. Uma carta bem disposta, a dizer-lhes que fui muito feliz com eles, e que a felicidade deles, daí em diante (depois de me perderem) não estava de modo nenhum dependente de mim. Chegara a altura de seguirem o seu caminho, e outras pessoas igualmente competentes os acompanhariam nessa viagem. E que eu tinha pena de não estar presente, mas que o exemplo de me perderem cedo lhes fizesse sentir uma responsabilidade maior de serem felizes todos os dias.
Poderia ter-lhes dito que ia ficar numa estrelinha. Num céu. Sempre ao lado deles. Mas essas mentiras (só porque não tenho a felicidade de acreditar nelas) deixaria para a boca dos outros. A minha carta seria para o caso de eles, assim como eu, não terem também a capacidade de acreditar em algo para além daquilo que temos aqui em baixo. Seria a minha verdade. E eu nunca minto aos meus filhos.

A carta existe. Terá de ser reescrita. E espero ainda escrevê-la muitas e mais vezes. Não porque conto ter mais filhos que me forcem a uma necessária actualização. Mas porque espero viver o suficiente para ver os meus filhos seguir os seus sonhos e serem felizes, anulando (por ausência de necessidade) linhas de conselhos e vontades minhas, até que a minha partida seja entendida como natural, a lei da vida, a memória já não seja uma traição, e não sejam já precisas mais cartas de despedida... Ou, a ela ainda existir, que seja apenas uma linha: "Foi um prazer estar convosco".
Amo os meus bebés! Mas não é que amo mesmo? E se estou espantada é que, depois de ter o Afonso e o Sebastião, perguntei-me várias vezes se ter mais filhos não implicaria ter de gostar menos de todos. Distribuir amor por tantos, não daria menos a cada um? E, de facto, quando os gémeos nasceram, senti-me culpabilizada, sem tempo para as histórias dos "mais velhos" (coitadinhos, tão pequeninos!), sem tempo para os miminhos, para as conversas, para as idas e vindas do colégio, os programas ao fim-de-semana... Pouco a pouco, felizmente, tenho recuperado isso tudo e agora... também estou apaixonada pelos meus gémeos. O Duarte com o seu sorriso fácil, destravado nas horas, trepa a tudo e gatinha mais veloz que um aranhiço, mas depois chora com o som da batedeira e dos estores, e trepa por mim acima quando vê a irmã a aproximar-se. Depois a Leonor, esperta como tudo, que faz gracinhas e bate palmas a si próprio, grita "três" depois de dizermos "um, dois" e só quer comer e vestir-se sozinha. É a minha bonequinha espertalhona. Amo-os muito, e penso, sempre que entro na cozinha, a preparar-me para os ouvir chorar e estender os bracinhos para eu lhes pegar: "em qual pego primeiro? Se eu gosto o mesmo e tanto dos dois..." Faço à vez, começo pelo que grita mais alto, ou pelo primeiro que apanho, e quase sempre acabo com os dois ao colo, a atropelarem-se pela minha atenção. Com os "mais velhos" (coitadinhos, tão pequeninos!) de férias, sou puxada daqui e dali, de atenção em atenção, de conversa em conversa, de proeza em proeza, de asneira em asneira... e é tãooooo bom! Se o meu amor chega para todos? Chega para estes e para muitos mais! Mas, pelo sim pelo não, acho que me vou ficar por aqui...
- Afonso, como hoje temos cá a prima Maria, vamos fazer um g'anda programa... ajudas-me?

(olhos de Afonso a brilhar. Alguns minutos depois)

- Ó mãe... mas um programa é... tipo um filme, ou tipo uma série?

(Só tinha pensado num jantar... mas o rapaz faz logo filmes!)



Caiu mais um dente ao meu filho Afonso (caiu, salvo seja, foi arrancado pelo metal assassino de um alicate, no dentista. O pai é que foi com ele, e diz que ele foi um fortalhaço, mas eu bem vi os restos de lágrimas que lhe vinham nos olhos, no regresso... grande herança a que eu lhe deixei, de dentes a nascer por cima uns dos outros), e a fadinha dos dentes voltou a visitar a nossa casa. Não sei por quanto tempo o meu filho vai acreditar (talvez já nem acredite, mas as moedas dão-lhe jeito para comprar Calipos...), por isso decidi investir no embuste. Em vez do simples dentinho debaixo da almofada, desta vez incentivei o meu filho a escrever uma cartinha à fada. Afinal de contas, ele tinha perdido um dente em casa do amigo e não tinha recebido moeda... E, devido ao seu sofrimento no dentista, merecia a duplicação da do prémio. Enfim... ele lá se desenrascou, e até decidiu pôr uns quadradinhos para a fadinha dizer se SIM, se NÃO satisfazia as suas reivindicações.
E claro que a fadinha disse sim. Respondeu e lá deixou 4 euros no saquinho de plástico que o Afonso colocou debaixo da almofada. Mais uns dentes com mais umas quantas reivindicações, e acabam-se as moedas que o pai deixa no cinzeiro da entrada...
Ontem, antes das compras da semana (que cada vez menos duram uma semana. Nem sequer meia... Mais um ou dois anos - quando esta maltinha estiver toda a comer a sério - e compro uma vaca para não ter de carregar mais paletes de leite. E troco a palmeira e o pinheiro por uma macieira e uma pereira, em vez de rosas planto batatas para a sopa. Será que as pescadas e os polvos se reproduziriam na piscina?), levei o Afonso e o Sebastião à Bulhosa, desta vez não para comprar um livro (ok, acabei por trazer 3 :() mas antes uma revista. Freneticamente, busquei a Pais e Filhos de Julho por entre quinhentas outra mil de interesses mil.

(Sebastião) Mãe, podemos ir para o Barco?
(Mãe) Esperem... a mãe tem de encontrar uma revista.
(Afonso) É a revista do Póvoas? (private joke)
(Mãe) Não, queridos. É outra...

Bordados, fotografia, signos, gadgets... e, finalmente, lá estava ela! Com uma menina quase tão linda como a minha Nhocas na capa. Peguei, trinquei (para romper o plástico de oferta) mas não meti na boca. Meti em cima da mesa do café, onde os livros sabem a scones deliciosos e chupas que deliciam os meus filhos.

(Afonso) Estás à procura do quê, mãe?

Uma página, outra, mais outra... e, finalmente, ele lá estava! O artigo da Sónia Morais Santos, a mãe Cocó (coconafralda.blogspot.com, para quem ainda não conhece), com um cheirinho da revista que O Livro da Minha Vida construiu para a celebração do seu 10º aniversário de casamento. Mesmo sem scones nem chupas, deliciei-me a ler o artigo. É tão bom ter clientes assim... Recordei o pouco tempo que me falta para também eu fazer 10 de casada... Os meus 4 filhos. As surpresas do meu marido. Ai, ai... Suspirava eu para um lado, resmungavam os meus filhos por outro.

(Sebastião) Porque é que estamos aqui sentados, mãe? Estamos de castigo?
(Mãe) Não, Titão. A mãe só estava aqui a ler uma coisa.
(Afonso, lendo o título do artigo) A-mu-lher-mais-fe-liz. Foste tu que escreves, mami?
(Mãe) Não, filho. Foi uma senhora que a mamã conhece.
(Afonso) Ó mãe... mas a mulher mais feliz és tu...

E seguiram-se duas horas de carrinho pelo Continente, ora a puxar um, ora a ralhar com outro, o carrinho a encher, a conta bancária a decrescer, o pai a desesperar com os gémeos em casa... e foi tão bom! Não sei das outras, mas eu cá sou bem feliz!
(Afonso):
- Mãe, podes convidar o Diogo Alves para vir cá a casa? É que nós queremos escrever um livro juntos...

Baba, baba, baba... Lembro-me tão bem de ter a idade dele e passar as férias a escrever a colecção das "Amiguinhas" com a minha amiga Filipa...

- Já tenho uma história e ele tem outra. Mas temos de pensar em mais, para fazermos um livro grosso. Se calhar um dia vamos ser escritores...

Se calhar, meu filho. E a mãe vai ficar tão orgulhosaaaaaa...
No carro, à capela:

Mãe:Na nana nananan...
Sebastião:Wakawakauéué
Mãe: Na nana nananana...
Afonso: Istch time for África...


A Shakira não faria melhor. Amanhã começamos a treinar a coreografia...
- Ó mãe, ó mãe... anda ver a minha última criação!

Enquanto eu me secava do banho, o Afonso tinha "criado" qualquer coisa no meu quarto. Entrei e deparo-me com este espectáculo: uma toalha azul em cima da cama, com alguns animais marinhos (bonecada que ele descobriu nos caixotes de brinquedos) espalhados, em cima. Ele estava por baixo dos lençóis, exactamente nessa zona, a ondular o seu corpo suavemente.
- Olha, mãe, olha... criei o mar...

Agora digam-me lá o que é que eu faço com tanta "criação"?
Acabei de receber do pai o seguinte e-mail:

MÃE: VAI JÁ PARA A MESA!
FILHO: Não vou!
MÃE: Tens de ir! Eu estou a mandar!
FILHO: E porque é que tenho de fazer o que tu dizes?
MÃE: Está no Código Civil Português, ARTIGO 128º.

(ARTIGO 128º – Dever de obediência)
Em tudo o quanto não seja ilícito ou imoral, devem os menores não emancipados obedecer a seus pais ou tutor e cumprir os seus preceitos.

Cá em casa o pai fala e os filhos obedecem. Só a mãe é que parece que vai ter que invocar a Constituição...
Depois de pôr os 4 na cama, enfiei-me no duche para o meu merecido banho. Água a escaldar sobre a pele, sossego, a cabeça a desfiar as trivialidades do dia, para depois analisar o que é mais profundo... Gasto muita água, mas funciona. Limpo o dia e, se ainda tenho que trabalhar (como era o caso), vou para o computador renovada.
- Mami...
O Afonso entrou em pezinhos de lã, com aquela cara de Calimero irresistível...
- Afonso, vai para a cama! O que é que estás aqui a fazer?
- Não consigo dormir. Por causa daquele assunto... Aquilo que tu sabes, mami...
O assunto tabu é a morte. De vez em quando volta, aterrorizadora, de foice na mão, para ceifar os bons sonhos do meu filho mais velho (felizmente, só dele, se bem que os bebés ainda não manifestam os seus terrores nocturnos).
A água estava a saber-me tão bem, ainda não tinha terminado a revisão de vida, mas o assunto impunha que o banho se desse por terminado. Desliguei a água e saí para me secar, enquanto o meu filho se acomodava na sanita.
- A morte dói, mami?
- Não, filho. E tu não devias estar a pensar sobre isso, é muito tarde.
- Mas como é que tu sabes que não dói? Nunca morreste...
Dah! Afonso 1, Mami 0
- E se fosses buscar um livro e lesses um bocadinho, para te distraíres?
- É isso que tu fazes quando pensas na morte?
Novo murro no estômago. Afonso 2, Mami 0. Sim, é verdade. Um bom livro é sempre uma excelente terapia para os meus terrores nocturnos.
- Sabes do que é que eu tenho medo, mami? De morrer e ir para um lugar onde não há ninguém. Depois eu fico lá sozinho e tenho medo...
Abraço. Abraço com muita força, já sequinha!
- Oh, filhote! Tu não vais ficar sozinho. Nunca. A mamã nunca te vai deixar. Não falámos já que as estrelinhas, mesmo estando longe, estão sempre a olhar por nós?
- Sabes o que é que eu queria, mami? Depois de morrer, queria voltar a nascer. E começar tudo outra vez...
Novo abraço. A teoria da reencarnação é um excelente bálsamo para o meu filho. Quem sou eu para opiniar sobre ela?
- Há pessoas que acreditam nisso, Afonso...
- E tu, mami?
- A mamã não sabe... Nunca morreu!
Foi folhear o Ratatui e depois adormeceu. Já eu... bem, no mínimo, fiquei capaz de outro banho!
(Mãe de volta do Afonso em hora de trabalho de casa)
- Afonso, tens de desenhar um chapelinho no "A" da "Lâmpada".
- Qual "A"?
- Chama lá pela lâmpada no cimo do monte.
- Ó Lâaaaaaaaampada! Ah, já sei, é no primeiro "A".
(mãe foi apanhar o Duarte que já estava a entalar os dedos nas gavetas da cozinha, aproveitou e ralhou com o Sebastião que já tinha trepado ao armário para roubar bolachas do Ruca e lá ficou a Leonor a chorar, de bracinho no ar, porque eu passei por ela e não lhe dei colinho. Inventem-se mães com nove braços e pelo menos três cabeças, por favor!)
- Afonso do Ó, que macaco é este em cima da "Lâmpada"?
- É uma cartola, mami.
(cara indescritível da mãe)
- O que foi, mami? Tu é que disseste para eu desenhar um chapelinho no "A"...

E foi mais um animado fim de tarde na casa dos Dias...
Ontem o Afonso foi para Fátima com os tios, participar no encontro Marista. O meu beato-mor lá foi todo animado, de lenço amarelo e vontade de fazer boa figura no palco ("Vou ter que ir a todos os encontros maristas, mami. Ñunca posso faltar!" - disse-me há dias). O pai, receoso da confusão, teve uma boa ideia e resolveu ensinar-lhe o seu número de telefone.
Hoje, em pleno casamento da minha afilhada Isabelinha (se leres isto, estavas liiiinda! Muitas felicidades!), o pai recebe um telefonema de casa.
- Estou, papi. Onde é que vocês estão? Já cheguei a casa.
O pai olhou para mim, admirado.
- Foi a Mila que ligou?
- Não, ela está com os bebés. Fui eu que liguei para vos dizer para virem para casa, que eu já cá estou.
Tinha decorado o número, e resolveu ligar. Qualquer dia está a pedir-nos um telemóvel... Tão crescido que ele está...
A Leonor está quase a andar. Quase, quase a andar... agarra os seus dedinhos nas minhas mãos, concentra-se e aí vai ela um passo atrás do outro, para chegar até onde eu a leve. Já a vou soltando de vez em quando, e ela anda com a barriguita dela para a frente e para trás, em busca do seu equilíbrio. Muito concentradinha. Muito menina. E quando a volto a sentar ela bate palminhas. Palminhas a si própria. G'anda Nhonhocas!
E o Duarte... bem, o Duarte continua a percorrer a casa como um perfeito Ranger. De peito no chão, esfrega o chão da cozinha em busca de gavetas para abrir (e para entalar os dedos), colheres de pau para bater (inclusive na própria cabeça), e tomadas para escarafunchar (e, qualquer dia, apanhar um choque daqueles...). Adoro rapazes! São os meninos das mamãs. Eles adoram-nos incondicionalmente, sorriem-nos sempre, somos as mulheres da vida deles (pelo menos até encontrarem as deles) e tudo neles é tão "carnal", tão abrutalhadamente verdadeiro! Mas não há dúvida... as meninas são um mundo à parte. A LEonor só se ri para quem quer, quando quer, só faz gracinhas quando quer e já sabe fazer charminho ao pai. Vai saber dar-lhe a volta com uma pinta! Comigo ainda está na fase da ligação umbilical, mas se ralho com ela faz imediatamente cara de zangada e faz beicinho. E ai de mim que tente tirar-lhe ou pôr-lhe a chucha quando ela quer o contrário! Tão deliciosamente teimosa, a saber tão bem o que quer. E olha-a nos olhos e só imagino o dia em que ela me vai fazer frente e vamos ter o nosso primeiro "arrufo de galinhas". De mulher para mulher, de teimosa para teimosa, com um único galo a manter a paz no galinheiro, teremos os nossos tempos difíceis. Mas teremos também tantas outras coisas boas pelo meio... e um dia ela também vai pôr os seus ovos e eu cá espero estar, galinha velha e dura de coser, a olhar pelos pintos dela... Mas pronto, por enquanto vou deliciar-me com os ganchinhos cor-de-rosa e os vestidinhos lindos que ela vai usar este verão. Com as palminhas, com as gracinhas, com a esperteza. Tudo o resto é aguardar com serenidade, aceitando e saboreando as leis da vida.
Era uma vez uma criança que acreditava poder, com o seu dedo, pintar o mundo. Encheu-o de cor e desenhou o sol. Mas, no seu coração de criança, sabia que nem todos os dias podem ser solarengos. Nem sempre temos o que queremos. Nem sempre fazemos o que gostaríamos. Nem sempre os outros são nossos amigos. Nem sempre os adultos sorriem. Por isso pintou a chuva. Com o seu dedo pequenino, salpicou o mundo de pequenas gotas de azul. E ficou triste: “Porque é que às vezes tem de chover?” – perguntou-se. Fechou-se no seu quarto e esqueceu o mundo por um bocadinho. Até que a mãe o foi chamar. “Não quero sair”, disse ele. Mas a mãe insistiu: “Aconteceu alguma coisa ao teu mundo…”. A criança, curiosa, saiu então do quarto e foi espreitar o mundo que desenhara. A chuva molhou a terra e dela brotaram lindas flores. E, no céu, do abraço entre o sol e a chuva, nasceu um lindo arco-íris. E a criança sorriu. Era pequena demais para perceber o mundo que desenhara, mas uma coisa ela entendera: ainda que o sol não possa espreitar sempre, da chuva nasce a esperança. Há sempre lugar para a alegria…
Sempre que vou buscar os meus filhos à escola, apanho primeiro o Sebastião e depois juntos fazemos, invariavelmente, uma corrida até ao edifício onde está o Afonso. É o meu momento de exercício - e 1 minuto diário de corrida já não é nada mau! - mas às vezes os sapatos não ajudam. Sapatos bicudos, saltos, tacões... só quando chego à linha marcada para começar a corrida é que olho para os pés e arrependo-me de um dia inteiro de trabalho nuns sapatos tão pouco dados à maternidade. O Sebastião acha piada, porque é a forma de me ganhar a corrida, mas hoje fartou-se e saiu-se com esta:
- Ó mãe, a ver se quando me vens buscar trazes aqueles sapatos brancos e verdes que tens no quarto... aqueles que têm um risquinho com uma curvinha em cima... (leia-se ténis da Nike) para me ganhares de vez em quando...
Amanhã, quando sair de manhã, ponho logo os ténis no carro...
(Sebastião analisador)
- Ó mãe, tens aqui umas coisas ao pé dos olhos...
(Mãe frustrada)
- São rugas, filho.
(Afonso consolador)
- Não são nada, mãe. São risquinhos. Eu gosto...

Digam lá que eles não são a melhor coisa do mundo?
Hoje percebi que o meu filho mais velho, já a caminho dos 7 anos, ainda não sabe ao certo que profissão têm os pais. É verdade que a mãe faz muita coisa... e que o pai muda muitas vezes de profissão. Mas nunca o imaginei tão baralhado.
- A professora é que perguntou o que tu fazias, e eu disse que não sabia bem... mas que escrevias ou desenhavas, não sei...
Expliquei que só escrevia. Desenhar, tem dias, mas prefiro delegar a tarefa a quem tem mais jeito do que eu.
- Mas escreves o quê?
Ai, filho! Tanta coisa... Nem sei por onde começar... E o mais curioso é que, pelo menos 2 a 3 vezes por semana, explico nas escolas o que faço, quando vou promover os meus livros e os miúdos me fazem esta mesma pergunta: O que é que escreves? Mas será possível que eu ainda nunca tenha elucidado do meu filho? Como é que ainda nunca me dei ao trabalho de lhe explicar?
- E o pai, filho? Sabes o que é que o pai faz?
- Sim, mami. Essa é fácil. É fotógrafo.
Claro! É a única coisa que ele vê o pai a fazer...
- Ó pai... vai lá tirar umas fotos aos miúdos, que eles hoje estão giros de igual...
E vá de sessão fotográfica o fim-de-semana inteiro. O pai bem queria ser fotógrafo a tempo inteiro, mas digamos que tem muitas contas para pagar... Será que o meu filho vai entender esta parte? Bem... eu também tentei explicar-lhe, mas acho que não tive muito sucesso.
- Sabes que as pessoas podem ter mais do que uma profissão. A mãe, por exemplo, escreve livros mas também escreve guiões, é guionista.
Trocou-me por uma publicidade na televisão, mas depois acabou por me dizer.
- Ó mãe... quando eu for grande também quero ter duas profissão.
Babei... Finalmente o meu filho ia querer ser outra coisa para além de futebolista! Olhei para ele, ansiosa, mas a resposta não podia ser mais desconcertante.
- Quando for grande quero ser pato e galinha. Vou já começar a treinar...
E saiu da mesa, alegremente, a fazer Quáquá Boc Boc, Quá Quá Boc Boc...
E assim andam as aspirações das novas gerações...
Hoje passei o dia cheia de comichões na cabeça. Uma comichão numa reunião, outra comichão na outra, comichão ao computador... "Irritação no couro cabeludo", pensei. "Malditos champôs de supermercado". Só quando o Afonso chegou da escola a coçar-se, é que se fez luz na minha cabeça, que percebi então estar - e vou usar a palavra mais deprimente que conheço - piolhosa! Fui a correr inspeccionar a cabeça do Afonso, qual mãe macaca, e o primeiro teimoso, pequenino mas com as suas patinhas minúsculas a querer segurar um fio de cabelo do meu filho, lá estava. Um piolho. Pânico! Ainda tinha o champô que tinha usado há uns tempos, preventivamente, numa altura de infestação no colégio, e fui encher a cabeça dele de espuma. "Hão-de morrer, safados!". Tirei-lhe quatro. A seguir enchi a minha cabeça de champô e estive também de volta do pente uma porção de tempo. Mais dois. Somos uma família de piolhosos! Credo! O pai já disse que não dorme comigo (depois não venha pedir-me para eu lhe catar os piolhos, se eles também lhe chegarem à cabeça...), e amanhã será dia de inspecção pela cabeça dos outros três piolhos, que vão ficar de quarentena. E eu? Faço quarentena também, ou vou alegremente espalhar piolhos em mais umas reuniões de trabalho?
O Afonso voltou a recriar a Bíblia. Até chamei o pai para ele ouvir. É que há coisas que, contadas, ninguém acredita. Então a versão de hoje era assim:

O Afonso tinha nascido antes de Deus. Não foi criado por ninguém. Apareceu... puff! E teve três filhos: o Sebastião, que passava o dia a dançar o Tangas (dança inventada por ele), o Duarte, que era o cozinheiro dele, e a Leonor, que era a sua empregada. O Sebastião teve dois filhos: Maria e Deus.
Um dia, apareceu uma sanita voadora e o Afonso fez xixi e cocó. Do seu cocó nasceu o planeta Terra. Sempre que voltava a fazer xixi, chovia na Terra. Depois apareceram os dinossauros e mataram-no. Mas, no dia do meu casamento com o pai, ele resolveu ressuscitar e tornou-se nosso filho.

Enfim... palavras para quê?
Os meus gémeos estão de comer! Com dez mesinhos acabados de fazer, já correm a casa toda nos voadores, chamam "mama" e "papa", a Leonor já usa ganchinho e cada um deles tem dois dentinhos de amostra. Uma ternura! O Duarte é rapazola: mexido, esguio, inquieto. A Leonor é meninha: sossegada, observadora, deixa cortar as unhas e consegue ficar sentadinha a brincar (o irmão atira-se logo para o lado para ir apanhar qualquer coisa). Àparte as diferenças que poderia atribuir aos géneros, são diferentes em quase tudo o resto. O Duarte adormece às 8 e meia da noite e acorda às 8 da manhã. A Leonor adormece às dez e acorda às seis da manhã, altura em que vai fazer companhia ao pai, que é igualmente madrugador. O Duarte gosta de chuchas de silicone. A Leonor de chuchas de borracha. O Duarte gosta dos bicos das tetinas com furos maiores. A Leonor gosta daqueles com furos pequenos. O Duarte ri-se para toda a gente. A Leonor só se ri depois de algum tempo a ganhar-lhe a confiança. O Duarte tem medo de barulhos (varinha mágica e 1, 2, 3). A Leonor fica impávida e serena quando os ouve.
Poderia continuar o role das diferenças, que me leva a perguntar como é que dois seres que passaram nove meses na mesma barriga e são criados da mesma forma pelos pais, podem ser tão diferentes. É a prova provada que, desde pequenos, eles são o que os pais fazem deles, mas também muito aquilo que já são. Que sempre foram. Herdado, muitas vezes, mas combinado de forma a ser único e irrepetível. É, sem dúvida, o milagre da vida.
Ontem resolvi oferecer um diário ao Afonso. Com cadeado e chave, à moda antiga. Fui mostrar-lhe os meus diários e expliquei-lhe que aquilo que eu escrevia não era lido por ninguém. Ou melhor, supostamente, porque a avó Antónia volta e meia quebrava as regras e lá ia espreitar os meus escritos, a tal ponto que cheguei a deixar-lhe recados no próprio diário: "Não leias mais" ou "Se acabaste de ler, peço-te que não voltes a fazê-lo", etc. Enfim, coisas da adolescência. Acontece que o Afonso não é nenhum adolescente. Tem uns míseros seis anos, e anda ainda na descoberta das letras. Mas achei que o facto de ter algo secreto onde pudesse escrever, o aliciaria para a escrita. E a verdade é que funcionou. Hoje de manhã, assim que lhe entreguei o diário e lhe expliquei as regras, fechou-se no quarto e foi escrever a sua primeira frase. O problema foi depois:
- Já acabaste, Afonso? Posso ler?
- Claro que não, mãe! É secreto.
- Ó filho, mas tu só tens seis anos. Não podes ter segredos para a mãe.
- Um diário é privado. Não pode ser lido nem pelos pais.
Para evitar espreitadelas da mãe - semelhantes às da avó Antónia - hoje passou o dia com a chave ao pescoço, dentro de um saco da Kidzania. Lá ia fazendo "pirrassa" e saracoteando-se à nossa frente com o seu diário, e eu e o Sebastião passámos o dia a tentar ler a maldita frase que ele lá tinha escrito. O Sebastião foi menos discreto e conseguiu rapinar-lhe por duas vezes o diário. À primeira foi apanhado pelo irmão e acabou a chorar. À segunda foi apanhado por mim, na casa de banho, a tentar forçar o diário trancado que me tinha custado 15 euros, e acabou a ouvir um raspanete: "Não ouviste o teu irmão? Um diário é secreto!". Mas depois de tudo deitado e o pai também já a dormir, quem não se aguentou fui eu! O dário estava à mão de semear, o saco com a chave também e eu, na calada da noite, acabei por invadir a privacidade do meu filho logo no primeiro dia do seu diário secreto. Que péssima mãe! Pior fiquei ainda quando abri o diário, a roer-me de curiosidade, e li a seguinte frase:

A MAMÃ É BONITA

Mas foi tão feia...
Os meus filhos não gostam da sopa da Mila. A Mila é a senhora ucrianiana que neste momento é o meu braço direito, e o esquerdo, e o pé direito e o pé esquerdo, pelo menos. Cheia de boa-vontade, aventurou-se a fazer sopa à portuguesa, mas o Afonso e o Sebastião descobrem sempre nela um travo a ucraniano. Como não tenho tempo nem paciência para passar a ser eu a fazer a sopa, nem sequer para estar a inspeccionar a sua confecção, optei por pensar em formas de pôr os meus filhos a comê-la sem refilar.
Fórmula número 1: jogo da careta - ver quem faz a careta mais feia depois de comer cada colherada de sopa
Fórmula número 2: jogo dos nomes - dar nomes às colheres. Colher do Ó, Colher Afonso, Colher Sebastião 4 B, etc, etc.
Fórmula número 3: jogo das palavras mágicas - a boca só se abre para receber cada colherada se forem ditas palavras mágicas a rimar com o número. Colher número um - Abracabrum. Colher número dois - Milhararipois, etc.
...
Isto terá de ser infinito, porque com as crianças as fórmulas são sempre descartáveis. Funcionam uma única vez e nenhuma vez mais. Mas enfim... há aspectos positivos: obriga as mães a puxarem pela sua criatividade.

(Resta dizer que a fórmula do pai é um bocadinho mais simples. Diz "Comam a sopa" e eles comem. Porque será?)
Afonso no seu melhor:

- Ó mãe... sabes que lá na escola ninguém pode fazer xixi numa sanita que lá está. Quem fizer fica gay...
(respiro fundo. Mais cedo ou mais tarde teria de explicar a homossexualidade aos meus filhos. Tinha chegado o momento)
- Tu sabes o que é ser gay, Afonso?
- Não... mas estive a pensar e acho que deve ter a ver com Gay(me) Over...

Ri-me tanto que já não lhe consegui explicar coisa nenhuma...
Costumo dizer que o Afonso é o filósofo dos meus filhos, mas o Sebastião volta e meia também se sai com umas que parecem duas ou três:

- Ó mãe, se as pessoas não tiverem água, elas morrem?
- Sim, filho.
- Ó mãe, se as pessoas não tiverem comida, elas morrem?
- Sim, filho.
(pausa)
- Ó mãe, se as pessoas não tiverem nada, elas ficam tristes?
- Nada... nada de quê, filho?
- Nada de nada.
- Sim, filho, ficam tristes.
- Pois é... não morrem mas ficam tristes.
- Então ainda bem que nós temos tudo, Sebastião. Tudo de tudo.
- Pois é... ufa!

(sorriso na cara e mais um bocadinho de pão com queijo)
Hoje, depois de mais uma guerra diária para meter tudo na cama por volta das 21h, comigo já a arrancar cabelos, o Afonso lamuriou-se como um verdadeiro "Calimero":
- Não é justo! Porque é que és sempre tu a mandar? Nunca posso ser eu... Não é justo.
Respirei fundo e resolvi inverter as regras do jogo, para não terminar a noite zangada com ele:
- Muito bem. Então agora mandas tu. O que é que queres que eu faça?
- A sério, mamã? - os olhos dele até brilhavam.
- Mas rápido antes que a mãe se arrependa...
- Quero que... me deixes dar-te um beijinho.
Aproximei a cara e recebi um beijo delicioso.
- E mais, Afonso?
- Quero que... que... que...
Não lhe saía nada.
- Então, filho?
- Quero que... nunca mais me deixes mandar em ti...

Abraço e uma noite feliz. Rápido e sem mais lamúrias. Amanhã terei de inventar outra estratégia semelhança...
Hoje, no caminho de regresso a casa, contei a seguinte história aos meus filhos:

Era uma vez um ovo de gaivota que rolou para uma capoeira de galinhas. E assim que ela nasceu, olhou à sua volta e só viu galinhas. Ela, achando que era uma delas, cresceu a imitá-las, mas sempre se sentiu diferente e algo desajeitada. Certo dia, a gaivota olhou para o céu e viu gaivotas a voar. Ficou tão maravilhada que perguntou a outra galinha o que era aquilo. A galinha respondeu-lhe que era uma gaivota. A gaivota ficou fascinada com o que vira e insistiu com a galinha. Perguntou-lhe porque é que elas não voavam ou planavam como as gaivotas. A galinha respondeu-lhe que o lugar delas era na capoeira, a comer milho, e explicou-lhe a diferença entre as galinhas e as gaivotas. A gaivota ficou triste porque, afinal, ela preferia ser como aquela gaivota que voava, sem saber que ela também era uma delas.

(“Canja de Galinha para a Alma”)

- E então, meninos? O que é que vocês acham? Que são galinhas ou são gaivotas?

(resposta do Sebastião):

– Eu acho que sou um menino.

(Dah! A mãe faz sempre perguntas tão idiotas!)

- E tu, Afonso?

- Eu acho que TU és uma gaivota.

(silêncio da mãe)

- Porquê, Afonso?

- Se me estás a contar essa história, é porque queres ser uma gaivota. Queres deitar-nos na cama e sair pela janela a voar…

(novo silÊncio da mãe)

- Se calhar eu até já voo, Afonso. Sabes que há muitas maneiras de voar...

- Então por isso é que andas tão cansada. Pões-te a voar e não dormes…

A conversa ficou por ali, mas levou-me a perguntar-me a mim mesma se os filhos não precisarão mais de uma mãe galinha do que uma mãe gaivota. Não cheguei a perguntá-lo ao Afonso, mas depois imaginei a resposta dele e sosseguei:

- Afonso, os filhos precisam mais de uma mãe galinha ou de uma mãe gaivota?

- Depende, mãe.

- Depende do quê?

- De o filho ser um pinto ou uma gaivota-bebé...
O Afonso adora imaginar presentes! Faz desenhos, prepara envelopes, escreve nomes... Mas quando chegou o aniversário do pai ficou sem saber o que fazer.

- Afonso, tens de fazer um presente para o pai. Ele está triste, ainda não lhe deste nada... Vê lá se tens uma boa ideia...
- Já sei, mãe. Vou-te meter dentro de um envelope e oferecer-lhe... acho que ele vai ficar contente...

(acabou por oferecer-lhe um desenho com o emblema do Porto... Era um bocadinho mais "portátil")
O Afonso chamou-me, pouco tempo depois de ter ido para a cama. Que lhe doía a barriga, contou. Estava mal-disposto, mas depois acabou por dizer que estava a ter um pesadelo. Mas era um daqueles pesadelos de olhos abertos. Acalmei-o, dei-lhe aquelas dicas para matar os pesadelos (quando ele vier, pensas em bolachas D'oreo, no Monopólio e nos Backugan), e quando já estava de saída ele chamou-me e perguntou-me, com a sua vozinha mais triste:
- Ó mãe, quando morrermos podemos voltar a existir?
Expliquei-lhe que algumas pessoas acreditam nas reencarnações (alivia mais o meu filho do que a história do "Céu", porque o Céu é longe e nunca ninguém o viu. Reencarnações sempre diz que voltamos à terra, que todos conhecemos e é, mesmo com tudo o que tem de mau, um lugar maravilhoso), mas que eu não sabia o que havia depois de morrermos, só sabia que devíamos aproveitar muito bem enquanto cá estamos. Uma resposta complexa, mas a pergunta também não o era menos!
- Ó mãe - continuou ele - podemos pedir a um cientista para inventar uma maneira de nunca morrermos?
- Podemos, filho, claro. Até podes vir a ser tu esse cientista.
- (sorriso) Não. Eu não consigo. Tem de ser um cientista a sério. Conheces algum, mãe?
- Conheço a tia Ana. Ela é cientista. E está a estudar as doenças.
- Eu sei. Como a gripe A.
- Queres que a mãe fale com ela?
O Afonso anuiu e voltou a deitar-se sem dores de barriga e má disposição. De tempos a tempos, o pesadelo regressa. Só espero viver muitos anos para poder continuar a dizer-lhe o que ele precisa de ouvir, e dormir descansado. Ainda que, depois de acalmar os pesadelos dele, tenha de sossegar os meus...
(Afonso)
- Mãe, se eu sou um puto tu és uma gaiata... (vá lá, podia sair qualquer coisa pior!)

(Sebastião imediatamente, para não se ficar atrás)
- Mãe, se eu sou lindo tu és... uma lenda!
(Afonso e Sebastião no banho)
- Sebastião, depois vamos brincar aos super-heróis? Eu sou o meia-meia (para quem não sabe, super-herói que é metade pessoa, metade fantasma)
- Boa! Então eu sou o cueca-cueca!
A pequenada gosta de acordar e vir ocupar o lugar que o madrugador do pai deixou vago, na cama. Ainda quentinho, é mesmo apetitoso, e eu aninho-os junto a mim, para os aquecer ainda mais (e eles também me aquecem a mim!). Hoje resolvi fazer com eles um comboio. Todos viradinhos para um lado e encaixadinhos uns nos outros. "Vá, xiu... Agora dormir", disse baixinho. Passado alguns minutos, o Sebastião sai-se com esta: "Ó mãe, mas podemos dormir nos comboios?"
O meu filho Afonso, este ano, começou a duvidar que o Pai Natal existisse ("Eu acho que são os pais que dão os brinquedos. Mas eu não digo nada ao Sebastião, mãe"). Nunca me desmanchei. Como nunca lhe minto, disse-lhe apenas que nunca tinha conseguido ver o Pai Natal, mas que todos dizem que existe, por isso deve ser verdade. E ele, já na véspera de Natal, resolveu fazer a sua carta ao Pai Natal (o irmão já tinha feito há mais tempo). Desenhou uma pista do Faísca McQueen e um dinossauro. Lá tive de me ir enfiar no Oeiras Parque no dia 24, para ir à procura de alguma coisa que não deixasse o Pai Natal com fama de não satisfazer os sonhos dos meninos. Descobri um jogo do National Geographic que ensinava coisas sobre dinossauros e incluía um pequenino. Comprei aquilo e, dia 25 de manhã, relembrei os meus filhos que o Pai Natal costuma passar na nossa casa e deixar uns brinquedos na lareira. Foram a correr e os brinquedos lá estavam. Ficaram extasiados. O Sebastião tinha um boneco do Star wars, como ele queria, e ainda incluí uma Leopoldina (diz que quer ser a Leopoldina. Já lhe expliquei que o boneco tem maminhas e é menina, mas ele ainda não está muito convencido e garante a pés juntos que ela é um menino). Para o Afonso havia o tal dinossauro. Ficou contente, brincou com o jogo uma porção de tempo, mas no almoço em casa da avó ouvi-o contar à minha mãe: "Eu pedi um dinossauro interactivo. Mas o Pai Natal já é muito velhinho. Não deve ter percebido bem..."

PS - Outra fabulosa: o Afonso recebe a dada altura, de uma prima velhota, umas meias às riscas, e grita todo contente: "Boa, era isto mesmo que eu queria! Umas meias de preso!" Há dois dias que não as larga e até já me pediu para escrever uma história sobre elas...
(9.30 da noite. Afonso com vontade de muita conversa e pouca dormida)
- Afonso, deita-te lá, filho, que a mãe ainda tem de ir trabalhar...
- A esta hora, mãe? Porquê?
- Porque sim, filho. A mãe tem um trabalho para acabar.
- Liga à velhota e diz-lhe que precisas de dormir...
(mãe com cara de estúpida)
- Quem é a velhota, Afonso?
- A tua professora. Já deve ser tão velhota...


(7.30 da manhã do dia seguinte. Mãe ainda ao computador, de directa em cima)
- Então, mãe? Não te deitaste?
- Não, filho.
- Devias ter ligado à velhota, como eu te disse...




E UM BOM NATAL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
- Afonso, sabes quem é que te vai levar amanhã à escola? A mamã!
- Ah, boa! Mas olha... é melhor fazeres um cartaz e colares no frigorífico, para não te esqueceres...

Vou processar o Centrum e o Cerebrum Forte, que não andam a fazer o seu trabalho em condições! Não é possível que eu não ande a dar conta do recado com tão pouca coisa que tenha para fazer por dia. Aqui vai a lista para amanhã de manhã:

* Preparar as mochilas e os lanches da escola do Afonso e do Sebastião com os respectivos sacos das actividades
* Preparar as lembranças do Natal para a escola
* Preparar os papéis das fotografias e os papéis da matrícula na nova escola do Sebastião
* Comprar as Prevenares e levar os gémeos à vacina
* Comprar mais fruta e mais carne e mais pão
* Dar o Zentel e comprar mais flúor e Vigantol
* Comprar mais fraldas e mais leite
* Fazer a lista de Natal para começar de uma vez por todas a comprar os presentes (é dia 17!!!)

Tenho outra lista ainda maior de burocracias pessoais e familiares para tratar. E outra dez vezes maior de trabalho para fazer. Alguém sabe de algumas vitaminas que resistam a quatro filhos e três empregos?


PS - Os meus gémeos já têm 7 meses!!!!! Estão naquela fase em que dá vontade de os comer!
Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, acabaria por escrever um post com este título...
É oficial. O meu Sebastião teve gripe A (e digo "teve" porque hoje já não tem febre) e o duartinho bebé também é provável que tenha, porque começou hoje com febre. Estamos todos de quarentena em casa e passo o dia atrás dos meus filhos com os "vai lavar as mãos", "não mexas no mano"... Como se valesse de alguma coisa...
Hoje, antes da história da noite, o Afonso (que a partilharia com os engripados Sebastião e Duarte) resolveu tomar medidas de protecção. Calçou umas luvas e apareceu no quarto de mãos no ar: "Pronto, já estou protegido contra a gripeA..."
O meu Afonso está tão assustadoramente crescido! Aqui vão as últimas:

- Ó mãe, a mochila da escola agora usa-se só num ombro...

- Ó mãe, eu já sei que o Pai Natal não existe. São os pais que dão os brinquedos. Mas fica descansada que eu não vou dizer nada ao Sebastião...

- Ó mãe, eu não gosto quando tu e o pai discutem. É que fico a achar que vocês se vão separar, e depois eu tenho de ir para cada da mãe e depois para casa do pai. Os pais do Vasco separaram-se e ele não gosta nada...

- Ó mãe, porque é que eu tenho um saquinho na pilinha?
- São sementinhas, filho. Um dia vais dar essas sementinhas à mulher que mais gostares e vocês vão ter um bebé.
- E como é que eu lhe dou as minhas sementinhas?

(bem... esta parte já não respondi. Crescido, mas nem tanto!)
(Afonso, acabadinho de fazer 6 anos e já no 1º ciclo):

- Mãe, quantos anos tens?
- (resposta da mãe, que não faz revelações destas em público)
- Xiiii! E já vais a aprender que letra? Para aí o "x", não?

(Sebastião, depois de ouvir a nossa empregada chamar-me "doutora"):

- Ó mãe, a Elza chamou-te "doutora".
- Pois foi, filho. Um disparate. A mamã não é médica, pois não?
- Não. A mamã é... mamã.

(os gémeos já comem sopa com carne e fruta e andam aflitos com os dentes. Crescem tãooooo depressa!)
(Afonso no regresso da escola)

- Ó mãe, o António Rebelo é das equipas de Maria.
- O teu primo Zé Maria também é, Afonso. Os pais também pertencem às equipas de Maria.
- Mas o primo não liga muito à Maria. Gosta mais de PSP.
(risos contidos da mãe)
- E tu, Afonso? Ligas a Maria?
- (com vergonha) Não... Ligo mais aos Gormittis...

(Afonso em casa, retoma o assunto)

- Ó pai, sabes que o António e o Zé Maria são das equipas de Maria.
- Mas tu continuas do Porto, ou não?

(assunto arrematado)
(Mamã em casa com o Sebastião, a ver o Portugal-Hungria, que o pai e o Afonso assistiam no estádio):

- Ó mamã, não estou a ver o papá...
- Eu também não...

(algum tempo depois, já chateado)

- Ó mãe, o pai está a jogar com os vermelhos ou com os brancos?

:):)
(Afonso, quase 6 anos e já na Primária - "Não é Primária, mamã, é 1º ciclo!")

- Mãe, vou deixar de te chamar "Mamã" e "Papá" ao papá. Há lá uns meninos na escola que gozam comigo...

(qualquer dia já não me deixa levá-lo pela mão nem dar-lhe um beijinho :( )

(Sebastião, 4 anos acabados de fazer - a minha idade de eleição!)

- Ó mãe, a mana tem Umbigo ou Umbiga?

(a afastar-se de mim)
- Ó mãe, estás cada vez mais pequenina...
(já muito longe)
- Ó mãeeeeeeee.... já não te vejo! Derreteste?

(Duarte e Leonor, a uma semana dos 5 meses, já com papas, sopa e fruta pelo meio)

- Uáaa, RRRRrrrr, Iiiiiiiii...
A vida continua a um ritmo alucinante. Entre os meus vários trabalhos e os vários trabalhos que os filhos dão, sinto-me com número de tempo de serviço suficiente para pedir a reforma...
Mas vamos às novidades:

O Afonso começou a primária. É um despaçarado de primeira. Num dia perde o chapéu, no outro o estojo, no outro a roupa... Não se orienta com os toques, nem com as actividades... Foi uma mudança muito grande, num colégio muito grande, e conta a professora que à tarde ele quase adormece na carteira, e diz com aquele ar sofrido que só ele sabe fazer (qual Calimero, de casca de ovo na cabeça): «Até me dói a mão de segurar no lápis...». Zango-me um bocadinho com ele por causa da sua cabeça de vento, mas também vejo que ele anda muito interessado, quer muito aprender, e todos os dias conta histórias de "menino crescido".
- Ó mãe, os meninos do 3º ano são mesmo grandes e maus. No outro dia o Zé Maria (primo) pisou sem querer uma menina do 3º ano e ela roubou-lhe a bola e foi-se esconder na casa de banho das meninas...
- Amanhã tenho de levar dinheiro, porque na escola há uma loja onde nós entregamos moedas e a auxxxxxxiliar (ele ainda fala"à lá de xima") diz o que é que podemos comprar com aquilo. Já viste a nossa sorte?

O Sebastião continua a tentar gerir a sua nova condição de irmão do meio. Começou a falar à bebé, voltou a fazer xixi na cama... mas se está com o Afonso diz que já sabe ler e que um dia vai ser o irmão mais velho. É difícil para nós, pais - para mais nesta altura de confusão - encararmos as suas conquistas como se fosse a primeira vez que assistimos a elas, mas faz-lhe falta. Assim como lhe faz falta momentos a sós connosco, onde possamos individualizar a nossa relação e dar-lhe a atenção "personalizada" que sinto que ele precisa neste momento. Continua a querer ser "médico das grávidas", e é sempre ele o meu ajudante nos banhos dos bebés. Observa tudo com muita atenção, e as suas observações são de chorar a rir:
- Ó mãe, a mana tem o pipi ligado ao rabo...
- Porque é que a pilinha do mano tem um saquinho?

Os gémeos estão de morder! A Leonor continua maior (percentil 70) e o Duarte mais franzino (percentil 25), mas riem-se a toda a hora e já começam a brincar. Também começaram a comer papinha, e vejo-os crescer todos os dias a uma velocidade alucinante.
Lisboa. 30 graus à sombra. 3 reuniões marcadas por mim à hora do almoço para rentabilizar a viagem e poder voltar para junto dos bebés. Mas há ainda os outros dois, o pai não pôde ficar com eles, a empregada não fica com os 4, e acabei por deixar o mais velho até o pai chegar, e levar o do meio às reuniões. Passei pela vergonha de "Desculpem... sabem como é Agosto... Mas eu trouxe livros para ele pintar, não nos vai incomodar". Mas descontraí e assumi o papel de mãe-canguru. Se quero ter muitos filhos e continuar a trabalhar muito não posso stressar com estes contratempos. 1ª reunião: portou-se bem. 2ª reunião: portou-se lindamente. 3ª reunião: passou-se! Coitado... com toda a razão. Eram 3 da tarde e eu estava a prometer-lhe desde o meio-dia que ia levá-lo ao parque e comprar-lhe um presente se ele se portasse bem. :( Tive de lhe comprar um presente na mesma, apesar de ele ter colado uma mão à outra com uma pastilha, esfarelado um bolo para dentro do chapéu e pedido 300 vezes, em bom som, para ir fazer cocó (e eu claro que o levei ao wc. E ele claro que não fez cocó nenhum).

Enfim, no regresso respirei fundo. Ele ia palrando coisas no banco de trás e eu confesso que nem o estava a ouvir. Até que ele se saiu com uma das suas pérolas de 3 anos:

- Ó Mãe, os gigantes arrancam árvores?
- Sim, filho. Têm muita força.
- Pois é... E eles comem o quê?
- Comem as árvores que arrancam, filho.
- E também comem candeeiros?
- Não, filho. Os candeeiros são para palitar os dedos.
- Ah... pois é! E eles são mesmo grandes, não são, mamã?
- São, filho.
- Acho que até são maiores que o papá...

Esqueci as reuniões, esqueci a pastilha, os cocós, o calor e a pilha de telefonemas que teria que fazer quando chegasse a casa. Só por aquela conversa tão fora de tudo, já tinha valido a pena tê-lo levado comigo...
A Leonor já dorme a noite toda e o Duarte só acorda uma vez a meio da noite, mas com as férias dos mais velhos, e o trabalho de permeio, o tempo continua a não chegar para as necessárias actualizações deste blog. Mas aqui vão, em resumo, as últimas gracinhas:

(Afonso no cabeleireiro):
Cabeleireiro
- Se não te portas bem corto-te uma orelha...
Afonso
- Olha... e eu vou dizer ao teu patrão e ele despede-te...

(Afonso ao telefone, no Algarve com os avós)
Mãe
- Sabes, Afonso, os teus manos hoje estão fartos de chorar.
Afonso
- Ufa! Ainda bem que eu não estou aí...

(Sebastião após encontrar um daqueles tufos brancos que andam pelo ar nesta altura):
Sebastião
- Afonso... vamos pedir um desejo, que esta coisa compra...

(Sebastião durante um abraço)
Sebastião
- Gosto tanto de ti, mamã, que até vais ficar sem respirar...

E os gémeos, apesar das birras de sono em stereo que fazem o pai querer mudar-se para a Sibéria, e dos colos que vão deixar a mamã mais corcunda que aquele do Notre Dame, estão cada vez mais lindos e já sorriem muito!
Hoje tentei pegar no meu filho Afonso ao colo e não consegui... Fui tentar o Sebastião e peguei-lhe com dificuldade...
Quando soube que estava grávida, ainda por cima de gémeos, deixei de fazer esforços físicos. Foram oito longos meses de gravidez mais quase dois de recuperação da cesariana. E em dez meses, eu deixei de conseguir pegar nos meus filhos mais velhos! Eu que, antes de engravidar, andava frequentemente com um de cada lado...
Enfim... os meus filhos cresceram. Perderam dez meses de colo, que agora vai ser a dividir por quatro, mas continuo a acreditar que as compensações que eles terão ao longo da vida, por crescerem numa família grande, serão maiores...
Agora que já consigo dormir 2 horas seguidas à noite, aqui vai um breve resumo do que tem sido este mês e meio:
- Os gémeos são lindos e fofinhos, excepto entre as 7 e as 9 (para azar do pai, quando ele chega a casa), quando choram em stereo.
- Já consigo dar de mamar a um, adormecer o outro com o pé e escrever com uma mão no computador. Não me posso queixar... ainda me sobra um pé e uma maminha!
- Os irmãos estão a crescer no meio da confusão, mas quando não estão a fazer asneiras (80%do tempo) continuam a ter saídas muito engraçadas. O Afonso teve a sua primeira verruga (que o encheu de orgulho), um dente a abanar e outro já atrás a espreitar. Já nada e sabe ler (junta letras, sem desprimor da proeza). O Sebastião aprendeu a comer pastilha elástica e a comer com faca e garfo. O Afonso continua refilão (e o Duarte vai ser igual) e o Sebastião bom vivant e inocente, por isso promovi-os a Timon e Pumba. Afonso-Timon e Sebastião-Pumba. Só lhes falta comer insectos!

Best-off do dia:
(Sebas, depois de eu me zangar com ele):
- Mãe, estás despedida!
- Não se podem despedir as mães de mães, Sebastião. Assim como as mães não podem despedir os filhos de filhos...
(Afonso) - Podem sim. Aquelas mães que ababdonam os filhos despedem-nos!
E pronto... às 35 semanas e 2 dias, os gémeos nasceram. Quando começar a conseguir dormir mais do que uma hora seguida, darei notícias sobre o casalinho mais esperado de toda a história da família Dias...
Agora que os gémeos estão mais perto de nascer, tenho tentado aproveitar os últimos momentos na qualidade de "mãe de dois filhos". O Afonso e o Sebastião estão a crescer, e apesar de serem muito amigos e brincarem muito juntos, têm necessidades diferentes. O Afonso está a poucos meses de entrar na primária ("É 1º ciclo" - corrige-me ele), já junta letras e diz que ler é delicioso. Tem um quarto novo com uma cama grande, e um Magalhães em cima da secretária (porque o pai não resistiu, e porque sempre é melhor o Magalhães que a consola de jogos, disse eu). O Sebastião quer aprender tudo e está cada vez mais criativo. Embora ande a debater-se com um grande dilema: ser grande ou pequeno? Porque, nesta família prestes a crescer, ele nunca será o mais velho nem o mais novo. E enquanto quase-irmão-do-meio, ora lhe dá para falar à bebé, ora pega num livro e finge que está a ler, como o mano.
Quando consigo estar sozinha com cada um deles, tento responder às necessidades individuais de cada um. É muito bom ter irmãos, mas também é bom que os pais consigam não perder esta atenção individual.
E aí começa o meu dilema. Já não me assusta a ideia de ter gémeos. Não me assusta o parto. Não me assusta a amamentação. Não me assusta a gestão de uma casa com quatro filhos, porque felizmente tenho ajuda e hei-de dar conta do recado. O que me assusta é deixar de ter tempo para os outros filhos que tenho em casa, e que ainda precisam tanto de mim! Quando o Sebastião nasceu, conseguia arranjar um buraquinho todos os dias para estar sozinha com o Afonso. Mas agora vão nascer dois... e eu tenho mais dois a quem dar atenção...
Claro que o meu susto não é pavor. Tentarei dar o meu melhor e tudo se há-de compor. E se calhar, daqui a seis meses ou um ano, estarei orgulhosamente a escrever que consegui, mais do que ser mãe de todos, ser uma mãe para todos... Vou acreditar que sim!
Hoje os meus filhos brindaram-me com esta música:

«Mãe, sem ti
Eu não estaria aqui.
És a mais bela flor
Do meu jardim...»

O Afonso aprendeu-a na escola e ensinou-a ao mano para que os dois pudessem cantar-ma quando eu chegasse a casa. Não é de os comer com beijos?

PS - Comprámos hoje o carrinho de gémeos. O pai divertiu-se a montá-lo e o Sebastião veio dizer-me, com voz abebezada: «Têm de comprar um carrinho com três cadeiras... Eu também ainda sou bebé!»...
O meu filho Afonso aprendeu a colocar a mão debaixo do braço e a abaná-lo, para soltar aqueles sons esquisitos que soam a "traques" mas sem cheiro.
- Vês, mãe? Vês? - disse-me ele, animado - É só pôr a mão no "cuvaco".
- Não é "cuvaco", Afonso, é "sovaco".
- O meu é "cuvaco". "Cuvaco Silva"...
Tive de me desatar a rir, claro, e ele achou piada à brincadeira. Foi de tal maneira, que passou o resto da tarde a inventar nomes alternativos para o nosso Presidente da República (pobre coitado). Venceu o "Churrasco Silva". Vamos ver se o "Contra-Informação" não aproveita a ideia...
Com o nascimento dos gémeos a aproximar-se, os meus filhos "mais velhos" tiveram de crescer um bocadinho. Acabaram-se os colos (e tanto que o meu Sebastião ainda pedia um "colinho em pé"), as ajudas para apanhar os brinquedos, e até para se vestirem os meus piolhos aprenderam a precisar menos da mamã. O Afonso ganhou um quarto novo com uma cama nova, maior, e uma secretária. O Sebastião deixou o "quarto dos bebés" (e a cama de grades, finalmente!) e passou para o antigo quarto do Afonso. O entusiasmo foi enorme, mas claro que as mudanças às vezes assustam, e os meus filhos tiveram de arrastar com eles, para esta nova etapa, uns restinhos da etapa anterior. O Afonso passou para o quarto "de menino grande", mas teve de levar com ele o seu boneco de trapos. O Sebastião passou para o quarto de "menino do meio", mas pediu-me a meio da noite os bonecos com música (daqueles de bebés, que se penduram nas grades da cama). E ontem foi dia de disputar os livros, que os meus filhos trataram de dividir em "livros de bebé" (para ficarem no futuro quarto dos gémeos), "livros de menino" e "livros de menino crescido", distribuídos pelos respectivos quartos.
Certamente que muita coisa vai mudar na nossa casa, depois do Duarte e da Leonor nascerem... Os meus filhos estão a preparar-se para esta nova fase com muita coragem. Agora é só eu e o pai seguirmos o exemplo e olharmos para esta nova aventura como mais um salto no nosso crescimento pessoal e familiar...
Estava de regresso a casa com o meu filho Afonso, quando passamos por um senhor chinês, de mão dada com duas lindas meninas chinesas. Caminhavam no passeio, e o Afonso viu-os através do vidro, e ficou colado a ele.
- Olha mamã... Para onde vai aquele senhor com aquelas meninas?
- Não sei, filho. Deve ir para casa, como nós.
- Mas nós vamos de carro. E ele, coitadinho, vai a pé até à China...
O meu filho Afonso anda a insistir há uns tempos para eu lhe comprar uns sapatos Geox. "Malditas publicidades", pensei sempre. "Com cinco anos e já pensa em marcas... estamos mal!"
Mas só hoje me lembrei de lhe perguntar a razão para querer um ténis dessa marca:
- É que com esses ténis eu consigo dar saltos muito grandes. E até posso dar um salto até ao céu e ver a cara dos Jesus. E até ir dar um beijinho à Bisa (bisavó que morreu há poucos meses)...
Com uma resposta destas, acho que vou comprar sapatos Geox para toda a família!
- Ó mãe, quem é que vai morrer primeiro? Eu ou o Sebastião?
A conversa surgiu no carro, com a frieza habitual do meu filho Afonso em relação a estas matérias.
- Ó filho... mas para que é que te pões a pensar nisso? Não queres falar noutra coisa?
Chuto sempre esta frase para tentar mudar de assunto, mas é inútil. Ele não desiste!
- Diz lá, mãe! É que eu sou o mais velho. Por isso vou morrer primeiro, não é?
Podia dizer-lhe que qualquer pessoa pode morrer a qualquer momento, independentemente da idade, mas isso já lhe causou pesadelos que chegasse, por isso preferi sossegá-lo seguindo a linha de raciocínio dele.
- Sabes que tu e o Sebastião só têm dois anos de diferença. E se agora isso se nota, qualquer dia já não se vai notar. É como se tivessem a mesma idade. Olha a tia Ana (minha irmã)... Quem é que é mais velha? Eu ou a tia Ana?
Nem ele nem o Sebastião souberam responder. A minha irmã vai gostar de saber...
- Estás a ver? Vocês não sabem qual é a mais velha, mas a tia Ana é quatro anos mais velha do que eu. O que quer dizer que quando tu e o Sebastião forem adultos, é como se fossem da mesma idade.
- Ah, boa, mamã! - rematou o Afonso, satisfeito. E em seguida olhou para o irmão, triunfante. - Vês, Sebastião? Isso quer dizer que eu não vou morrer primeiro... vamos morrer ao mesmo tempo!
O meu filho Afonso anda a levar tão a sério as suas aulas de catequese no Colégio, que no outro dia, em plena história sobre bruxas, antes do deitar, saiu-se com esta:
- Ó mãe... já sei porque é que a bruxa é má... Ela não deve ter sido baptizada...
O "esotérico" da família costuma ser o Afonso, mas o Sebastião também já vai dando o ar da sua graça. No outro dia, a subir as escadas em direcção ao quarto, para ir dormir, saiu-se com esta:
- Já sei como é que os manos foram para a tua barriga.
- Ai sim, Sebastião? Então como é que foi?
- Eles eram dois anjinhos no céu. Apareceu uma luz muito forte, eles derreteram e foram para dentro da tua barriga...

No nosso tempo havia as cegonhas. Mas esta nova geração Gormitti-Pokemon já não vai lá com pássaros...
- Mamã, onde é que tu vives?
A pergunta assaltou-me em pleno trabalho ao computador, e não soube logo dar-lhe resposta à altura (pelo menos, à altura da imaginação dos meus filhos).
- Neste casa, meninos. Então vocês não moram aqui?
Claro que não moravam! O Sebastião morava nas nuvens "porque era mais fofinho". E o Afonso era um fantasma e morava na lua. Lá tive de arranjar uma casa alternativa: o mar, e tornei-me uma sereia. E de vez em quando, diziam os meus filhos, todos nos visitávamos. De vez em quando o vento levava a nuvem do Sebastião até à lua, e o meu filho fantasma conseguia respirar debaixo de água e ia visitar a mamã.

Entretanto, hoje à saída da escola, o meu filho Afonso viu a lua no céu. Quarto Minguante. E saiu-se com esta:
- A lua está assim porque eu ontem estava com fome e comi-lhe um grande pedaço.
- Mas quando é que foste à lua, filho? (lá perguntei eu, distraída, a atá-lo à cadeira)
- Então, mãe? Esqueceste-te que eu vivo lá? À noite, quando me deixas na cama, os meus amigos monstros vêm buscar-me e levam-me para lá. E eu como sempre um bocado de lua. Às vezes tenho muita fome e como muita. Às vezes tenho menos fome e como menos. Por isso é que a lua está sempre com um tamanho diferente...
- E por isso é que tu durante o dia não comes nada! - disse eu, finalmente entrando na brincadeira. - Fartas-te de comer lua à noite!
- Pois é... - e acho que o meu filho vai passar a usar esta desculpa durante o dia, quando não quiser comer (que é quase sempre).
- E olha, Afonso? A tua lua sabe a quê? A queijo?
- Não... Essa é a lua do ratinho. Como eu não gosto de queijo, a minha sabe a fiambre...
(Sebastião à hora do banho)
- Eu vou ser doutor...
- Ai é, Sebastião? E doutor do quê? Dos olhos? Da garganta?
- Não... Das maminhas!

Bom, não se pode dizer que não seja uma profissão com bastante futuro...
Por muito que eu me esforce a explicar o funcionamento do corpo humano ao meu filho mais velho, ele prefere as explicações que ele próprio inventa (e eu confesso que também!)

(Afonso, sobre o movimento do corpo)
- Nós temos um grande osso dentro do nosso corpo, com ossinhos mais pequeninos onde estão pendurados muitos homenzinhos pequeninos. Os homenzinhos estão sempre a escalar, a escalar, a escalar, e à medida que se vão mexendo o nosso corpo também mexe.

(Afonso, sobre as doenças)
- O nosso corpo é uma espécie de auto-estrada com muitos carros. Quando estamos doentes e tomamos remédios, o remédio chama todos os carros, e eles vão todos chocar contra a nossa doença. Ela morre atropelada e nós ficamos bons.
(conversa com o Sebastião no carro)
- Onde é que é a tua escola, mamã?
- A mamã já não anda na escola. Quando as crianças ficam adultas deixam de ir à escola e começam a trabalhar, percebes? Escolhem aquilo que mais gostam de fazer (era bom que fosse assim tão simples, mas pronto...) e trabalham, ou seja, passam o dia a fazer isso. Um dia também vais escolher aquilo que mais gostas de fazer para começares a trabalhar...
- Mas o que eu mais gosto de fazer é asneiras...
Sempre ouvi dizer que os filhos têm uma adoração especial pelas suas mães (assim como as filhas a têm pelos seus pais) e, ultimamente, talvez por estar nesta condição "barriguda", os meus piolhos têm-me brindado com verdadeiros mimos para o ego:

(Sebastião, no carro)
- Mamã... a tua casa já foi a do avô Luís?
- Já, filho. E sabes... um dia tu também vais crescer e vais ter a tua casa, onde vais viver com a tua mulher.
- Mulher, mamã?! Mas a minha mulher és tu!

(Afonso, ao deitar)
- Mamã... quando é que posso ser eu a dormir contigo, em vez do pai?

Não é de os cobrir de beijos?
(Afonso na sua sinceridade máxima):
- Mamã, a partir de agora vou chamar-te "super-gorda"!
Lá me tentei defender, como pude, do ataque sincero do meu filho mais velho.
- Ó filho... mas a mamã só tem uma grande barriga porque tens os bebés na barriga. Depois, quando eles saírem, a mamã fica magrinha outra vez...
- Eu sei. Quando eles nascerem, vais ficar outra vez a "super-magricela".
Que conversa animadora :( O meu filho sabe mesmo como me encher o ego!
(Afonso e mais uma das suas tentativas de explicar o mundo):
- Ó mãe, sabes como é que foram criados os Pokemons?
- Os Pokemons não são criaturas de outros planetas? - perguntei eu, na minha santa ignorância.
- Não, mãe... eu explico-te. Como Jesus criou tudo, quando criou o homem, também lançou uns raios de super-potência e a terra levantou-se. Saíram umas criaturas com poderes mágicos que evoluem e...
A história continuou, rebuscada. Não a reproduzo mais porque, sinceramente, não sou capaz. Corria o risco de falsear a sua "verdade". Só me pergunto como é que as crianças de hoje em dia, futuros adultos amanhã, depois de desenhos animados tão rebuscados e cheios de criaturas imaginárias, magia e mundos paralelos, como os que passam na televisão, vão encarar a realidade, a religião, a morte e a vida, o universo e a pequenez da nossa condição humana. Que estarão mais abertos a outras realidades possíveis, isso não tenho dúvidas. E, ou muito me engano, ou isso será muito bom. Talvez represente mesmo um grande passo para uma evolução necessária da nossa espécie...
(Sebastião a olhar para a minha barriga, cada vez maior)
- Mamã... se tu tens aí bebés, temos que chamar o caçador para te abrir a barriga...
Acho que o meu filho Sebastião me vê como um lobo mau que comeu uns gémeos... Só espero que depois ninguém me encha a barriga de pedras e me atire para dentro de um poço... :(
- Ó mãe... porque é que as árvores se chamam árvores?
Pronto. Começava a primeira crise linguística do meu filho Afonso.
- Foram as pessoas que deram o nome às coisas, filho.
- Mas porque é que chamaram árvore à árvore?
- Não sei, filho. Um dia que tu encontres alguma coisa que nunca ninguém viu, ou inventes alguma coisa que não exista, também podes dar-lhe o nome que tu quiseres.
- Mas quando os humanos apareceram na terra as árvores já eram árvores?
- Não, filho... quando os humanos apareceram na terra nem havia palavras. Os pré-históricos, que foram os primeiros homens, comunicavam com gestos, e depois com sons, como os animais, até que se começou a dar nomes às coisas. - respondi eu, certa de que teria que investigar o assunto assim que chegasse a casa - E em cada zona do planeta foram-se dando nomes diferentes às coisas. Por isso é que há línguas diferentes.
E subitamente, vejo o meu filho no banco de trás a apontar para uma casa, chamando a atenção do Sebastião, que estava ao seu lado, com gestos pré-históricos e sons guturais:
- Bastião... Ca-ca, ca-ca, ca-sa! Casa! Casa! Foi assim, mamã?
(conversa entre o Afonso e o Sebastião no carro, no banco de trás, a caminho da escola)

- Sebastião, queres ouvir a primeira história da Bíblia?
- Sim.
- Era uma vez uma girafa. Começou a chover muito e a girafa meteu-se num barco. Mas não cabia no barco e foram ao fundo...
(tinha muitos outros pormenores, mas já não consigo descrevê-los com as palavras do meu filho. E eu entretanto também não resisti a meter-me na conversa.)
- Ó Afonso, tu sabes quem é que escreveu a Bíblia?
- Foi o Jesus.
- Olha que não, Afonso.
- Ah, pois não! Foi o Cavaco Silva!
Espanto!
- E tu sabes quem é o Cavaco Silva?
- Sei. É o Presidente da República.
Fiquei inchada de orgulho por o meu filho já saber o nome do Presidente da República e continuei a conduzir, nuns segundos de silêncio que fizeram o Afonso reatar a sua conversa com o irmão.
- Sebastião? Queres ouvir a terceira história da Bíblia? Esta foi escrita pelo José Sócrates...
Aposto que ele não aprendeu isto na catequese...
(depois de ler a história do rei Midas, que o Afonso trouxe da biblioteca da escola. Para quem não se recorda, o ganacioso rei Midas perseguiu uma das suas muitas moeda que lhe escapou das mãos, caiu das escadas e apareceu-lhe um duende que lhe quis dar uma lição: tudo aquilo em que ele tocasse se transformava em oiro)

- Percebeste, Afonso? Imagina que tudo aquilo em que tu tocavas se transformava em brinquedos...
Abriu muito a boca e os olhos, como ele faz sempre que fica admirado.
- Era muita bom, mãe!
- Não, não era... Depois tocavas na mãe, e eu transformava-me numa boneca de trapos... Tocavas no pai, e ele transformava-se num Gormitti...
- Era giro...
- E depois quem é que te fazia a comida para tu comeres?
- Eu nunca mais comia... - usei, claramente, o argumento errado. Quem dera ao meu filho Afonso nunca mais ser obrigado a comer!
- E quem é que te limpava o rabinho, quando ias à casa de banho? - como ando a tentar que ele aprenda a limpar-se sozinho, achei boa ideia puxar pela escatologia.
- Usava o papel... - ok, ele estava disposto a limpar-se sozinho. Devia ter-me ficado por aqui, mas queria que ele chegasse à conclusão do rei Midas, por isso insisti.
- O papel também se transformava num brinquedo...
- Já sei! Tu não eras uma boneca de trapos? Limpava o cocó aos teus trapos...

Desisti e voltei-me para o Sebastião.
- E tu, Sebastião, percebeste a história do rei Midas?
- Sim, mamã.
- O rei Midas não devia querer as moedas todas para ele, não era? Ele devia ter partilhado com as pessoas que não tinham nada...
- Pois é... - disse o Sebastião, nada convencido. - Ou então devia ter cuidado a descer as escadas, para não cair e não aparecer o duende... "Pois é", mãe?
Meti-os na cama. Os meus dotes de contadora de histórias, definitvamente, ainda deixam muito a desejar...
Depois de fazer mil festas na minha barriga, ora na mana, ora no mano (que ele sabe tão bem de que lado estão), o Sebastião levantou a sua blusa e olhou para a sua barriga, apenas cheia das bolachas do lanche:
- Ó mãe... quando é que eu também vou ter bebés na barriga?
Era uma e tal da manhã, quando o Afonso acorda a gritar, muito aflito. Imaginei logo que estava a ter um pesadelo (e os meus filhos, nessas matérias, bem que podiam não ter saído à mãe) e corri para o quarto, a ver o que se passava.
- Não, mãe. Não era um pesadelo! - tratou o Afonso de explicar, entre as muitas lágrimas que lhe corriam pelo rosto. - É só que eu não quero morrer!
A saga continuava. O pai já anda a pensar que eu sou que lhe falo destas coisas, ou lhes ando a ler histórias tétricas à noite, mas eu juro que evito ao máximo tocar no assunto, até porque já sei os filhos que tenho.
- Ó filho... Mas tu não tens que pensar nisso... Só tens cinco anos!
- Eu sei, mãe. Mas eu não quero morrer... nem quando eu for velhinho!
Ora bolas! Assim ia ser mais difícil tranquilizá-lo. Como dizer-lhe que ele não ia morrer... nem quando fosse velhinho?
- Há alguma maneira das pessoas nunca morrerem, mãe? - continuou ele, de olhos cheios de lágrimas.
Saquei-o da cama e pu-lo ao meu colo, coisa que, com dois bebés na barriga, já não é tarefa fácil.
- Quando as pessoas são velhinhas, filha, ficam cansadas... e precisam de descansar. E elas não desaparecem... Ficam para sempre a olhar por nós, nas estrelinhas...
- Mas eu não quero ir para as estrelinhas, mamã. Eu quero ficar aqui. Nunca quero descansar!
Começa a ser cada vez mais difícil acalmar as dúvidas do meu filho em relação à morte. Já nem as estrelinhas o consolam. Por isso tive que lhe dar uma nova esperança. Uma esperança que eu acho que não virá a tempo, nem na minha vida nem na dele, mas alguma coisa tinha que o fazer voltar para a cama e descansar.
- Sabes que dantes as pessoas morriam muito cedo. Havia muitas doenças. Mas os cientistas foram descobrindo curas para essas doenças, e as pessoas cada vez vivem mais tempo. Dantes as pessoas morriam com a idade da mamã...
Olhou para mim, muito espantado, de boca aberta.
- Mas agora, já há pessoas a viver até aos cem anos! Que são muito anos.
- Então, se eu for cientista, posso descobrir uma maneira das pessoas viverem para sempre...
Hesitei, mas dei-lhe a única resposta possível, à uma e meia da manhã.
- Claro, filho! Vais estudar muito para te tornares cientista, e vais descobrir uma maneira das pessoas viverem para sempre!
- Boa! Então vou ser cientista e bombeiro.
- Bombeiro também, Afonso?
- Sim... para também não deixar que ninguém morra queimado.
E pronto. As lágrimas secaram, e o meu filho Afonso adormeceu com a certeza que um dia vai ser um grande cientista e vai descobrir o elixir da vida eterna. E eu, que já não tenho cinco anos nem acordo a gritar a meio da noite, também me deitei e adormeci com essa esperança...
(Afonso a ver o Liedson na televisão)
- Olha, mãe! Está ali o papá!
- O pai, filho?!
- Sim... mas era quando ele era mais escuro... Depois fez uma operação e ficou branquinho...
(e não conhece ele a história do Michael Jackson...)
O meu filho mais velho continua absolutamente tétrico, e as suas preocupações com a morte revelam-se quase todas as noites, nas nossas conversas antes de ir para a cama. E a de ontem foi assim:
- Ó mãe... se vires formigas na casa de banho, não ponhas veneno. Promete, está bem?
- Mas porquê, filho?
- Porque se eu tocar no veneno posso morrer...
(e arrependi-me imediatamente de lhe ter dito que ele não podia, de modo algum, tocar no buraquinho da parede que estava a servir de porta à entrada às formigas, e eu enchi de veneno)
- E eu não queria morrer já aos cinco anos, mamã... Ainda sou muito novo!
Não podia estar mais de acordo com ele! Mas a conversa tétrica continuou...
- Tu já viveste mais do que eu. És mais velha. Mas também é melhor não morreres, porque senão também morriam os bebés que tu tens na barriga...
Bem, parece que continuo a ter alguma utilidade neste mundo. Enquanto tiver os bebés na barriga, continuo a fazer falta ao meu filho. Espero que, depois deles nascerem, ele arranje outros argumentos para me tornar importante na sua vida...
E já é oficial! A mãe do Afonso e do Sebastião (que sou eu), está grávida. E de gémeos! E a reacção dos dois piolhos não se fez esperar:

- Cuidado com a barriga da mãe, Afonso!
- Porquê? O teu bebé é de vidro?

(Afonso)
- Ó mãe, abre a boca...
(Abri a boca e o Afonso aproximou-se, gritando para dento de mim)
- Está tudo bem aí dentro? Não torçam o pescoço um ao outro...

(Sebastião)
- Se for um menino e uma menina, como é que lhes queres chamar, Sebastião?
- Pode ser mamã e papá?
- Mãe, hoje a Carlota estava a afogar-se na natação e eu ajudei-a. Estendi-lhe o esparguete.
- Boa, filho!
- Salvei-a, não salvei, mamã?
- Sim, Afonso. Foste um herói.
- E agora? Já me podem começar a chamar santo?

Continua a saga do meu filho pela santidade. E hoje andou a fazer compras connosco no Continente a cantar, a plenos pulmões:

Guiado pela mão
Com Jesus, eu vou
E sigo como ovelha
que encontrou pastor
(etc, etc)

E até ensinava o irmão Sebastião, que depois de uma hora de compras também já sabia parte da letra. É a chamada Evangelização nos hipermercados...
O meu filho Afonso está um verdadeiro beato! No outro dia disse-me que queria ser santo.
- Santo, filho?
- Sim... assim vocês lembravam-se de mim no dia de todos os santos...
Ri-me um bocado e avancei para a história da noite, que era tudo menos beata (metia bruxas e piratas). Mas daí a pouco tempo o Afonso voltou a atacar:
- Ó mãe, se eu morrer agora já fico santo?
- Não, filho... ainda tens de viver muito e fazer muitas coisas boas por muita gente!
Acho que o convenci a não ser mártir aos 5 anos...

PS - Na catequese, o projecto-de-santo-Afonso tem aprendido a história do Adão e da Eva, do Sansão e Dalila, do Abel e Caim... Mas como em casa as "histórias" são outras, faltam-lhe alguns conceitos básicos para ser o beato perfeito. No outro dia a professora entregou a todos os meninos a imagem de uma gruta para eles desenharem o presépio, e o meu filho, que não sabia bem o que isso era, resolveu aproveitar a gruta para desenhar uma casa de extra-terrestres!!!
(à mesa comigo, com o pai, o irmão e os avós)
- O que é que vocês eram antes de serem humanos?
Silêncio... O meu filho Afonso consegue calar qualquer pessoa com as suas perguntas.
- Não sei, Afonso. O que é que tu eras?
- Um fantasma que vivia na lua. Mas depois pedi ao polvo com uma pata para vir para a tua barriga, mamã...
E as certezas dele são sempre tantas, que não há quem consiga convencê-lo de outra versão qualquer...
Sebastião a começar a dar o ar da sua graça:

(depois de rodopiar pela casa toda, a soprar)
- Sebastião, o que estás a fazer?
- Estou a brincar aos furacões!

(antes de ir jantar)
- Mãe, podes pôr no Pause?
- Tu sabes o que é o Pause, Sebastião?
- Sei. É um pauzinho assim (I) e outro assim (I).
(Afonso no dia das Bruxas)
- Eu não tenho medo de fantasmas. Sabes porque é que não, mãe? Porque eu sei como é que os fantasmas são feitos...
Pensei que ia falar em lençóis com buracos, ou pessoas disfarçadas de fantasmas, mas a teoria era mais elaborada:
- São feitos nas fábricas. Há pessoas que sopram bolas de sabão, depois atiram poderes e os fantasmas podem sair pelas janelas, a voar. Primeiro são bolas, mas depois começam a ficar esticadinhos, e é assim que se fazem os fantasmas.
- Quem é que te disse isso, Afonso?
- Ninguém. Eu sei.
O meu filho Afonso sabe tanto... Acho que no futuro vai ser um sabão...
O meu filho Afonso está o perfeito beato! Tirando o facto de não conseguir decorar que o avô é diácono (e dizer sempre que ele é "drácula"), em tudo o resto está o perfeito menino de coro. Passa o dia a cantar a música "Quando Jesus passa... tudo se transforma" (e Jesus, segundo ele, é uma espécie de Gormiti que deita magia e transforma tudo em seu redor), já me pediu "uma daquelas coisinhas com bolas para rezar" (um terço, para quem não domina o assunto) e todas as noites me explica que rezar é pôr-se de joelhos e juntar as duas mãozinhas à frente do peito.
Esta é a parte menos complicada. A complicada é eu já lhe ter falado várias vezes na teoria do bang bang, na formação do universo, e na raça humana como uma espécie entre outras que poderão haver no espaço (e que, segundo o meu filho, um dia ainda vai acabar como os dinossauros) e depois ele aprender que o mundo foi criado por Deus, que também criou o Adão e a Eva. "Ó mãe... tu mentiste-me! Foi Deus que criou o mundo!". Lá lhe expliquei que não menti... que tudo pode co-existir e nada se invalida necessariamente. Em relação ao Adão e à Eva, é que tive de ser peremptória: "Isso é uma história, filho...". Não ficou muito convencido, mas a verdade é que a história que ouviu na catequese também não o convenceu: "Ó mãe... não percebo como é que Deus só criou o Adão e a Eva e depois há tanta gente no mundo... Eles tiveram assim tantos filhos?"
Enfim... teremos tanto que discutir à mesa daqui para a frente...
(Afonso, depois do pai o ter estado a ensinar a jogar playstation):
- Ó mãe, queres jogar comigo à pistola digital?
- Como é que isso se joga?
- Há um pai e um filho que entram no jogo com uma pistola digital que deita raios laser. Depois aparece o papa-formigas ninja e nós temos de lhe deitar um laser. Depois a seguir temos de apanhar uma estrela e a seguir vem o frango que fala. O frango só se cala quando nós o apanharmos e o comermos...
(agora digam-me que o meu filho não tem uma grande imaginação...)
O best-off da semana:

(Mãe depois de ter sido acordada pelo Afonso umas cinco vezes, ora porque viu uma mosca, ora porque teve uma comichão, ora porque tem um pé de fora e não está a conseguir tapá-lo sozinho):
Mãe: Afonso, a mãe não se vai levantar mais. Escusas de me chamar...
Afonso: Nunca mais, nunca mais te vais levantar para vires ter comigo ou com o sebastião?
Mãe: Não, filho. Só se forem coisas muito graves.
(A mãe volta para a cama. 5 minutos depois ouve a voz estridente do filho a gritar)
Afonso: Ó mãeeeee! Anda cá! Eu estou a morrerrrrrrr!

Sebastião: Ó mãe, esta noite veio uma mosca até à minha cabeça e pôs-me um pico...
Depois de uma sessão experimental de ioga, na escola, o meu Sebastião chegou a casa capaz de resistir a qualquer reprimenda. Qualquer chamada de atenção que lhe fazia, o Sebastião fechava os olhos, colocava os dedos nas extremidades da testa e, com a boca fechada soltava um "Aummmmm". Obviamente que me ri mais do que ralhei com ele. Quem é que resiste a uma coisinha de palmo e meio, com umas bochechas enormes e o sorriso mais malandro do mundo? A mãe não é certamente...

PS - Outra do Sebastião:
- Sebastião, já sabes como é que chama a escola do mano?
- Já. É a escola dos Maricas...
(só espero que os irmãos Maristas nunca leiam este blogue)
- Ó mãe, não consigo adormecer!
A frase típica do Afonso cinco minutos depois de se deitar...
- Então porquê? O que é que se passa hoje?
- Quando olho para a direita, os buraquinho (da rede protectora da cama) mostram-me imagens de coisas más. Se olho para a esquerda (para o seu inseparável boneco de dormir) o boneco ganha vida e ataca-me...
- Se não podes olhar para a direita... nem podes olhar para a esquerda... olha para o tecto!
- Mas se olho para o tecto não vejo os ladrões a entrar pela porta...
(de regresso a casa, depois da escola, quando as conversas fluem e os quilómetros nos levam em filósoficas viagens sem destino):
AFONSO: Mamã, tu gostaste de crescer?
MÃE: Gostei, filho. É bom crescer. Tu também vais gostar.
AFONSO: Acho que não, mamã...
MÃE: Mas é bom crescer, piolho. Aprendes coisas novas, começas a decidir por ti...
AFONSO: Mas eu acho que há uma coisa no mundo que é injusta...
(antecipei imediatamente a resposta. Ele é TÃO meu filho! Impressionante. Os mesmos medos. As mesmas angústias. As mesmas injustiças...)
MÃE: O que é, filho?
AFONSO: Eu não queria morrer e tornar-me numa estrelinha... Por isso é que eu não queria crescer...
(só não engoli em seco porque já tinha antecipado a resposta. Olhei-o, sorri-lhe e percebi que ele estava à espera que eu dissesse alguma coisa. E eu tinha a minha resposta. Só não sabia se era cedo para lhe dizer)
AFONSO: Há alguma maneira de não morrermos, mamã?
(tinha que lhe dar a única resposta que sabia. Havia outras bem mais simples. Mas, à custa de fazer tantas vezes as mesmas perguntas que o meu filho acabara de fazer, acabei por deixar de acreditar nelas)
MÃE: Acho que não, filho. Mas se esta vida é a que temos, e é tão boa, tens que a aproveitar. E gostar de crescer...
(calou-se. Ficou a pensar. Depois pegou em dois Gormittis e começou a brincar. Há respostas que nunca dão serenidade. Mas há que aprender a viver sem ela... e levar a vida a brincar...)
(no carro, a caminho da escola)
AFONSO: Ó mãe, eu gostava de ser jogador de futebol, mas também tenho que ser piloto de naves.
MÃE: Então, filho... podes ser as duas coisas...
AFONSO: Posso?
MÃE: Podes ser piloto de naves e jogar futebol no espaço...
AFONSO: Boa! Dou pontapés aos planetas...

SEBASTIÃO: E eu, mamã?
MÃE: O que é que queres ser, 'Batião?
SEBASTIÃO: Não sei...
MÃE: Gostas muito da tua lanterna... e de animais... Podias ser explorador!
SEBASTIÃO: Sim! Sim!
AFONSO: Não pode não, mamã. Senão ainda pode ser comido por um crocodilo.
MÃE: E polícia? Tu gostas de andar atrás dos ladrões com a tua pistola, 'Bastião.
AFONSO: Também não pode ser, mãmã. Porque o Sebastião ainda não sabe que há pistolas a brincar e pistolas a sério. Pode dar um tiro nele com uma pistola a sério e morrer.

Do mal o menos, ficou explorador... Com argumentos destes...
Uma semana e meia depois do meu filho Afonso ter entrado nos Maristas, começaram as perguntas difíceis:
- Ó mãe, como é que as pessoas morrem e vão para o céu?
- Ó mãe, porque é que as pessoas falam com Jesus e ele não lhes responde?
- Ó mãe, se não tivermos cruzes ao pé de nós, Jesus não está connosco?
Eu, fervorosa adepta do cepticismo, respondo a tudo dando vários exemplos de como as pessoas das várias religiões encaram os diferentes dogmas das Igrejas. E convenço-me que devo passar informação aos meus filhos para que eles decidam no que devem acreditar e como. Será muito, para uma criança de 4 anos (o Sebastião ainda não fica a pensar nas minhas respostas)? Será que as crianças devem ter pais que tenham verdades absolutas e respostas para lhe dar? Será que estou a confundir os meus filhos? Ou a dar-lhes liberdade suficientemente para eles pensarem o mundo, a vida e a morte e chegarem às suas próprias conclusões?
A mãe anda a escrever um livro sobre extra-terrestres. O pai anda a papar as séries todas do Stargates. E o filho, talvez entusiasmado com a capa da nova Courrier International (sobre o tema) e os pedaços de Stargate que apanha na televisão, não tem parado de soltar teorias do outro mundo:
- Ó mãe, eu quando nascer outra vez vai ser num país cheio de extra-terrestres e vai ser muito mais divertido.
(...)
- Ó mãe, eu daqui a uns tempos vou comandar uma nave e vou a outros planetas. Não posso é ter janelas, porque no espaço há sempre pedras a bater nas naves.
- É uma nave ou um foguetão?
- Uma nave, mãe. Os foguetões já existem agora. Eu vou numa nave.
- Ah! Então vais inventar uma nave.
- Não. Isso vai ser outra pessoa. Eu só vou comandá-la.
- E levas a mãe a ver outros planetas, filho?
- Não, mãe. Tu nessa altura já morreste...
(espera aí... não é suposto as crianças de 4 anos acharem que os pais são imortais?!)
(Afonso a meio de um doloroso e interminável pequeno-almoço, daqueles em que ele se queixa vinte vezes que lhe dói a barriga e quando chega a hora de ir para a escola ainda só vai a meio do pão):
- Ó mãe, queres que eu te explique como é que se faz o vomitado?
(Adoro sempre as explicações que o meu filho arranja para explicar os fenómenos que ainda não conhece)
- A comida desce e dentro da barriga há muitos martelos que começam a bater-lhe para a transformarem em vomitado. Às vezes a barriga fica muito cheia e um dos martelos bate com força no vomitado para ele vir para cima. É assim que se vomita...
E pronto. Assim se faz ciência cá em casa. Com especulações e alguma imaginação...
- Então, Afonso, o que é que fizeste na escola?
- Um desenho que dei à minha professora.
- E o que é que desenhaste?
- Era para fazer uma pessoa. Mas fiz uma cabeça muito grande e já não cabia mais nada. Então tive uma ideia. Desenhei muitas bolhas ao pé daquela e fiquei com muitas cabeças. Depois fiz uma bolha gigante à volta das cabeças todas.
- Mas para quê, Afonso?
- Eram muitas pessoas a sair de um ovo...
(ok, o meu filho continua a pensar que há pessoas especiais - onde ele se inclui - que nascem de ovos. Imagino a cara da professora da escola nova, que só o conhece há cinco dias...)
(Sebastião para a mamã)
- Quero colo!!!
- Então anda cá, piolho... A mamã dá-te colo...
(colinho)
- Ó mamã... eu afinal quero dois...
Enquanto jantávamos e na televisão passavam reportagens sobre a onda de crime que tem assaltado o país nos últimos meses, o Afonso saiu-se com esta:
- Eu sei o que são os ladrões...
Respondi com o habitual "Ai sim?" que é sempre a melhor maneira de puxar por ele.
- São pessoas que roubam coisas. E também roubam crianças. Entram nas casas das pessoas com sacos, enquanto elas estão a dormir, metem as crianças lá dentro e levam-nas.
Assustei-me, porque não queria o meu filho assustado...
- Não é bem assim, Afonso. É verdade que algumas crianças já foram raptadas (e como negá-lo, se o caso Maddie andou tanto tempo naquela cabecinha a querer ser adulta), mas isso não te vai acontecer a ti... Tu estás connosco. Nós protegemos-te...
- Mas à noite vocês estão a dormir. Por isso é que eu nunca durmo. Durmo de olhos abertos. Para não ser raptado...