O meu filho Afonso está um verdadeiro beato! No outro dia disse-me que queria ser santo.
- Santo, filho?
- Sim... assim vocês lembravam-se de mim no dia de todos os santos...
Ri-me um bocado e avancei para a história da noite, que era tudo menos beata (metia bruxas e piratas). Mas daí a pouco tempo o Afonso voltou a atacar:
- Ó mãe, se eu morrer agora já fico santo?
- Não, filho... ainda tens de viver muito e fazer muitas coisas boas por muita gente!
Acho que o convenci a não ser mártir aos 5 anos...

PS - Na catequese, o projecto-de-santo-Afonso tem aprendido a história do Adão e da Eva, do Sansão e Dalila, do Abel e Caim... Mas como em casa as "histórias" são outras, faltam-lhe alguns conceitos básicos para ser o beato perfeito. No outro dia a professora entregou a todos os meninos a imagem de uma gruta para eles desenharem o presépio, e o meu filho, que não sabia bem o que isso era, resolveu aproveitar a gruta para desenhar uma casa de extra-terrestres!!!
(à mesa comigo, com o pai, o irmão e os avós)
- O que é que vocês eram antes de serem humanos?
Silêncio... O meu filho Afonso consegue calar qualquer pessoa com as suas perguntas.
- Não sei, Afonso. O que é que tu eras?
- Um fantasma que vivia na lua. Mas depois pedi ao polvo com uma pata para vir para a tua barriga, mamã...
E as certezas dele são sempre tantas, que não há quem consiga convencê-lo de outra versão qualquer...
Sebastião a começar a dar o ar da sua graça:

(depois de rodopiar pela casa toda, a soprar)
- Sebastião, o que estás a fazer?
- Estou a brincar aos furacões!

(antes de ir jantar)
- Mãe, podes pôr no Pause?
- Tu sabes o que é o Pause, Sebastião?
- Sei. É um pauzinho assim (I) e outro assim (I).
(Afonso no dia das Bruxas)
- Eu não tenho medo de fantasmas. Sabes porque é que não, mãe? Porque eu sei como é que os fantasmas são feitos...
Pensei que ia falar em lençóis com buracos, ou pessoas disfarçadas de fantasmas, mas a teoria era mais elaborada:
- São feitos nas fábricas. Há pessoas que sopram bolas de sabão, depois atiram poderes e os fantasmas podem sair pelas janelas, a voar. Primeiro são bolas, mas depois começam a ficar esticadinhos, e é assim que se fazem os fantasmas.
- Quem é que te disse isso, Afonso?
- Ninguém. Eu sei.
O meu filho Afonso sabe tanto... Acho que no futuro vai ser um sabão...
O meu filho Afonso está o perfeito beato! Tirando o facto de não conseguir decorar que o avô é diácono (e dizer sempre que ele é "drácula"), em tudo o resto está o perfeito menino de coro. Passa o dia a cantar a música "Quando Jesus passa... tudo se transforma" (e Jesus, segundo ele, é uma espécie de Gormiti que deita magia e transforma tudo em seu redor), já me pediu "uma daquelas coisinhas com bolas para rezar" (um terço, para quem não domina o assunto) e todas as noites me explica que rezar é pôr-se de joelhos e juntar as duas mãozinhas à frente do peito.
Esta é a parte menos complicada. A complicada é eu já lhe ter falado várias vezes na teoria do bang bang, na formação do universo, e na raça humana como uma espécie entre outras que poderão haver no espaço (e que, segundo o meu filho, um dia ainda vai acabar como os dinossauros) e depois ele aprender que o mundo foi criado por Deus, que também criou o Adão e a Eva. "Ó mãe... tu mentiste-me! Foi Deus que criou o mundo!". Lá lhe expliquei que não menti... que tudo pode co-existir e nada se invalida necessariamente. Em relação ao Adão e à Eva, é que tive de ser peremptória: "Isso é uma história, filho...". Não ficou muito convencido, mas a verdade é que a história que ouviu na catequese também não o convenceu: "Ó mãe... não percebo como é que Deus só criou o Adão e a Eva e depois há tanta gente no mundo... Eles tiveram assim tantos filhos?"
Enfim... teremos tanto que discutir à mesa daqui para a frente...
(Afonso, depois do pai o ter estado a ensinar a jogar playstation):
- Ó mãe, queres jogar comigo à pistola digital?
- Como é que isso se joga?
- Há um pai e um filho que entram no jogo com uma pistola digital que deita raios laser. Depois aparece o papa-formigas ninja e nós temos de lhe deitar um laser. Depois a seguir temos de apanhar uma estrela e a seguir vem o frango que fala. O frango só se cala quando nós o apanharmos e o comermos...
(agora digam-me que o meu filho não tem uma grande imaginação...)
O best-off da semana:

(Mãe depois de ter sido acordada pelo Afonso umas cinco vezes, ora porque viu uma mosca, ora porque teve uma comichão, ora porque tem um pé de fora e não está a conseguir tapá-lo sozinho):
Mãe: Afonso, a mãe não se vai levantar mais. Escusas de me chamar...
Afonso: Nunca mais, nunca mais te vais levantar para vires ter comigo ou com o sebastião?
Mãe: Não, filho. Só se forem coisas muito graves.
(A mãe volta para a cama. 5 minutos depois ouve a voz estridente do filho a gritar)
Afonso: Ó mãeeeee! Anda cá! Eu estou a morrerrrrrrr!

Sebastião: Ó mãe, esta noite veio uma mosca até à minha cabeça e pôs-me um pico...
Depois de uma sessão experimental de ioga, na escola, o meu Sebastião chegou a casa capaz de resistir a qualquer reprimenda. Qualquer chamada de atenção que lhe fazia, o Sebastião fechava os olhos, colocava os dedos nas extremidades da testa e, com a boca fechada soltava um "Aummmmm". Obviamente que me ri mais do que ralhei com ele. Quem é que resiste a uma coisinha de palmo e meio, com umas bochechas enormes e o sorriso mais malandro do mundo? A mãe não é certamente...

PS - Outra do Sebastião:
- Sebastião, já sabes como é que chama a escola do mano?
- Já. É a escola dos Maricas...
(só espero que os irmãos Maristas nunca leiam este blogue)
- Ó mãe, não consigo adormecer!
A frase típica do Afonso cinco minutos depois de se deitar...
- Então porquê? O que é que se passa hoje?
- Quando olho para a direita, os buraquinho (da rede protectora da cama) mostram-me imagens de coisas más. Se olho para a esquerda (para o seu inseparável boneco de dormir) o boneco ganha vida e ataca-me...
- Se não podes olhar para a direita... nem podes olhar para a esquerda... olha para o tecto!
- Mas se olho para o tecto não vejo os ladrões a entrar pela porta...
(de regresso a casa, depois da escola, quando as conversas fluem e os quilómetros nos levam em filósoficas viagens sem destino):
AFONSO: Mamã, tu gostaste de crescer?
MÃE: Gostei, filho. É bom crescer. Tu também vais gostar.
AFONSO: Acho que não, mamã...
MÃE: Mas é bom crescer, piolho. Aprendes coisas novas, começas a decidir por ti...
AFONSO: Mas eu acho que há uma coisa no mundo que é injusta...
(antecipei imediatamente a resposta. Ele é TÃO meu filho! Impressionante. Os mesmos medos. As mesmas angústias. As mesmas injustiças...)
MÃE: O que é, filho?
AFONSO: Eu não queria morrer e tornar-me numa estrelinha... Por isso é que eu não queria crescer...
(só não engoli em seco porque já tinha antecipado a resposta. Olhei-o, sorri-lhe e percebi que ele estava à espera que eu dissesse alguma coisa. E eu tinha a minha resposta. Só não sabia se era cedo para lhe dizer)
AFONSO: Há alguma maneira de não morrermos, mamã?
(tinha que lhe dar a única resposta que sabia. Havia outras bem mais simples. Mas, à custa de fazer tantas vezes as mesmas perguntas que o meu filho acabara de fazer, acabei por deixar de acreditar nelas)
MÃE: Acho que não, filho. Mas se esta vida é a que temos, e é tão boa, tens que a aproveitar. E gostar de crescer...
(calou-se. Ficou a pensar. Depois pegou em dois Gormittis e começou a brincar. Há respostas que nunca dão serenidade. Mas há que aprender a viver sem ela... e levar a vida a brincar...)
(no carro, a caminho da escola)
AFONSO: Ó mãe, eu gostava de ser jogador de futebol, mas também tenho que ser piloto de naves.
MÃE: Então, filho... podes ser as duas coisas...
AFONSO: Posso?
MÃE: Podes ser piloto de naves e jogar futebol no espaço...
AFONSO: Boa! Dou pontapés aos planetas...

SEBASTIÃO: E eu, mamã?
MÃE: O que é que queres ser, 'Batião?
SEBASTIÃO: Não sei...
MÃE: Gostas muito da tua lanterna... e de animais... Podias ser explorador!
SEBASTIÃO: Sim! Sim!
AFONSO: Não pode não, mamã. Senão ainda pode ser comido por um crocodilo.
MÃE: E polícia? Tu gostas de andar atrás dos ladrões com a tua pistola, 'Bastião.
AFONSO: Também não pode ser, mãmã. Porque o Sebastião ainda não sabe que há pistolas a brincar e pistolas a sério. Pode dar um tiro nele com uma pistola a sério e morrer.

Do mal o menos, ficou explorador... Com argumentos destes...
Uma semana e meia depois do meu filho Afonso ter entrado nos Maristas, começaram as perguntas difíceis:
- Ó mãe, como é que as pessoas morrem e vão para o céu?
- Ó mãe, porque é que as pessoas falam com Jesus e ele não lhes responde?
- Ó mãe, se não tivermos cruzes ao pé de nós, Jesus não está connosco?
Eu, fervorosa adepta do cepticismo, respondo a tudo dando vários exemplos de como as pessoas das várias religiões encaram os diferentes dogmas das Igrejas. E convenço-me que devo passar informação aos meus filhos para que eles decidam no que devem acreditar e como. Será muito, para uma criança de 4 anos (o Sebastião ainda não fica a pensar nas minhas respostas)? Será que as crianças devem ter pais que tenham verdades absolutas e respostas para lhe dar? Será que estou a confundir os meus filhos? Ou a dar-lhes liberdade suficientemente para eles pensarem o mundo, a vida e a morte e chegarem às suas próprias conclusões?
A mãe anda a escrever um livro sobre extra-terrestres. O pai anda a papar as séries todas do Stargates. E o filho, talvez entusiasmado com a capa da nova Courrier International (sobre o tema) e os pedaços de Stargate que apanha na televisão, não tem parado de soltar teorias do outro mundo:
- Ó mãe, eu quando nascer outra vez vai ser num país cheio de extra-terrestres e vai ser muito mais divertido.
(...)
- Ó mãe, eu daqui a uns tempos vou comandar uma nave e vou a outros planetas. Não posso é ter janelas, porque no espaço há sempre pedras a bater nas naves.
- É uma nave ou um foguetão?
- Uma nave, mãe. Os foguetões já existem agora. Eu vou numa nave.
- Ah! Então vais inventar uma nave.
- Não. Isso vai ser outra pessoa. Eu só vou comandá-la.
- E levas a mãe a ver outros planetas, filho?
- Não, mãe. Tu nessa altura já morreste...
(espera aí... não é suposto as crianças de 4 anos acharem que os pais são imortais?!)
(Afonso a meio de um doloroso e interminável pequeno-almoço, daqueles em que ele se queixa vinte vezes que lhe dói a barriga e quando chega a hora de ir para a escola ainda só vai a meio do pão):
- Ó mãe, queres que eu te explique como é que se faz o vomitado?
(Adoro sempre as explicações que o meu filho arranja para explicar os fenómenos que ainda não conhece)
- A comida desce e dentro da barriga há muitos martelos que começam a bater-lhe para a transformarem em vomitado. Às vezes a barriga fica muito cheia e um dos martelos bate com força no vomitado para ele vir para cima. É assim que se vomita...
E pronto. Assim se faz ciência cá em casa. Com especulações e alguma imaginação...
- Então, Afonso, o que é que fizeste na escola?
- Um desenho que dei à minha professora.
- E o que é que desenhaste?
- Era para fazer uma pessoa. Mas fiz uma cabeça muito grande e já não cabia mais nada. Então tive uma ideia. Desenhei muitas bolhas ao pé daquela e fiquei com muitas cabeças. Depois fiz uma bolha gigante à volta das cabeças todas.
- Mas para quê, Afonso?
- Eram muitas pessoas a sair de um ovo...
(ok, o meu filho continua a pensar que há pessoas especiais - onde ele se inclui - que nascem de ovos. Imagino a cara da professora da escola nova, que só o conhece há cinco dias...)
(Sebastião para a mamã)
- Quero colo!!!
- Então anda cá, piolho... A mamã dá-te colo...
(colinho)
- Ó mamã... eu afinal quero dois...
Enquanto jantávamos e na televisão passavam reportagens sobre a onda de crime que tem assaltado o país nos últimos meses, o Afonso saiu-se com esta:
- Eu sei o que são os ladrões...
Respondi com o habitual "Ai sim?" que é sempre a melhor maneira de puxar por ele.
- São pessoas que roubam coisas. E também roubam crianças. Entram nas casas das pessoas com sacos, enquanto elas estão a dormir, metem as crianças lá dentro e levam-nas.
Assustei-me, porque não queria o meu filho assustado...
- Não é bem assim, Afonso. É verdade que algumas crianças já foram raptadas (e como negá-lo, se o caso Maddie andou tanto tempo naquela cabecinha a querer ser adulta), mas isso não te vai acontecer a ti... Tu estás connosco. Nós protegemos-te...
- Mas à noite vocês estão a dormir. Por isso é que eu nunca durmo. Durmo de olhos abertos. Para não ser raptado...
- Ó mãe, eu pensava que este Gormitti era um Espírito...
Pronto, lá vinha mais uma conversa profunda com o meu filho Afonso...
- E o que é um Espírito, Afonso?
- Então mãe... ele anda no céu. E decide se as pessoas vivem ou morrem. Ele decide sobre a vida e a morte das pessoas...
- Ai é?
- Sim. E as pessoas precisam de poderes para lutarem contra os Espíritos e não morrerem...
- Então os espíritos matam?
- Só os maus, mãe. Os bons deixam as pessoas viver. Só as deixam morrer quando elas são velhinhas.
- E os maus?
- Os maus matam as pessoas antes de serem velhinhas. Os espíritos que matam as crianças são os "mais maus" de todos!
- Piores... - não resisti a corrigir.
- Mas tu não sabias que havia espírios, mãe?
- Não...
- Oh... (desilusão!) Eles são os amigos do Jesus, mãe. Os bons! Vivem ao pé dos Anjos.
- Ah...
- E há uns muito bonzinhos que ajudam os meninos a saber jogar futebol. E algumas meninas também, como a prima Madalena... Ela tem muita sorte em ter um Espírito que a ajuda a jogar futebol tão bem como eu...
E agora digam-me o que é que eu faço ao meu filhote...
Quase com as férias a acabar, o balanço não podia ser mais positivo:

- O Sebastião já não usa fralda nem xuxa.
- O Afonso sabe o abecedário e sabe fazer contas simples com os dedos de somar e subtrair
- O Sebastião nada com braçadeiras
- O Afonso fez o seu primeiro livro em cartões da Matinal
- O Sebastião já come com garfo e faca
- O Afonso já come salada de alface e tomate
- O Sebastião já desenha bolas
- O Afonso já faz pessoas com dedos e cabelo
- O Sebastião já diz Hello e Gràcias aos estrangeiros
- O Afonso já sabe pronunciar otorrinolaringologista

No meio do tanto que aprenderam, brincámos, corremos, jogámos à bola, vimos filmes com pipocas, andámos de barco, nadámos e mergulhámos, pintámos, lemos histórias e falámos. É muito bom estar presente e tê-los presentes. Crescemos muito juntos, eles para cima, eu para baixo (porque a dada altura da nossa vida, é preciso reaprendermos a ser pequeninos para não envelhecermos).

Os senãos das férias:
- O Sebastião comeu duas pílulas da mamã. Até ao momento ainda não lhe cresceram maminhas...
Depois de explicar ao meu filho que o touro era um animal sagrado no Antigo Egípcio, e que algumas religiões implicavam a adoração de animais, ele fez-me as mil e uma perguntas mais difíciis de responder, acerca de religião. Lá lhe fui explicando que numa era assim, noutra era assado, numas havia estátuas, noutras altares, numa as pessoas morriam iam para o céu, noutras iam para a pele de outras pessoas... e ele lá ia rindo de umas, ficando a pensar noutras, mas a que ele achou mais graça foi mesmo àquela que adorava o touro, porque aí há tempos foi a uma tourada e achou graça que no Antigo Egipto adorassem um animal que ele, em pleno Campo Pequeno, viu ser espetado por toda a gente entre palmas e assobios.
Já com o livro fechado, água e xixi cama cumpridos, chamou-me e disse-me baixinho:
- Sabes que eu já escolhi o meu Deus, mamã...
- Ai sim, Afonso? E então?
(Pensei que se tinha esquecido do touro e ia mostrar-se rendido aos ensinamentos dos avós que o levam à missa e lhe explicam tudo sobre Deus e Jesus.)
- A partir de agora vou adorar o Deus-pato...
(Não sei porquê, mas acho que os avós não vão achar piadinha nenhuma...)
Ao contrário do que se possa pensar, às vezes ser mãe de dois filhos é sinónimo de ter tempo para fazer certas e determinadas coisas "de mulher" para as quais, dantes, não se tinha paciência. Aos fins-de-semana, altura em que meto os meus filhos no meu duche e tomo banho com eles, descobri que tinha ganho tempo para usar os meus esfoliantes, massajar a pele e fazer máscara no cabelo. Começo por entrar na casa de banho e pedir aos meus filhos para se tentarem despir sozinhos. Enquanto a água aquece e eles andam às voltas com a roupa, espalho os esfoliantes pelo corpo e rosto. Eles não conseguem despir-se e eu dispo-os enquanto o esfoliante "actua" na pele. Metemo-nos todos na banheiro e eu ponho uma máscara hidratante no cabelo. Enquanto ela "actua", lavo os meus filhos. Lavo o primeiro e entrego-lhe a minha escova massajante para, enquanto eu lavo o segundo, o primeiro passar a escova pela minha barriga e costas, coisa que ele adora e faz com muita dedicação (a minha futura nora vai agradecer-me um dia, certamente...). Quando volto ao primeiro, para lhe tirar o champô e o sabonete, o segundo trata da minha massagem. Depois de os ter lavadinhos, tiro então a minha máscara no cabelo. Antigamente, não tinha paciência para esfoliantes porque entrava no banho a correr, e não punha máscaras porque queria despachá-lo o mais depressa possível. Agora, já que um banho a três nunca demora menos de meia hora, há que rentabilizar o tempo e aproveitar para, no meio da confusão que se imagina, me mimar um pouco. E isto ainda não é tudo, porque a seguir ao banho deixo os meus filhos pularem em cima da cama da mãe durante dez minutos (para perderem o resto da energia que ainda têm e a seguir aguentarem ficar meia hora sentados à mesa) e enquanto isso ponho hiper ultra creme hidratante. Enquanto espalho depois o creme hidratante nos meus filhos, o meu "penetra" no meu corpo e quando me visto já não fico toda colada.
Aconselho todas as mães a seguirem o exemplo. Sair da casa de banho com os dois filhos penteadinhos e cheirosos, calminhos para se sentarem à mesa, e nós-mulheres cheirosas, hidratadas, com os cabelos macios e bens-dispostas (porque afinal temos tempo para tratar de nós), faz-nos bem a nós, e os maridos também agradecem!
(Afonso a acordar, depois de uma noite em que não foi a mãe que o pôs na cama porque não estava em casa)
- Mamã... eu não me lembro do teu beijinho de boa-noite... Mas sonhei com ele.
Digam lá que não dá vontade de o comer com beijos...
(Afonso nu a olhar para a sua pilinha)
- Ó mãe, é verdade que a minha pilinha tem raiz?
- Raiz, Afonso? Como as árvores?
- Sim. Eu acho que tem. (levanta a pilinha) Vês aqui este saquinho? Acho que a raiz está cá dentro...
(Afonso sobreo futuro parte II)
- Mãe, é verdade que, quando eu crescer, já vai haver naves?
- Talvez, filho...
- Então eu vou ser um piloto de naves e vou passear as pessoas pelos planetas.
- E qual vai ser o teu planeta preferido?
- (pausa para pensar) Ó mãe, como é que se chama um planeta onde tudo aquilo que eu quero acontece?
(...)
- Afonso... vamos abrir o teu mealheiro, para ver se já tens lá dinheiro para comprar a tua nave?
- Não, mãe. Eu não vou comprar a nave.
- Não? Então? És tu que vais construí-la?
(afastou-se e foi pensar um bocado. Umas 4 horas depois...)
- Mãe... estive a pensar com a minha cabeça. E és tu que me vais comprar a nave.
- Eu, Afonso?
- Sim. Quando eu crescer e já houver naves, tu ainda vais ser minha mãe...
- Sebastião, o que é que vais ser quando fores grande?
- Vou... (gaguejar e algum tempo com o olhar distante) fazer chupetas e dar aos meninos todos...

-Afonso, como é que vai ser a tua vida no futuro?
- Vou receber muito dinheiro das pessoas, arranjar uma namorada e dar muitos presentes aos meus filhos...

Quem ouvisse os meus filhos a falar, não acreditava que o meu Sebastião dorme com 4 chupetas e o Afonso recebe, quase todos os dias, um presente do pai ou da mãe (Gormittis, vulcões mágicos e experiências estão neste momento no top). É verdade que lhes negamos muita coisa (chupetas fora de horas e brinquedos em todas as lojas), e também é verdade que a frase recorrente é "os pais não podem fazer sempre o que os filhos querem...", mas nunca pensei que aos 2 e 4 anos já se tivesse aquela ideia de "quando eu tiver filhos vou dar-lhes tudo aquilo que eu não tive"...

E a matéria começa a ganhar alguns contornos assustadores. No outro dia, depois do pai lhe negar o 54º Gormitti, o Afonso saiu-se com esta:
- Ó pai, é verdade que quando tu e a mãe forem velhinhos, todo o vosso dinheiro vem para mim?
(Afonso e as suas filosofias de vida)

- Mãe, sabes que eu não cresci na tua barriga.
- Ai, não, filho?
- Não. Eu nasci de um ovo. Tu pensavas que ias fazer cocó, mas em vez de cocó saiu um ovo. O pai ficou muito admirado e vocês puseram o ovo no sofá. Partiram-no e eu saí...
- Ai foi, Afonso? E o Sebastião também nasceu de um ovo?
- Não, não. O Sebastião é normal. Saiu pelo teu pipi...

Comecei por pensar que era uma crise de identidade aos 4 anos. Mas a certeza dele era tanta, assim como o orgulho por ter nascido de forma especial que, em vez de crise, talvez tenha que lhe chamar narcisismo...

Bem, seja ovo ou menino, pelo pipi ou pelo rabo, pelo menos não deixou de sair de dentro de mim...
Fiquei chocada, no outro dia, quando ouvi uma amiga minha dizer que o filho tinha pedido de presente uma navalha para poder "sobreviver" na escola. Regozijei-me por os meus filhos ainda só terem 3 e 5 anos, e o maior grau de violência que conhecem ser o dos desenhos animados nipónicos que invadiram o canal Panda. No entanto, até para uma inocente criança que anda na sala dos 4 anos de um colégio privado numa zona calmíssima, o instinto de sobrevivência faz-se notar:
- Ó mãe... podemos ir um bocadinho ao ginásio? (leia-se três máquinas que ofereci ao meu marido nos anos para ele praticar desporto... e, enfim, não têm tido propriamente muito uso)
- Para quê, Afonso?
- Tenho que fazer músculos, para quando lutar com os meus amigos eles não me atropelarem...
- Eles "atropelam-te", filho?
- O Duarte (leia-se "o grandão da turma") dá-me murros muito fortes. E o João Pedro deita-me ao chão. Vou começar a treinar todos os dias para dar cabo deles...
Soou-me a diálogo de "Fight Club". Deixei-o subir ao ginásio, para ver o desenrolar o filme, e vejo o meu filho a querer pegar em dois pesos pesados, e a treinar uma sessão de murros ao som da Daniela Mercury (CD disponível no momento).
- Ó mãe, quando eu tiver filhos (o que para o meu filho é o mais recente sinónimo de ser grande) vou ter muitos músculos e ninguém se vai meter comigo...
Acham que lhe explique agora que os esteroides podem provocar impotência, ou deixo o assunto para mais tarde?
Aqui vai o best-of da semana:

(AFONSO a comer arroz de pato ao jantar)
- Ó mãe, a barriga do pato tem arroz lá dentro, "pois é"?

(SEBASTIÃO para a avó Antónia)
- Ó avó, queres vir à minha casa?
- Sim, quero...
- Então tens que ir pedir à tua mãe...
Em tempo de Europeu, o pai perdeu uma tarde a instruir o Afonso e o Sebastião sobre os jogadores da Selecção. Nomes e posições, repetidos diversas vezes com o claro intuito de os pôr mais tarde a fazer boa figura, junto dos amigos (sim... os pais também fazem estas coisas. Não são só as mães. A propósito, já contei que o Afonso diz o abecedário todo e o Sebastião já sabe a lengalenga até ao "l"? Adivinhem quem os ensinou até à exaustão?). Depois da dita conversa, o pai mandou os filhos virem ter comigo para mostrarem o que tinham aprendido.
- Então, Afonso? Quais são os teus jogadores preferidos?
- O Montinho e o Nuno Gomas...
(ai se o Contra-Informação lê isto...)
(conversa entre pai e filho - sem saberem que a mãe estava a ouvir):

- Fazes assim, pai... Primeiro dizes à mamã que ela é muito bonita... Depois ofereces-lhe um presente...
- Que presente, Afonso?
- Hum... Pode ser um desenho. Desenhas a cara dela e dás-lhe.
- E isso é para quê, Afonso?
- Então, pai? É assim que se dá a volta às miúdas...

(enquanto se ficar pelas palavras bonitas e pelos desenhos, posso dormir descansada...)
No outro dia fui dar com o Afonso e o Sebastião de braçadeiras postas (bem cheias!) a lutarem. Como nem sempre consigo encaixar que os rapazes gostam e precisam de lutar, armei-me em mãe chata e disse-lhes para pararem com aquilo. Mas eles não pareciam zangados, nem os seus movimentos pareciam ser executados para aleijar. Percebi então que os meus filhos estavam a simular uma cena de Wrestling, e as braçadeiras eram nem mais nem menos que os músculos. Achei tanta graça que resolvi sentar-me a assistir, mas o Afonso, rapidamente, solicitou os meus préstimos para tornar ainda mais real a brincadeira: “Anda cá, mamã! Tu és aquela loura que anda por aqui e entrega os prémios no final…” (No comments…)
A meio da refeição, na sua mais recente fase que eu chamo de "esticar a corda até rebentar a paciência da mamã", o Sebastião começou a abanar as mãos e os braços com força. Quase voou o prato e o copo e tudo o que estava na mesa. Segurei tudo com a ajuda do pai e lá pedi ao Sebastião que parasse com aquilo (fase 1). Na fase 2 disse-lhe que ia de castigo se não parasse, e na fase 3 lá subi o tom de voz para ele perceber que a mãe também se zanga (a fase 4 é pedir a ajuda do pai, que, não sei porquê :(, é sempre a medida que tem resultados mais imediatos e efectivos). Foi então que ele disse, no seu gaguejo e atrapalhação de 2 anos e meio: "Não posso parar, mamã... Estou a voar..."
- Mamã, tu és a minha melhor amiga porque me tratas muito bem. Quando eu estava na tua barriga não sabia quem tu eras. Pensava que estava numa boca gigante. Mas depois saí e gostei muito que fosses tu a minha mãe...

Foi na casa de banho, e quase esmaguei o meu filho Afonso com um abraço daqueles que só os pais sabem dar. De uma gratidão profunda àqueles seres pequeninos que saíram de nós e dão tanto sentido à nossa vida...
- Afonso, quem é a menina mais bonita da tua escola?
- É a Hao-Hao (menina chinesa). E tu, mãe, também tens uma escola?
- Não, filho, já te disse que não. A mãe trabalha.
- Então quem é o homem mais bonito do teu trabalho?

(quem me mandou a mim puxar o raio da conversa? :( )
Num daqueles dias em que se está tão cansado que nem se consegue descarregar nos filhos, deixei-me cair no sofá e resolvi contar-lhes a verdade : "Meninos... portem-se lá bem, por favor. A mamã está muito tãooo cansada..." Normalmente é o Afonso quem se manifesta, pergunta porquê, ou queixa-se que também está cansado, mas desta vez quem resolveu manifestar-se foi o Sebastião, que já vai estando cada vez mais atento ao mundo, saindo de vez em quando do seu egocentrismo natural da idade para tentar descobrir os estados de espírito das pessoas.
Veio até mim, deu-me um abracinho com muita força, e depois perguntou, acentuando os "ssshhh": "E agora, mamã? Já não estás canshshshada?"
"I like to move it, move it!, I like to move it, move it!" - foi assim que, num inglês até bastante perceptível, o meu filho Afonso me recebeu à porta, quando regressei a casa do trabalho. Tentei puxar por ele, saber onde tinha aprendido a música, como e porquê, mas ele sorria com aquele sorrisinho malandro que ele tem e repetia a lengalenga musicada, divertido: "I like to move it, move it!"... Ao deitar, já o pequenote Sebastião tentava repetir as palavras desconhecidas, mas novamente a minha curiosidade não foi satisfeita ("Conta lá, Afonso... Foi a tua professora da escola que te cantou? Algum colega?" - Nada. Não me respondeu). Tive que improvisar para conseguir puxar por ele. Trepei para cima da cama dele e dancei o "I like the move it, move it" como o dancei muitas vezes, há alguns anos (para não dizer muitos). Quebrei o corpo todo num break Dance improvisado e quando tornei a olhar para os meus filhos eles estavam especados, sentados no sofá das histórias a olhar para mim com ar incrédulo. "Afinal também conheces a música, mamã..." - disse o Afonso, ainda boquiaberto. Poupei-os às minhas histórias. Havia tanto por dizer sobre o "I like to move it, move it". Mas inverti o jogo e agora era o Afonso a querer saber onde eu tinha aprendido a música, e quando. Em troca, contou-me que tinha sido o amigo Francisco, lá da escola, que tinha passado o dia a cantar aquela música. E a saga terminou com os três a dançar o "I like to movie it, move it" em cima da cama do Afonso que, qualquer dia, à custa de tanta improvisação, ainda vem abaixo...

Frase da semana do Afonso: "Ó mãe, tu e o pai não vão obrigar-me a ir à tropa, pois não? É que eu só quero ir se os meus amigos também forem..."
Há determinadas características nossas que desejamos que os nossos filhos não herdem. Sejam elas doenças, características físicas que não gostamos em nós, ou defeitos. Mas hoje apercebi-me que o meu filho Afonso herdou de mim os pesadelos. Quem me conhece sabe como são mirabolantes as minhas noites, entre guerras, monstros, mortos e feridos. E hoje o meu filho Afonso, com apenas quatro anos, contou-me que as suas noites não são muito diferentes das minhas:
- Porque é que, quando eu fecho os olhos, sonho sempre com coisas más, mamã?
Comecei por lhe dizer para tentar contrariar os sonhos maus, e pensar em coisas boas antes de fechar os olhos.
- Mas eu faço isso, mamã. Penso no arco-íris e tenho pesadelos na mesma.
Acabei por confessar-lhe que comigo acontecia a mesma coisa. Mas que isso significava que tínhamos uma grande imaginação.
- E a minha "imanigação" não pode pensar em coisas boas?
Acabei por ter que usar o consolo que uso para mim mesma, e explicar-lhe que a grande vantagem de sonharmos com coisas más, é que abrimos os olhos e percebemos que aquilo que vivemos é muito bom.
- E não podemos ficar sempre com os olhos abertos?
Não. Claro que não. Támbém já o desejei muitas vezes. Mas a noite vem e os olhos pesam. E os sonhos aparecem. Felizmente que o dia tem muito mais horas do que a noite e nele, com chuva ou sem ela, os dias são quase sempre tão bonitos como o arco-íris!
Depois da minha alcunha de sempre "Biga", e de ser chamada de "Tia Pompom" pela minha sobrinhita emprestada Mi, chegou a vez do meu filho Sebastião me arranjar um nome alternativo:
- Sebastião, sabes o nome da mamã?
- Sim, sei. Mamã Rodrigues Lagarta Fugida...
O meu filho Afonso anda perito em perguntas difíceis:

- Mamã, é verdade que quando as pessoas estão muito, muito apaixonadas, nascem bebés?

- Mamã, é verdade que eu saí pelo teu pipi?

. Mamã, tu deitas sangue do pipi?

- Mamã, é verdade que quando eu for crescido tu já morreste?
- Mamãaaaaaaa! (Afonso a chamar-me do seu quarto, já depois de o ter deitado) Tens que vir cá. Tenho um problema.
Lá fui até ao quarto, a olhar para as dez da noite que batiam no meu relógio, pronta para mais uma desanda ao meu filho mais velho que teimava em não adormecer.
- O que é que foi agora, Afonso?
- É que eu às vezes penso nas coisas e acho que elas existem.
- Que coisas, Afonso?
- Coisas feias, como monstros...
Debrucei-me a ele com um sorriso rasgado.
- Sabes o que é que isso quer dizer? Que tens muita imaginação e podes escrever histórias, como a mamã.
- Mas eu ainda não sei escrever...
- A mamã vai ensinar-te. Agora dorme.
Apaguei pela quinta vez a luz do quarto.
- Mamãaaaaa...
- Diz, Afonso.
- Se calhar em vez de bombeiro, quero ser escritor...
E pronto. O Afonso esta noite já não vai sonhar com monstros... e a mãe também vai dormir muito feliz (e babada!)
Se há frase que assusta os pais de filhos em idades inferiores a seis anos (antes dos “Tive nega”, “Dei o meu primeiro beijo”, “Quero uma mota” ou “Iniciei a minha vida sexual”, já para não ir para coisas mais “graves”) é a do “estás a abrir um precedente”... Cada vez que o meu marido, familiares ou amigos me dizem “estás a abrir um precedente”, é sinal que já fiz asneira, que já cedi quando não devia ter cedido e agora vou ter que sofrer as consequências. Se deixo um dia o meu filho mais novo viajar na cadeira do irmão mais velho, abri um precedente e já sei que na semana seguinte ele vai fazer birras diárias para continuar a viajar na “cadeira proibida”. Se meto um dia a sopa na boca do filho mais velho, vou demorar uma semana a convencê-lo a pegar na colher para comer a sopa sozinho. Se deixo o meu filho mais novo dormir com duas chupetas, vai acordar-me, durante dias, vezes sem conta a meio da noite para me requisitar a segunda. E por aí foa... Tudo tem precedentes, como aqueles cadeirões da Faculdade que tinham nomes horríveis seguidos de I e II e III. Sendo que, na Faculdade, tinha que se fazer o I para se seguir para o II e para o III. Na faculdade dos pais, se cedemos a fazer a cadeira/asneira I, já sabemos que temos que levar com as restantes. Felizmente que, na faculdade dos pais, as cadeiras/consequências não duram semestres. Podem durar apenas dias se os pais se esforçarem e se mostrarem firmes a enfrentar as teimosias dos filhos.
Tudo isto para contar que, há dois dias, abri um precedente (uhhh...). O meu filho mais novo saltou da cama, saiu do seu quarto, e foi enfiar-se na cama do irmão mais velho, que fica no quarto ao lado. Chamaram-me os dois, a rir, muito divertidos, e quando lá cheguei o Afonso (que é o mais velho, para quem ainda não sabe) perguntou: “O Sebastião quer dormir comigo. Pode?”. E – confesso – não resisti. Vi aqueles quatro olhinhos a olharem para mim na penumbra, suplicantes, as mãozinhas dadas, e (pronto!) lá abri o maldito precendente: “Querem muito?”. Não queriam eles outra coisa. O Sebastião (mais novo) aninhou-se logo no irmão, mas o Afonso, porque é mais velho e já vai sabendo que os pais tentam não abrir precedentes deste género, ainda não estava bem a acreditar que aquilo fosse a minha palavra final. “Podemos mesmo?”. A palavra “precedente” começou logo a martelar-me na cabeça, mas a imagem dos meus dois filhinhos de mãos dadas, muito amigos e mais unidos do que nunca, satisfeitíssimos por dormirem pela primeira vez na mesma cama foi mais forte do que qualquer coisa. Ainda me armei em “mãe” e soltei um “Mas se ouvir um pio que seja, levo logo o Sebastião para o quarto dele!”. Mas qual quê! Nem piaram. Desci as escadas com o “precedente” a martelar-me a consciência, e o pai dos dois reizinhos lá soltou a frase penalizadora em voz alta: “Olha que estás a abrir um precedente...”. E o precedente lá estava. No dia seguinte, ainda não tinha acabado de descer as escadas, depois da história, lá ouvi os “tique-tique” dos pezinhos do Sebastião a escaparem-se para a cama do mano. Hoje foi o terceiro dia, ralhei, disse que era só para ocasiões especais, mas ainda vai demorar mais 2 ou 3 dias até voltar tudo ao normal...
Se há algo de que as crianças beneficiam com o facto de terem irmãos, é que aprendem rapidamente a argumentar. Não sei se Platão ou Aristóteles eram filhos únicos, mas se tinham irmãos, certamente que lhes davam facilmente a volta. Ou se calhar a sua sofística foi apurada exactamente porque eram um entre outros irmãos, e tiveram que conquistar o seu espaço não só argumentando com os pais, mas também com aqueles que queriam patilhar os seus brinquedos, brincadeiras e atenções.
Desde que o Sebastião (irmão mais novo) se tornou gente e começou a ter voz para reivindicar o seu espaço, que insisto com o Afonso (irmão mais velho) para não resolver as suas divergências com o irmão à pancada. É verdade que os irmãos mais velhos têm sempre vantagem sobre os mais novos, pelo menos enquanto mais idade é sinónimo de mais força ou mais esperteza (depois a balança equilibra-se e os mais novos, se mais fortes ou mais espertezos, costumam até vingar-se desse período de desequilíbrio forçado). O Afonso é mais alto que o irmão, mais ágil, tem mais força e corre mais depressa. Se quer um brinquedo que o Sebastião tem na mão rapidamente lho tira e desaparece com ele. Se o Sebastião tenta tirar-lhe alguma coisa, bate-lhe e recupera à força o que acha que lhe pertence. Isto, claro, quando eu não estou presente (ou quando estou mas eles acham que não estou a reparar neles. Mas os pais têm sempre um olho escondido para ver os disparates dos filhos...). Quando estou, insisto para que todos os assuntos de posse ou decisões de brincadeiras sejam decididas... argumentando. “Se é isso que queres, Afonso, convence o teu irmão”. E ele lá tece argumentações infindáveis, a que normalmente o irmão acaba por ceder por exaustão. Se não cede, é só eu virar as costas e lá volta o Afonso ao sistema do costume, que acaba sempre com o Sebastião a chorar. Mas pronto... Platão com 4 anos também deve ter dado uns calduços nos mais novos até perceber que podia ganhar mais com as palavras...
Quando acordam, os meus filhos costumam ir ter comigo à cama, e antes de me arrancarem nela, aninham-se um pouco ao meu lado a contarem os sonhos que tiveram durante a noite. O pai já se levantou há muito, mas deixou a caminha quente para os miminhos matinais que troco com os meus dois piolhos. E os sonhos de hoje foram assim:

Afonso:
Estava a sonhar que tinha feito uma ovelha de corda. Mas a corda era amarela, então a minha professora apareceu e disse-me para pôr papel higiénico para a minha ovelha ficar branca...

(Até hoje, o Sebastião limitava-se a ouvir as histórias do irmão e a responder um redondo "Não" quando lhe perguntava se ele também tinha sonhado. Mas como cada vez mais não quer ficar atrás do mano, hoje também resolveu contar o seu sonho. Se o sonhou de facto, ou não, só ele o saberá...")

Sebastião:
Sonhei... com... borboleta. Depois apareceu o Panda. E comeu-a...
O tempo voa, não me tem sobrado tempo para nada, mas as frases dignas de registo são diárias e, pelo menos essas, não posso deixá-las escapar pelo ar:

Afonso, o sonhador
- Mãe, não consigo adormecer...
- Pensa em coisas boas, Afonso.
- Mas se eu pensar em coisas boas... vou voar! (para quem não se lembra... Peter Pan!)

Sebastião, o sádico
(trouxe a filha de uma amiga para minha casa, enquanto a mãe ia às compras)
Sebastião: Madalena... a tua mamã... fugiu!
(Madalena quase a chorar. Sebastião a rir)
Sebastião: Madalena... fugiu, fugiu!
(Madalena a chorar)
Eu: Não fugiu nada, Sebastião! Só foi às compras mas já volta.
Sebastião: Não volta, não... Ih, ih, ih!
(faz raccord com Sebastião a apertar passarinho caído do ninho até ele sufocar, enquanto Afonso gritava: "Estão-lhe a sair os olhinhos! Estão-lhe a sair os olhinhos!")
Afonso acabado de acordar:

- Ó mãe, quando eu estava na tua barriga pensei que não gostava que chovesse. Mas depois tu bebias água e chovia-me em cima...
Não sei se foi da semana em casa do avô engenheiro , mas o meu filho Afonso anda com tiradas de engenhocas:
"- Ó mãe, podes pôr a Disney?
- Não dá, filho. Só na televisão da sala.
- E a Disney não pode passar da outra televisão para esta?
- Passar como?
- Pela parede.
- Pela parede? Como?
- Então, mãe... pela electricidade..."

Ou será que, aos 4 anos, o meu filho já tem aulas de físico-química no infantário?
- Mãe, hoje perdi no jogo das Cadeiras mas disse à Carla que o importante não era ganhar nem perder. Era ter amigos...
Fiquei toda orgulhosa do meu filho Afonso. Afinal as lições de moral que lhe impinjo todas as noites, na sequência das histórias que lhe leio e que, às vezes, de moralistas não têm nada, servem para alguma coisa. O pai passou a tempo de ver o meu orgulho e proferiu um "quem é que te disse isso, Afonso? Claro que o importante é ganhar! Tens sempre de tentar ganhar!". Lá fui atrás dele discutir as miudezas da educação dos nossos filhos e fiquei a perguntar-me se a minha tentativa para os ensinar a serem boas pessoas é compatível com a selva em que vivemos todos os dias, em que é importante, de facto, fazer tudo para ganhar. Não digo que tenha que os ensinar a passarem por cima de tudo e de todos para o conseguirem (nem era isso que o pai queria dizer), mas às vezes também me pergunto se a minha lógica de "às vezes deixa o teu amigo ganhar, assim ele fica feliz, e como o fizeste feliz também ficas feliz" seja a mais prudente. Será que também tenho que os ensinar a serem sobreviventes?
Tal como a dinâmica faz toda a diferença, na música, também a dinâmica com que falamos com os nossos filhos faz toda a diferença na forma como eles reagem ao que lhes dizemos. Entoação, vibração, linguagem corporal, expressividade, e tudo o mais que dê dinâmica ao nosso discurso pode ajudara que os nossos filhos nos dêem atenção e reajam positivamente ao que pretendemos deles. Quando estou para aí virada, encarno o Duarte das Pistas da Blue e falo a cantar, com uns versos pelo meio, faço caretas e movimento o corpo, é garantido que os meus filhos vão ficar a olhar para mim, que mais não seja a perguntarem-se o que é que me deu que fiquei patética de repente. Mas sem ser preciso chegar a este exagero (desculpa Duarte, mas eu própria ficava a olhar para as Pistas da Blue e a pensar como é que podias estar a fazer uma figura tão patética), se falarmos de tudo com entusiasmo e dermos ordens recheadas de motivação, a vida em casa e na rua pode ficar muito mais facilitada. Se em vez de "come já a sopa!" dissermos "Uma corrida para ver quem se transforma mais depressa no Monstro da Barriga Cheia de Sopa", se em vez de "Ninguém se levanta da mesa" dissermos "Tenho o rabo colado à cadeira! As vossas cadeiras também têm cola?" e se em vez de "Não quero cá gritos" dissermos "Vamos falar como os fantasmas. Baixinho para não assustarmos as pessoas... e o primeiro a acabar vai assustar o pai" é garantido que, pelo menos à refeição, vai tudo ser um bocadinho (se calhar só mesmo um bocadinho) mais calmo.
Regressei hoje de férias e fui brindada pelo meu filho Afonso com um verdadeiro hino ao Natal:

Jingle Bell, Jingle Bell,
já não há papel
Não faz mal, não faz mal,
limpa-se ao jornal.

O jornal acabou
E o papel também
Vou limpar o rabo
às saias da mãe...
Uma semana sem os meus filhos, e foi o suficiente para me esquecer da pressa com que eles (e as crianças em geral) vivem a vida. É tudo para agora, no momento, sem demoras. O Natal tem de ser hoje, os pais têm de ter tempo para brincar agora e só a sopa e cortar as unhas dos pés é que pode ser para amanhã (que é como quem quer dizer nunca). Sem muita noção do tempo, o depois ou o amanhã pertencem a um tempo tão vago e tão distante que eles não o compreendem. Vivem o momento. Gozam-no. Talvez seja essa a grande diferença entre as crianças e os adultos. É que crescer implica aprender a esperar, a ter paciência, a fazer de tudo hoje para gozar um dia, mais tarde, depois, amanhã ou nunca.
Brincar às escondidas é a brincadeira mais eficaz para as mães ocupadas conseguirem trabalhar e deixar os filhos contentes ao mesmo tempo. Basta que as mães fiquem sempre com a função de contar e procurar os piolhos. Os números são intermináveis ("ó mãe, ó precisas de contar até dez!") e, se a casa é grande, dá perfeitamente para se ficar sentado ao computador a enumerar, em alta voz, eventuais lugares onde se sabe, à partida, que os filhos nao estão ("Será que estão no frigorífico? Não... Será que se esconderam dentro do forno... também não! Será que fugiram de casa? Não..."). Às vezes misturar uns sons (de portas a bater, gavetas à abrir, o que estiver ao pé da mesa onde estamos a trabalhar ao computador) ajuda ao efeito. Difícil, claro, é conseguir trabalhar alguma coisa de jeito e contar e gritar eventuais esconderijos possíveis ao mesmo tempo. Mas as mães têm o cérebro treinado para serem mulheres e mães e trabalhadoras ao mesmo tempo (alguns pais também, é verdade) de modo que é uma questão de compartimentação do cérebro. Até, claro... os filhos crescerem e não se deixarem enganar com tanta facilidade... Cá estaremos para inventar novas estratégias.
Hoje fui KaratéMãe, a maior lutadora de "karaté em Cima da Cama". Destronei os meus dois filhos em dezenas de lutas cheias de efeitos especiais de imagem (entre freezes e slowmotions) e som (Uh! Ah! Iá!). Resultado: o Sebastião ficou com uma orelha inchada, o Afonso fez um galo e eu tenho outras tantas nódoas negras. Não tentem fazer isto em vossas casas. Só resulta mesmo nos filmes...
- Ó mãe, sabes que já não me podes dizer o que é que eu tenho que fazer?
- Ai não?
- Não. Porque eu já sou adulto.
- Queres ser adulto, Afonso? Mas porquê?
- Os adultos podem fazer o que querem e podem ralhar com os outros. Se eu fosse adulto só fazia o que eu queria e ralhava com o Sebastião.

Enfim... deixá-lo acreditar que é mesmo assim. Que um adulto pode fazer o quer (quando a verdade é que raramente pode) e que tem poder para ralhar com os outros (quando geralmente ralha com os filhos porque não o pode fazer com os patrões e já está cansado de ralhar consigo próprio).

PS 1 - O Sebastião já faz frases completas sem respirar entre cada palavra. Não diz artigos, mas parece que a mãe também não... (defeito de guionista. Já posso pôr o meu filho a fazer grelhas. E desculpem a privat joke a quem não a entender)
PS 2 - O Afonso ontem fez uma morsa em plasticina e, sem a motricidade fina suficiente desenvolvida para fazer pequenas bolinhas a fazer de olhos, espetou na gorda morsa duas bolas quase maiores do que o corpo. Quando lhe chamei a atenção: "Afonso... por que é que os olhos estão tão grandes?", ele respondeu-me, no seu desenrascanço habitual de quem nunca gosta de ficar mal visto: "Porque a morsa viu um tubarãoooooooo..."
O meu filho Afonso fez 4 anos!!! Descontando as horas que passamos a dormir, as que passamos a trabalhar, mais as que ele passa na escola ou nos avós para os pais descansarem, diria que sobra menos do que um ano de tempo real a sermos pais do nosso filho e ele filho dos seus pais. Será por isso que os filhos, para os pais, nunca deixam de ser pequeninos? Porque o tempo afectivo nunca alcança o tempo real? Pena que não seja o contrário. Porque o segundo tempo envelhece-nos. E só o primeiro é que nos dá vida.
(Afonso no carro)
- Ó mãe... como é que se chama aquela coisa chata onde tu vais nos dias em que não me podes contar histórias?
- ?????
- Ah, já me lembrei! São as "reuniões"...
- Ó mãe, e se eu morresse, e o mano também, e o pai também, e tu ficasses sozinha? E se toda a gente morria e tu ficavas sozinha, como a Formiga Z? E se toda a gente fosse comida pelas térmitas e tu ficasses sozinha num buraco?
(5 segundos de murro no estômago)
- Ó mãe, e se tu estivesses a passear comigo, eu fugisse, caísse num poço e me afogasse?
(subi a música do rádio e incitei a uma cantoria colectiva com "nananas". E enquanto os meus filhos cantavam, já esquecidos das desgraças, recordei as minhas brincadeiras de crianças: as Barbies que eram violadas, os Kens que morriam, os Pin&Pons que tinham dramas familiares de fazer chorar as pedrinhas da calçada. E percebi que, isto do genes, nunca falha. Ou muito me engano, ou o meu filho Afonso ainda vai acabar a escrever novelas...)
Enquanto eu corro de um lado para o outro e parece que o tempo não me chega para nada do que eu tenho para fazer, os meus filhos têm urgência de brincar. Chego atrasada à escola deles porque estive a escrever mais umas linhas antes de sair, não posso ir logo jantar porque ainda tenho que mandar uns mailes, e zango-me com os meus filhos quando eles não querem ir tomar banho porque ainda não brincaram tudo, ou saltam da mesa porque ainda precisam de brincar um bocadinho antes de irem dormir. As crianças sentem necessidade de brincar, como os adultos sentem necessidade de trabalhar. Às vezes pergunto-me se o mundo não podia ser de tal forma que as pessoas não precisassem de trabalhar para viver, mas acho, sinceramente, que não se trabalha só para ganhar dinheiro. Trabalha-se por uma necessidade de produção, de evolução, de crescimento. É instintivo. Tal como é instintivo, para as crianças, brincarem e evoluírem nas suas brincadeiras. A diferença está apenas ao nível da consciência e na forma como ela pesa em cada idade.
Às vezes, quando estou sentada ao computador, a trabalhar freneticamente, olho para os meus filhos a brincar, à minha frente e pergunto-me em que momento da nossa vida, e porquê, se dá esse passagem entre a evolução inconsciente e a evolução por necessidade. Entre o evoluir sem preocupações (a brincar), e a preocupação permanente de evoluir (a trabalhar). E sonho com o dia em que as duas se voltarão a fundir, em que a consciência deixe de pesar e a vida se torne, novamente, uma alegre brincadeira...
- Mães, sabes o que é "puta"?
Achei que tinha percebido mal, e corrigi "Fruta, filho. deves queres dizer fruta. As bananas, as maçãs, as peras e as inocentes ameixas". MAs não. O meu filho mais velho tinha mesmo ouvido a palavra "puta" e sentia-se preparado para me explicar o seu significado.
- "Puta" é cocó. E sabes porquê? Porque cheira mal...
E pronto. Enquanto assim for, remetemos o "puta" para as palavras proibidas por alegada escatologia. Vamos ver qual será a próxima.
Se ontem fui eu que entrei no universo masculino (das lutas), hoje foram os meus filhos que resolveram entrar no feminino e, depois do banho, resolveram experimentar os sapatos da mamã. Vê-los nus com os pés enfiados nos sapatos de salto alto da mãe , com o Afonso a dizer que era um Afonso-mulher, foi muito divertido. Mas não me atrevi a tirar-lhes fotografias, não se tornem eles um dia jogadores de futebol (pobre Cristiano Ronaldo!) ou, por algum motivo, a justiça ou um dos seus muitos departamentos (e tenho que recordar aqui o meu grande Kafka) resolver testar as minhas qualidades de mãe. Perderia, seguramente, a custódia dos meus filhos por incitamento à pornografia infantil, pedofilia, ou crime do género. E quando falo disto lembro-me sempre de uma amiga (onde andas, Leonor?) que um dia, num balneário de um ginásio, se deparou com uma criancinha linda, nua, ao seu lado, que ingenuamente lhe perguntou se ela lhe podia lavar o seu pipi. E claro está que a minha amiga fugiu dali a sete pés! "Vai pedir à tua mãezinha, e ela que não te lave à frente de muita gente..."
PS - E, sim, pronto... Não tirei fotografias, sobretudo, porque os meus filhos, daqui a uns anos, não iam achar piadinha nenhuma... Olhem para mim a mostrar o álbum de fotografias deles às minhas futuras noras, no sofá da sala (cena típica): "Eram tão engraçadinhos..." Enfiavam-se num buraco, ou se calhar enfiava-me eu, se as minhas futuras sogras me respondessem algo do género: "Então vem desta altura o fetiche de se vestir de mulher... Ele ainda hoje adora calçar os meus sapatos de salto alto depois do banho..." Enfim, vou mas é trabalhar que a noite é longa!
Hoje a tarde de brincadeiras com os meus filhos, que se costuma ficar pela futebolada e pelos saltos (para a água e na cama elástica, que foi a última aquisição cá para casa), hoje degenerou em lutas. Sempre recusei esse género de brincadeiras cá em casa, mas hoje resolvi mergulhar de cabeça no universo masculino, e disse ao meu filho que ia (finalmente) lutar com ele. E fiz uma descoberta incrível: não é que o raio dos putos conseguem lutar sem se magoarem? Já percebi de onde surgiu o restling. De facto, estive uma boa meia hora a "lutar" com o meu filho, e nem uma investida dele, em supostos murros e pontapés, me magoou. Os meus ataques também não o magoaram, que eu era capaz de o fazer, já o sabia. Não sabia é que as crianças eram também capazes dessa proeza incrível que é ser violento sem o ser. Exteriorizámos os dois um bocado da nossa raiva e vi o meu filho olhar para mim como um compincha, o que foi muito bom!
O pai juntou-se depois à brincadeira num jogo de rugby (nem sei como se escreve!), e fez equipa com o Afonso. Eu e o Sebastião perdemos por uns modestos 1000 a 0, e ainda fomos fazer umas corridas para soltar todas as energias antes do banho (e aos sábados eles dormem sempre que nem anjinhos!). E, com o pai hoje disposto a todas estas brincadeiras, fiz outra descoberta importante: os pais, em geral, gostam de ganhar aos filhos para os obrigar a serem melhores. As mães, em geral, deixam os filhos ganharem para eles se sentirem os melhores. É a diferença fundamental entre a razão e a emoção que tantas vezes é o mais separa os homens das mulheres...
Não, não estou grávida outra vez! Gostaria, mas ainda não estou. Mas a barriga proeminente da antiga professora do meu filho Afonso deu aso a uma conversa muito engraçada sobre bebés na barriga:
- Mãe, o médico da kátia (professora) vai ter que lhe cortar a barriga com uma faca...
- Mas sabes, filho... Os bebés não precisam de sair assim...
- Eu sei. O médico também usar uma tesoura...
Daqui a conversa resvalou para a barriga da mamã, que já encheu duas vezes, o que fez muita confusão à cabecinha de três anos do meu filho.
- Eu nasci da tua barriga, e o Sebastião nasceu da barriga do pai, não foi?
- Não, Afonso. Nasceram os dois da barriga da mãe.
- Mas não devia ser. Assim a tua barriga pode rebentar...
Pois é, querido Afonso. A mãe qualquer dia explica-te o que são estrias...
Numa semana em que morreram cá em casa, de enfiada, dois peixes e uma tartatuga, colocou-se-me a questão: como explicar aos nossos filhos que os animais, em geral, não duram tanto quanto as pessoas e que as pessoas, também em geral, ficam mais tristes quando lhe morrem os pessoas do que quando lhes morrem os animais? A primeira questão não foi difícil, porque as crianças (pelo menos na idade dos meus filhos) têm uma noção de tempo muito especial. Um animal que viva muitos meses pode parecer que já viveu anos, porque as próprias crianças ainda têm poucos de vida. Explicar por que é que morrer-nos um animal é algo que temos que aceitar sem grandes problemas já foi um pouco mais difícil. Comecei a teorizar sobre humanos vs animais, com a história do "uns têm sentimentos, outros não". Falei em inteligência, e nos afectos que nos unem a uns e outros. E o Afonso lá percebeu, dentro daquilo que uma cabecinha de três anos pode entender. Sem que isso o impeça de não conseguir matar formigas porque tem medo, mas não tenha quaisquer problemas em dar pontapés ao nosso gato. Já o Sebastião, ouviu-me (se me ouviu) sem me ligar nenhuma, porque aos quase dois anos ainda não se percebe que fechar os olhos pode não ser só sinónimo de ir nanar. Tanto é que uma das brincadeiras preferidas dele é esborrachar bichinhos-da-conta com o pé, e no outro dia até apertou tanto um passarinho bebé que nos apareceu no jardim, que o matou de sufoco. Enquanto o passarinho abria o seu biquinho aflito, o Sebastião gritava, alegremente: "qué papa, qué papa?"...
PS - A Sociedade Protectora dos Animais que me desculpe. Eu juro que tentei evitar a chacina.
Afonso no seu melhor:

- Mãe, sabias que as lágrimas são salgadas?
- Sim, filho.
- Mas os macacos são docinhos...
- Mãe, sai de trás de mim, senão dou um pum e sujas-te...
O bom de mandar os filhos para a escola é que passamos num ápice (sempre algures entre o fim de Agosto e o início de Setembro) de pais que não têm imaginação para entreter os filhos um dia inteiro, ou pais que deixam os filhos o dia inteiro com a empregada ou com os avós porque não têm férias, para pais que os salvam de um dia inteiro na escola e têm algumas preciosas horas (até os enfiar na cama) com total disponibilidade (ou, pelo menos, vontade de) para estar com os filhos. Os braços abrem-se quando nos avistam ao longe, no portão da escola, os abraços são mais fortes, e eles convencem-se que eles é que estiveram ocupados, e nós é que estivemos o dia todo à espera para eles terem tempo para nós. Claro que é uma ilusão, mas quando não se consegue ter férias de qualidade com os filhos (ou, como eu, só se consegue ter férias fora de época), enviá-los para a escola é um alívio. Trabalha-se mais e mais descansadamente (sem a pressão do "eu devia estar com eles... Quem é que inventou que as pessoas tinham que trabalhar?"), e aproveita-se muito melhor o tempo que estamos com eles ("aqui estou! Agora sou vossa, façam de mim o que quiserem"). Viva a escola!
- Mãe, se calhar vou viver para Inglaterra.
- Inglaterra, filho? Mas é tão longe.
- Vais ter saudades minhas?
- Muitas! Muitas!
- Não faz mal. Eu venho visitar-te nas férias...

Tudo isto seria uma conversa normal, se o meu filho não tivesse 3 anos... :(
E o que fazer quando os nossos filhos têm ataques de estupidez galopante em frente a outras pessoas? Aconteceu-me no sábado. As vítimas (para além de mim) foram dois tios meus com quem estamos poucas vezes. O Afonso entusiasmou-se com as suas graças, e passou em poucos minutos de um miúdo cheio de piada para um puto hiperactivo com ataques de riso histéricos que o impediam de ouvir o que quer que fosse de quem quer que fosse. A todas as perguntas que eu fazia respondia "cocó" e quando lhe pegava no braço para ele prestar atenção, punha o corpo mole e deixa-se cair no chão. O desespero! Em casa, ia imediatamente para o sofá dos castigos pensar na vidinha, ou, se o pai estivesse em casa, mandava-lhe um berro do escritório que seria o suficiente para o fazer voltar à realidade. Mas em pleno aeroporto cheio de gente, comigo a tentar controlar outro não menos hiperactivo Sebastião, a situação parecia absolutamente incontrolável. Por mais que eu me justificasse ("ele nem costuma ser assim e tal"), o meu desespero a tentar dominar duas criaturas de meio metro instalou um silêncio incómodo e uma troca de olhares inevitável entre os observadores da cena. "Não hás-de tu estar magrinha..." - comentava a minha tia. "É normal" - dizia o meu tio, que por dentro pensava "se fosse comigo, levava já uma galhetada...". Resolvi aproveitar mais uma escapadela do meu filho ao meu braço já prestes a apertar o dele, para ir atrás dele e o apanhar atrás de um placar de qualquer coisa que estava a esconder uma parede mal amanhada. Ali, longe de olhares, do panóptico, de tudo, abanei-o um bocado e tentei raptá-lo do reino da parvoíce com umas palavritas mais duras. E depois abracei-o com muita força. Descobri há tempos que, mais eficaz do que uma palmada, é apertar o corpo do meu filho com toda a força contra o meu. Aperto-o e digo-lhe muitas vezes "calma, calma, calma"... Outras vezes coloco-lhe uma mão no peito e outro nas costas, com as palmas bem abertas, e aperto-o também com força, entre palavras também fortes. Nunca li nada sobre reiki, mas acho que aquilo que se fala da transferência de energias deve ter alguma coisa a ver com isto.
Resumindo: nem sempre, para sermos bons pais, resulta imaginarmo-nos com gente à volta. Às vezes, quando temos gente à volta, para sermos bons pais, temos mesmo que agir como se não estivesse ninguém a ver!!!
Quando os pais estão a conviver com os seus filhos sob os olhares atentos de familiares, amigos ou até perfeitos desconhecidos, conseguem geralmente ser pais mais perfeitos do que quando a paciÊncia lhes falta em privado. Pelo menos é feito um esforço adicional, nem sempre consciente. Por isso, quando estou no meu limite, aprendi que posso beneficiar de um exercício muito simples: imaginar que o meu comportamento está a ser avaliado por quem me observa. Uma espécie de panóptico de Foucault aplicado à paternidade. Claro que tenho obrigação de me esforçar por ser melhor mãe sem ter que fazer exercício nenhum, porque amar os filhos geralmente chega, mas quando se está no limite do berro ou da bofetada, imaginarmo-nos em BigBrother pode ser uma valente ajuda...
O meu filho mais velho foi há seis longos dias de férias com a avó para o Algarve. Achei que era uma excelente oportunidade para pôr o meu trabalho em dia, já que o meu piolho mais pequeno dá menos trabalho e se entretém muito bem durante o dia com a pessoa que toma conta dele. Mas a verdade é que a casa insuportavelmente vazia não dá inspiração nenhuma, e o meu piolhinho pequeno percebeu que esta era a semana exacta para gozar a mãe. Sentiu-se, pela primeira vez, filho único (realidade que ele não conhecia, de todo!), sem o irmão a competir (e com armas mais eficazes) pelo colo e atenções da mãe. Então "colou-se" à mamã, e foi muito bom, porque eu também ainda nunca me tinha sentido só mãe dele. Olhar para ele e dar-lhe miminhos sem ter que pensar que o outro está por ali a exigir metade, ou se não está é porque está a fazer alguma asneira e é melhor ir ver o que é antes que degenere em desgraça, é muito bom! E os progressos do meu piolho bebé (que de bebé já tem pouco) também foram notáveis esta semana. Percebi então que é muito bom ter vários filhos para eles brincarem uns com os outros, mas é preciso arranjar momentos para estarmos com cada um deles como se fossem filhos únicos.
Para compensar os filhotes e o pai deles de uma semana cheiiiiiinha de trabalho, decidi passar um sábado inteiro sem ligar o PC. Um sábado inteiro de molho na piscina a brincar com os filhotes e os primos. Resultado: à noite adormeci ao primeiro "4400" que o pai arranjou para ver comigo, eram onze da noite. Toca de pôr o despertador para as seis da manhã para trabalhar no domingo de manhãzinha antes da criançada acordar, e não escrevo isto para que os escassos leitores deste blogue tenham pena de mim e de todas as mães do mundo que trabalham muito e têm filhos (até porque às 8 da manhã fui tirar um cochicho). Queria, sim, informar que o meu filho descobriu a forma de combater o sono dos pais. Quando acordou e me viu a bocejar, com os olhos a pender, resolveu ensinar-me a ser forte e a ter energia: "É fácil, mamã. É só esfregares os olhos com força. Depois esticas assim os braços e já está!". Obedeci e que remédio não tive eu senão despertar. Mas, pelo sim, pelo não, também bebi um cafézito...
Aqui vão algumas demonstrações da esperteza galopante do meu filho mais velho:

(a vermos o filme "A mais louca corrida do ano" - acho que é assim que se chama)
- Olha, Afonso. Está ali o mr.Bean...
- Não é, não, mamã. Ele aqui fala...

(a ver o Hérman José vestido de mulher na TV)
- Olha mamã... Está ali um homem-mulher...

Assinado: mãe babada
Diz quem percebe do assunto que combater as alterações climatérias passa necessariamente por uma mudança de mentalidades. E a verdade é que, a avaliar pelo que se passa aqui em casa, essa mudança está a acontecer. O meu filho mais velho leva injecções na escola sobre boas práticas ecológicas, e nas livrarias multiplicam-se os livros sobre o que fazer para proteger a Terra. Eu tenho uns quantos, que lemos antes de ir para a cama, e é incrível como um caganito de três anos já fala em reciclagem, poluição e desperdício de energia como gente grande. Dentro dos seus conceitos primários, sabe que vive num planeta que tem que ser preservado, e lá vai chateando para o pai para ele não fumar, chama a atenção quando vê lixo no chão e odeia ver fumo a sair dos carros ou fábricas. No outro dia foram dar com ele, na escola, a apanhar folhas velhas caídas no chão. A professora foi perguntar-lhe o que estava a fazer e ele respondeu, cheio de segurança "Estou a proteger a Terra". Creio de daqui a uns anos vamos ter os nossos filhos a culparem-nos pelo que fizemos à Terra dele. E os filhos deles beneficiarão certamente desta mudança...
Uma semana inteira sem banhos nem jantares nem birras nem choros... já precisávamos! Mas foi também sem os beijinhos lambusados de boa noite, as histórias antes de adormecer, os miminhos de manhã, os sorrisos, as conversas hilariantes no carro e as brincadeiras no jardim ao entardecer. Senti muita falta dos meus piolhos nesta semana de férias, mas gozei muito o pai deles, e voltei com mais paciência, mais brincadeiras, mais vontade de ter tempo e mais sorrisos. Fazer férias dos filhos é bom para sentirmos como eles nos fazem falta. E para recordarmos que estar a dois é muito bom, mas estar a quatro (ou a cinco ou seis...) é muito melhor!
E pronto! Uma semaninha inteira de férias dedicada exclusivamente aos nossos dois piolhos e aos sobrinhos (que também levaram os pais, ainda não nos sentimos mentalmente capazes de fazer férias com a sobrinhada toda. Lá chegará o dia, mas primeiro que comam e adormeçam sozinhos e percebam que só se mantêm vivos porque têm os olhos de alguém protector sobre eles, 24 horas por dia. Temos a nossa Maria de 9 anos que já sabe o significado da palavra de responsabilidade, mas uma vez, há uns anos, sonhei que a tinha perdido à beira de um pontão e que nunca mais voltei a casa porque não sabia o que dizer à minha irmã e ao meu cunhado. Esforço-me por deixar esses pesadelos para a noite, e tentar aproveitar os momentos cor-de-rosa do dia-a-dia, mas já agora que os sobrinhos cresçam mais um bocadinho, porque para me deixar com o coração nas mãos já me chegam os meus dois piolhos!). Voltando às férias, foi um excelente momento em família. As refeições em buffet eram esgotantes (manter 4 crianças sentadas numa sala cheia de gente, comida e crianças até à fruta, era uma tarefa alucinante) e as tentativas de sessões fotográficas exasperavam-nos (sobretudo aos mais pequenos, que lá andavam vestidos de igual dois a dois cheios de pais, tios e avó paparazzi a tentar captar todos os seus melhores ângulos), mas vivermos durante uma semana os 4 no mesmo quarto, com mais ou menos os mesmos horários, foi uma experiência muito interessante. Lemos muitas histórias, jogámos jogos, tomámos banho juntos, vestimo-nos uns aos outros, adormecemo-nos e acordámo-nos, brincámos... e apesar de sairmos de lá todos cansados uns dos outros (o Afonso só queria chegar a casa para ver o seu Panda, o Sebastião foi buscar o telefone para ligar para a Teresa, que está no Brasil, o pai queria estender-se no sofá e ligar o ecrã panorâmico, e a mãe dava tudo para poder ligar o computador e escrever as suas coisas à vontade), viemos de lá, se dúvida, muito mais unidos! E adivinham-se muitos fins-de-semana a 4, daqui para a frente!

Conquistas:
- Sebastião já nada sozinho com braçadeiras.
- Afonso diz "gracias"
- Sebastião já passou a fase dos monossílabos e constrói frases com duas e três palavras.
- Descobri um bom detector de mães: qualquer mulher com manchas brilhantes na roupa que traz sobre os ombros e peito. Não, não é batôn, gordura da carne ou pingas de gloss. Mulher com essas marcas é mãe. E as manchas são ranho.
Calma. Sorrisos. Histórias contadas à beira da piscina. Abraços. "Moches". Os grelhados do pai saboreados a quatro. Circo impsovisado em cima de toalhas, com direito a um pónei amestrado para o passeio das crianças (eu!). Música. Évora com calma sem a despedida do costume ("Ainda tenho que ir trabalhar..."). Computador desligado à espera de Segunda-feira. Tinha tantas saudades de um fim-de-semana assim!
Para evitar os gritos na hora de comer a sopa (os meus gritos, ok? "Coooome, Afonso!!!!"), resolvi recorrer ao truque da avó Ti e contar-lhe uma história enquanto lhe enfiava a sopa pela goela adentro (eu sei que ele tem que comer sozinho! Mas eu não posso berrar com ele a todas as refeições, pois não?). E o resultado foi este:
- Sabes que os Dinossauros não existem, Afonso.
- Existem sim, mamã. Moram na Itália.
- Não, filho, ouve. (outra colherada) Eles viviam há muitos milhões de anos, mas depois a terra arrefeceu, ficou tudo gelado e eles morreram.
- Não, não, mamã. (pausa para engolir mais uma colher enfiada à bruta) Os dinossauros não morreram.
- Morreram, filho. A Terra transformou-se em gelo... (ó para mim a inventar também)
- Mas os dinossauros não morreram! Aprenderam a patinar, mamã...
Deixou metade da sopa, mas pelo menos eu fiquei a saber que a patinagem foi criada no tempo dos dinossauros e que estes ainda vivem, isolados:
- Vivem na Itália, com os jogadores de futebol, mamã. Por isso é que a Itália é a maior. I-tá-li-a! I-tá-li-a!
Se por lado o meu filho Afonso não prima pela paciência (como o paizinho dele), herdou do pai uma qualidade inegavelmente vantajosa nos dias que correm: o "desenrascanço"! Pedi-lhe para fazer um desenho. Como não tem muita paciência, costuma desenhar uns riscos e dizer que é uma pista de carros. Pedi-lhe especificamente para ele não desenhar uma pista e ele... desenrascou-se! Fez uns pontos, à pressa, numa folha, e disse que era o sistema solar!
Hoje, na escola, a professora pediu-lhe que fizesse qualquer coisa em plasticina. Ele limitou-se a fazer duas bolas mal engendradas, para ir brincar e a professora disse-lhe que não podia fazer bolas. Ao que ele respondeu: " Mas não são bolas! São pedras!"
Com respostas destas sempre prontas na ponta da língua, temo que ainda vou ter muito que argumentar com o meu filho, nos próximos anos...
E pronto, lá se passou mais um casamento em família, com uma chegada apoteótica ("ai, que giro, dois meninos tão lindos, deve ser tão giro ter assim dois filhos seguidinhos" e tal) e uma saída às 8.30 da noite, com o Afonso a tansbordar de birras e o Sebastião já mais para lá do que para cá ("Ufa! Ainda bem que não temos filhos..." ou "Graças a Deus que deixámos o nosso em casa!"). Até correu tudo menos mal, o Afonso encontrou umas amigas e o Sebastião passou longos momentos ao colo da tia improvisada Catarina, que fica desde já contratada para ir connosco aos futuros casamentos e baptizados. Só não dormiram a sesta e, claro!, no início de noite, quando a festa estava a começar a animar, se afastaram umas mesas para se dançar e o ambiente estava a ficar realmente ao rubro, o sono deles eram tanto que tivemos que nos despedir à francesa com aquela nostalgia de "ok, perdemos o melhor, mas é tão bom ter filhos, perdemos umas coisas, ganhamos outras, blblblblaaaaa".
Mas o grande momento do casamento foi quando apareceu um grupo de folclore para fazer uma animação, e um dançarino me chamou para me juntar ao grupo. Lá disse que "os meus filhos estão ali... eles podem precisar de mim...". Mas era só um bocadinho, o Sebastião estava sentado a bodegar-se na terra, o Afonso estava entretido no escorrega... porque não? Mas o Afonso, do cimo dos dez degraus do escorrega, viu-me... Viu-me a dançar no meio de um grupo, volta e meia dando os braços a um senhor que ele não conhecia, e o efeito não podia ter sido pior. Correu para mim, eu tentei que ele se juntasse ao grupo, mas caiu-lhe o sapato, eu disse para ele esperar e ele... virou-me as costas e afastou-se, completamente furioso comigo! Tentei ir ter com ele, mas vi o pai aproximar-se e relaxei. Não devia! Porque enquanto a música terminava e eu acabava a dançar, mais ou menos descansava, ele dizia ao pai: "A mãe já não quer ser nossa mãe!". Assim que a música terminou fui ter com ele, mas a revolta já estava instalada: "Tu só podias dançar com o pai! Já não queres ser minha mãe!" Estive uma boa meia hora a tentar convencê-lo que continuava a ser mãe dele, teria muito gosto em dançar com o pai se ele tivesse vontade (que nunca tem), mas não deixava de ser mãe dele ou mulher do pai dele por segurar os braços de alguém que ele não conhecia! Já viram o ciumento?! Estou tramada! O pai já tem os seus ciúmes, se ainda arranjei mais dois homens para ter ciúmes de mim, qualquer dia não posso sair à rua!
Já sabia que os meus filhos tinham bom ouvido. O Sebastião ouve a cadela a latir e chama logo por mim, já sabe que sou eu a chegar a casa. Se está no primeiro andar e ouve um telemóvel a tocar no R/C grita de imediato "Oláolá! Oláolá!" (que é o nome que ele dá ao telemóvel). E reconhece as músicas do Noddy e do Ruca (nomes que ele já diz na perfeição assim que começam os genéricos). O Afonso também já faz estas coisas há muito tempo, e no outro dia resolvi testá-lo com um teste muito simples: eu trateava canções em "nanana" e ele tinha que identificar a que programas pertenciam. Do Dartacão (que ele só viu uma vez) ao Tom Sawyer (que viu duas no máximo), passando por todos os desenhos animados do Panda (que ele vê muito) até ao "Isto é uma espécie de magazine" (que ele nem nunca viu!), corri tudo o que me lembrei, e ele não falhou uma! Ou sou eu que sou muito afinada, ou é ele que tem um ouvido fabuloso! Sem querer parecer uma mãe babada (que toda a gente sabe que sou), aposto mais na segunda (os meus nananãs são péssimo!), até porque ele hoje de manhã estava a ver uns desenhos animados na Canal 2 e de repente sai-se com esta: "Ó mãe, esta toupeira é o Senhor Lei!" Não consegui desfazer o mito e explicar ao meu filho de 3 anos que há pessoas a fazer as vozes daqueles bonecos que ele acredita que existem, e as vozes repetem-se. Mas ele ficou muito desconfiado: "A voz é igual, mamã! É o senhor Lei, é!"
Abriu a época balnear cá em casa! Ontem levei o Afonso a molhar os pés depois da escola, e o entusiasmo foi tanto que hoje peguei também no Sebastião e fomos todos correr nas ondas de Paço de Arcos. Resultado: chegaram a casa molhados que nem uns pintos, mas todos rosadinhos e felizes da vida. O Afonso arranjou novas alcunhas para o nosso trio. Ele é o "fura-bolos", o Sebastião o "mata-piolhos", e eu... a "mãe de todos"!

Parabéns à avó Antónia!
Um nadinha fora de tempo, mas... FELIZ DIA DA MÃE! Viva eu! Um grande viva a todas as mães do mundo. À minha. À sogra. À mana. À cunhada. Às amigas que são mães e às que o desejam ser. A todas as mulheres que o querem ser e não conseguem. A todas as que aceitaram ser mesmo quando a vida lhes dizia para não o fazer. Às mulheres, em geral, por este milagre que têm possibilidade de experimentar. Ser mãe, neste mundo e nesta vida onde se passa horas a trabalhar e o dinheiro parece que nunca chega para nada, é quase uma teimosia. E a paciência às vezes falta, o tempo não chega e o cansaço acumula-se. Ainda assim, não há um só dia em que não olhe para os meus filhos e não pense que valeu e vale sempre muito a pena!
Numa versão "mãe atarefada com filhos", resolvemos brincar à Cinderela. A sugestão foi do meu filho Afonso: eu era a Cinderela e ele e o Sebastião os ratinhos que costuravam o meu vestido para irmos ao baile do rei. Enquanto lhes pedia tudo e mais alguma coisa para compor o vestido (fitas para o cabelo, colares, pulseiras, sapatos, chapéu, etc), fui adiantando umas páginas do meu trabalho. Mas os ratinhos depressa se fartaram da tarefa e queriam era que eu fechasse o computador e fosse para o baile. Saí-me com um "Mas a madrasta má quer que eu despache mais vinte páginas antes de ir a baile... não sei se vou conseguir... coitadinha de mim... a madrasta má ainda quer que eu escreva mais uma série e uma telenovela..." O Sebastião continuou a puxar-me as calças, mas o Afonso ficou muito solidário comigo: "Anda, ratinho, Sebastião. Vamos deixar a Cinderela acabar as tarefas, senão ela não pode ir ao baile...". Desculpa, SIC, foste transformada em "madrasta". Acho que os meus filhos, quando forem maiores e recordarem as horas que a mãe passava ao computador, vão de facto achar o mundo da televisão é uma horrível bruxa má...
E quando o Afonso, em plenos provadores cheios de gente numa loja chiquérrima, resolve perguntar alto e em bom som, para toda a gente ouvir: "Ó mamã... deixas-me mexer nas tuas maminhas?". Risos vindos dos outros compartimentos. Tento calá-lo como posso, mas ele insiste: "Deixa lá, mamã! Quero mexer nas tuas maminhas!". Respondi baixinho um "Tá calado!", vesti-me rapidamente e saí, mas qual não foi o meu espanto quando, já cá fora, fui assaltada por uma onda solidária de outras mães que também já tinham passado pela experiência: "É natural..." - dizia uma. "O meu filho mamou até aos 5 anos..." - dizia outra. "Eu costumo deixar..."
Sou toda pró-natura e acho que os meus filhos devem aprender a lidar com o corpo com naturalidade. Mas manifestações públicas desta "naturalidade", dispenso.
Hoje tive cá os meus sobrinhos a almoçar e foi curioso observar como cada um dos quatro primitos conseguia encontrar uma técnica diferente de massacrar a vida ao gato de um mês e picos que agora circula cá por casa (o Afonso diz que ele se chama "Russo", mas toda a gente o trata, carinhosamente, por "ó gato"):
- Afonso, 3 anos, gosta de lhe pegar pelo pescoço para o ir mostrar a toda a família.
- Zé Maria, 3 anos, perito em atirar-lhe bichos de plástico numa versão "gatina" do "bolas à lata".
- Madalena, 2 anos, expert em pisar gatos para ver se eles espalmam.
- Sebastião, 18 meses, acredita que os gatos têm sete vidas e atira-os ao ar (pelas orelhas) para ver se caem de pé.
Que a Liga Protectora dos Animais não veja este post, ou ainda sou multada por posse de gato em terreno hostil.
E quando a mãe se distrai com o trabalho, e os filhos resolvem armadilhar a sala toda com a fita de uma cassete audio que por acaso a mãe precisava?
E quando a mãe se distrai a pôr a loiça na máquina e os filhos resolvem jogar ao berlinde com as bolinhas de cocó do gato bebé que o pai arranjou cá para casa?
E quando, na sequência de uma leitura inusitada de um livro de Natal, os meus filhos resolvem ir buscar Smarties vermelhos, misturá-los com água, e pintar a mesa da cozinha de vermelho-chocolate ("É Natal, mamã! É Natal")!
Como eu adoro os fins-de-semana... (Grrrrr)
Volta e meia levo o Sebastião para ir buscar o irmão à escola. Ele adora, o Afonso adora ("É o meu mano, é o meu mano!"), mas hoje quem adorou foram as amiguinhas do Afonso. Fizeram fila para darem beijinhos nas bochechas fofas do Sebastião, e como ele não reagia, rodearam-no e começaram a beijá-lo todas ao mesmo tempo. É o fetiche de muitos homens, mas para um menino de um ano com menos meio palmo do que a meninas que o assaltaram com beijos, pode ser um verdadeiro sufoco. Tentei ver se ele reagia, antes de me impôr como mãe galinha e afastar as franganitas que ainda por cima o deixaram cheio de baba e ranho, capaz de entrar na banheira de seguida. Mas nada! Deixou-se beijar como um mártir resignado, sob o olhar atento do Afonso e do primo Zé Maria, que estavam num misto de nojo e ciúmes. Porque é que as mulheres têm esta tendência para serem pegajosas?
O meu filho Afonso, que agora anda obcecado pela morte (os paizinhos que morreram e deixaram os filhinhos... os filhinhos que morreram e os pais ainda não foram avisados... malditos filmes da Disney!), hoje disse-me no banho que a pilinha dele estava velha e por isso ia morrer... Como é que se explica a uma criança de 3 anos que nem sempre as peles enrugadas e murchas são sinal de velhice, e que nem tudo o que é velho está à beira da morte? No outro dia fomos a casa da bisavó dele e ele reparou pela primeira vez nas rugas dela e nos cabelos brancos e perguntou-lhe, sem pudor: "Tu estás velhinha, não estás?". Puxei-o para fora dali a tempo da fatal pergunta: "Então vais morrer, não é?". Todos vamos morrer, e, ao contrário das indicações do psicólogo Eduardo Sá, a quem muito prezo mas com quem nem sempre concordo, digo claramente ao Afonso que todos um dia havemos de morrer. Mas que, se tudo correr bem, isso só acontecerá quando formos muito velhinhos. Nunca esperei é que ele passasse a olhar para os velhinhos como cadáveres em potência, à beira do fim que a mãe lhe anunciou como fatalidade inevitável. Para dar um bocadinho mais de "eternidade" à minha formulação, disse-lhe há tempos, quando perdemos o nosso padrinho Xico, que as pessoas que morriam se transformavam em estrelinhas. Mas o cepticismo dele só o deixou acreditar nisso até perceber que, logisticamente, a coisa não funcionava. Foi quando começou com perguntas do género: "Mas como é que falamos com as estrelinhas?", "Não dá para as puxarmos cá para baixo?", "Puxa o padrinho Xico, mamã, que o Sebastião está com saudades...". E rematou com um: "Mamã, porque é que hoje não dá para ver as estrelas?". Porque há nuvens, seria a resposta normal. Mas nuvens que tapem as pessoas que gostamos é algo um bocadinho mais difícil de explicar...
Na sua esperteza de dezoito meses, o Sebastião já aprendeu que, com meia dúzia de palavras, consegue sempre fazer boa figura. "Patata", por exemplo, dá para "Batata" (o tubérculo e o cão dos primos) e "Pirata" (o nosso cão). Trocando a terminação, ainda dá para"Sapato". "Bóia" dá para "bóia", "'Bora" e "Bola". "Bicccho" dá para "Bicho" e "Pschiuuu". Soa tudo ao menos, mas apontando para aqui e para ali, lá se vai explicando e lá o vamos entendendo.
Ao Afonso, esse, já não lhe chega o português, e agora anda com a mania de querer falar inglês. As cores até já sabe, mas tudo o resto inventa: "Ó mãe, sabes como é que se diz "livros" em inglês? É "livrsss". E árvores, mãe? É "slkjhvgçleffvldfj"... Felizmente que a mãe percebe qualquer coisinha do idioma e não se fia no professor...
Dado que o tempo até final de Maio é todo contado e mesmo assim não chega para as encomendas, fico-me pelos resumos do dia:

Afonso na farmácia:
- Que menino bonito... Quantos anos tens?
- Três...
- E quando é que fizeste os três aninhos?
- Depois de fazer os dois...

Primeiras construções frásicas do Sebastião:
- Onde tá? Não há... Tá aqui!
- O mano? Onde tá?
- Mãeeeee! Senta!
- Anda cá!
- "Papeu" (que é o chapéu)...´Bora! Tchau... (sempre que quer ir à rua)

Tenho ou não tenho razões para ser uma mãe babada?
Conversa do dia:

- Mãe, eu não gosto quando te zangas comigo...
- A mãe só se zanga contigo quando fazes disparates...
- E quanto tu e o pai se zangam um com o outro, quem é que fez o disparate?

E ainda há quem não acredite que se aprende muito com as crianças...
É curioso observar como os nossos filhos conseguem ser uma combinação dos nossos defeitos e feitios, às vezes em misturas contraditórias que nos fazem perguntar a que conduzirão no futuro. O meu filho Afonso, por exemplo, é um líder natural (como o pai). Chega à escola e toda a gente vai ter com ele, é ele quem tem as ideias (quase sempre para disparates - no outro dia aproveitou uma saída rápida da professora e mandou a turma toda subir para cima das mesas para fazerem um concerto) e já me confessou que tem muitos amigos, mas ele é que manda. No entanto, é extremamente indeciso, como a mãe. Quando tem de escolher um brinquedo, brincadeira, uma roupa, um iogurte, demora horas a analisar os prós e contras de cada decisão (pelo simples facto de invalidar as outras, e tanto eu como ele queremos abraçar o mundo todo!). O que pode resultar num problema, se ele continuar a ser líder. Ter um bando de seguidores e não saber que opções tomar, pode ser tramado.
O Sebastião, por enquanto, ainda é um poço de virtudes. Digo por enquanto porque até tenho medo de lhe chamar o filho-perfeito antes de tempo. Mas parece que herdou grande parte das qualidades dos pais, e corrigiu os defeitos: é simpático, não faz birras, espertalhão, desenrascado, dorme bem, come bem, é lindo, grande, forte... ok, é alérgico, o que não herdou de nenhum dos dois pais, mas faz aerosóis e toma a medicação com os mesmo sorriso com que come um bolo. ok, é maroto (no outro dia atirou o comando da televisão para dentro da sanita), mas percebe quando ralhamos com ele e dá-nos abraços para o desculparmos. Olho para ele à procura de algum dos muitos defeitos dos pais e não consigo encontrar nada. Já sei! Tem os dedos dos pés feios! Eu digo que como o pai... o pai diz que como a mãe...
Vivam os pais! Atrasei-me a celebrar a data neste blog, mas foi por uma boa causa: ontem pais e filhos brincaram muito, sob o olhar atento da mãe, os avós juntaram-se à festa e plantámos sementes que esperemos dêem bons frutos (no sentido literal da palavra: semeámos tomate, alho francês, salsa e alface). Nem sempre elogio os pais neste blog, muitas vezes ignoro-os, mas como escrevia ao pai dos meus filhos num postal que lhe entreguei ontem, ser pai é estar sempre presente, mesmo quando está ausente. E os meus filhos têm a sorte de ter um pai assim.

Graça do dia: o meu filho Afonso hoje ouviu uma música em brasileiro e perguntou-me se era a família da minha empregada que estava a cantar: o pai, a mãe, os primos...
E naquelas alturas em que as mães estão tão atoladas em trabalho que põem filmes no DVD para entreterem os filhos em vez de brincarem com eles, respondem aos filhos com o que estão a escrever nesse momento ao computador, ficam sem paciência para as suas birras e aumentam os decibeis das suas reprimendas porque querem que eles se despachem a comer, a fazer xixi e a dormir para poderem voltar ao trabalho e não terem que fazer outra noitada como a da noite anterior? Ser boa mãe e uma profissional bem sucedida ao mesmo tempo é duro, mas quando pendemos mais para uma das duas coisas, sentimo-nos a falhar na outra e isso frustra-nos. É a contradição das mulheres do século XXI, que sem dúvida terá reflexos nos filhos que serão os adultos de amanhã. Irão eles culpar as mulheres por deixarem de ser simplesmente mães? Ou valorizar o seu esforço heróico para tentarem ser super-mulheres? Talvez alguns deles se tornem simplesmente pais. Talvez outros reivindiquem também o seu papel de super-homens. E isso já está a acontecer. Cá estaremos para ver no que vai dar (se um pedaço de kriptonite não der cabo de nós entretanto)...
O meu filho pede-me recorrentemente para ver um DVD chamado qualquer coisa dos legumes, que tem uma capa tão inofensiva, que nunca me tinha dado ao trabalho de o ver com ele. Sei o genérico (porque tem daquelas músicas irritantes que ficam na cabeça), mas nunca tinha ouvido o conteúdo. "Uma apologia aos legumes", pensei sempre, mas a verdade é que o objectivo não é levar as crianças a gostar de comer legumes, mas sim a acreditarem em Deus. É verdade. Ontem tinha que trabalhar e pu-lo a ver o DVD para não me chatear durante 15 minutos, e é quando começo a ouvir "Não tenhas medo, tomate. Deus estará sempre contigo!", "Eu não tenho medo do pepino pirata, porque Deus protege-me!". Por acaso não me chateia nada que o meu filho aprenda valores cristãos através de histórias de legumes - a avó até já o ensinou a dizer que o melhor amigo dele é o Jesus - mas imagino uns pobres pais muçulmanos, ou simplesmente ateus convictos (daqueles que querem os filhos completamente virgens em relação à religião) que comprem o bom do DVD a contar com uma lição de alimentação, e depois oiçam os filhos à hora do almoço a comer uma bela salada de tomate, cheios de convicção: "Não vou mais ter medo dos legumes, mamã! Porque Deus ama-me!"
Depois de aprender a distinguir os "meninos" das "meninas", o meu filho Afonso (e penso que todas as crianças desta idade) começou a distinguir o que pertencia a cada grupo e a não querer misturas. Lá chegará a altura em que as misturas se tornarão naturais e até apetecíveis (para eles, não para os pais, que lá vão ter que negar a história da cegonha e explicar que as pilinhas e os pipis servem para mais qualquer coisa do que apenas distinguir os sexos). Mas nesta fase em que se encontra o meu filho, oiço dele frases tão machistas que até chego a sentir-me ofendida no meu âmago feminista. Coisas como "tu não consegues fazer isso, mãe, porque és menina e as meninas são fraquinhas. O pai faz..." ou "as meninas não podem jogar futebol porque não sabem" saltam-lhe da boca a toda a hora. Mas agora até na música ele se tornou "separatista". Quando vamos no carro diz que não quer ouvir música cantada por mulheres porque são músicas de menina. Tenho tentado lutar contra isto, mostrar-lhe que a mãe é forte, também acerta na baliza e gosta muito de músicas cantadas por homens, mas depois percebi que talvez isso faça parte do crescimento dele, inserido num grupo misto. De facto, não há meninas nas aulas de karaté, nem meninos nas aulas de ballet. As meninas brincam com bonecas e os meninos com carrinhos. As meninas vestem-se de princesas e os meninos de piratas. E não deixá-lo ser machista nesta idade pode afectá-lo e afectar o grupo. O problema talvez seja mesmo só eu e o que sinto quando ele não me deixa brincar com os cracks porque não tenho pilinha, só posso brincar com um único carro dele, que por acaso é cor-de-rosa, e se brinco com espadas tenho que perder porque sou menina... Ah, e também sou pequenina porque sou mulher. E ele vai ser alto como o pai, porque os homens são altos e a mulheres baixinhas. Mãe sofre (porque é mulher e as mulheres têm que sofrer)...
Lembro-me de ser pequena e de não dar importância nenhuma ao tamanho das casas dos meus amigos, aos brinquedos que possuíam, às roupas que vestiam... E quando digo "dar importância", não me refiro a conotar os meus amigos como ricos ou pobres, com bom ou mau gosto, e seleccioná-los a partir daí. Não... não dava mesmo importância nenhuma. Hoje olho para trás e recordo com dificuldade que a casa da Ana tinha dois andares, que a da Sónia era só um quarto, que o João tinha sempre as últimas tecnologias para rapazes, e a ciganita que morava ao pé da minha madrinha esperava o camião do lixo para apanhar brinquedos velhos. Perdão, o meu esforço não é para recordar, mas sim para diferenciar. Porque naquela altura não havia diferença entre uma vivenda e um apartamento num bairro social. Não importavam os metros quadrados, as marcas, os preços, as origens... "Brincar" era sempre brincar, fosse com quem fosse, com o que fosse ou como fosse. Por isso às vezes, quando me ponho a imaginar a sorte que os meus filhos têm por terem uma boa casa e uma vida confortável, recuo no tempo e percebo que não é isso que lhes faz mais falta nesta fase da vida deles. Não é isso que eles recordarão quando tiverem a minha idade. O que recordarão serão os sorrisos, as brincadeiras, a forma feliz como conseguiram (ou não) passar o tempo, seja num castelo ou na rua, com os brinquedos do Imaginarium ou um simples punhado de terra para fazer um castelo. Porque o que fica e se recorda não custa dinheiro. Só tempo... (o tempo que sacrificamos para ter dinheiro. Não faz sentido, pois não?)
Ok, hoje o Afonso disse-me: "Sabes, mamã... eu tenho super-poderes". Sorri, tranquila. O meu filho tinha passado de falhado a super-herói em apenas 24 horas. Não sei se a minha tentativa de lhe incutir mais auto-confiança surtiu efeito, ou ele ontem estava apenas a fazer uma experiência lexical. Sei que ele hoje tem super-poderes, como dar saltos em cima do sofá, esconder-se dentro do armário depois de tirar tudo dentro dele e dar cambalhotas em cima da minha cama com sapatos. Tudo coisas que, noutras circunstâncias, me fariam ralhar com ele (ou, se o dia tivesse corrido mal, mandá-lo para o castigo... se bem que o castigo é ficar sentado num sofá lateral onde se vê pior a televisão... O meu filho tem uma mãe muito cruel!). Mas hoje não consegui dizer-lhe nada. Não é todos os dias que se tem super-poderes...
Hoje o meu filho Afonso virou-se para mim e disse-me, com uma expressão grave: "Mãe, sou um falhado!" Ser falhado aos três anos deve ser muito duro. Comecei logo a pensar na rejeição na escola, que os amigos lhe batiam (porque ele é magrinho, e eu devia dar mais ouvidos ao pai e dar-lhe mais porcarias hipercalóricas!), nas birras que ele às vezes faz e que levam os coleguinhas a chamar-lhe "bebé" (embora a professora insista que ele só as faz em casa), no facto de ele ainda usar fralda à noite (todos os dias me pede para a tirar para não ser "bebé", mas todas as manhãs acorda cheio de xixi!), e no facto de ter nascido no mês de Outubro, quando a maioria dos colegas é do início e meio do ano (é novo demais! Não acompanha! Rejeição! Rejeição! Rejeição!). Em segundos a minha cabeça navegou na rejeição do meu filhinho mais velho, que afinal se dá bem com toda a gente na escola, é magro mas junta-se aos mais fortes para não levar porrada, não faz birras e está longe de ser o único a ainda usar a fralda à noite. Nasceu em Outubro, ainda não desenha figuras humanas, mas tenho belos desenhos e pistas de carros (que são riscos de várias cores porque ainda não sabe fazer mais nada). Arranjei coragem e perguntei ao meu filho porque é que ele era falhado. "Porque não consigo patinar com meias, mamã...". Ok, o meu filho tinha tirado os sapatos (já se despe sozinho, vêem?) e estava a tentar fazer patinagem no mármore do hall. Não correu como ele imaginou e ele sentiu-se um falhado, vá-se lá saber porquê, se calhar só porque o Ruca também assim se sentiu num qualquer episódio que me tenha escapado. Aproveitei para lhe dar carradas de auto-estima e deslizei com ele no mármore para lhe explicar que ele podia fazer e ser tudo o que ele quisesse. É um bocadinho mentira, mas é duro para um pai ouvir um filho dizer que é um falhado... Antes seja gabarolas (com motivos, de preferência).
O Sebastião já diz "eu queuo" (aponta e di-lo suplicantemente, o que não era mau se ele não apontasse quase sempre para telemóveis, comandos e ferramentas do pai), porta, luz, mano (que soa a "mana", mas tudo bem), "afoncho", "obigado", pé, "patato" (sapato), banana (que é tudo o que seja sinónimo de fruta), além de pai, mãe, avó e avô, e mais umas quantas aproximações de palavras que ainda não consegui provar à família, porque quando chega a hora H ele nega-se a fazer a gracinha. Não faço ideia se o Afonso já dizia estas palavras nesta fase, a minha memória foi-se inexplicavelmente, mas felizmente desta vez tenho um blog para registar a ocorrência. O milagre da linguagem está a acontecer cá em casa!
Coisas de Pais
Conheço muitos casos de filhos, com a minha idade e mais velhos, que apesar de adorarem os pais, não conseguem deixar de discutir com eles a toda a hora, desprezarem-nos, "picarem-nos", magoarem-nos... E isto acontece sobretudo com as mães. Conheço muitos filhos e filhas adultos que "tratam mal" as mães (estou a falar dentro dos limites do aceitável, claro) e, quando confrontados com a situação, negam-na ou admitem-me e realmente percebem que não faz sentido. Mas não conseguem mudá-la. O que a motiva é o que hoje me questiono. Será que há uma necessidade, a dada altura da nossa vida, de "cortar" abruptamente o cordão umbilical? Será que esses filhos apenas são demasiado parecidos com os pais e "chocam"? Será que há uma tendência em nós, seres humanos, para desprezarmos aqueles que mais nos amam, incondicionalmente? Ou faz parte da natureza que os filhos, a dada altura, se tentem mostrar superiores aos pais?
Não tenho a resposta, mas parece-me uma situação demasiado comum para ser ignorada. E pergunto-me como será quando os meus filhos tiverem essa atitude comigo (se a tiverem). Vão começar por me chamar lamechas por andar sempre a dar-lhes beijinhos, e depois chata por querer saber das namoradas, e depois melga por lhes querer entrar pela casa adentro e pôr e dispôr da vida deles... e depois vão falar entre eles, quiçá com o pai deles, "a mãe está que não se pode..." Se calhar a culpa também é das mães/pais, em muitas atitudes que tomam, mas os pais erram e os filhos acusam. Os filhos erram e os pais... ignoram. Enfim, acho que é a lei da vida.
Coisas de Pais
E quando ficamos doentes e sem forças sequer para pegar nos nossos filhos? Com crises de tosses que nos obrigam a fugir deles para não lhes atirar virús para cima? E quando eles nos pedem atenção e o nosso corpo suplica por cama? A febre rouba-nos o que ainda resta de paciência ao fim do dia, e os filhos reagem multiplicando as birras e as chamadas de atenção. Porque não percebem. Não acham possível que os pais também fiquem doentes. Os pais, não! E, de facto, nenhum pai devia poder ficar doente até os seus filhos serem grandes. Seja uma vulgar gripe ou uma doença efectivamente grave (que não é o meu caso, felizmente). Hoje pedia ao meu filho Afonso: "Deixa-me ficar só mais um bocadinho deitada... A Teresa dá-te banho". Ao que ele respondeu: "Mas eu também estou doente, mãe. E preciso de ti..." Pura mariquice. Mas quem é que consegue resistir? Lá tive de arranjar umas forçazinhas para o levar à banheira, à custa dos Ben-u-rons que já começavam a fazer efeito. Mas nem tudo se cura a Ben-u-rons. E há pais que fazem verdadeiros milagres para, mesmo doentes (e com doenças raves(, continuarem presentes nas vidas dos filhos. A minha homenagem, hoje, é para eles.