Ena! 100 pessoas que vêem este blog??
Jurei a mim mesma que neste dia me penitenciava e vos dizia obrigada por acompanharem a minha saga maternal. É verdade que raramente respondo aos vossos comentários, mas é porque não tenho mesmo tempo e, entre comentar e deixar um novo post, acabo sempre por escolher a segunda opção. Mas gosto muito de vos ter comigo e os meus filhos mais velhos já me perguntam quantos são vocês e o que escreveram sobre os seus disparates. Prometo que, quando eles crescerem mais um bocadinho e derem menos trabalho (daqui a uns 20 anos, portanto, quando este blog já versar sobre os meus netos, e eu já ditar tudo sem precisar de o escrever), eu começo a ser mais "interactiva" e comento os vossos comentários.
Obrigada pela paciência!
(Nonô, 2 anos, a ver o meu livro "Os Miaus" - adaptação livre de "Os Maias" de Eça de Queirós):

- Olha, a mamã aqui! (foto da contra-capa). E a Nonô? Nonô não há!
- A Nonô pode ser esta gatinha aqui (aponto para a pequena Rosinha - ilustração).
(Nonô olha, muito atenta)
- Não, não "podi". Nonô não tem "ito" (orelhas de gato). Nem bigodes... Nonô quer aqui (e aponta para a contra-capa).

Parece que vamos ter outra escritora na família...
(A deitar o Sebastião, filho do meio)

- Vá, Afonso. Rápido!
- Não sou o Afonso, mamã. Sou o Sebastião! Como é que tu, que és a minha própria mãe, te enganas?
(peso, muito peso, na consciência)
- Ó filho, é que vocês são muitos, cá em casa.
- Muitos?! Só somos quatro...

Tem toda a razão, o pequenote. O problema é que a mãe também é "só" uma...
Depois de o Sebastião chorar baba e ranho, no seu quarto, porque o mandei ficar lá até acabar os trabalhos de casa, lá se despachou depressa e, não contente com isso... resolveu fazer a cama dele!
- Estava tão irritado, mamã, que até fiz a cama. Foi uma coisa boa, não foi?

Parece que afinal não é só a mãe que descarrega nas arrumações, quando se irrita... Sim, é uma coisa boa. Podia dar para partir pratos, em vez de arrumá-los. Vistas bem as coisas, até nos podíamos irritar mais vezes...
Recebi esta semana o estudo "The Changing Face of Motherhood", da P&G, e estaquei logo nas primeiras conclusões. As mulheres portuguesas são as que menos tempo têm para si próprias, é triste, mas são também aquelas que recebem mais sinais de gratidão dos filhos. E há melhor do que isto?
De facto, lembro-me de apanhar um episódio da última Casa dos Segredos, em que a produção deixou que as mães visitassem os seus filhos, no confessionário, e de assistir, de lágrima no olho, à forma agradecida como cada um dos filhos falava com a respectiva mãe. Elas, algumas com vidas desfeitas, casamentos traumáticos, vidas enxovalhadas na imprensa, eram a luz dos olhos dos seus filhos, as melhores mães do mundo, as heroínas das suas crias. E o que mais pode desejar uma mãe?
De facto, muito se pode dizer do povo português. Sofremos de alguma falta de organização, de mobilização e de pessimismo. Mas se há coisa que ninguém pode dizer, é que não temos as melhores mães do mundo! (sim, pronto... pais também. Mas hoje deixem-nos lá ficar com os louros, ok?).
Mais desperta para os gostos musicais dos meus filhos, depois que o meu pequeno Dudu começou a cantar Michel Teló, hoje deliciei-me a ver o meu filho Afonso (8) a cantar "Que Parva que Eu Sou". Afinadinho, com as respirações no lugar, dinâmica e interpretação dramática perfeita. Não fosse estarmos a caminho da escola e ele entoar, em plenos pulmões:

"Que Mundo Tão Parvo onde, para ser escravo, é preciso estudar!".

Pois é, meu filho... e ainda te faltam uma carrada de anos!
É oficial. O meu pequeno Dudu, de 2 anos, adormece a cantarolar baixinho o "Ai se eu te pego, ai, ai... delícia".
Anda uma mãe de "Estrelas e Ouriços" em punho, a tentar marcar mais sessões de música para bebés que não esgotem antes de saber se os manos mais velhos têm jogo de hóquei ou festa de anos ou testes ou-ou-ou-não-sei-mais-o-quê-que-nos-estraga-os-fins-de-semana-todos, a comprar CDs com as Machadinhas da vida para cantar com eles e a investir em aulas de música na escola, para lhe ficar no ouvido o quê? O amigo Teló, que ele ouviu 2 ou 3 vezes na televisão, e foi o bastante para lhe dar as honras de João Pestana.
Estou em crer que aquele "ai, ai" tem uma mensagem subliminar qualquer, semelhante, auditivamente, ao "Babyfirst"... Alguém se importa de estudar o fenómeno?
Pela primeira vez desde que o baloiço de pau foi montado no nosso pinheiro, a mamã sentou-se nele e subiu, subiu, subiuuuuuuuu...
- Mamã, posso andar contigo? - perguntou o Sebastião.
Temi que o baloiço não aguentasse, mas lá fomos os dois, primeiro devagar, depois com mais balanço, e mais, e mais... o sol punha-se à nossa frente e o Sebastião, sentado ao meu colinho, com os seus bracinhos apoiados nos meus, saiu-se com esta:
- Ah, mamã... Como é boa, a vida.

E pronto, a mamã ganhou o dia.
Manhã: uma hora de brincadeiras na praia.
Tarde: uma hora de saltos no trampolim e corrida de triciclos.
Resto do dia: chatices, amuos, birras, gritos histéricos da mamã, TPC, refeições, banhos e ralhetes.

Bem... vistas as coisas, acho que o balanço do Domingo até foi positivo.
E quando os meus 4 piolhos, ainda tão pequeninos, já devoram uma pizza familiar sozinhos, e ainda guincham por mais?

Teme-se o pior no nosso orçamento familiar...
Um teste digital que permite identificar o período de ovulação?
Um teste digital de gravidez que pode ser usado 4 dias antes de faltar o período?

Estive a ler informações sobre os novos testes digitais da Clearblue, e senti-me um pouco como a minha mãe, há trinta anos, quando soube que havia umas máquinas chamadas ecógrafos, que permitiam ver o bebé dentro da barriga. E até saber o seu sexo!
À parte os exageros da comparação, é bom saber que a ciência, ao resolver questões fundamentais, consegue também atenuar as nossas ansiedades de mães...
Até fiquei com vontade de engravidar outra vez! (foi só um pensamento breve, ok? Como veio, se foi).
(Afonso, 8 anos)
- Mami, sabes o que é que eu gosto mais de fazer na escola?
- De jogar à bola.
- Não... sem ser no recreio.
- Matemática.
- Não, sem ser das matérias.
(Mãe sem alternativas aparentes)
- É arquivar folhas no dossier.

Estou em crer que lhe vai passar depressa. Mas há que aproveitar enquanto dura. Este fim-de-semana o meu filho Afonso vai arquivar a pilha de facturas que se acumula há meses na minha secretária...
Hoje o meu filho mais velho (8 anos) resolveu recortar um coração para me oferecer. Achei o gesto muito bonito, vindo de um menino que está cada vez mais naquela fase em que é piroso mostrar afecto por alguém. Mas tive a triste ideia de lhe pedir que escrevesse qualquer coisa no coração de papel. E o resultado foi o seguinte:

Olá mãe,
digo-te já que este belo coração não foi fácil de fazer. E eu dou-to porque não sou uma menina, para gostar de corações, por isso fica tu com ele.
Obrigada!
Afonso

Bem... à sua maneira, acho que tentou dizer-me que gosta muito de mim... (ou, pelo menos, eu prefiro acreditar que sim).
(Nonô, doente, ao colo, numa perna da mamã. Dudu, também doente, aproxima-se, reivindicativo).

- Mamã, Dudu quer colo!
- Ó Dudu... mas a mamã já tem a Nonô ao colo.
- Dudu quer uma perna. Nonô tem perna. Dudu quer perna.

Era justo, pois claro. E a mamã não conseguiu dizer que não.

- Ainda bem que a mamã tem duas pernas. Uma para a Nonô, outra para o Dudu - observei.
- Pois, pois - diz o Dudu. - A Cuca (nossa cadela) não tem perna.

E assim se percebe porque é que a nossa cadela tem tão poucas atenções cá em casa...
Responsabilidade. Amor. Solidariedade. Paz. Amizade.

Eram estas as palavras que vinham numa ficha do Sebastião (6 anos), das quais ele tinha de escolher uma, para desenvolver ao longo do ano.

- Já escolheste, Sebastião?

Este meu filho é particularmente indeciso. E fica sempre a pensar se fez (ou não) uma boa escolha. Mas desta vez estava muito certo da sua decisão.

- Já. Escolho o amor.
- E porquê, Sebastião?
- Porque é o mais fácil e o mais importante.

A resposta tem a sua dose de preguicite associada, é certo. Mas se o meu filho acha que amar os outros, para além de importante, é fácil, creio que está no bom caminho...
(Sebastião no carro novo, ainda - e só ainda! - por sujar)

- Ó mami! Se tirasses um macaco do nariz neste carro, onde é que o punhas?

(Ainda bem que ele não fez a pergunta ao papi...)
Todos nós, em algum momento da nossa vida, por um instante que seja, já pensámos que podíamos perder os nossos filhos. Assumi-lo, é pôr o dedo numa ferida que não queremos sentir. Mas é também uma forma de nos encher o coração de uma vontade imensa de amar os nossos filhos todos os dias...

É este o tema do terceiro artigo que escrevi para o blog da ConsultaClick.com, que podem espreitar no link:
http://consultaclick.pt/blog/2012/02/15/porque-devemos-ama-los-todos-os-dias/
O meu filho Sebastião tem memória de galinha. Eu sei, não devia falar assim, por causa da psicologia, e da pedagogia, e das coisas todas acabadas em ia. Mas disse. Disse uma vez e outra, e outra ainda, irritada por ele esquecer, esquecer, esquecer, esquecer. É esperto, tem boas notas na escola, mas não consegue decorar as coisas! Há uns dias, olhei-o nos olhos e fiz-lhe uma promessa:
- A tua memória vai ser de elefante, meu filho! Ai vai, vai.
E desde aí que o ponho a declamar vezes sem conta os textos dos trabalhos de casa (O Cágado veio comigo. Deitei-o na água do lago. Ao pé do lago vi o gato. O cágado é amigo do gato), até os dizer de cor. E hoje começámos nas lengalengas.

Ó Anacleto, come o caldo.
Não como, que me escaldo.
Ó Anacleto, come a sardina.
Não como, que tem espinha.
Ó Anacleto, come o bacalhau.
Isso sim, que não é mau.

Ao fim de lhe dizer dezenas de vezes "Ó Anacleto, come o bacalhau", e de ele me responder outras vezes sem conta "Isso sim, porque gosto", o Afonso desatou a rir (de gozo). E a mãe riu também (de desespero). E o Sebastião riu também (de sei lá o quê). Porque depois chorou.
- Estás a chorar do quê, Sebastião?
- De errar sempre!
E senti o coração pequenino. Minúsculo. Do tamanho de uma mãe insignificante, que é capaz de deixar o seu filho frustrado. Uma mãe culpada. Cheia de falta de bom-senso. Uma mãe que erra. Mas que, felizmente, ainda ia a tempo de emendar o seu erro.
O Afonso foi para a cama. O papá ficou no sofá. E eu fui com o Sebastião esconder-me na sua cama, e sussurrámos ao ouvido um do outro a malfadada legalenga do Anacleto. Até o Sebastião acertar. E acertar sempre. Então peguei nele, dentro do saco de cama, como se fosse o meu saquinho de batatas, e levei-o até ao quarto, para que o Afonso ouvisse o Sebastião dizer a legalenga toda. Até as partes da mamã! Depois descemos as escadas e o Sebastião repetiu a legalenga ao pai. Sem se enganar uma única vez! E depois (já eu estava com umas valente dores nas costas) subimos as escadas e repetimos uma última vez a lengalenga na cama. E o Sebastião era um menino feliz novamente.
- Amanhã perguntas-me outra vez, mamã?
- Claro, Sebastião. Mas também vais aprender uma nova.
E ele disse que sim, satisfeito.
- Até eu ter uma memória de elefante...
Fiz pela primeira vez uma coisa chamada "gelinho". As mulheres saberão do que estou a falar. É mais rijo que o verniz (mas menos que o gel) e dura três semanas (disseram-me), mesmo depois de esfregar os miúdos na banheira e passar a loiça toda por água.
Cheguei orgulhosamente à escola dos meus gémeos com umas unhas cor-de-rosa, rijas, de mãe cuidada (pelo menos por fora). E o Dudu, que corre sempre para mim, sorridente, para me abraçar, hoje correu para as minhas mãos, torceu o nariz e disse, no seu português aldrabado:
- Dudu n'ã gosta. Tira.
Frustração. O que será de mim se, para além de querer agradar ao marido, ainda tenho que agradar aos filhos? Se o pequeno Dudu já opina sobre a cor das minhas unhas aos 2 anos, imagino o que não fará os 16!
Bem, felizmente, a Nonô avançou para mim, excitadíssima, e em vez do beijo (que se faz sempre de difícil para dar), agarrou-se às minhas mãos e gritou:
- Nonô gosta, mamã. Nonô também quer!
Ai, minha rica filha... Com o marido e os filhos posso eu bem! Vamos ver como te safas, de unhas cor-de-rosa, com um pai e três irmãos rapazes...
A minha filha pulula pelo corredor, cheia de vida, despachada, independente, cheia de certezas sobre tudo. Refila quando acha que tem razão, é chata, chata, chata, até conseguir o que quer. Teimosa, chamo-lhe vezes sem conta. Mas responsável. "Mamã, a mala?". "Mamã, vamos t'abalhar?". "Dudu, põe capuz". "Fonso, senta". "Titão, come". Quer tomar conta de todos, com uma energia que não se esgota.
Tanto eu... e é tão engraçado! Lembro-me de perguntar vezes sem conta à minha mãe se não se tinha esquecido de isto ou daquilo. De querer tomar conta de tudo. De ser responsável (às vezes até demais). De achar que tinha sempre razão e que ninguém tinha o direito de me contrariar. E de não parar. Nunca. E da célebre frase da minha professora da Primária: "Pula, filha! Faz-te cabra."
Todos os meus filhos têm algo de mim. Mas a pequena Nonô, talvez por ser menina, tem quase tudo aquilo que eu era na sua idade. O que é muito bom de ver. Mas também me dá uma responsabilidade tremenda, porque, para além das qualidades, há os defeitos que hoje, à distância, consigo apontar com mais clareza. E cabe-nos a nós, pais, tentar fortificar os primeiros, e contrariar os segundos, para que aqueles que vêm depois de nós sejam melhor do que fomos.
Enquanto a mamã toma banho, o WC é um mundo a explorar. Abrem-se gavetas, experimentam-se colares e pulseiras, as escovas dos papás (às vezes também as dos dentes), e de vez em quando ainda se fazem disparates maiores. Mesmo com a mamã de olhos postos neles, através do vidro embaciado que se vai desembaciando com a mão, o Sebastião já comeu uma pílula, o Dudu já fez a barba com a máquina do papá, e a Nonô já se besuntou com anti-rugas. Em segundos, a mãe salta da banheira, molhada, e espalha ainda mais o caos pelo cubículo.

- Doutora Ceucéu, o Sebastião comeu uma pílula...
- Ainda não lhe cresceram as maminhas, pois não?

A barba do Dudu também ainda não enrijou, e a pele da Nonô não tem menos rugas do que aquelas que tinha, porque ainda eram nenhumas. Até hoje, nenhuns efeitos secundários. Com excepção dos meus cabelos brancos e das minhas rugas marcadas, à custa dos sustos que estes marotos me pregam...
De há dois meses para cá que os nossos fins-de-semana andam virados do avesso. O pai experimentou levá-los um dia ao hóquei, eles gostaram, e dois meses depois já são federados e têm jogos todos os fins-de-semana.
E o pai lá anda a reboque deles, enquanto a mãe fica com os mais pequenos, e lá nos cruzamos, entre as idas e as vindas, com sticks, bolas e caneleira pelo meio. O pai leva os das coquilhas, eu fico com os das fraldas. É justo. A lei da vida.
Tenho de confessar que não sou muito dada a desportos de grupo. Gosto da parte do "espírito de grupo", nunca gostei da parte da competição. Por isso cedo troquei as corridas e o voley pela dança e pela música. E custava-me ver o pai nervoso com os jogos deles, a dar-lhe dicas como "mais garra", "é para ganhar", ou "faz-te à bola".
Até que fui a um jogo. Enchi a mala de livros e cadernos para poder distrair-me, enquanto durava, mas tive vergonha de os tirar para fora. Vi mães e pais e irmãos com os nervos em franja, à espera de um bom resultado. Atrás de mim tinha uma senhora que quase me furava os tímpanos, chamando nomes ao árbitro, e gritando pelos miúdos que iam à bola. E pensei que, definitivamente, não era feita para aquilo, e nem os livros, ali, me valiam.
Foi quando comecei a prestar atenção. O meu filho Afonso patinava artisticamente de um lado para o outro, mas fazer-se à bola, nada! E, timidamente, soltei um "Vá, Afonso". Depois um "Rápido". E quando me apercebi, já estava a gritar para o campo "Mais garra" e "faz-te à bola". Tinha a barriga às voltas e só me apetecia saltar para o campo para ajudar o meu filho a enfiar a bola na baliza.
Sempre me imaginei a vibrar com os espectáculos de ballet da minha filha, e com as audições de música dos 4. Mas talvez venha também a conseguir ser uma mãe "de bancada", quem sabe... Com três filhos rapazolas (e para o ano o pequeno Dudu também já vai para o hóquei), é melhor que o seja, ou perderei certamente uma parte importante do seu crescimento...
Hoje a mami e o papi foram buscar os gémeos à escolinha. E, como os seus pesos já rondam os 15 quilos (o que explica os meus bíceps delineados, mesmo sem uma única ao ginásio em dois anos... experimentem andar a subir e descer escadas com 30 quilos ao colo! Se não fossem as dores as costas, seria uma mulher em forma!), viajaram nas cadeiras dos crescidos. Mas com muitos avisos...

(Papi) Meninos! Não podem tirar o cinto!
(Dudu) Não. Senão papá tau-tau.
(Mami) E a mamã também tau-tau, se tirarem o cinto!
(Nonô) Não, não! Mamã tau-tau, não. Mamã grita.

Raios partam os miúdos, que nos conhecem tão bem...
(Conversa entre o Afonso, 8 anos e o Sebastião, 6 anos, no WC da mamã):

Sebastião: O que é isto, Afonso?
Afonso: São as fraldas da mami.
Sebastião: O quê?! Mas a mami não usa fraldas.
Afonso: É só às vezes. Quando sangra do pipi.

Fingi que não estava a ouvi-los e afastei-me de fininho. E prefiro não imaginar as conversas que eles terão na escola, a propósito das fraldas das mamis... Há coisas que é melhor mesmo não sabermos nem ouvirmos...
(Sebastião, 6 anos, enquanto atava um balão à sua cama):

- Vou atar aqui este balão para nunca mais me esquecer da festa da prima Madalena.

(pausa)

- Ah, e também para um dia voar na minha cama...


Existe melhor fonte de inspiração do que esta?
Não aguento mais TPCs, testes e trabalhos de casa!!!
(os dos meus filhos, claro. Não, não voltei a estudar. Essa minha vontade passou-me quando ultrapassei a barreira dos dois filhos, e agora, se voltar a pensar nela, será só daqui a uns 20 anos, partindo do princípio que não estarei já xexé... o que é absolutamente provável!)
Todos os fins de tarde, em vez de estar tranquilamente com os meus filhos a contar as novidades do dia a dia, ando a berrar atrás de um e de outro (com os outros dois ao colo), ora por causa da letra do Afonso, ora por causa da distracção do Sebastião. A um falta uma borracha, o outro esqueceu-se que tinha teste, um não sabe se é "o" ou "u", o outro tem de saber a diferença entre raiz fasciculada e tuberculosa. Socorro!! Quando os gémeos chegarem à Primária, e os outros estiverem já no 2º e 3º ciclos (onde existem quinhentas mil disciplinas com quinhentos mil testes e trabalhos), dou em louca!
"Os TPC são importantes para os pais acompanharem os filhos em casa". E que tal deixarem-nos acompanhá-los com conversas interessantes sobre História, Geografia, Filosofia, Literatura ou Ciências, entre mimos e reflexão, criatividade e interacção? Há três noites que não consigo ler uma história aos meus filhos mais velhos, antes de dormir. O Sebastião já lê e escreve bem, e o Afonso descreve correctamente o processo de germinação e distingue o sujeito do predicado. Mas não descobrimos mais um planeta no globo, não reflectimos sobre os porquês da vida, nem aprendemos uma lição com La Fontaine. Acho que vão ter Muito Bons nos testes. Mas eu vou ter Insuficiente no volume dos ralhetes, Suficientemente Menos na paciência, e Bom Menos na gestão do tempo. Com tendência a descer as notas à medida que o ano passa...
- Leonor, queres destas bolacha?
- Não, pá.
- E destas?
- Não, pá! Outras.


- Leonor, não podes.
- Opá!
- O que é isso do "Opá"?
- Nada... pá!


A minha caganita de 2 anos agora lembrou-se de meter "pás" em tudo. Não sei o que lhe faça... pá!
Hoje a tarde foi dedicada ao teatro. A ideia era fazer uma festa, mas quando apareci com as caixas da roupa de Carnaval, em vez de baile, tivemos esepectáculo. O Sebastião era o cowboy que conhecia a espanholita Nonoi e a pedia em casamento. Montados no cavalinho de pau, os dois passeavam-se pelo meio dos sofás, até que o tigre Dudu os assustava e perseguia pelo resto do quarto dos brinquedos.
O Afonso chegou entretanto do jogo de hóquei e rapidamente enfiou um fato de pirata para o episódio 2 da saga dos manos. Pois que o Sebastião e a Nonoi casaram entretanto, e a Nonoi até trocou a sua flor vermelha por um chapéu de cowboy. A lua de mel foi a bordo de um cruzeiro (barco de borracha insuflável). E tudo corria bem até que o cruzeiro foi atacado pelo terrível pirata dos mares Afonso. Sebastião, valente cowboy, começa a lutar com o pirata Afonso para defender a sua amada, e a luta só acaba porque, escondido na mala de viagem da Nonoi, ia o tigre Dudu, que assusta novamente toda a gente. Mas afinal ele só queria diversão (e até trocara a sua cabeça de tigre pela flor vermelha da Nonoi), por isso acabam todos contentes, a dançar ao som do CD da Leopoldina.
A mami filmava e fazia a narração possível dos acontecimentos. Daqui a uns anos, o que nos vamos rir a ver tanto disparate......
Dois gémeos a chorar ao meu colo. A Nonô com tosse e ataque de birra. O Dudu com febre e dores de barriga depois de ter vomitado umas poucas de vezes. Toca o telefone. Maristas.
- Sim? Não me dê nenhuma má notícia, por favor...
- O Afonso caiu na ginástica. Está consciente, mas tem um galo muito grande, e é melhor ser visto na clínica.
- O pai já vai buscá-lo. E ao Sebastião, não lhe aconteceu nada?
Estava tudo bem com ele. A vantagem de ter muitos filhos é que as nossas preocupações têm de dividir-se por muitos, por isso raramente são excessivas com algum deles. A desvantagem é que, a atenção que damos a cada um deles, nos seus acidentes de percurso, também são menores. E o Dudu foi para a cama com a pressa de todos os dias, entupido de xarope. A Nonô não teve direito a história e o Afonso, mesmo com galo, teve de fazer os trabalhos de casa para não deixar para o fim-de-semana. O Sebastião, hoje intocável, ainda está ao meu lado a fazer contas. E resmunga:
- Grande sorte, tiveram os manos! Já foram todos descansar...
(Sebastião, 6 anos, ao ver um moopie da capital da cultura)
- Olha, mãe! Está ali o Afonso Henriques.
- Boa, Sebastião. E ainda te lembras onde é que viste aquela estátua?
- Sim. Em Guimarães.
- Boa. E já sabes em que dia fazes anos?
- Claro, mami. A 29 de Setembro de 2005.
(Mãe espantada)
- Ó Sebastião... a mãe no verão disse-te tantas vezes estas coisas, e tu não conseguias decorar. Agora de repente sabes tudo! Como é que dantes tinhas memória de galinha, e agora tens memória de elefante?
(Sebastião ri. Depois fica pensativo)
- Ó mãe, é que eu dantes era pequeno, e agora sou crescido.

Pois é. Simples, não é, Sebastião? A mãe escusava de ter desesperado no verão, e devia ter percebido mais cedo que há alturas certas para aprender certas coisas, e alturas certas para crescer...
Temos um problema cá em casa. Um problema GRAVE! O meu pequeno Dudu resolveu ser do Benfica!
Medo. Pânico. Terror. Do papi, claro. A mami só tem de se rir às escondidas. É que ver um "caganito" de 2 anos a gritar pelo Benfica, quando toda a sua família é do Porto, e há cachecóis, equipamentos, cartões de sócio, etc, etc, etc, é mesmo ser do contra! Os irmãos desesperam a tentar convencê-lo. A Nonô (gémea) desespera-se porque, na sua cabecinha obcecadamente metódica, o irmão não pode ser de uma coisa diferente, sobretudo porque o pai fica triste. E o pai desespera-se porque... bem, vocês entendem porquê. Eu é que não, porque sofro daquela doença que às vezes ataca as mulheres, e que as faz pensar que é um profundo disparate sofrer tanto e gastar tanto dinheiro com simples jogadores que andam a correr atrás de bolas. Eu sei, eu sei... tenho este problema, talvez um dia me cure. Por enquanto, tenho de ir tentando convencer o Dudu a ser do Porto, e rir-me só às escondidas quando ele bate o pé e afirma, de peito cheio:
- Dudu Pôto, não. Dudu Benfica. Ben-fi-ca! Ben-fi-ca! Ben-fi-ca!
- Ó mami! Não consigo dormir! Tens de tirar aquele quadro da minha parede...
- Qual quadro, Afonso?
- Aquele assustador que está por cima da minha cabeça.
- Aquele és tu, filho! E estás lindo!
- Não estou nada... Pareço um zoombie. Se não tirares o quadro não consigo dormir.

(Mãe, sem paciência, esconde o quadro no gavetão da cama)

- Ó mami! Continuo sem dormir.
- Sabes o que é que a mãe faz quando não consegue adormecer? Penso num quadro branco e depois vou percorrendo os cantos, um a um, até me chegar o sono.
- E eu, sabes o que faço quando não consigo adormecer? Vou para a cama da mamã...

(Mãe, sem paciência, levanta-lhe o lençol. Eu sabia que não era boa ideia deixá-lo ver o Scary Movie hoje de manhã...)
(Mamã com pressa)
- Meninos, vamos embora!
(Nonô, 2 anos, a única princesa da casa)
- E as meninas, mamã?
- O meu outro filho não fazia assim, o meu outro filho não dizia assado...

Porque comparamos os filhos? Será essa uma forma de aprendermos a ser pais?
E quando o fazemos à frente deles? Será uma forma de os ensinarmos a ser filhos?

Se o assunto vos interessar, espreitem o segundo artigo que escrevi para o blog do Consultaclick.

http://consultaclick.pt/blog/2012/01/20/comparar-ou-nao-comparar-eis-a-questao/
- Meninos, prometam-me que se vão portar bem. POR FAVOR!
O aviso estava dado aos mais velhos, que, já com três meses de atraso, iam finalmente à consulta anual. Vinham excitados da escola, ainda não tinham levado o apertão habitual do final do dia para fazerem os trabalhos de casa e se comportarem à mesa e, assim que entraram no gabinete da pediatra, soltaram toda a palermice que ainda havia por gastar. Enquanto tentava manter a serenidade em frente à pediatra (que felizmente conhece melhor do que eu a idade da parvoíce), vi meias a voar, desfiles em cuecas e ouvidos moucos aos meus olhos arregalados (que soltaram berros).
Controlei a fúria até ao estacionamento das Amoreiras, onde lhes dei uma ensaboadela das antigas. "Desculpa, mami", "Desculpa, mãezinha", "Não tornamos a fazer", mas nos entretantos a pediatra deve ter respirado de alívio e pensado que ainda bem que as consultas nesta fase são só uma vez por ano... Já eu, não só respirei de alívio como prometi a mim mesma que, para o ano, levo o pai comigo (é que os olhos dele falam ainda mais alto!!)
Os gémeos e a disputa de sua mamã:

(Nonô, 2 anos, gémea menina)
- Nonô é da mamã, Dudu é da Lana (empregada ucraniana).
- Não. A mamã é dos dois.
- Na, na, na. Mamã Nonô, Nonô Mamã.

(Dudu, 2 anos, gémeo menino, a ver-me com a mana ao colo numa perna)
- Mamã, qu'ei colo.
(Mamã ergue-o para cima da sua perna livre)
- Não, mamã. Qu'ei colo dois.
- E a mamã tem os dois ao colo, Dudu. Os dois maninhos.
- Não! Dudu qu'ei colo dois pernas.
(Sebastião, 6 anos, após o banho)

- Ó mami, por que é que eu tenho o rabinho durinho, e tu tens o rabinho molinho?

Sem comentários, ok?
"Muita imaginação, mas é preciso atenção à pontuação".
Era mais ao menos isso que dizia na ficha de avaliação do meu filho mais velho (8), e que me fez sentir a pior mãe do mundo. É verdade que estou sempre a puxar pela imaginação dos meus filhos... mas como posso ter negligenciado a pontuação? Que espécie de mãe escritora sou eu?
Ontem, decidi sentar-me ao lado do meu filho para o ajudar na sua composição. Ele pegou no lápis para começar a escrever e eu mandei-o pousá-lo:
- O que é que vais escrever, Afonso?
- Uma história sobre os Reis Magos.
- Mas já sabes o princípio, o meio e o fim da tua história?
Não sabia, claro. Ia contar umas coisas. Então a obriguei-o a puxar pela cabeça. E a pensar no que queria dizer a quem o fosse ler.
- Ó mami, mas ninguém vai ler isto. Nem sei se a professora vai ter tempo!
- Não interessa, Afonso. Não estás a escrever para ti. Estás a escrever para que te leiam. Por isso tens de escrever sempre a melhor história que conseguires para aqueles que te poderão ler.
Ficou entusiasmado. E pegou novamente no lápis. Mandei-o pousá-lo novamente.
- Tens de pensar no teu arranque, Afonso. Se as tuas duas primeiras linhas forem uma seca, ninguém vai querer ler o resto. Nem a tua professora!
Pensou. E a história dos Reis Magos começou com uma noite fria em que estes andavam perdidos no deserto. Quando dei por ele, já tinha criado um quarto Rei Mago e já queria que ele partisse uma perna e vivesse uma aventura no castelo do HErodes. Tive de refreá-lo e pedir-lhe que guardasse a imaginação para histórias menos sagradas. Mas, mesmo com freio, ficou uma história bem construída, com princípio, meio e fim. E ele percebeu exactamente que tipo de erros cometia na pontuação.
- Há escritores que quase nao usam pontuação, nem separam as falas do texto, Afonso. Mas primeiro precisas de escrever correctamente. Depois logo podes criar um estilo próprio. E encontrar a tua própria originalidade.
- O que é isso, mami?
- É encontrares qualquer coisa que só tu faças. Para, quando os teus colegas lerem um texto teu, saberem logo que foste tu que o escreveste. Porque só tu escreverias assim.
- E qual é a tua originalidade, mamã?
- Bem... a mamã também ainda está à procura dela. Por isso ainda escrevo de forma muito certinha. Mas um dia vou encontrá-la... E tu vais encontrar a tua.
E ontem, perante uma nova composição, decidiu acabá-la com uma rima escrita no centro do texto.
- Posso fazer isto, mami?
- Podes. Vai ser a tua originalidade?
- Vai. Mas não podes copiá-la, mami!
Combinado, pequeno Afonso. E que a tua imaginação nunca te falte...
O meu filho mais velho (8 anos) anda completamente viciado na leitura! De manhã lê o Capitão Cuecas, aos intervalos lê o Principezinho, à noite lê o livro que requisitou na biblioteca. Nas aulas, despacha o que a professora pede aos alunos com rapidez para ler o livro que tem debaixo da mesa ("É para não ficar parado, mami. Antes isso do que me pôr a conversar, não achas?"), e os TPC também são feitos muito mais depressa para despachar mais um livrito ou dois.
Depois de três anos a julgar que não ia ter um grande leitor (mesmo depois de todo o investimento em livros e histórias de boa-noite), o meu escritorzinho em potência despertou finalmente para a leitura, e agora até me pergunto se não será demais. "Agora podes ir brincar, ok, Afonso?". "Mas eu estou a ler, mami..." E no outro dia um pai de um coleguinha veio dizer-me que se meteu com ele num intervalo, enquanto ele lia o seu livro, e que ele foi respondendo com monossílabos, forçando um sorriso para não ser antipático, mas com um nítido ar de "cala-te lá, pá, que eu estou a ler".
- E o que mais me impressionou - contava o pai - é que estava uma barulheira enorme, e ele conseguia concentrar-se.
Pois... digamos que, para ler livros numa casa com três irmãos mais pequenos, o meu filho foi obrigado a desenvolver capacidades especiais de concentração. O problema é conseguir que ele regresse à Terra antes de ler a última página...
(Afonso, 8 anos)
- Mami, podes contar a história aos manos, enquanto eu leio o meu livro no quarto?

Eu sabia que este dia chegaria... Custa, mas um dia eles têm de crescer, e preferir o seu momento sossegado de leitura à história atrapalhada contada pela mamã, tentando manter todos sentados enquanto se debate com diferentes vozes e gestos.

- Mas depois vais dar-me um beijinho de boa-noite?

Felizmente, não se perde tudo de uma vez...
Despachada a varicela cá em casa, voltámos à tranquilidade (dentro do género) e às histórias de boa noite, sem comichões nem birras febris. E voltou também a aula semanal de Filosofia para os mais velhos. Que talvez tenha que chamar antes de "aula semanal de criatividade", dada a loucura em que habitualmente ela termina. Hoje, o tema foi "Porque existimos". E, entre uma reflexão sobre a nossa espécie e o que ela cá anda a fazer, o Afonso recordou que veio de outro planeta depois de ter sido coroado herói. Foi trazido pelas vacas voadoras, que o fizeram descer nas suas tetas até à barriga da mamãe. O costume. O que me surpreendeu desta vez foi a história do Sebastião, que habitualmente fica calado, com dificuldade em acompanhar os delírios do irmão mais velho. Hoje, tinha uma história. E era bem boa!

- Eu decidi nascer porque tinha muita fome!
- Fome, Sebastião?
- Sim, nas nuvens só bebia água. E eu lá de cima via as pessoas a comer, a comer... Então resolvi nascer para comer muito.

E pronto. Ficou explicada a história do meu Anjinho Sebastião, e a razão do seu percentil 95 durante os primeiros 6 meses de vida...
A minha Nonôzinha, de 2 anos e meio, põe o colar da kitty, a pulseira das estrelas, a mala dos lápis cor-de-rosa ao ombro e o computador das princesas na outra mão. Vem ter comigo e diz:

- Mamã... Nonô igual à mamã, não é?

Não é de os comermos com beijinhos?
As borbulhas a crescer... e a paciência da mãe a diminuir, diminuir, diminuir...
Depois de um dia inteiro a sossegar as borbulhas dos meus gémeos, ainda recebo o telefonema alarmado da minha cunhada, com quem passei ontem o dia:
- Os meus filhos estão com piolhos. É melhor veres as cabeças dos teus...
Não achei nenhum, finalmente, mas o fim de tarde foi maravilhoso, entre banhos de Maizena, Caladryl, Stop Piolhos e catagem com pente de metal. Se achava que uma empresa de catagem ao domicílio me deixaria rica, agora acho que uma empresa que combinasse catagem com tratamento anti-varicela 7 Dias ao domicílio me deixaria milionária! O problema é que os filhos, quando têm estas coisas, só querem as mamãs, e isso não há empresa nenhuma que consiga contornar...
Refeição em família, entre as aulas da manhã e as aulas da tarde dos filhos, é um privilégio para muito poucos, hoje em dia. O que se perdeu? Numa casa com quatro filhos que gostam pouco de comer, e uma mãe a precisar de algum tempo e serenidade para conseguir trabalhar, o que se ganhou?

Este é o primeiro de alguns artigos que estou a escrever para o blog da Consulta Click, e que podem ler em:

http://consultaclick.pt/blog/2011/12/20/comer-em-casa-ou-na-escola/

Agora vou tratar de pensar no almoço dos 4 filhos que tenho em casa de férias...
Depois de uma semana de férias sem filhos, onde dormi uma média de dez horas por noite, regressei a tempo do Natal, dos miminhos, dos abracinhos, dos sorrisos, das fotos de família, dos doces e dos presentes. Com a paciência renovada, senti-me preparada para qualquer birra, qualquer resposta torta, qualquer choro sem razão, qualquer impaciência. Avizinhava-se uma semana em casa com todos, muito trabalho e muita imaginação necessária para entreter os piolhos. Não sabia era que teria que me preparar também para um extra: varicela... a dobrar! Hoje, entre brincadeiras, trabalho no computador, filmes na tv e arrumações, ainda tenho que lidar com banhos de maizena e caladryl nas borbulhas de água que invadem a pele dos meus gémeos de dois anos... Acho que, de hoje a uma semana, estarei a precisar de outra semana de férias sem fihos... Bom Natal!!!
Prestes a deixar os nossos filhos uns dias com os avós, para descansarmos o corpo e a alma, resolvemos perguntar à Nonô (2 anos e meio) se ela queria um presente das nossas férias.

- Sim... Colar Kitty. Colar Kitty.
O pai abraçou-a, já cheio de saudades.
- O pai vai comprar um colar da Kitty à Nonô.
E eu fui logo atrás, juntando-me à festa.
- Os papás vão procurar um colar lindo para a Nonô, está bem?
- Não, não - disse logo ela. - Papá colar Kitty à Nonô.
- É só o Papá? E a mamã? Não oferece nada?
Momentos de introspecção.
- Sim. Mamã brincos à Nonô. Brincos Kitty.

Não há hipótese. Mesmo com 3 irmãos à perna, esta miúda é mulher e pronto!
Eu explico a minha ausência no blog: A MINHA QUERIDA MILA FOI-SE EMBORA!!! E a minha vida está um caos. Entre trabalho extra mega redobrado, presentes de Natal, filhos gémeos doentes, filhos mais velhos com testes, festas de Natal e encontros inesperados para trocar prendas, a minha empregada ainda resolveu ir-se embora. Um dia depois de obter a autorização de residência no SEF, veio comunicar-me, a chorar, que queria voltar para a Ucrânia. Depois, a ferros, lá consegui arrancar-lhe que ia só à Ucrânia passar o Natal, e depois voltava, mas já não estava para nos aturar. E como eu a percebo!! Eu no lugar dela também já me tinha posto na alheta há muito tempo!

Entrevistas, agências, mailes, perfis... e acabámos por ficar com uma amiga da nossa Mila, que fala tão mal português como ela. Assim que a vimos com um sorriso disponível e vontade de arregaçar as mangas, perguntámos-lhes logo quando podia começar. E o Afonso saiu-se com esta:
- Ó Mila, as suas amigas têm todas dentes de ouro?

Chama-se Lana, diminutivo de qualquer coisa impronunciável para um português. Sabe fazer massas de empadas e bacalhau à brás. Fora isso, não percebe o que lhe digo, não sabe onde guardar a roupa de tanta gente diferente, não faz ideia o que os miúdos têm de vestir e comer em cada dia da semana, e eu também não tenho tempo para lhe explicar. O que vale é que, no próximo sábado, vai Lana, e filhos, e cão, e tudo para casa dos meus pais, enquanto eu e o meu marido vamos... DORMIR NUM HOTEL ARRUMADO!!!
Há anos que luto para que os meus filhos mais velhos desçam dos quartos com os robes vestidos e as pantufas calçadas. Sem resultados à vista...
- Outra vez sem robe?! E as pantufas?! Ficam constipados, meninos!!!
Pois a minha filha Leonor, com apenas 2 anos, assim que acorda vai buscar as pantufas, ajeita o seu robe e pega num gancho para eu lhe prender o cabelo durante o pequeno-almoço. E, muito direitinha, assoma no cimo das escadas:
- Mamã... a Nonô já acordou.

Somos espécies diferentes, não restam dúvidas...
No carro, de regresso a casa:

(Mãe) - Então, filho, como é que te correu o teste de Estudo do Meio?
(Afonso, 8 anos) - Correu bem, mami. Só não sabia se o "ténis" pertencia ao aparelho reprodutor masculino ou feminino...

Aulas de sexualidade precisam-se com urgência cá em casa...
(mamã e Sebastião, 6 anos)
- Sebastião, queres que a mamã te ajude a fazer o teu primeiro livro?
- Não, mamã. Eu não quero ser escritor. Isso é o Afonso.
- Então queres ser o quê? A mãe faz qualquer coisa que tu queiras ser.
- Quero ser construtor de casas.
- Boa! Então vamos construir uma casa... de legos.
- Não, espera... eu quero ser construtor de casas... se não ganhar o euromilhões.
- Então se ganhares o euromilhões... não fazes nada, Sebastião?
- Estava a brincar... Faço, claro.
- Então fazes o quê? Constróis casas?
- Não. Conto as notas...
Faz hoje uma semana, enviei os meus filhos para a escola com os seus ténis xpto para participarem no primeiro corta-mato deste ano. Os pais eram convidados a assistir, mas não me dava jeitinho nenhum, por causa do trabalho acumulado da semana e a perspectiva de uma fim-de-semana sem conseguir fazer nenhum. Mas às dez da manhã começou a subir-me um formigueiro de boa mãe, das teclas do computador já não me saía nada, por isso resolvi meter-me à estrada e dar uma saltada à escola. O corta-mato do Sebastião já estava a terminar, só tive tempo de o ver chegar à meta cá bem atrás, e de lhe dar um beijo de consolo.
- Ouviste a mãe a gritar por ti?
- Não... Onde é que estavas?
- Ah... hum... ali atrás.
Mentirinha piedosa. Culpa! Porque é que o formigueiro não me deu mais cedo? Cinco minutos e ainda gritava a plenos pulmões um SE-BAS-TI-ÃO que lhe daria asas.
Mas ainda tinha uma derradeira oportunidade. Começava agora o corta-mato do Afonso. Esqueci os pais, esqueci os padres, esqueci as figurinhas que estava a fazer, e comecei a dar indicações ao meu filho:
- Encostas-te à direita... Tens de correr logo depressa, depois quando estiveres no pelotão da frente é que começas a dosear a velocidade. E respira. Nariz, nariz, boca. Nariz, nariz, boca.
E lá foi ele que nem uma seta. Encostado à direita, no pelotão da frente, a respirar, com uma mãe que esqueceu as figurinhas e ia gritando a plenos pulmões: "Vai, Afonso! Força! Está quase!"

Ficou em segundo. E, quando subiu ao pódio para receber a medalha, até tive que disfarçar uma lagrimita.

São coisas de nada. Se calhar, se eu não tivesse lá ido, ele tinha em segundo de qualquer forma. E se eu tivesse ido mais cedo, o Sebastião tinha ficado lá para trás de qualquer forma. Mas o estar lá para um e para outro, com mais atraso ou menos figurinhas, com medalhas ou sem elas, naquele dia, para mim, fez toda a diferença.
Depois de quinhentos mil disparates seguidos do meu endiabrado Dudu (2 anos), olhei para ele, furiosa, e saiu-me um:
- Grrrrrrrrrrrrrrrrr!
Depois virei costas, respirando fundo, para não o virar ao contrário. Mas o meu Dudu tem esse condão de conseguir ser maroto e irresistível ao mesmo tempo. Por isso chamou-me, com o seu melhor sorriso:
- Mamãaaaaa....
Olhei para ele, já mais calma, e ele imita-me, com o mesmo ar enfurecido:
- Grrrrrrrrrrrrrrrr! Mamã leão. Grrrrrrrrrrrrrr!

Pronto... antes "mamã leão" do que "mamã louca". Pelo sim, pelo não, vou cortar a "juba".
Sistemas digestivo e respiratório, frases com ditongos, pautas com sustenidos, problemas matemáticos e sólidos, solfejo, conjuntos e operações... Se dantes trabalhava até às 17.30h, era motorista até às 18.30h, e mãe até às 21.30h, para voltar a ser novamente trabalhadora (quando deveria ser companheira do marido, outra profissão exigente, mas a falta de tempo não tem ajudado :(), agora ainda tenho de ser professora das 18.30h às 19.30h e professora de música das 21h às 21.30h. Eu nem quero pensar o que vai ser quando tiver os meus quatro filhos com trabalhos de casa, testes, avaliações, treinos e audições... Ser mãe também é isto, mas também é abraçá-los e ouvi-los sem ralhetes, exigências e obrigações. Façam mais Domingos por semana, por favor!
Depois de um bom banho, mãe inspecciona ao espelho a pele do rosto, o cabelo, as sobrancelhas, os dentes. E, ainda que não totalmente satisfeita com o que vê, sorri, para começar bem o dia. Foi quando percebeu que tinha o pequeno Dudu, qual duende maroto, atrás de si, a olhar também para o espelho. Sorria também (e é impressionante como o sorriso dele é igual ao da mamã!) e disse baixinho "Mãe linda".
E o sorriso da mãe encheu-se de uma satisfação que nenhumas olheiras, pêlos supérfulos ou cabelos ressequidos podem apagar...
(Sebastião, 6 anos, aflito) Mãe, o que é isto aqui na tua cabeça?!?
(Mãe) É um gancho, filho.
(Sebastião) Ufa! Pensava que te estava a nascer uma antena...

Dantes temiam-se os corninhos. Agora temem-se as antenas...
Todos os dias, entre as 21.15h e as 21.30h, depois do jantar (das 20h às 20.30h), da história dos mais novos (das 20.30h às 21h, enquanto os mais velhos recebem miminhos do pai) e da história dos mais velhos (das 21h às 21.15h, enquanto os mais novos adormecem ), é a hora da música cá em casa. Ou melhor... o quarto de hora! A rigidez nos horários às vezes chateia, mas é a única forma de conseguirmos pôr ordem numa casa com tanto piolho irrequieto.
O quarto de hora da música começou por ser algo semelhante a "uma mãe chata a querer ouvir o filho mais velho tocar notas nos tempos certos". Depois passou a ser algo tipo "uma mãe chata a obrigar o filho mais velho a treinar as músicas compasso a compasso". Depois transformou-se em "mãe e filho mais velho tocam músicas em conjunto enquanto segundo filho chateia que também quer tocar". E, nas últimas semanas, depois de algumas de "mãe toca com o filho mais velho e depois obriga o segundo filho a treinar", temos finalmente "mãe e seus dois filhotes tocam em conjunto". Ainda só vamos no "Balão do João", nada de muito complicado, mas naquele quarto de hora mágico não há "Come!", nem "Despacha-te", nem "Estão-me a tirar do sério!". São 15 minutos de música e só música... e que bem que sabe!
E aposto que qualquer dia vamos ter "filhos que obrigam a mãe a treinar para poder acompanhá-los".......
(Mamã) Dudu... quem te fez esse arranhão na cara?

(Dudu, 2 anos) Foi o leão... Ai, ai, leão!
Depois de dar uma valente ensaboadela aos meus filhos mais velhos por causa do tom cada vez mais gozão com que se dirigiam à minha excelentíssima pessoa, sua estimada mami, percorremos uns metros de carro num silêncio reflexivo. Até que o Afonso sai-se com esta:

- Mamã Sara, pode andar mais depressa, por favor? Estou aflitinho por urinar e defecar...

E pronto... desmanchei-me a rir, e lá foi o respeitinho pelo cano abaixo...
Para combater a minha falta de paciência perante o trânsito insuportável que estava hoje, resolvi contar aos meus quatro filhos a anedota dos dois mosquitos que andavam a passear de mota. Um deles disse "ai"... tinha-lhe entrado uma mosca para olho!
O Afonso não riu e exclamou:
- Ó mami... as anedotas do teu tempo são todas seca!
Repetem os dois gémeos, a bater com as perninhas nas cadeiras:
- Seca! Seca! Mãe seca!
Só ao Sebastião lhe vislumbrei um sorriso e mantive a esperança.
- O Sebastião achou graça!
- Não achei, não, mamã. Estou a rir dos teus olhos esbugalhados e das tuas bochechas gorduchas...

Estou bem arranjada com estes quatro. Ai estou, estou...
(Sebastião, 6 anos)

- Ó mãe, tu és a única escritora do mundo?

Das duas uma: ou ele gosta mesmo dos livros da sua mamã e anda orgulhosamente cego por ela, ou a mamã anda a ler-lhe demasiados livros seus, sem explicar devidamente que todos os outros são escritos por terceiros.

Tenho uma leve impressão que a segunda opção é a mais correcta... :(
Depois de termos passado umas horas de Domingo a recortar os primeiros brinquedos de uma revista e a colarmos numa folha que é um primeiro protótipo de carta ao Pai Natal, com o Afonso (8 anos) a levar umas cotoveladas cada vez que quase dizia que o Pai Natal não existia, o Sebastião (6 anos) sai-se com esta:

- Tu achas mesmo que eu acredito no Pai Natal, mami?
- Não acreditas?
- Ó mami... Eu não sou totó!

E pronto. Lá se foi a magia do Natal com uma singela frase aprendida no Nickelodean...
Um monte de legos espalhados pelo chão. A Nonô separa as peças cor-de-rosa e roxas e começa a empilhá-las ordenadamente. O Dudu apanha as primeiras peças que estão ao seu alcance e encaixa-as atabalhoadamente. A sua torre cai, invariavelmente. E ele derruba a torre da Nonô, divertidamente. A Nonô chora e faz queixinhas... irritantemente. O Dudu começa outra torre como se não fosse nada... descontraidamente.

E, neste simples jogo entre um par de gémeos de dois anos, encontro diferenças fundamentais entre meninas e meninos. E, saudosamente, tenho de recordar a minha amizade desde sempre com o João Reis, um grande amigo com quem costumava passar as férias grandes. Em crianças, ele adorava irritar e desorganizar as minhas brincadeiras ordeiras. Depois, na adolescência, era eu quem complicava as suas brincadeiras simples, porque me achava mais crescida, porque achei mais cedo que tinha razão. Depois começámos a achar graça aos amigos que o outro tinha, mas tomávamos conta um do outro. Depois começámos a ter conversas fundamentais sobre o futuro. Apoiámos as decisões importantes um do outro. E hoje, com as respectivas diferenças (entre outras coisas, de género) somos grandes amigos. Espero que seja assim também com os meus filhotes gémeos, e que as suas diferenças (entre outras coisas, de género) se traduzam também em algo tão salutar.
Acredito que os meus filhos tenham algum orgulho na sua mami. Mas, como crianças que são, têm também a sua sinceridade à flor da pele. E ontem, depois do lançamento de "Frei Livrinho de Sousa" (o meu último livro infantil - passo a publicidade), o meu filho mais velho saiu-se com estas:

- Quando estás a falar, mami, ris-te muito das coisas que dizes. Mas nem sempre tens muita graça...

(e vai uma!)

- Esqueceste-te de agradecer ao papi, mami...

(e vão duas!)

- A tua história devia ser mais divertida. Onde é que está o Afonso que há em ti?

(e vão três!)

Andamos nós a fazer de tudo para lhes elevar a auto-estima, e eles desfazem a nossa em três frases... Nem quero pensar como vai ser na adolescência...
É noite, estou a tentar trabalhar, mas o meu filho Sebastião chama por mim aflito, com mais um pesadelo que, esta noite, tem ido e voltado vezes sem conta. Tiro o computador do colo, subo até ao quarto, abraço-o, fecho-lho os olhos assustados, sussurro-lhe um "Está tudo bem" e volto ao meu teclado. Já o fiz três vezes esta noite. E, cada vez que subo e torno a descer, o trabalho parece-me menos importante, mais descartável, menos imprescindível. "Está tudo bem" mas não está. Vou mas é fechar esta tampa e deitar-me com ele. "Agora, sim, vai estar tudo bem, a mamã está aqui." E ele vai adormecer por fim.
Boa noite!
Hoje foi novamente noite de "Filosofia para Crianças" com os piolhos mais velhos. O capítulo até era bem puxado - "Porque é que o homem existe?" - e andámos a deambular pelos dinossauros, por Deus e pelo mal que o homem anda a fazer ao seu planeta. Mas tudo descambou quando se colocou a pergunta que a mim me tem interessado particularmente nos últimos tempos: "Será o homem superior às outras espécies?". O Sebastião (6 anos) pensou um bocadinho, com ar sério, e disse que sim. Mas eu queria saber mais. Queria saber porquê. Afinal, o que é que o homem faz de tão especial para ser superior? E o Afonso (8 anos), olhou para mim com o seu ar alucinado, abriu os braços e começou a cantar:

Andar pelo espaço
Lutar com uma múmia
A torre Eiffel vais escalar
Achar uma coisa que não exista
Ou pôr um macaco a brilhar
Surfar num marremoto
Criar aerobots
O Frankanstein desafiar
Encontrar um dodó
Pintar um continente
Ou pôr a MAMI a gritar

E a sessão de filosofia terminou com piolhos a pular em cima da cama e a mami a rir à gargalhada!
Tantos filósofos debruçados ao longo de tantos anos sobre o Existencialismo... e afinal toda a razão da nossa superioridade está contida na canção de abertura do Phineas e Ferb...
Os gémeos viram hoje o seu primeiro teatro. "A Cigarra e a Formiga" reiventadas na Academia de Santo Amaro fizeram-nos bater palmas, cantar, responder aos insectos com tamanho de gente, e gritar coisas como "Rainha Nonô" (para a Rainha das Formigas) e "Fanhoto Dudu" (para o Gafanhoto). Os manos mais velhos também fizeram a festa e acompanharam os manos mais novos nesta sua primeira aventura. O único senão foi ver fugir 52 euros em duas horas. Bem passadas, é certo, mas até ao próximo mês os teatrinhos a 6 vão ser caseiros, e os insectos vão ser mesmo aqueles que há no jardim...
(Leonor, 2 anos, a olhar para a minha barriga engelhada no pós-banho)

- Mamã velhota... Mamã velhota.

Não sei se ria, não sei se chore...
As aulas de Catequese deixam sempre o meu filho Afonso inquieto. Hoje as dúvidas eram mais do muitas:

- Se as mães podem trocar os bebés quando nascem, como na história do Salomão. E se ele não for mesmo meu filho?
- Se Deus também me pode pedir para o matar para testar se eu tenho fé em Deus, como pediu a Abrãao.
- Se Adão e Eva não tivessem comido o fruto proibido, não havia doenças como o cancro, que também pode matar as crianças?

E depois lá tenho que ir eu acalmar o rapaz e evitar os pesadelos, dizendo que são histórias figuradas, que faziam sentido na sua altura, e que outras, se foram reais, tinham a ver com a época em que aconteceram.
Eu sei que não sou ninguém para falar, mas que tal uma catequese com parábolas e histórias positivas, com ensinamentos práticos para a vida?
Começámos a introduzir a História de Portugal cá em casa. A viagem recente a Guimarães abriu o apetite dos mais velhos (sobretudo do mais velho, porque o de 6 anos ainda tem mais apetite por... bolachas de chocolate) e explorámos a formação de Portugal, o amigo Afonso Henriques e as suas conquistas aos mouros. Mas o que chamou verdadeiramente a atenção do Afonso (o cá de casa) foi a Batalha de São Mamede. A ideia de um filho a combater a própria mãe fez-lhe imensa confusão, e ficou a pensar no assunto. No final da "lição" sai-se com esta:

- Ó mami... mas a batalha deles foi uma batalha tipo... tipo de xadrez?

Ah... era tão bom que tudo se resolvesse assim tão facilmente! Pelo sim, pelo não, e porque vem aí a adolescência, vou-me pôr a estudar as regras do jogo...
A minha Nonocas recebeu a sua primeira casinha de bonecas!!! Bem, é pequenina, e em vez de bonecas, tem a família da Kittie. Ainda não é aquela CASA DE BONECAS com que eu sempre sonhei, e que enche uma parede inteira, cheia de divisões e bonecos com tamanho de gente. Mas os sonhos da minha filha também não são tão extravagantes como os da mãe, por isso ela ficou mais do que satisfeita com a sua pequena casinha de plástico, de 50 cm. E foi maravilhoso ver os seus olhinhos a brilhar enquanto abria a porta da casinha, a montar a sala, e o quarto, e a colocar, uma a uma, as personagens da família. Na sua delicadeza de dois anos, enfiava os dedinhos e montava tudo direitinho, com a sua motricidade fina ao rubro, algo inédito para mim, que até hoje ainda só tinha tido rapazes abrutalhados que desfazem tudo o que tocam. Lindos e amigos da mamã como tudo, mas com umas mãozinhas desastradas que agarram tão bem uma bola de futebol, como esburacam as folhas dos cadernos e desfazem brinquedos à pancada.
E sim, o meu desastrado número 3 (o meu querido Dudu), curioso com o novo brinquedo da Nonô (ele escolheu um carrinho das compras cheio de legos), tentou enfiar as suas mãozinhas nas pequenas divisões da sala. E destruiu todo o pequeno chá que a Nonô tinha proporcionado à família Kittie.
Sim, meninas e meninos são definitivamente de espécies diferentes. E sim, quando tivermos a mega casa de bonecas cá em casa, vamos ter que alternar entre os delicados dias do chá com bonecas, e os dias dos Homens Aranha a trepar pelas divisões, com uma ou outra baixa inevitável no mobiliário...
Começámos, por fim, "O Sentido da Vida" (colecção "Filosofia para Crianças"). E, depois de perguntar aos meus filhos o que é que eles precisavam para serem felizes, o Afonso sai-se com esta:

- Então? Para ser feliz basta ter vida.
- Ah... Basta ter vida para se conseguir ser feliz.
- Claro, mãe. Desde que se viva pode-se ser feliz.

E pronto. Deixámos a Filosofia e passámos ao novo Atlas da Porto Editora. É muito bom filosofar, mas é muito melhor ainda saber que tenho filhos felizes para quem basta... viver.
Adoro o verão. Sinto-me muito melhor no verão. Mas este ano tenho uma forte (e absolutamente fútil) razão para querer que o Inverno se instale: a minha Nonô tem roupinhas liiiiiiindas para a estação que aí vem... Começa amanhã o desfile :)
Adoro a colecção "Pequenos Filósofos". E adoro filosofar com os meus filhos. Eles a princípio estranharam, mas depois entranharam, e já gostam imenso dos livros que lhes colocam questões importantes, difíceis de responder porque nem tudo é simples, nem tudo é evidente... e é essa a beleza do ser humano.
Lembro-me de uma vez dedicarmos a noite da história à pergunta: Como é que eu sei o que é o bem e o mal. E de concluirmos que, quando eles não souberem se algo é certo ou errado, devem perguntar aos pais, porque nós existimos para isso mesmo, para os orientarmos.

- Ó mami, e se vocês morrerem? (pergunta feita pelo Afonso, claro...)
- Sempre que nós não estivermos presentes, podes perguntar a outros adultos em quem confies, como os avós, os tios, os teus professores... Mas os pais ainda vão estar muito tempo do teu lado, para te ensinarem o que tu precisas de saber. E depois, pouco a pouco, vais começar a pensar cada vez mais por ti, e a conseguires perceber a diferença entre o que é certo e errado.

Não lhe contei, claro, que os pais às vezes também têm dúvidas. E que às vezes ainda têm que ir perguntar aos pais. E que há uma idade em que queremos fazer exactamente o contrário daquilo que os pais nos dizem. Até percebermos que os pais têm razão... em algumas coisas. Noutras não. Mas por enquanto é melhor não complicar demasiado, e deixar que as complicações cheguem com o tempo.

Hoje vamos começar "O que é a vida". Logo conto como correu...
Depois de uma viagem de carro em que o Sebastião me perguntou 20 vezes quem tinha inventado tudo aquilo que se cruzava no nosso caminho, resolvi perguntar-lhe:

- Ó Sebastião, tu que nunca sabes o que queres ser quando fores grande... já pensaste que se calhar vais ser inventor?

Os olhos dele, grandes, os maiores da família, brilharam de entusiasmo.

- É isso, mami. Vou ser inventor.

E, das perguntas sobre tudo, passou a perguntar apenas silêncios, daqueles que incomodam os pais (os pais que tantas vezes pedem aos filhos para se calarem, ficam sempre intrigados, às vezes até preocupados, com os seus silêncios):

- O que tens, Sebastião? Estás muito calado...
- Estou aqui a pensar, a pensar, a pensar... e não consigo inventar nada!

Pobre Sebastião... Se fosse assim tão fácil inventar alguma coisa! Mas vai continuando a pensar, filhote. E a perguntar tudo o que quiseres. Até se fazer luz nessa tua cabecinha linda.
(Sebastião, 6 anos, a preencher comigo um inquérito que nos chegou da escola)

- E qual é o teu livro preferido, Sebastião?
- O Frio.

(O Frio é o romance que a mamã publicou há uns meses, que é tudo menos próprio para a idade dele. Ainda bem que o inquérito foi preenchido em casa...)
(A explicar o sistema circulatório ao meu filho Afonso)

(mãe) E o pulmão direito é maior do que o esquerdo, porque do lado esquerdo temos...
(Afonso) O Bloco de Esquerda!
(mãe) Não, filho. Concentra-te. Do lado esquerdo temos o cu...
(Afonso) O cu, mãe?!?
(mãe) Não, filho, o cu... continua...
(Afonso) O... o... "cuelho". O Passos Coelho. Mas esse é à direita!

Definitivamente, andamos a ver demasiados debates políticos cá em casa...
Pronto, rendemo-nos. Já somos Bimbólicos. Os sogros preocuparam-se com o estômago do genro (já que o estômago da filha se contenta com pouco, e a filha propriamente dita tem pouca paciência para perder muito tempo a preparar iguarias para o estômago dos outros) e ofereceram-nos uma Bimby. Já fiz Bacalhau Espiritual, Lulas com molho de mostarda, arroz de cogumelos, pato com laranja e rolo de carne. Algo que jamais faria em situações "normais" (até porque o resultado seria, provavelmente, desastroso). Mas o pai bate-me aos pontos. Como acorda sempre às 6 da manhã, entretém-se a preparar brioches, pães com chouriço e scones, que estão quentinhos, acabadinhos de fazer, quando o resto da família acorda. Irresistível...
Querem ver que é à custa da Bimby (e do marido) que eu engordo?
A ver um Prós e Contras sobre austeridade, oiço interessantes ideias sobre educação. É preciso que os professores ensinem reciprocidade, que ensinem liderança, que ensinem gestão, que ensinem motivação. Estou 100% de acordo. Sem grandes soluções económicas a curto prazo, é tempo de nos voltarmos finalmente para as soluções a médio e longo prazo. É tempo de nos voltarmos para aqueles que são o futuro do país. É neles que reside a semente da mudança.
E só peço que não se pense apenas aos professores como garante dessa mudança. Também aos pais tem de caber a responsabilidade de formar os seus filhos nesse sentido. Se é de valores que estamos a falar, há valores que só se aprendem em casa. Dêem-se condições aos professores. Mas dêem-se também condições aos pais para o fazerem.
Sábado passado tentei levar os meus filhos ao Dia D da Gulbenkian... mas, claro, já estava esgotado. Aliás, ultimamente tenho sido perita em tentar fazer programas para os quais já não há bilhetes. É que há pais organizados, que programam as visitas culturais dos filhos, que organizam os seus fins-de-semana, que estão a par de todos os eventos interessantes que acontecem e estão para acontecer... Depois há pais tipo eu, que anda a reboque dos filhos, com o computador atrás, que nunca sabe quando vai ter um fim-de-semana sem uma festa de anos, sem um trabalho extra, sem um cansaço adicional. Quando tudo se proporciona, as energias estão no sítio certo, e a logística funciona, abro a Estrelas&Ouriços, escolho o programa certo (o que não é fácil, dado que são 4 filhos com idades diferentes) e... já não há bilhetes! Grrrrrrrrr
Enfim, no Sábado, depois de me conformar com a ideia de que não sou uma mãe organizada, falei com uma amiga que me sugeriu irmos ao CCB ouvir os 1001 Músicos. Música, porta aberta, sem limite de idade... perfeito! Lá fomos nós.
A verdade é que os meus filhos, apesar de estudarem música, não estão habituados a ouvir música ao vivo... sem fazerem nada ao mesmo tempo. Quando começo a vê-los cheios de bichos carpinteiros, a dizerem "que seca, que seca", e "o que é que fazemos agora?", percebi que tenho de fazer mais programas deste género com eles. Mas nos entretantos... precisava que eles ficassem quietos e em silêncio até ao fim do concerto.
- Meninos... fechem os olhos, concentrem-se. Imaginem que estão a ver um filme. Com esta música, que filme é que seria?
E pronto. Se o caldo já estava a ferver, entornou-se naquele momento, porque os meus filhos passaram o resto do concerto a sussurrar ideias para o "Ataque das baratas zombies". Nos momentos mais dramáticos, morriam uns quantos humanos nas garras das baratas. No final, em apoteose, as baratas dominavam a Terra mas tornavam-se boazinhas. Enfim... acho que vou treinar os meus filhos em casa, antes de voltar a um concerto. E bandas sonoras para filmes... nunca mais!
Hoje, enquanto me vestia de manhã, os meus gémeos divertiam-se a brincar aos pais e às mães. Com a boneca chinesinha que a avó Ti lhes ofereceu pela mão, levaram-na primeiro ao armário da Nonoi para lhe escolher uma roupa (e desarrumaram o armário). Depois levaram-na à casa de banho e lavaram-lhe os dentes (e besuntaram tudo de pasta de dentes). Depois levaram-na à sanita para fazer chichi (e gastaram um rolo a limpá-la, enquanto faziam "chchchchc"). Como entretanto tive de "raptar" a "mamã" para a vestir, o Dudu ficou entregue aos seus cuidados de papá, e desapareceu da minha vista durante alguns minutos. Quando vou ver dele... estava na minha casa de banho, com a boneca ao colo, (tudo desarrumado), e a minha pinça na mão... a fingir que lhe tirava pêlos das pernas!
Pais modernos, é o que é. Mas sobretudo muito observadores!
Hoje, no regresso da música, o Afonso tentava consolar o seu amigo, que estava muito choroso:

(Amigo) Hoje é o pior dia da minha vida!
(Afonso) O pior? Então espera até chegares à adolescência... Ou, pior ainda, até ao casamento! Vão enfiar-te um anel no dedo, e depois tens de aturar para toda a vida a tua mulher, que vai ficar velha e com unhacas. E pior que tudo... vais ter que dar beijos!

O choro transformou-se em risota pegada, mas o motivo da tristeza do amigo era profunda e de vez em quando voltava a rebentar nos seus olhos:

- O meu avô é velhinho e eu não quero que ele morra.

O Afonso tentou consolá-lo com mais alguns dos seus disparates, mas em casa confessou-me:

- Eu entendo-o, mami. Uma vez também comecei a chorar porque achava que tu ias morrer. Mas depois pensei que ainda devia faltar muitos dias, e adormeci.

De estômago apertadinho, só consegui abraçá-lo e dizer-lhe:

- Ainda faltam muitos dias, sim, filhote... Mas temos de os aproveitar a todos muito muito bem!

E eu só espero que os meus dias sejam mesmo muitos, e os deles ainda muitos mais, para nos aproveitarmos um ao outro, e ele aproveitar os filhos que pode vir a ter (bem... se conseguir aturar uma mulher velha e com unhacas... complicado!)
À custa do Nickelodean, os meus filhos mais velhos passaram o feriado a treinar hip-hop.
- Então, mami? Também és capaz de fazer?
Depois de muito "picada", lá resolvi recordar os meus tempos de Street dance e mostrar-lhes uma coreografia improvisada. Quando terminei, em apoteose, dei com os meus filhos boquiabertos a olhar para mim.
- O que é isso, mami?
- Street dance. Dança de rua. Não gostaram?
- Ó mami... isso parecia mais a "dança dos sacanas da rua"... É assim que se mexem os ladrões e os mendigos...

Das duas uma... ou volto a treinar para fazer boa figura, ou nunca nunquinha mais danço à frente dos meus filhos!
Depois de ter dito ao Afonso que o meu próximo livro era inspirado nele, não me largou enquanto não lhe contei a história toda. E no final sai-se com esta:
- Ó mami, mas não disseste que era um romance?
- E é, filho.
- Mas não tem muito de amor.
- Pois não, filho... tens razão. Mas chama-se romance de qualquer forma.
(...)
- Já sei, mami. Podes escrever na capa "Romance" e depois, entre parênteses, escreves "Estava a brincar..."

De facto, com filhos destes, é impossível levar o meu trabalho muito a sério...
(Afonso a reflectir sobre a minha escrita):
- Tu inspiras-te sempre em nós (filhos) para escrever?
- Depende, Afonso. O meu próximo romance vai ser inspirado em ti.
- Então tens de escrever na capa: "Inspirado em Afonso Rodi Júnior".
- E se for no Sebastião?
- "Sebastião Semi-Rodi Júnior". E se for o papá... (pausa) "Pedro Grande-Rodi"...

Não há nada a fazer. Já somos todos Rodi cá em casa... e com hierarquia e tudo!
17 horas, pátio dos Maristas. A natação começava à 17.15h e eu tinha a difícil tarefa de descobrir dois espécimes de 6 e 7 anos, designados meus filhos, por entre as outras centenas de crianças vestidas de forma igual. Esgotei 5 minutos. Até os descobrir. Mais 5 porque o Sebastião decidiu que ainda tinha que fazer cocó ("são as 'fêzes', mami" - dizia o Afonso que está a estudar agora o aparelho digestivo). Mais 3 minutos para atravessar a estrada e entrar no carro. Arrancámos a apenas 2 minutos do início da natação.
- Meninos... preparados para uma aventura? Comecem a despir-se...
Primeiro não houve nenhuma reacção. O Afonso e o Sebastião entreolharam-se a pensar que a mãe tinha enlouquecido. Mas a mãe insistiu:
- Não tiram o cinto. Começam pelos sapatos e depois tiram os calções e as cuecas. A mãe vai passar-vos os chinelos e o fato de banho.
Quando perceberam que era a sério, o Afonso e o Sebastião entregaram-se à tarefa com empenho. A viagem só durou cinco minutos, por duas ruas interiores de Carcavelos, sem trânsito, e quando chegámos à porta da natação (traduzo: carro parado no meio da estrada com 4 piscas) os meus dois aventureiros estavam de fato de banho, chinelos, touca e roupão turco.
- Agora vamos assim para a rua, mami? Parecemos dois milionários!
Teria funcionado lindamente se afinal os chinelos não tivessem de ir imaculados para a piscina, e se, no meio da confusão, não me tivesse esquecido de deixar a bolsa com o champô e a escova. Quando regressei para os ir buscar (depois de mais uma corrida para apanhar os gémeos), levei uma ensaboadela da responsável pelo espaço, que só se comoveu percebeu que as outras 2 crianças de 2 anos também eram minhas, e quando me ouviu dizer, depois de respirar bem fundo:
- Tem toda a razão, minha senhora. Para a semana prometo fazer melhor...
Vamos ver...
O pai levou os mais velhos ao hóquei (a grande novidade nos últimos dias...). A mãe ficou sozinha em casa com os mais novos, mas ficou de ir ter ao hóquei às 10.30. Claro que às 10.25 ainda não tinha saído de casa. Os gémeos já tinham puxado os cabelos, brincado com as garrafas de vinho, tirado e posto e tirado e posto os sapatos não sei quantas vezes, trepado à prateleira dos sumos, ufa, ufa, ufa... enfim. Quando tudo parecia finalmente resolvido, o pai liga à mãe e pede-lhe para levar os patins em linha dos mais velhos, para irmos passear no paredão.
- Meninos... ficam aí parados dois segundos, por favor, enquanto a mãe vai à cave buscar uma mochila.
A mãe destrancou a porta da cave (que está trancada porque as escadas que lhe dão acesso são muito íngremes), passou para o lado de dentro, e puxou a porta. Foi a correr buscar a mochila e quando voltou... a porta estava trancada. Ah, pois é! O pequeno Dudu, em vez de ficar parado à espera da sua mamã, resolveu... trancar a sua mamã na cave! O coração da mãe começou a saltar no peito.
- Dudu... roda a chave, querido. Dudu...
Mas do outro lado a mamã só ouvia:
- Mamã... Mamã...
E depois também a Nonô:
- Mamã... Mamã...
A mamã voltou à cave e espreitou as janelas. Todas tinham grades. Todas davam para o jardim da própria casa. Se a mãe gritasse, ninguém a ouviria. Voltou à porta. Abanou-a. Era grossa e maciça. Era impossível deitá-la abaixo. O Dudu, do lado de fora, começou também a abaná-la. E a chorar.
- Mamãaaa... Mamãaaa....
- Roda a chave, Dudu. Por favor...
- Mamã... Mamã.... - repetia a Nonô, também já a chorar.
O telemóvel estava na mala... do lado de fora. O papá só começaria a estranhar o atraso uma meia hora depois. Ou mais. A cancela das escadas ficara aberta. A porta para o jardim ainda não estava trancada. E ainda havia os puxões de cabelos. E as garrafas de vinho. E as prateleiras. E as quedas...
- Roda a chave, Dudu. Por favor...
A mãe suava. As mãos tremiam-lhe. O coração pulava-lhe no peito, enquanto pensava em tudo aquilo que podia acontecer no tempo em que estivesse ali trancada. Foram longos e duros 10 minutos. Até que... cressssshhhhchhh. Um barulho do outro lado. A mãe rodou a maçaneta... e a porta abriu. Os filhos estavam intactos. A mãe é que precisava de um banho. E de respirar fundo.
- Mamãaaaa.... - disse o Dudu, abraçando-a, cheio de lágrimas. A Nonô correu também para a mamã. Não sei se se aperceberam realmente do susto que lhe pregaram. Mas aquele abraço soube tãooooo bem!
A mamã fui eu. Mas podia ser qualquer uma que facilitasse como eu. A porta da cave continua trancada. Mas a chave está escondida. E a mãe não volta a ir à cave sem levar a chave consigo.
Ufa, ufa!
(Afonso, 7 anos)
- Ó mami, hoje fiz um livro com o Duarte. Eu escrevi a história e ele ilustrou.
(Mãe com baba, muita baba)
- Mas foi a professora que pediu, foi?
- Não. Acabámos os trabalhos depressa e a professora deixou-nos fazer o que nós quiséssemos. Depois ainda fizemos um restinho no intervalo do almoço.
(Mãe ainda com mais baba, até aos joelhos)
- Posso ver, filho?
12 páginas. 12 lindas páginas com texto em cima (5/6 linhas cada, aproximadamente) e desenho em baixo. Um livro, de facto. Com princípio, meio e fim. É certo que saramaguesto (estivemos a pôr as vírgulas antes da deita), e valterhugomãezesco (sem parágrafos e travessões a separar diálogos). E com uma carrada de erros pelo meio, que também estivemos a corrigir juntos, para amanhã levarmos uma cópia bem editada ao amigo ilustrador. Mas muito, muito, infinitamente giro.
(ok, mãe afogada em baba)
Hoje a professora dos gémeos cometeu o erro crasso de contar aos seus alunos uma história onde o protagonista se chamava Sebastião. E a minha pobre Leonor, que está habituada a que, em todas as histórias que contamos cá em casa, entrem os 4 maninhos da nossa família, passou o tempo todo a perguntar:
- E o Afonso? E o Dudu? E o Afonso? E o Dudu?
Depois de contar as façanhas do Sebastião nesta segunda semana, aqui fica uma poderosa também do Afonso (3º ano):

Depois de lhe ter perguntado porque é que a professora dele se queixou na reunião que os alunos tinham pouca imaginação (seguramente, não estava a referir-se ao meu filho) e de ontem termos tido a noite da filosofia cá em casa, ontem teorizámos deliciosamente sobre a liberdade, hoje o meu filho escreveu a seguinte composição na escola:

"Quando acabam as aulas e eu já estou em casa é liberdade pura, posso fazer tudo desde que não seja um disparate. (...) Vou para o quarto brincar e invento uma brincadeira com alguns dos cem brinquedos que lá tenho. É preciso ter muita imaginação para conseguir inventar uma brincadeira."

Às vezes pensamos que não, mas eles ouvem mesmo as coisas que lhes dizemos!!!
A segunda semana de aulas dos mais velhos ainda só leva dois dias e o balanço já é poderoso. O primeiro post de hoje é dedicado às façanhas do Sebastião...

- perdeu o primeiro dente da frente após uma cotovelada do irmão. Conseguiu cuspi-lo a tempo, felizmente. Já não vou ter de espreitar o cocó dele para garantir que a fadinha dos dentes não deixa de vir cá a casa.
- perdeu o segundo dente após uma bolada no futebol. Ficou enterrado algures na relva da escola.
- perdeu o segundo boné na escola.
- Segundo trabalho de casa do Sebastião: 1 desesperante hora para fazer seis filhas de "i". (Não é uma montanha, Sebastião, é um focinho de cão! - para as minúsculas. Primeiro a minhoca, depois o anzol - para as maiúsculas. "Mas parece mais um guarda-chuva, mamã". É o que tu quiseres, Sebastião. Mas DES-PA-CHA-TE! Os gémeos estão a berrar lá em baixo e o teu irmão anda nu pela casa à procura do pijama!).

Respirei fundo à refeição, que foi salsichas com arroz para não ficar sem voz com os meus trezentos CO-ME por refeição, e pensei numa estratégia para resolver o assunto. Juntei a falta dos dentes aos bonés perdidos e à preguiça para os TPC, e resultou em qualquer coisa como: "Hoje, em vez de história, vamos escrever um bilhete à fadinha dos dentes a explicar que não sabes dos dentes, Sebastião". "Não é fadinha dos dentes, mami, é mãezinha dos dentes", dizia o Afonso baixinho. Mas o Sebastião não ouviu. E o bilhete resultou em qualquer coisa como, resumidamente, "perdi os meus dentes, mas gostava de ter uma moeda, e em troca prometo não perder mais bonés e fazer os TPC mais depressa". A ver se não me esqueço de lhe ir deixar na almofada a dita moeda com a resposta da fadinha: "Combinado, Sebastião. Mas se não cumprires a tua promessa vão cair-te os dentes todos!!!". (ok, não me está a soar nada bem, acho que vou fazer outro bilhete)
Toca o telemóvel. Maristas. O coração de mãe começa logo a palpitar, e vêm-me à cabeça milhares de possibilidades, cada uma pior do que a outra.
- O seu filho Afonso levou uma bolada e fez um pequeno rasgão na orelha. Vamos levá-lo à clínica para ver se precisa de pontos.
Lá foi o pai a correr buscá-lo, lá foi a mãe a correr ter com ele, mas felizmente não era nada de especial. O problema é que, entre ser visto por um médico e por outro, ser desinfectado e "colado" (o médico optou pela cola), passaram 4 horas. 4 horas em que o meu filho e eu íamos desesperando, fechados numa clínica. Felizmente, a imaginação é um poderoso antídoto para a "seca":
- Afonso, vamos inventar uma história? E se tu agora te transformasses no Capitão Orelhas?
Foi quanto bastou para ele começar a delirar. Só não conto aqui todas as aventuras imaginadas do Capitão Orelhas, do seu cão mini-Focinhos e do malvado Master-Pensos, porque esta história vai ter de ser transformada em livro.
- Ó mãe, depois podes pôr na capa Sara Rodi e Afonso Rodi?
Olhei-o com estranheza.
- Sabes que a mãe não se chama Rodi. Foi o nome que a mãe inventou para os livros.
- Eu sei. Mas eu não posso usar também?
- Podes, filho. Até me deixas muito orgulhosa. Mas não precisas de usar se não quiseres. Podes escolher outro nome para ti.
(pausa para pensar)
- Então pode ser Afonso Rodi Júnior...
É oficial! Já tenho dois filhos na velhinha Primária! O mais velho entrou no clube dos "mais velhos" do 1º ciclo (os 3ºs e 4ºs anos têm aulas no piso superior, onde os "putos" não podem ir), e acha-se um crescido (embora "crescido", nesta fase, seja sinónimo de só dizer disparates e passar o dia a fazer graçolas). O mais novo levou logo com uma pastilha no cabelo, porque foi tentar jogar à bola com os meninos do 4º ano, o que o obrigou a ir à enfermaria levar uma "pelada". Já perdeu o chapéu, e hoje não conseguiu ter aula de guitarra porque o professor não o encontrava e a guitarra ficou fechada na sala! Anda desorientado, mas felicíssimo, ainda a fazer tracejados, mas já a dizer que são um treino para a "letra manuscrita".
Já a mãe, que no primeiro dia de aulas teve uma dor de barriga daquelas (parecia dia de exame da faculdade!), também se anda a orientar com os horários, e os livros que faltam, e o material que se perde, e os horários das extra-curriculares, e a logística para levar e trazer uns e outros sem perder nenhum ou nada pelo caminho. Ufa! Estava desejoso de pôr a criançada toda nas aulas para voltar a ter paz para trabalhar, mas acho que daqui a uma semana ou duas já vou estar desejosa que as férias regressem para esquecer o stress das horas e as correrias atrás da filharada. Ufa!
O meu Sebastiãozinho, o meu bebezinho de quase 6 anos, teve na passada sexta-feira a apresentação no 1º ciclo. Vai para a Primária! Jáaaaaa???? Como é possível? O meu menino tão brincalhão, tão inocente...
À saída do lanche, com pais e professores, cruzámo-nos com o coordenador do 1º ciclo, que alegremente diz ao Sebastião:
- Olá Sebastião. Já sei que fazes anos daqui a uns dias...
O Sebastião abriu muito os olhos, admirado, e eu tratei de lhe explicar:
- O professor Bruno tem ali um dedo que adivinha...
Despedimo-nos e afastámo-nos. Uns passos à frente, o Sebastião diz-me baixinho:
- Por acaso ele tinha um dedo assim esticado... Devia ser aquele...
Depois de o papi ter recusado ao Afonso o dinheiro do Euromilhões (uns míseros 15 euros, porque não somos uma família com grande sorte ao jogo), mesmo depois das suas tentativas de argumentação, o Afonso teve mais um ataque de choro, desta vez em pleno supermercado.
- Que lágrimas são essas, Afonso?
- Oh, mami. Tu sabes...
- Ainda é a história do Euromilhões?! Eu já te expliquei que o pai fez isso para tu perceberes que não te podes deixar enganar. Tens de pensar antes de tomares uma decisão.
- Mas se o pai me queria explicar isso, porque é que ele não me disse logo? Porque é que ele tinha que me enganar?
- Porque às vezes dizer não chega, Afonso. A mãe está farta de te dizer, e tu não aprendes. Agora que o pai te fez isto, de certeza que vais ficar mais atento.
(silêncio)
- Ó mami, mas aprender desta maneira custa...

Fiquei destroçada. Em pleno supermercado, baixei-me e dei-lhe um abraço daqueles.
- Pois custa, filho. Custa aos 7 anos, custa aos 33, e em todas as idades. Se fores como a tua mãe, vai-te custar a vida inteira...
- Já te enganaram com Invisimals, mami?
Mandei-o ir buscar bananas. Um dia conto-lhe umas histórias da minha vida...
Depois de ter pensado abrir uma empresa de "catagem" de piolhos ao domicílio, hoje dei comigo a pensar que aquilo que me faria rica era um negócio de forragem de livros escolares. Hoje foram os primeiros 20...
Depois de o meu filho Afonso (7 anos) ter trocado um punhado de cromos dos Invisimals (mais de 40!) por um único, convencido de que era especial, o pai resolveu dar-lhe uma lição. E, depois de o ter posto a fazer o seu primeiro EuroMilhões, disse-lhe:
- Trocas a possibilidade de ganhar um milhão de euros por uma saqueta de invisimals?
Os olhos do Afonso brilharam, e disse imediatamente que sim. Deu o papel do Euromilhões ao pai e recebeu em troca a dita saqueta. Dez minutos depois, depois de ter aberto a saqueta e visto os cromos, fui dar com ele com os seus grandes olhos castanho cheios de lágrimas, a um canto do sofá.
- O que foi, Afonso?
- Não acredito que troquei um milhão de euros por estes cromos, mami. São todos repetidos...
Lá lhe dei uns miminhos, consolei-o como podia, e expliquei-lhe que ele tem que pensar mais vezes antes de fazer as suas trocas. Afinal de contas, acrescentou o pai, que se juntou, se ele ganhasse o prémio podia comprar a fábrica dos Invisimals. Podia criar uma caderneta de Afonsos invisíveis, acrescentei eu. Podia comprar o Nickelodean, atirou o Sebastião. Ou até criar o canal do Afonso, exclamou o Afonso. Mas era tarde demais...
Lá digeriu o engano como pôde, e até colaborou com o seu papi, colocando as cruzes, quando a Marisa Cruz anunciou os números do EuroMilhões. Um número e duas estrela. Nada mau. E o Afonso começou a animar-se.
- Ó mami, se calhar não fiz assim uma troca tão má...
Mas sempre era dinheiro. Dava algumas saquetas de Invisimals... Lá digeriu mais um bocado, enquanto jantava, e de repente fez-se luz na sua cabeça:
- Espera aí... mas eu troquei uma saqueta pela possibilidade de ganhar um milhão de euros! Não foi pela possibilidade de ganhar pouco dinheiro. Por isso esta troca não valeu nada! Papiiiiiii, o dinheiro do EuroMilhões é para mimmmmmmmm!
E assim se vai preparando o rapaz para as manigâncias da vida...
E quando precisamos de sair com urgência para uma reunião e descobrimos que o carro ficou sem bateria porque, na véspera, deixámos o nosso filho de 2 anos brincar ao volante e ele deixou as luzes ligadas? E se o carro estava estacionado à frente da garagem, impedindo a saída de um outro carro que felizmente temos, mas que dessa forma não pode sair? E se temos de empurrar o carro "morto" da frente da garagem para conseguir tirar o outro? E se não sabemos mexer no outro porque é a relíquia do papá? E se ainda temos que ir deixar um dos filhos com o pai antes da reunião? E se chegamos atrasados à reunião e a reunião dura horas e, pelo meio, temos de sair para ir buscar um filho que ficou em casa de um amigo e dois que ficaram na escola porque o papá está sem o carro que leva todos, para depois voltar para a reunião? E se entretanto se faltou a outra reunião que havia pelo meio e se teve que mudar o horário da natação e da música dos filhos ao telemóvel, entre semáforos? E se, no meio disto, não se almoça nem se lancha porque a essa reunião segue-se outra reunião? E se, depois disto tudo, ainda se tem de ir ao supermercado comprar jantar para 7 e se tem de contar uma história aos dois mais novos, e depois outra ao mais velhos, lavar os dentes, meter os filhos na cama, dar um beijinho ao marido e pôr o portátil ao colo para começar a trabalhar o que não se trabalhou durante o dia por causa de tanta confusão?
Há dias em que acho que não vou dar conta do recado. Hoje foi um deles. Vamos ver que surpresas me aguardam o dia de amanhã...
Este Domingo decidi ir mostrar o Convento de Mafra à miudagem. Senti-me o verdadeiro José Hermano Saraiva, misturando partes do "Memorial do Convento" com coisas de que me lembrava das minhas visitas de infância ao Convento, e outras tantas inventadas que normalmente suscitavam mais a curiosidade dos miúdos do que as outras. O pai também contribuiu com umas boas, a lembrar as vinhetas do "Calvin & Hobes", por isso a minha esperança é que eles um dia façam outra visita ao Convento com a escola, e tenham um guia a sério que lhes conte tudo como deve ser. E que eles se esqueçam entretanto do dia em que as ratazanas lutaram com os monges, das caçadas dos reis pançudos e dos morcegos leitores...
Entretanto o meu filho Afonso (7) deparou-se com um confessionário "à antiga", e lá lhe expliquei que, no próximo ano, há-de chegar o momento em que ele terá de ir ter com um padre e contar-lhe os seus pecados. Resposta do maroto:
- Ihhhh, mami! Nunca mais de lá vou sair! Faço asneiras a toda a hora!
Nem é verdade, coitadinho. O problema é que, ou muito me engano, ou o padre vai mesmo ter que o expulsar do confessionário, sob risco de passar o dia inteiro a ouvir os pecados reais e inventados do Afonso, as suas dúvidas sobre o mundo, os seus sonhos, as suas histórias, as canções do Nickelodean, as ideias para histórias, as suas naves espaciais... Pobre padre! Já estou a vê-lo, desesperado, a tentar mandar o meu filho embora:
- Agora o acto de contrição, meu filho.
- Não, espere. Ainda não lhe contei que estou a fazer uma banda com os meus amigos. Vou-lhe cantar a música principal...
E pronto! Durante uma hora ou duas a professora dele vai ter descanso, e a mãe também. Não vai é haver Avé Marias que cheguem para combater tanta tagarelice!
A minha Leonor adora-se. Para ela, tudo gira à volta da Nonô. Bem... se for azul, pode girar à volta do Dudu (o irmão gémeo). Mas só se for azul...
O seu egocentrismo de 2 anos vai ao cúmulo de, durante uma história em que eu decidi imitar um carro dos bombeiros, ela se sair com esta:
(Mamã) E o carro dos bombeiros fez Tinoni, Tinoni, Tinoni.
(Leonor) Nãooooo, mamã! Tinonô, Tinonô, Tinonô!
No outro dia estava ao telefone com uma amiga e comentei com ela que, estar sem os filhos, lembra-nos o quanto gostamos de estar com eles. É bom para sentir saudades e nos lembrarmos de como a vida era menos saborosa antes de eles existirem. Mas também desabafei que esse sentimento bonito passa depressa! No final do dia já estamos outra vez com vontade de os mandar de férias para qualquer lado!
Claro que o meu filho Afonso estava de orelhas no ar. Os pais acham que os filhos estão distraídos com a televisão, que não ouvem ou não entendem, mas a verdade é que não lhes escapa nada. E o Afonso, regressado de férias da casa dos avós, sai-se com esta:
- Lembras-te do que disseste no outro dia à tua amiga, sobre teres saudades dos teus filhos, mas elas passarem depressa? Tinhas razão. Eu também só estou há um dia contigo e já me fartei de ti!

Murro no estômago. Senti-me a pior mãe do mundo, mãe do filho mais cruel do mundo. Mas felizmente, descobri-lhe um sorriso maroto no canto da boca. Era apenas uma vingançazinha à la Afonso. Apanhei-o pelo fundilho das calças e cobri-o de beijos.
- Tu cansas-me, Afonso. Mas a mãe não pode passar sem ti.
- É como tu, mami. Também me cansas...
- E...?
Não disse o resto, o safado. Mas eu sei que ele sabe que também não passa sem mim (ou, pelo menos, vou acreditar que sim :))