A minha pequenina Leonor, agora com 2 anos, aprendeu finalmente a dar beijinhos! E agora está aquilo que se pode chamar de "beijoqueira do pior". Não dá beijinhos a toda a gente, mas não resiste a fotografias e personagens de livros infantis. Resultado: as molduras cá de casa estão todas engorduradas e cheias de migalhas. E as folhas do livro estão coladas com cuspo, que a Leonor deixa nas ilustrações.
Ontem inventou uma nova modalidade. Depois de beijar as imagens, trazia-mas para eu as beijar também. E senti aquilo que sentia quando, em pequenina, me levavsm a beijar o Menino Jesus. Por muito que o padre limpasse cada beijo com um guardanapo, havia sempre restos de beijos a misturar-se com o meu. Os da minha filha são sempre agradáveis e recebo-os com muito agrado (ainda que ela esteja cheia de febre e com suspeitas de escarlatina), mas restos de migalhas e leite seco, por muito que goste da minha filha, não deixam de ser pequenos miminhos nojentos. Vou arranjar um guardanapo...
(Sebastião aninhado numa rede brasileira que o pai montou no pinheiro cá de casa)
- Ó mãe, sabes que eu gostava de ser bebé? Quando estou na escola às vezes brincamos aos Pais e às Mães e eu peço sempre para ser o bebé...

Aninhei-me ao lado dele na rede e cobri-o de miminhos. Se calhar não devia ter começado a escrever no dia em que regressei da maternidade. Nem devia ter ido trabalhar fora de casa três meses depois de ele ter nascido. Nem o devia ter tido 23 meses depois do irmão, que era uma criança tão difícil. Nem devia, nem devia, nem devia. Ou devia, sei lá. O Sebastião é o meu menino mais doce. O meu menino mais sensível. E o meu eterno bebé. Espero ter a vida toda pela frente para lhe dar o colinho que ele merece.
(Afonso aparece esbaforido, meio desnudo, da casa de banho)
- Ó mãe, ó mãe, não acredito... Já me estão a nascer pêlos na pilinha!


(Afonso na escola a falar com a mãe de um colega)
- Então, Afonso, vais ao lançamento do livro da mamã?
- Oh... já fui para aí a uns três e não tem nada de especial. Ainda se a minha mãe lançasse mesmo o livro para cima das pessoas...


(Afonso na "Pais & Filhos" de Junho, pg 43, num artigo da jornalista Ana Sofia Rodrigues)
"Os adultos não sabem tudo. Não sabem coisas de brinquedos nem o que vai acontecer à República no próximo ano."
Depois de mais uma escapadinha com o marido, desta vez a um lançamento, foi com grande satisfação que cheguei a casa e percebi que a Mila tinha acabado de deitar os piolhos mais velhos. Tirei o sapato de festa e galguei as escadas para chegar a tempo de um beijo de boa noite.
O primeiro a saltar-me para o colo foi o Afonso, que nem esperou que eu chegasse ao quarto. Atacou-me logo com mimos no corredor. Reclamou, claro!, que a Mila não lhes tinha contado história, mas o Afonso precisa sempre de reclamar com alguma coisa. Mas estava um docinho, agarrado a mim como uma carracinha sorridente.
Depois apareceu o Sebastião, com ar ensonado:
- Bom dia, mamã. É para ir tomar o pequeno-almoço?
Tinha adormecido e acordado poucos minutos depois a pensar que já era de manhã! Comi-lhe as bochechas rechondudas de beijos antes de o voltar a pôr na cama.
Já não cheguei a tempo dos bebés. Mas daqui a pouco vou tapá-los e sentir o seu cheirinho especial de champô de maçã com hidratante Mustela. E, se tiver sorte, ainda apanho aqueles seus suspiros de quem está na paz dos anjos. Alguém resiste a uma criança a dormir?
A minha Mila voltou da Uncrânia!!! Dei-lhe um abraço forte e dois beijos repenicados, e expliquei-lhe delicadamente que ela ia passar o fim-de-semana com os meus 4 filhos e a minha mãe enquanto eu ia de fim-de-semana com o meu marido. Tive sorte em ela já não perceber muito bem o português outra vez, ou acho que me tinha mandado à fava. Assim, acho que não percebeu nada, viu-me sair de malas aviadas com o meu marido, e só voltou a ver-me no Domingo à noite, depois de eu dormir 24 horas em 2 noites, e pôr o trabalho e o namoro em dia. Domingo ao fim da tarde era a Sara outra vez, a mãe que adora o filhos e fala pausadamente, que explica tudo direitinho e escreve as coisas engraçadas que os filhos dizem, que não tem manchas escuras debaixo dos olhos nem os cabelos desgrenhados... e até pintei as unhas!!! Das mãos e dos pés, por causa das coisas.
Ufa! O que vale é que só há um mês de férias por ano. Tenho 11 meses para me recompor desta...
(Afonso) Ó mãe, porque é que algumas pessoas dormem na rua?
(Mãe) Sabes que há pessoas que não têm dinheiro para ter uma casa... Outras estão sozinhas no mundo, andam perdidas, ou têm algum problema grave. Percebes?
(Afonso) Ah... pensei que as pessoas dormiam na rua para ver o William e a Kate.
Ao fim de duas semanas a correr a toda a hora para o colégio dos meus gémeos (para quem não acompanhou a saga, explico que a minha empregada foi um mês de férias para a Ucrânia e não vimos outra alternativa que não fosse inscrevê-los já na escolinha), e a trabalhar sentada no carro enquanto ouvia o Dudu gritar por mim agarrado às grades, os meus filhos começaram finalmente a passar 6 horas seguidas na escola. Este "finalmente" faz-me sentir uma péssima mãe, porque devia era estar triste por não estar 6 horas sem eles, mas a verdade é que estas 6 horas sem trabalhar durante o dia me andavam a obrigar a trabalhar mais 6 horas durante a noite. E digamos que, sem dormir, a paciência para aturar 4 filhos já ia pelas ruas da amargura...
Esta semana decidi com a educadora que era "ou vai ou racha". Depositei a Leonor e o Duarte e vim-me embora de coração partido enquanto os ouvia berrar na sala. Um anjinho no meu ombro direito dizia-me em voz mansinha: "Coitadinhos... Como trouxeste o computador, escreve mais um bocadinho entalada no carro, e vem buscá-los daqui a uma hora ou duas...". Mas, no meu ombro esquerdo, tinha um diabinho maroto que me sussurrava com voz hipnotizante: "Já te livraste deles, miúda! As educadores que os aturem. E se, em vez de ires trabalhar, fosses à praia apanhar um bocadinho de sol? Está branca e magrela que até metes dó. Vai tratar de ti e volta às 5 da tarde..."
O diabinho deu-me a volta. Não fui para a praia nem tratar de mim, mas trabalhei saborosamente numa cadeira confortável sem um volante à frente. Até que, por volta das 2, me pesou a consciência e liguei para o colégio. Atendeu-me a educadora mais despachada que eu conheço, aquela que conseguiu "domar" o meu Afonso e que, só por isso, eu adoro de paixão.
- Então, Flora, a Leonor dormiu?
- Lindamente. É uma senhorinha.
- E o Dudu?
- Custou. Andava de roda da irmã e não ficava quieto. Mas como hoje era "ou vai ou racha", eu a dada altura embrulhei-o todo num cobertor e deitei-o no colchão. Ele tentou mexer-se para a direita, não conseguiu. Tentou mexer-se para a esquerda, não conseguiu. Então dormiu. Mas fique descansada que eu deixei-lhe o narizinho de fora para ele respirar...
Não sei se a psicologia infantil aconselha tal método, mas eu achei-o perfeito. Depois disso, o Dudu tem dormido a sesta na escola como se sempre o tivesse feito. Só continuam a chorar quando os deixo, e a chorar quando os vou buscar. Como são 2, e berram alto que se fartam, parece que os deixei num orfanato mas arrependi-me ao fim do dia. Ou talvez seja só a minha consciência a fazer-me sentir assim (rai's partam as consciências das mães!)
(Sebastião, a propósito da beatificação do Papa)

- Ó mãe, quem é o Papa?
- Então, Sebastião? Tu sabes...
- É aquele marinheiro, não é?
- Marinheiro?!
- Sim. Eu e o Afonso víamos os desenhos animados quando éramos mais pequeninos.

Desculpem-me a heresia, mas imaginar o Papa com um cachimbo a comer espinafres, tem muita graça...
13 dias depois de a minha empregada ir de férias, as mudanças cá em casa já são notórias:

"Senões"
- De noite, quando acordo para ir ver os miúdos, tenho de atravessar o corredor como se estivesse num campo minado
- Só posso vestir as poucas roupas passadas que tenho no armário
- Por baixo da roupa limpa, os meus filhos passaram a usar cuecas, camisolas interiores e bodys por passar
- Mãos ressequidas e unhas cortadas rentes sem verniz (as minhas, entenda-se)
- 5 horas de sono por dia em vez de 7 (hoje 6, à custa deste post)
- Desisti do ginásio (onde só fui umas 3 ou 4 vezes)
- Trabalho ATRASADÍIIIIIISSSSSSIIIIMMMMOOOOOO!

"Sessins"
- Estou tão cansada, que até oiço menos os miúdos de noite. No outro dia o Duarte estava a dormir sobre a cama toda vomitada. Se chorou ou não quando vomitou, não me perguntem...
- Com menos roupa no armário, é vira o disco e toca o mesmo. Demoro muito menos tempo a escolher...
- Os meus filhos adoram as minhas unhas rentes. "Ó mãe, agora arranhas muito menos..."
- Estamos muito mais organizados cá em casa e os mais velhos dos mais pequenos ajudam muito mais nas tarefas. O pai raspa os pratos e o afonso e o sebastião apanham os quilos de brinquedos que andam espalhados pelo chão.
- Desisti de trabalhar nas horas loucas em que fico sozinha com os 4, o que me deu mais tempo de qualidade com eles.

Vendo bem, o balanço começa a ser positivo. Mas os meus filhos que não se habituem mal... Vou tentar manter o tempo de qualidade com eles, mas das unhas pintadas não abdico!
Primeira manhã sem Mila (o meu braço direito cá em casa há um ano e meio) que foi um mês de férias para a Ucrânia. Balanço:

- Afonso e Sebastião continuam de pijama
- Três mensagens de clientes a pedir-me para lhes atender o telefone
- Cozinha com cheio insuportável dos 4 cocós que os bebés fizeram só hoje de manhã, e que repousam no balde à espera que alguém leve o saco para a rua
- vinte e-mails por responder e mais de quarenta livros por fechar (não estou a exagerar!)
- Sala transformada em pista de obstáculos
- Cozinha varrida, mas com manchas de molho de tomate que alguém terá de ir esfregar (Quem és tu, Sara? Ninguém...)
- Panelas espalhadas por toda a casa. Os meus filhos instauraram o Dia da Panela, e passaram a manhã a marchar com panelas na cabeça.

Só faltam 29 longos dias...
- Nocas, vai ver se o Dudu tem cocó...

Nocas vai, cheira o rabinho do irmão e responde:

- Não há cocó.

- Dudu, vai ser se a Nocas tem cocó...

Dudu vai cheirar o rabinho da irmã e responde:

- Nonô cocó.

A um mês e meio de fazer 2 anos, os meus gémeos já começam a participar nas tarefas cá de casa. E não é nada fácil cheirar o rabinho de um bebé! Eu diria mesmo que é uma tarefa bem arriscada...
Hoje consegui, finalmente, que o meu filho Sebastião (5) contasse um dos seus pesadelos. O pai não pôde tomar o pequeno-almoço connosco, e eu aproveitei para desligar as notícias e puxar por eles. O Afonso contou os seus trezentos e sessenta e cinco sonhos do ano inteiro (e mais contaria, se eu deixasse), eu contei o meu sonho de hoje, e o Sebastião, levado pelo entusiasmo do irmão, lá contou o pesadelo que o tinha levado a enfiar-se hoje na minha cama: pois que o Sebastião tinha entrado sem querer numa gruta e nessa gruta havia um ovo gigante. Ele tocou no ovo e o ovo partiu-se. Então chegou um dinossauro gigante que viu que o ovo estava partido e ficou muito zangado. Pegou numa guitarra e começou a tentar acertar no Sebastião. O Sebastião começou aos saltinhos, a tentar fugir, até que foi salvo por um unicórnio que o levou dali a voar. Levou-o então até ao céu onde estava o Jesus. O Sebastião ficou com medo porque o Jesus tinha ao pé dele uma caixa fechada onde metia as pessoas que se portavam mal. E ele tinha partido um ovo! Ficou com medo e pediu ao Jesus para chamar a mãe, e o pai e os irmãos.
Saltou imediatamente o Afonso, que estava a ouvir o irmão com muita atenção:
- Fogo, Sebastião! Para que é que me chamaste? Eu não quero ir para os anjinhos!
Mas o Sebastião só não queria ficar sozinho, por isso o Jesus mandou-o outra vez para a Terra, no unicórnio.
Expliquei ao Sebastião que partir um ovo não é nada de grave, ainda que o ovo seja de dinossauro, mas o Afonso tratou de dramatizar a situação:
- Sabes que mais, Sebastião? Acho que Deus te quis mandar uma mensagem...

O que é que eu faço com a criatividade dos meus filhos?
O Afonso (7) continua, convictamente, a dizer que quer ser escritor.

(Mãe) Ó Afonso, mas como é que tu queres ser escritor, e não escreves nada?
(Afonso) Então, mãe... eu estou nas minhas folgas. Não vês que eu vou ser daqueles escritores que só escreve 3 livros por ano?

Definitivamente, o meu filho vai ser um escritor muito mais bem sucedido do que eu... :(
Desta vez foi o Sebastião (5) a abordar o tema da morte, e a conversa também não foi meiguinha...

(Sebastião) Ó mãe, tu já alguma vez morreste?
(Mãe) Não, Sebastião. E tu?
(Sebastião) Também não.

...

(Sebastião) Ó mãe, se tu um dia morreres, contas-me como é que é o céu?
(Mãe) Porquê, Sebastião? Achas que é um sítio bonito?
(Sebastião) Não, acho que é um bocadinho feio. Porque as pessoas que se portam mal vão para dentro de uma caixa escura.

(Mãe respira fundo antes de retomar a conversa)

(Mãe) Quem é que te disse isso, Sebastião?
(Sebastião) A minha professora de Catequese hoje contou a história de um homem mau que dava com o chicote nas pessoas. Quando ele morreu chegou ao céu e o Jesus disse que ele tinha que ficar fechado numa caixa. Ele queria pedir desculpa às pessoas a quem tinha dado com o chicote, mas não podia porque já estava morto...

Tentei explicar-lhe que a caixa escura não existe, e que ele vai sempre a tempo de pedir desculpa quando se porta mal. Mas estou a crer que, graças à aula de hoje de Catequese, o Sebastião vai acabar mais uma noite na minha cama...

Entendo que a sociedade precise de regras e de castigos (se fizeres mal vais para a prisão), e que as religiões também se tenham desenvolvido nesse espírito, embora com castigos mais "transcendentais" (se fizeres mal vais para o inferno, ou vais reencarnar em qualquer coisa ou qualquer vida pouco agradável). Não sei se os meus filhos vão ter alguma religião quando crescerem, nem sequer se eles vão acreditar na sociedade como a conhecemos hoje em dia. Mas prefiro ensiná-los que é preciso fazerem o bem e serem correctos em tudo o que fizerem, porque é a única forma de fazermos os outros felizes e sermos também felizes, do que por receio de qualquer castigo, humano ou transcendente. Claro que eles às vezes ainda não sabem bem o que é o correcto, e eu também os castigo. Se calhar, não estou a fazer nada assim de tão diferente... Mas quero acreditar que um dia os meus filhos vão crescer e já não precisarão nem de mim, nem de ninguém, nem de algo, para serem homens correctos. A ver vamos...
Afonso a conversar no carro com o seu vizinho Duarte:

(Afonso) Mas porque é que tu não tens os novos cromos do futebol?
(Duarte) Os meus pais não me compram. Dizem que anda alguém a fazer negócio com isso lá na escola.
(Afonso) Não é negócio. Nós trocamos uns com os outros.
(Duarte) E também não tenho caderneta.
(Afonso) Eu também não. Mas se tiveres cromos podes entrar na nossa sociedade. Eu, o Zé Maria e o Diogo temos uma caderneta a meias.
(Duarte) Ah...

(Dois segundos de silêncio raro)

(Afonso) Ó mãe, estavas a ouvir?
(Mãe) Sim, Afonso.
(Afonso) Diz lá se eu não parecia o Zé Sócrates a falar sobre o governo das cadernetas...

Querem ver que o rapaz, em vez de escritor, ainda me sai político?
A história de hoje à noite era sobre flores que falam. Mas não falavam como nós, humanos. Falavam através do seu perfume.
(Mãe) Já alguma vez cheiraram uma flor e ouviram o que ela diz através do seu perfume?
(Afonso) Eu já!
(Mãe) Já? E o que é que ela te disse, Afonso?
(Afonso) Sai daqui! Tens mau hálito!
O meu post sobre as conversas do meu filho Afonso acerca do facto de as pilinhas crescerem (2 posts atrás) deu que falar. Algumas mães ligaram-me preocupadas: Onde é que ele ouviu essas coisas? Eles falam disso na escola?!
Falam. De facto, falam. Eu, por acaso, tenho a sorte de o meu filho Afonso contar tudo (lá chegará talvez o dia em que não me vai contar nada...), e de eu conseguir ir percebendo os temas que eles abordam. E, de facto, o tema do sexo é um dos assuntos na ordem do dia. O Afonso diz frequentemente coisas como:
- O (...) diz que o (...) vai fazer "sexy" com a (...). O que é que é "sexy", mãe?
- Estou tão cansado... Vou fazer sexy com uma parede...
- Eu sei como é que nascem os bebés. Os pais enfiam a pilinha no pipi das mães.
Não são coisas que ele ouve em casa, não são coisas que ele ouve na televisão. A informação circula na escola, por todo o lado, e eles digerem-na como sabem e podem. Devemos nós começar a ensiná-los e a explicar-lhes conceitos de sexualidade mais cedo? Neste momento acho que sim. Tive alguma dificuldade em perceber o porquê da urgência das aulas de sexualidade nas escolas, sobretudo quando falamos em miúdos do 1º ciclo (a antiga Primária). Mas hoje em dia acho que essas aulas são importantes e tenho uma amiga sexóloga (Vânia Beliz) que está a fazer um trabalho muito interessante nas escolas, junto dos miúdos. Tem sido muito solicitada pelas escolas para dar uma palestra aos miúdos sobre sexualidade, e a resposta deles é muito interessante, porque eles estão ávidos de explicações e têm muito mais dúvidas do que se pensa.
Antigamente falava-se pouco sobre estes assuntos, e muitos de nós fomos digerindo a informação sozinhos. Não veio mal ao mundo, por isso, mas, nos dias de hoje, com a informação que circula e os perigos que espreitam à porta, parece-me importante falarmos com os nossos filhos sobre estas matérias, se queremos uma sexualidade mais feliz e responsável.
Tenho um único filho com orelhas "saídas". É o meu duendezinho Sebastião, que tem as bochechinhas mais apetitosas do universo. Quanto às orelhas, não sei o que lhes deu para se afastarem da cabeça, mas hoje dei por mim a pensar se a culpa não terá sido da minha gigantesca barriga cheia de líquido amniótico, e da natação que fiz até quase à véspera dele nascer. Com tanta água, dentro e fora da minha barriga, talvez o meu Sebastião tenha começado a desenvolver características que o aproximam de uma espécie de "Homem da Atlântida" (sim, eu sou do tempo dessa mítica série!).
Não, o meu filho não tem orelhas saídas. Tem barbatanas ligadas à cabeça por membranas aquáticas! O Sebastião ainda não sabe nadar, mas talvez no dia em que aprender ele desapareça 5 minutos debaixo de água e reapareça depois, com aquele seu sorriso irresistível, a soltar um pirolito de água: "Então, não vêm?"
Depois de ler um livro aos meus filhos sobre Sentimentos (ao Afonso, ao Sebastião e à Leonor, porque o Duarte continua a ir dormir às 8 da noite, e a perder grande parte da paródia que se segue ao jantar), comecei a fazer-lhes perguntas difíceis: O que se sentia quando tínhamos vergonha, onde nos doía quando estávamos tristes, onde é que ficava guardada a inveja...
Até que, a dada altura, resolvi perguntar-lhes:
- E vocês sabem o que é que se sente quando ficamos apaixonados?
Responde-me logo o Afonso (7 anos), prontamente:
- Eu sei! Sente-se a pilinha a crescer e a levantar-se...
Definitivamente, há sentimentos que os homens não guardam só no coração...

PS - Aulas de Sexualidade precisam-se, pf.
Se os meus filhos um dia pertencerão à Geração Rasca, à Geração À Rasca ou à Geração Carrasca, não sei bem. Mas sei que pertencerão, pelo menos, à Geração da Reciclagem, da boa Nutrição e do Não ao Tabaco. Volta e meia, lá entram em campanha e massacram o pai que, por ter nascido noutra Geração, deixou-se viciar em tabaco na adolescência. Ontem, o Afonso (filho mais velho) resolveu ter uma conversa séria comigo:
- Ó mãe, nós temos que pensar em alguma coisa para fazer o pai deixar de fumar.
- Não é fácil, filho...
- Temos que pensar num plano...
E deixou-se ficar em silêncio, pensativo, até o pai s juntar a nós.
- Ó pai... já sabes o que é que vai ser o teu jejum nesta Quaresma?
Ao ouvir falar em jejum, na Catequese, o Afonso decidiu propor ao pai que, em vez de comida, abdicasse do tabaco! Era bom que fosse assim tão simples. Mas foi uma boa tentativa...
A escrever sobre o Futuro, decidi pedir umas ideias ao meu filho Afonso (7), cuja imaginação consegue sempre surpreender-me. E esta vez não foi excepção:

(Mãe)
Afonso, se fosses ao Futuro, o que é que encontravas?
(Afonso)
Dinossauros.
(Mãe)
Dinossauros? Isso não é no Passado?
(Afonso)
No futuro também. Criaram um vírus informático que fez com que os Dinossauros do meu Jogo de Computador ganhassem vida.

Definitivamente, isto é muito à frente para mim. Vou mas é escrever para os adultos, antes de ser chamada de "cota"...
(Afonso a caminho da cama)
- Ó mãe, o primo Zé Maria diz que o Pai Natal não existe... e que é o Jesus que entrega os presentes aos pais, para eles os darem no Natal.
- Mas tu afinal acreditas no Pai Natal?
- Não. Nem acredito no Jesus. Como é que ele podia dar os presentes aos pais, se ele está morto?
- Está morto, filho?
- Claro! O Natal é em Dezembro, e ele só ressuscita em Março, na Páscoa...

Pois...
Diácono Rodrigues, importa-se de ter uma conversinha com o seu neto?
Um sol esplendoroso. 4 filhos enfiados em casa a fazer disparates. Mila de fim-de-semana de folga. A casa de pantanas. A mãe aflita com trabalho. Disse "Basta!" às 11 da manhã, e convenci o pai, que acordara coxo, a ir pelo menos a qualquer lado. A qualquer um. Podíamos nem sair do carro...
Metemos todos no carro, deixámos o cão a fazer mais uns cocós e xixis pela cozinha, e aí fomos nós. Uma rotunda, duas... vomita o Duarte. Três rotundas, quatro... vomita a Leonor. Com um cheiro indescritível no carro, e o Afonso e o Sebastião já quase também a vomitar, voltámos para casa. Onde o cão nos esperava depois de 2 cocós e 3 xixis. Que bela manhã...
Enquanto limpava os cocós e xixis do cão, e dava banho aos gémeos, lembrei-me de uma outra manhã, igualmente linda, que me aconteceu há uns anos. Ainda só tinha o Afonso e o Sebastião, que era bebé. Íamos ao casamento de dois grandes amigos meus, no Alentejo profundo, e eu ia tocar a Avé Maria da entrada. Tinha passado a semana a ensaiar sozinha, mas era suposto chegar mais cedo à Igreja para ensaiar ainda com a rapariga que ia cantar. Claro que saí de casa atrasada. Já não me lembro exactamente porquê, mas metia certamente roupinhas, e cadeirinhas, e xixis, e birras... Chegámos à ponte 25 de Abril e estava tudo parado. Stress! Um calor de morte, e os miúdos já a resmungar. O atraso a acumular. Quando passámos a fase crítica, pedi ao meu marido para pôr o pé no acelerador. A cantora já estava à minha espera, e eu ainda estava a 100 e tal quilómetros! Até Montemor fomos lindamente, prego a fundo. O problema foi depois. Metemo-nos por atalhos para tentar chegar mais depressa, perdemo-nos e, entre as curvas e contra-curvas, o Sebastião vomitou. Depois foi o Afonso. Eu chorava. E a noiva a esturricar dentro do carro, às voltas, à espera que eu chegasse... E eu não cheguei. A horas, não. A noiva entrou. A cantora cantou à capela. Eu entrei de maquilhagem esborratada, de chorar. E, enquanto via a minha amiga noiva dizer o Sim ao meu amigo noivo, e pensava para comigo que aqueles dois já deviam ser tudo menos meus amigos, o meu marido andava pelo jardim que havia em frente à Igreja, com um filho em cuecas e outro de fralda, enquanto as suas roupinhas pipis secavam em cima de uma sebe...
Ter filhos é maravilhoso. Mas ele há dias e dias...
Depois de uma dia intenso de filhos e sobrinhos, daqueles que parece que nunca mais acabam, mas que, depois de acabarem, nos deixam umas saudades imensas, resolvi desafiar o meu filho Afonso para uma meia-hora musical. O meu filho tem sempre preguiça de estudar guitarra, mas quando o acompanho ao piano, nunca se nega. Claro que a façanha só pode acontecer ao fim-de-semana, porque durante a semana o tempo mal chega para os TPCs, os banhos, os jantares e a história. Quando chega a hora da guitarra já os manos bebés estão na cama, e o piano não é, definitivamente, o melhor instrumento para adormecer gémeos. Mas de vez em quando, ao Domingo, lá arranjamos um buraquinho para o concerto, e como as músicas dele são cada vez mais elaboradas, também o são os seus acompanhamentos, e hoje soou-me mesmo bem a nossa comunhão musical. O Sebastião juntou-se a ouvir, e até os gémeos ficaram mais calminhos. Esqueci as birras deles, as más-educações, os vícios da playstation, as preguiças, os gritos e as correrias. Esqueci as minhas faltas de paciência, os meus gritos, o meu vício no trabalho e as minhas pressas. Senti-me a mãe perfeita da família perfeita, qual Von Trapp. Claro que só durou meia-hora. Depois o Afonso já estava fatigado, era hora de jantar, o cão já tinha feito mais um cocó na sala e o pai queria ouvir o futebol. Mas pronto. Se todos os dias tivermos meia-hora de Música no Coração, já teremos direito a um Óscar...
Como se não bastassem os 2 mais velhos e os gémeos, agora temos um pequeno cachorro cá em casa. Sempre disse que gostava de ter mais um filho, mas não estava nos meus planos uma pequena bola de pêlo que despeja cocó e xixi por onde quer que passe. É lindo, fofo, só dá vontade de apertar, mas de repente as xuxas que caíam no chão correm o risco de cair em cima do xixi que ainda não limpámos, as mãos sapudas dos gémeos que mexem em tudo aquilo que alcançam, correm agora um risco acrescido de se embodegarem nos cocós escondidos nos mais recônditos recantos da nossa casa. E, se os meus gémeos já comiam a comida do chão, agora também se lambuzam com a ração do cão e a água que está junto à caminha do cachorro. É mais um bebé cá em casa, para chorar de noite e exigir dois olhos atrás dele. Mas quem resiste a ver 4 crianças doidas com um pequeno cãozinho, esquecendo desenhos animados e playstations?
A afortunada cachorra (se resistir aos apertões e puxões de orelhas dos gémeos) chama-se Cuca, porque das poucas palavras que os meus filhos bebés dizem é "Uca". Assim "Uca" dá para Ruca e dá para Cuca. Economia das palavras. Temos de nos valer de tudo em tempos de crise...
- Ó mãe, se o mano sem querer deixar cair a mana e ela morrer o que é que fazes?
(Mãe ignora)
- Ó mãe, diz lá... se o Sebastião puser a mana ao colo e sem querer a deixar cair pelas escadas abaixo e ela morrer, o que é que tu fazes?
- Afonso... por favor!
- E se for a Mila? Se a for a Mila a matar a mana o que é que tu fazes?

Raios parta o miúdo! Com tanta coisa para herdar de mim, logo tinha que ficar com a projecção da desgraça. Lá acabará a escrever novelas...
Depois de uma ida (atribulada) ao concerto para bebés com os filhos mais novos, levei os mais velhos a ver os Deolinda. Eles conhecem grande parte das músicas, sabem algumas das letras de cor, e achei que seria boa ideia levá-los pela primeira vez a um concerto "a sério". Com o senão de que os concertos "a sério" começam à hora a que eles habitualmente já estão deitados. Resultado: o Sebastião durou 4 músicas. Afonso durou mais umas quantas, mas porque o Pai se lembrou de dizer que no final caíam confetis do tecto e ele queria assistir. Lá chegará o tempo em que eles vão querer ir aos concertos todos e eu vou querer ir atrás (já me imagino aos moches no meio de um estádio qualquer, ou às cavalitas deles, que vão crescer muito mais do que eu...). E também lá chegará o tempo em que eles não vão querer que eu vá atrás deles. Mas, por enquanto, vamos deixar-nos de concertos "a sério" e ficarmo-nos pelos Festivais do Panda e matinés ao Domingo...
E pronto. É isto que os pais sentem quando os professores os mandam chamar e dizem que o filho anda esquisito, a portar-se mal, aéreo e com chamadas de atenção. Os pais estiverem 4 dias no bem bom, deixaram os filhos com os avós para irem dormir e comer à grande e à francesa, sem gritos, nem confusões, nem choros, nem birras, nem fraldas, nem horários, nem TPCs, nem Pandas, nem pesadelos a meio da noite, e quando voltam ouvem estas coisas. E sentem-se mal. Muito mal. E pensam que não deviam ter ido... mas soube-lhes tão bem! Fazia-lhes tanta falta. E eles vieram de lá tão descansadinhos da vida, com os sonos em dia e saudades dos filhotes...
Ser pai é viver neste dilema de termos filhos, mas termos de pensar que eles não são só nossos, e nós não somos só deles, e por isso culpamo-nos quando vivemos demasiado para eles, mas também quando resolvemos pensar um bocadinho em nós.
No caso do Sebastião (o filho em causa, que anda a chamar a atenção), existe um problema acrescido, que não é destes dias, é de sempre. O Sebastião é o "entalado" dos irmãos, aquele que, em virtude de ter nascido no meio e ser um bonzão, nunca ter dado trabalho nenhum, sempre foi aquele com que menos nos preocupávamos. Na fase dos "2", o Afonso ia sempre à frente, foi ele a fazer as primeiras gracinhas, a dizer as primeiras palavras, a fazer as primeiras observações engraçadas, a descobrir as letras, e os números, a entrar na Primária... O Sebastião perdeu a vez da "primeira vez". Já tínhamos assistido às suas novidades, e a nossa reacção foi muitas vezes de "mais uma vez" do que "primeira vez". Com todo o amor do mundo. Mas indisfarçadamente menos surpresa.
Depois começou a fase dos "4". E o Sebastião teve que fazer parelha com o irmão mais velho, porque a mãe estava demasiado ocupada com os irmãos bebés. E, sempre que a mãe conseguia tempo para a "dupla" mais velha, era para dar atenção ao Afonso, por causa dos TPC, das suas exigências, da sua ininterrupta conversa, das suas permanentes negociações, das suas agitações. O Sebastião, pacholas, sempre ficou com os restinhos da mãe. De que lhe tem valido, afinal, ser bonzinho e paciente? Pois que agora começou a dar sinais de impaciência. Talvez estas chamadas de atenção sejam para reivindicar o seu lugar. E com justa causa. Por isso desde hoje que há novas medidas cá em casa:
- À hora dos TPC do Afonso, a mãe faz também uma ficha ou um jogo com o Sebastião (que assim não fica por casa esquecido até à hora do banho e do jantar)
- A escolha dos livros que lemos à noite é alternada, uma noite é o Afonso, na outra o Sebastião (já era assim há umas semanas, mas o Afonso acabava sempre por escolher pelo Sebastião, cujo poder de decisão deixa muito a desejar)
- Os programas do fim-de-semana também vão ser à vez.
- Sempre que o Afonso tiver festas de anos, em vez da mãe aproveitar para trabalhar, vai fazer um programita com o Sebastião.
E pronto. Vamos ver como corre. O problema vai ser quando os gémeos também começarem a chamar a atenção... Inventem-se pais com mais braços e dias com mais horas, por favor!
Este ano os nossos filhos mais velhos foram votar com os pais. Como eu e o pai votávamos em locais diferentes, o Afonso (mais velho) foi com o pai, e o Sebastião (do meio) foi comigo. No caminho, o Pai explicou ao Afonso como decorriam as eleições. Como eram as campanhas, como se votava, como se contavam os votos e o que acontecia ao vencedor e ao vencido. E o Afonso aconselhou o Pai a votar no "Sovaco Silva". Porquê? Porque era o único que conhecia... (e não terá sido por isso que ele teve tantos votos?)
Já eu, que tinha passado o fim-de-semana a trabalhar e estava sem vontade alguma de votar, pedi ajuda ao Sebastião para me escolher um candidato.
- Quais é que são os candidatos, mãe?
- Então... há o Cavaco Silva, que quer que o país seja mais rico. Depois há o Manuel Alegre, que quer que o país seja mais...
- Alegre!
- Isso, Sebastião. E há o Fernando Nobre que quer que o país seja mais...
- Nobre!
- Sim. Pode ser. Os outros... a mãe não se lembra dos nomes. (eu sei, eu sei! Pouco zelosa da sua responsabilidade cívica. Mas a minha capacidade de memória, com tanta personagem e cliente e crianças na escola, está no seu limite. Sem um disco externo não consigo guardar nem mais um nome!)
- Ó mãe... e como é que vai ser? Os candidatos vão pôr-se todos alinhados e eu depois aponto?
- Não, filho... Eles não vão estar lá. Tens que escolher pelas fotografias.
- Ah... Mas eu já sei qual é que vou escolher.
- E qual é, Sebastião?
- Aquele primeiro que tu disseste. Se o país ficar mais rico tu podes comprar mais beyblades...
E pronto. Perante a minha fraca abordagem dos candidatos, ele até fez uma escolha acertada...
E quando os filhos chegam com as suas mãozinhas sapudas e carregam com força no teclado do nosso computador, onde estava aberto um trabalho importantíssimo? O documento desaparece do ecrã. E depois saber em que teclas eles teclaram? E quando o documento tem 200 páginas que vamos ter que rever novamente?
Há dias em que ser mãe é um verdadeiro teste à nossa paciência...
Tive uma vez um cão que não sabia alçar a perna para libertar as suas necessidades líquidas. A sua companhia, lá em casa, era uma velha cadela que baixava a parte traseira com delicadeza, sem sujar qualquer parede, tronco, poste ou pneu. E assim esse cão, que se chamava Arco-Íris mas era preto, não tinha um macho por perto para lhe explicar que os cães, dizem que por uma questão de dominação, levantam a pata e sujam o território ao nível do dorso. E ele fazia como via. Com delicadeza. Nos cantinhos da quinta.
Pois a minha Leonor, quando vê os irmãos mais velhos abeirarem-se da sanita e puxarem as pilinhas para fora para fazer o último xixi do dia, aproxima-se também ela da sanita, levanta o robe e empurra o corpo para a frente. E faz xxxxxxx... Talvez esteja na hora de começar a levá-la comigo à casa de banho para ela perceber que existem outras opções mais confortáveis à sua anatomia... Ou talvez desviar-lhe a atenção quando os irmãos estão de calcinhas em baixo. Mas também acho que não se deve limitar a curiosidade natural das crianças... Também já dei por ela, uma vez que estavam todos nus, prestes a entrar na banheira, a procurar no seu corpinho um pendericalho semelhante aos dos irmãos...
As diferenças de género, nela, psicologicamente, são evidentes. Ela é arrumadinha, senta-se direitinha, adora vestir-se e calçar-se, e pentear-se, e andar com malinhas e pulseiras e colares. Só ainda não percebeu que as diferenças também são físicas, e cada dia que passa se tornarão mais evidentes. E lá chegará o dia em que já não os terei todos nus a enfiarem-se na banheira ou a fazerem xixi ao mesmo tempo...
Afonso, 7 anos. Já deitado na cama e mãe a tapá-lo, com a cabeça já a pensar no trabalho que ainda tem para fazer antes de ir dormir.


- Ó mãe, existem minotauros?
- Não, filho. Já viste algum?
- Ó mami, e existem fantasmas?
- Não, filho. Já viste algum?
- Ó mami, e existem deuses da água, da terra, do ar e do fogo.
- Não, filho. Já viste algum?
- Mas se Deus existe, e também ainda ninguém o viu, porque é que os minotauros, os fantasmas e os deuses também não podem existir?

Pois...
(Mamã) Ca-fé
(Dudu) Lo-mó
(Nocas) Co-qué
(Mamã) No-dy
(Dudu) Mo-mé
(Nocas) No-ni
(Mamã) Sa-pa-to
(Dudu) Ta-ta-ta
(Nocas) Ta-ta-to
E é assim o dia todo. Os gémeos adoram brincar às sílabas, mas as letras fogem-lhes da língua, saltitam e trocam-se umas às outras para resultarem noutras palavras que ninguém entende. Talvez as letras não queiram que os adultos entendam as crianças. Queiram que as crianças fiquem só delas, e dão-se-lhes para que elas criem a sua própria linguagem. Mas se elas tentam ir ao encontro da língua dos adultos... ficam furiosas e saltam no palato, penduram-se no sininho e rebolam na língua para saírem do sítio certo... Até um dia se cansarem (ou talvez crescerem também, como os meninos que as dizem) e decidirem render-se à linguagem dos homens. Dão as mãos e saem direitinhas pela boca, duas a duas, três a três ou quatro a quatro, como meninas e meninos da escola, para toda a gente as entender.

PS - Nunca aprofundei o assunto, mas acho curioso que haja crianças que primeiro conseguem acertar no som, e outras que comecem por acertar o ritmo. O meu Sebastião dizia a primeira sílaba de tudo, mas "comia" o resto. Os gémeos acertam na quantidade de sílabas, mas falham os sons. A Nocas, no entanto, já deu um passo à frente, e já consegue acertar no último som das palavras, e muitas vezes também na primeira letra. O Duarte ainda só vai no ritmo, mas está bem provado, cá em casa, que as miúdas são mais despachadinhas...
Agora também digamos que nós cá em casa não lhes facilitamos a vida... é que todos nós temos pelo menos 4 nomes pelos quais somos chamados:
PAI:
- Pai
- Papá
- Papi
- Pedro

MÃE:
- Mãe
- Mamã
- Mami
- Sara

AFONSO:
- Afonso
- Fonseto
- Fonfas
- Filho
- Mano

SEBASTIÃO:
- Sebastião
- Titão
- Titaneco
- Sebastian
- Filho
- Mano

DUARTE:
- Duarte
- Dudu
- Duduski
- Duqui
- Filho
- Mano

LEONOR:
- Leonor
- Nocas
- Nonô
- Nonoski
- Noqui
- Filha
- Mana

Coitadas das crianças... Se calhar o que as letras pensam é que nós, os seres falantes, somos MUITO complicados!
Porque é que os adultos, quando acordam, ficam de meter medo ao susto, e as crianças, ao acordar, ficam deliciosas? Capazes de as mordermos ou cobrirmos de beijos?
Será das bochechas?
Dos olhinhos sem rugas?
Dos sonhos sem pesadelos?
Quando vou buscar os meus filhos ao quarto, de manhã, abraço-os e lambuzo-os e não consigo não desejar que eles fiquem sempre pequeninos... (na maior parte do restante tempo, desejo que eles cresçam e deixem de fazer birras, de usar fraldas, de ter de comer a horas, de se sujarem, de mexerem em tudo, de não terem noção do perigo, de terem de levar vacinas, de vomitarem tantas vezes... uff! O problema é que, quando estas coisas todas acabarem, vai bater aquela saudade...)
Com o pai a trabalhar e corte de electricidade em casa, resolvi pegar nas tropas e rumar ao Oceanário. Desde que a Leonor aprendeu a dizer "Petche" que eu andava com vontade de lá ir. E hoje não pensei duas vezes. "Saíste mesmo com os 4??" - perguntava o Pai ao telefone. E, já na bilheteira do Oceanário, foi a vez da Funcionária se surpreender: "Vai mesmo entrar sozinha com eles todos??". O Afonso fez-se logo ouvir e argumentou que ele era um excelente condutor do carro da irmã. Saltou logo o Sebastião a dizer que quem levava a mana era ele (e ele continua a querer tudo o que o irmão quer! Maldito síndrome de irmão mais novo, que neste caso é do meio). E estive quase tentada a deixar que fossem eles os 2 a levar os irmãos, enquanto eu descansadamente via os peixinhos. Não ia durar muito tempo... aliás, nem a disputa pela irmã durou, porque os peixinhos falaram mais alto e eles passaram a disputar foi a máquina fotográfica e a descoberta do peixinho mais belo.
Balanço da manhã:
- A Leonor gritou uma centena de vezes "Petche" e o Duarte outras tantas vezes "Pê".
- Fomos repreendidos por comer bolachas e Bolycaos no Oceanário (mas quem suporta ouvir os filhos reclamar por comida?)
- Tirámos dezenas de fotos (sem flash, ok?). 90% delas são borrões negros ou imagens desfocadas.
- No final comprámos lembranças. Um kit ciência para o Afonso, um dinossauro para montar para o Sebastião, uma raia para a Leonor e um lagarto para o Duarte (embora ele, num momento de distracção minha, tenha mordido e enchido de baba todas as tartarugas de peluche que apanhou. Eu, como boa e tesa mãe, fingi que não vi e segui caminho)

Amanhã é dia de Concerto para bebés em Sintra. OS miúdos vão ficar esgotados com tanto programa... e a mãe deles idem idem aspas aspas!
Quando chego a casa mais tarde, já com a criançada toda por lá, sinto-me a verdadeira mãe-pássara, que chega com as minhocas (uma ou outra coisa que comprei para eles, que mais não seja comida já pronta para o jantar) e tem de escolher quem alimentar primeiro. Os meus filhotes abrem o bico e correm para mim à procura de algo. Debicam-me de alto a baixo, e em vez de Pius oiço "Mamã, mamã, mamã, mamã". E, assim como a Mãe Pássara se deve perguntar quem há-de alimentar primeiro (como escolher? O bico maior? O mais frágil? O que pia mais?), eu pergunto-me quem pegar primeiro ao colo, quem beijar primeiro, a quem dar miminhos e a quem perguntar primeiro como correu o dia. Independentemente da minha escolha (que normalmente se baseia em quem é mais ágil para trepar por mim acima, ou quem grita mais alto por atenção) fico sempre com vontade de ter mais braços, e mais bocas e mais colos e mais beijinhos para dar ao mesmo tempo. E ainda há que arranjar em um espacinho (de tempo, de corpo, de atenção) para o passarão...
O meu Sebastião teve um pesadelo esta noite. Acordou a chorar e gritou por mim, ainda atordoado com as imagens que o assustaram a dormir.

- Ó mãe... não existem fantasmas, pois não?
- Não, Sebastião... Dorme descansado.
- Ó mãe... e não existem ladrões, pois não?
- Aqui não, Sebastião. Dorme descansado.
- Ó mãe... e não existem mexicanos, pois não?

Ri-me a nachos. Então agora os mexicanos também causam pesadelos? Tive que lhe dizer que não. Homens de chapéu grande e colchas às costas, só mesmo nos piores sonhos das crianças...
Não resisto a contar as últimas. É o que dá não trocar o computador ao fim da tarde por uma boa conversa com os meus filhos...

(Afonso no banho) Ó mami, olha como eu tenho tantos pêlos nos braços!
(Mami) E ainda vais ter mais, Afonso...
(Afonso assustado) Vou transformar-me num carneiro...

(Sebastião) Mãe, estou com comichão no rabinho...
(Mami) A mãe vai arranjar-te um remédio.
(Sebastião) Um remédio para os bichinhos?
(Mami) Sim. Para eles morrerem.
(Sebastião) Vais pôr-me uma tomada?!? (usamos uma tomada cá em casa para afastar as melgas) No rabinho?
(risos da mãe) Não, filho.
(Sebastião) Ufa! (pausa) Quem vive em Tomada é a Madalena...
(era em Tomar... mas a esta altura já a conversa estava tomada pelo meu riso)
O meu filho Afonso, agora com 7 anos, tem refinado as suas graçolas. Aqui ficam as últimas:

- Mami, sabes porque é que eu não comi passas na passagem do ano? Para não ficar passado...
(minutos depois)
- Se eu para o ano, em vez de passas, comer pedaços de fiambre, achas que fico afiambrado?


(Afonso a comer uma banana)
- Mami, é verdade que nós descendemos dos macacos?
- É possível que sim, Afonso.
- É que eu gosto tanto de bananas... Acho que ainda não evoluí...
Em vésperas de ter 12 adultos em casa e 11 crianças, resolvi deixar despachada a feijoada e o cabeleireiro. Mas agora a feijoada levantou o problema de esconder a loiça na máquina de lavar sem que os gémeos partam nada (ter um de cada lado a querer entrar na máquina não ajuda), e o cabelo levanta o problema de conseguir manter-me penteada até amanhã à noite. Já usei o truque dos ganchos para manter o efeito, mas o piorzinho mesmo são as mãos sujas de cérelac e os miolos de bolacha. Comecei por tentar fugir deles com esticanços de pescoço, mas resolvi recorrer agora a outra técnica poderosa: a touca do banho na cabeça. Claro que esta técnica só resulta se enfiar toucas também nos gémeos, senão eles vão passar o tempo a tentar roubara minha e lá se vai o penteado. Tudo isto ficaria na banalidade (mãe louca fechada em casa com os filhos com calças de fato de treino embodegadas e touca plástica na cabeça) se o guarda-nocturno não tivesse batido à porta a pedir o pagamento mensal e eu não tivesse aberto a porta nessa linda figurinha. Enfim... com os filhos a fazer raccord, pode ser que o senhor ainda pense que é a nova moda do pedaço: moletão embolachado e touca na cabeça. Vai ser o sucesso da próxima estação...
Boas entradas para todos!
Quando se é pai vive-se, através dos filhos, a magia do Natal. E sobrevive-se às birras de sono, às constipações da época, às dores de barriga motivadas pelo excesso de chocolate e às disputas de brinquedos entre primos e irmãos. É uma alegria imensa. E uma tremenda canseira... Talvez por isso os telefonemas pós-Natal que fiz para algumas amigas com filhos começaram todos da mesma maneira: "então? Sobreviveste ao Natal?". Todas sobreviveram. Mas todas estavam KO, a precisar de férias das férias. E a saga ainda não terminou. Segue-se uma semana sem aulas, com quilos de brinquedo espalhados pela casa, restos de ranho colados à roupa, refeições em barda (para darmos valor ao que pagamos à escola de alimentação) e gritos estridentes por detrás dos telefonemas de trabalho que não puderam ser adiados para 2011.
O Duarte hoje chorou entre a 1 e as 4 da manhã. A Leonor, mal-habituada nos 2 últimos dias, não quer sair do meu colo e volta e meia deita a mão ao teclado para chamar a atenção. O Sebastião ainda não parou de vomitar. E o Afonso já fugiu 100 vezes à cadeira onde está sentado a fazer os trabalhos de férias. Estou de pijama, sem saber quando conseguirei fugir para a casa de banho, e o caos está instalado à minha volta, entre peças de LEgos, pistas de Hotwheels, Beyblades, loiças de plástico, ferramentas de brincar, canetas Carioca e meias (muitas meias!) oferecidas pelas primas. Adoro o Natal, mas ainda bem que ele não é sempre que o homem quiser... é uma vez por ano e basta!
(Afonso) Ó mãe, ó mãe! A nossa missão falhou! O Sebastião já não acredita no Pai Natal!

Acorri à cozinha, onde o Afonso ainda mastigava a comida que acumulara nas bochechas. Ele deixara de acreditar no Pai Natal há uns meses, mas tinha como missão não deixar que o Sebastião parasse de acreditar.

(Mãe) Então, Sebastião? Não acreditas no Pai Natal?
E ele disse que não com a cabeça, e aquele ar maroto que ele tem.
(Mãe) Mas porquê?
(Sebastião) Porque o Pai Natal apareceu lá na escola, e era a Guida (auxiliar da escola). Eu vi logo, porque ela não tinha sapatos de Pai Natal. A Eduarda ainda disse que a Guida tinha ido ao hospital, mas eu vi que era ela...

Hesitei em tentar protelar a mentira, e dizer-lhe que a Guida só se tinha feito passar por Pai Natal porque o Pai Natal adoecera, mas tendo o Sebastião já 5 anos, idade em que eu própria deixei de acreditar no Pai Natal, preferi não forçar a aldrabice. Tentei só perceber até que ponto a verdade se tinha instalado...

(Mãe) Então mas todos os anos aparecem presentes na nossa lareira, Sebastião... Se não é o Pai Natal, quem é que tu achas que põe lá os presentes?
(Sebastião) Se calhar é a Guida...

Mesmo sem sapatos, a Guida ganhou um estatuto especial. Talvez para o Sebastião não tenha uma rena voadora, mas continua a entrar-me pela chaminé adentro...
Corro o risco de generalizar, quando a minha situação é meramente particular, mas hoje dei por mim a pensar que ter filhos é mais próximo de ter cães, e ter filhas é mais próximo de ter gatos.
Os cães são meigos mas estouvados, batem em tudo, roem tudo, correm aos trambolhões e batem com a cauda em todo o lado. Mas depois são os melhores amigos do homem. Qualquer coisa os põe com a cauda a dar a dar, e correm para nós quando chegamos a casa. São assim os meus meninos cá em casa. Irrequietos. Loucos. Desengonçados. Mas uma ternura. E uma dependência de nós e de carinho que é impossível resistir-lhes.
Os gatos adoram festas mas são felinos, independentes, têm personalidade e, se for preciso, afiam a garra. Aparecem à hora da comida, sabem onde fazer xixi e como tirar o peixe do aquário sem o partir. São espertos. Muito espertos. E não dão ponto sem nó. Irresistíveis por isso mesmo. Porque têm vida própria, fora de nós e sem nós, e damos por nós maravilhados a olhá-los. É assim a menina cá de casa. Independente. Felina. Espertalhona. Irresistível.
Tenho três cães e uma gata cá em casa. E aposto que é ela que vai mandar neles todos...
Enquanto preparava o meu pequeno-almoço, o Pai tentava pela enésima vez convencer o meu filho mais velho das suas mais loucas façanhas. Como ainda não estava à mesa para o meu filho me olhar nos olhos e perceber que o Pai estava a mentir, ele esticou-se um bocadinho mais do que habitual...

- Sabes que o pai, antes de conhecer a mãe, era espião. Lembras-te da Casa Laranja, aquela empresa que o pai teve? Era uma empresa de espiões.
(Afonso olha para a mãe, que vira costas para esconder os olhos que só sabem dizer a verdade... e se rir sozinha)
- Escusas de olhar para a mãe, Afonso. A mãe também não sabe de nada. Eu nunca lhe contei, porque se tivesse contado tinha que a matar depois... Mas isso ainda foi antes da guerra...
- O quê? Também estiveste na guerra, papi?
- Claro! Em várias. No Azerbeijão, na Rússia, no Iraque... Tinhas de ver o pai a saltar dos helicópteros.
- O quê? Tu voas?
- Claro que não, Afonso. Ninguém voa. O pai saltava de pára-quedas. Mas por acaso estás a fazer-me lembrar de uns homens que eu conheci na selva, e que saltavam de árvore em árvore. Eles quase que voavam...

O Afonso vai arregalando os olhos, enquanto as bochechas se enchem de pão e ele fica tipo hamster. Mas lá no fundo, no fundo, ele sabe que o Pai, de mais extraordinário, tem a sua grande criatividade (ok, e um parafusinho a menos de vez em quando...)
Perdi a aposta! Contra todos os meus receios, o torneio de Beyblades dos mais velhos e as cabeçadas voluntárias do Dudu a tudo o que mexe não deitaram a árvore de Natal abaixo. Só a minha Nhô, que eu achei que se ia comportar à altura, tira da árvore as renas para passeá-las no carrinho do Nenuco, e hoje fui chamada em pleno banho para vir conter a desgraça:
- Sara, desce rápido! A Leonor está a comer a árvore de Natal!
Quem me manda enfeitá-la com bolachas de plástico...
(Conversa com o meu filho Sebastião, de 5 anos)

- Ó mãe, as pessoas que estão vivas podem dar vida às outras pessoas?
- Como assim, filhote? Dar vida?
- Tu tens vida, não é, mãe? Podes dar vida a outra pessoa?
- A uma pessoa que já morreu, é isso?
- Sim. Ou então a outra pessoa que está viva. Se tu desses vida à Mila, por exemplo, ela nunca ficava velhota...
- Hum... Acho que isso não é possível, filho. Pelo menos por enquanto.
- Ohhhh...

E eu que costumava dizer que este era o menos místico dos meus filhos...
Enquanto os gémeos dormiam, montámos a árvore de Natal...
Os gémeos estão quase, quase a acordar e as apostas já começaram cá em casa: durará a árvore até ao final da semana? Até ao fim do dia? Não durará uma hora? (eu apostei nesta!)
(Afonso) Ó mãe... se fosse eu a fazer a Kidzania, ela tinha um labirinto no ar... e naves espaciais, para quem queria ser astronauta. Cá em baixo tinha uma floresta, para os exploradores. E animais selvagens...
(Pausa. Mãe continua a cortar-lhe as unhas. São 80 ao todo. Não se pode perder tempo em conversas)
(Afonso) Ó mãe... porque é que as coisas nunca são tão boas como na minha imaginação?

Aperto no coração, que me paralisou a mãe e por pouco não lhe trespassava um dedo. Com tanta coisa para herdar de mim, o raio do miúdo logo tinha que herdar a frustração de nunca conseguir que a realidade supere a sua ficção... (bem... também herdou as unhas dos pés...)
O Tico e o Teco tiveram 4 filhotes: o Ticotico, o Tecotecto, o Tocotoco e o Tucutuco. O Ticotico tirou um bico a um passarico, o Tecototeco escondeu um boneco num beco, o Tocotoco levou com um coco, ficou louco. E o Tucutuco comeu um cuco, ficou maluco.
E o Tico, com tanto mexerico, fez xixi no penico. E o Teco, com um caneco, ficou marreco.

(É mais ou menos assim que o meu cérebro fica depois de um longo fim-de-semana sem empregada...)
O meu Afonso teve o seu primeiro 0 no ditado! Pode parecer uma coisa menor, um feito sem grande importância, mas para quem andava há semanas com 1, 2 erros, e não passava daquilo, isto foi um feito e tanto! O meu filho nem é daqueles que se preocupe por aí além com as notas. Como ele diz "não te preocupes, mami. Eu não sou o melhor, mas sou o melhor dos médios". Mas aquela coisa de ter sempre 1 ou 2 erros, e nunca conseguir um ditado limpinho, já me andava cá a chatear. Por isso resolvi pegar na folha do texto que ia ser ditado (e que percebi entretanto que era o texto do TPC da véspera) e pus-me a ver com ele aquelas palavras que eu sabia que ele podia errar. Escovar é com "o" porque vem de "Escova". "Esburacar" é com "u" porque vem de "buraco". Dizemos "muinto", mas o gato comeu o "n". E por aí fora... Andei de roda do meu filho uma série de tempo, entre as garfadas de comida e o escovar dos dentes. E, no dia seguinte, o 0 apareceu. Assim que cheguei à escola o Afonso veio a correr ter comigo, com os olhinhos a brilhar:
- Quando a professora pegou nos testes e começou a ler os nomes, o meu coração começou a bater tão forte... Tum-tum-tum! E tive zero, mami! Zero! Ainda bem que me deste aquelas dicas. Obrigado.
E tive de ter cuidado para não molhar o ditado de baba, quando escrevi: "Tomei conhecimento. Ass: Mãe"
(Afonso) Ó mãe, o meu professor de Catequese diz para eu fazer uma coroa e acender uma vela aos poetas.
(Mãe) Quais poetas, Afonso?
(Afonso) Então, mami? Os poetas amigos de Jesus...

Eram os profetas. Mas na Bíblia do meu filho Afonso, tudo é possível...
Depois de aprender a puxar os cabelos à irmã gémea e a abocanhá-la nas pernas para conseguir ganhar a disputa por algum brinquedo, o meu Dudu aprendeu uma nova táctica infalível: aproxima-se da irmã, puxa a sua cabecinha linda atrás e PUMBAS! Cabeçada nela. Assisti à primeira vez e achei que lhe tinha escapado a cabeça. Um acto involuntário. À segunda achei que ele tinha achado graça à primeira e resolvera experimentar uma segunda. À terceira... à terceira levou uma palmada no rabo! E ainda se afastou a resmungar, balançando a cabecinha para a frente e para trás, como quem diz "Ora bolas! Então agora nem umas cabeçadas posso dar? Toma ar! Toma mosca!" E a Nhocas, com beicinho e ar de ofendida, veio aninhar-se no meu peito e tocou com o dedo na testa, a chamar maluco ao irmão. Ou muito me engano, ou estas são só as primeiras dores de cabeça que os irmãos lhe vão causar...
Os pais têm que estar preparados para tudo: murros e pontapés involuntários, baba, ranho, maus odores... e, claro, não podemos esquecer, o vomitado.
Ontem o Afonso levantou-se às 10 da noite e, do cimo das escadas, lançou golfadas de vomitado. Para as escadas, para a parede, para os quadros da parede... e para mim, que tentava alcançá-lo entre um vómito e outro. O cenário era indescritível. O cheiro nem se fala. Ser mãe é também isto: cheia de salpicos de vomitado, sorrir e dizer: "Pronto, meu querido. Já acabou..."
(Afonso sobre as meninas)
- Mãe... as meninas são tão irritantessssss!
- Não são nada, Afonso. Não digas isso. Porque é que são irritantes?
- Estão sempre a fazer grupinhos. Depois zangam-se umas com as outras, dizem que não são amigas, depois dizem mal umas das outras, depois choram, depois fazem queixinhas, depois estão sempre a falar das roupas e dos ganchos, depois dizem umas às outras que estão feias...
Ok. Fiquei sem argumentos. São irritantes, mesmo. (Somos?)
Filho mais velho doente em casa. Filho a seguir acabadinho de chegar da escola cheio de coisas para contar, com um pacote de leite de chocolate na mão que apanhara pelo caminho. Gémeos espalhados pela sala a fazer disparates. Toca o telefone. Hesitação. É de trabalho mas era importante atender. A mãe atende. Espera o melhor. Acontece o pior. Gémea menina apanha o livro de cheques da empresa. Mãe faz sinais aos filhos mais velhos para que eles ajudem. O telefonema continua. Mãe tapa o bocal e grita: "Tirem-lhe os cheques da mão!". O filho mais velho faz-se ainda de mais doente do que está. Filho do meio corre a ajudar. Puxa os cheques da mão da irmã com uma mão, enquanto a outra aperta involuntariamente o pacote de chocolate. O leite esguicha sobre o sofá e sobre as facturas da empresa que a mãe estava a organizar. A próxima empresa a receber um cheque vai recebê-lo amassado. As facturas vão para a contabilista com nódoas de leite com chocolate. O sofá... sem comentários. E o telefonema... "Desculpem... Teremos que falar noutra altura quando estiver tudo mais calmo". Talvez daqui a 20 anos.
Se eu escrevesse isto para uma série diriam: "Muito improvável... Só mesmo numa sitcom é que isto aconteceria..."
O meu filho Sebastião tem as orelhas saídas. Tem a cara mais fofa do mundo e os olhos mais meigos do universo, mas as orelhas desataram-lhe a saltar do rosto por volta dos 2 meses de idade, e nem as fita-colas que eu lhes pregava para dormir resolveram o assunto. Durante muito tempo usou cabelo à tigela, que eu lhe cortava meticulosamente para tapar as pendências, mas um dia o pai resolveu que ele ficava bem era com o cabelo rentinho à pente 3... e não é que ficava? Primeiro estranhei as orelhas. Depois entranhei. E agora adoro as suas orelhinhas a dar a dar, que só dão vontade de trincar. No outro dia o dr. Póvoas, amigo da família, disse-nos que com uma pequena cirurgia se corrigiam quaisquer orelhas mais saídas. E hoje, a passar as mãos pela alcatifa fofinha que o Sebastião tem na cabeça, enquanto ele lavava os dentes, resolvi apertar-lhe as orelhas, para ver como ele ficava. Ui! Que esquisito! E o seu arzinho de boneco de peluche? Esqueci as experiências e deixei-lhe as orelhas fugirem para o lugar que lhes pertence. Talvez um dia o Sebastião queira ter umas orelhas coladinhas à cabeça. Mas por agora, o Titão da mãe é lindo com as suas orelhas bem abertas, para ouvir muito bem tudo aquilo que a mãe lhe diz...
COISAS DE AFONSO (7 anos)

- Ó mãe, eu sou vosso filho da parte da mãe ou da parte do pai?
- Hãaa?
- Acho que sou da parte da mãe... e o Sebastião da parte do pai. Porque eu sou magrinho como tu e o Sebastião é gordinho como o pai.
- Ó, Afonso... Nem tu nem o teu irmão são da parte de nenhum dos dois... vocês são os dois do pai e da mãe. São da parte dos dois.
- Mas antes de vocês se conhecerem, eu era da parte de quem?
- Ó Afonso... antes de o pai e a mãe se conhecerem, tu ainda não eras nascido.
- Ah, pois é... Dah! Mas mesmo assim eu acho que sou mais da tua parte...


- Ó mami, há filhos que dizem às mães que elas são as melhores do mundo, mas elas não são.
- E o que é que tu achas da mãe, Afonso?
- Eu também digo que tu és a melhor do mundo. Mas acho que és mesmo...

Quanto vale um filho destes?
(MÃE TANSA)
O Sebastião chegou a casa com um lindo desenho, feito em massa. Tinha uma cabeça com dois olhos enormes e um nariz, e quatro fios de massa a sair dela.
- Olha, mãe, é para ti.
- Que lindo polvo, Sebastião! Sabes que a mãe gosta muito de polvos? Quando a mãe casou com o pai, comprámos polvos em vários materiais, fazíamos colecção... E o teu é o mais lindo de todos!
- Ó mãe, mas isto não é um polvo... Isto és tu!

(MÃE BABADA)
O Sebastião desenhou uma menina com dois corações, um no peito e outro em cima da cabeça.
- Porque é que tem dois corações, Sebastião?
- Um está aqui, a bater (apontou o peito). O outro está na cabeça dela, porque ela está a pensar no amor. Está apaixonada...
(Afonso, depois de uma aula de informática) Ó mami, tu com a minha idade já sabias fazer desenhos no computador?
(Mami a trabalhar... ao computador) Quando a mami tinha a tua idade, ainda nem existiam computadores, Afonso.
(Afonso surpreendido) Ai não? Então quem é que os inventou?
(Mami a precisar de trabalhar) Não sei, Afonso. Depois a mãe diz-te.
(Afonso, alguns minutos depois) Já sei, mami. De certeza que foi o avô.
(...)
(Afonso) Ó mami, tu já inventaste alguma coisa?
(Mami a precisar MESMO de trabalhar) Não, Afonso.
(Afonso) Eu acho que já inventei. Estás a ver o Bionicle? Não fui eu que inventei o Bionicle. Mas eu inventei que podia misturar as peças do Bionicle. Quer dizer... acho que inventei. Como é que eu sei que fui que inventei, mami? Se calhar já alguém inventou antes de mim e eu não sei...
(Mami desiste de trabalhar e vai ver na Wikipedia quem inventou o computador, e como funciona o mercado das patentes).
Ler o blog, no outro dia, fez-me constatar que o meu filho mais velho, com a idade do meu filho do meio (5 anos), já sabia as letras todas, já sabia juntá-las, e lia pequenas palavras. Aliás, começou a fazê-lo com 4 anos. O Sebastião ainda só conhece parte das letras, e ainda custa a identificá-las nos sons. É verdade que todos os filhos são diferentes, cada um tem o seu ritmo, e as suas aptidões, mas neste caso o que explica esta discrepância é uma só: o Afonso teve-me dias a fio a ensinar-lhe as letras, a fazer jogos com as sílabas, a procurar letras nos jornais... enquanto o irmão bebé dormia. O Sebastião tem-me ocupada com os TPCs do Afonso, e com as tropelias dos gémeos. O máximo que ouve, de vez em quando, é um: Mas tu ainda não sabes escrever o teu nome?! Toma lá uma folha e escreve as vezes que conseguires, enquanto a mãe vai ali e já volta...
Hoje resolvi redimir-me. Fui buscar os velhos cartões do Afonso, com letras, e estive uma boa hora a puxar por ele. Resultado: uma hora foi o suficiente para que ele ficasse a conhecer mais um punhado de letras, e já percebeu como identificar os sons. Talvez seja mesmo assim... os segundos filhos são menos estimulados pelos pais... mas no pouco tempo em que os têm para si, rentabilizam-nos melhor. É que não fazem a menor ideia quando será a próxima vez...
Os pais são os mesmos. Os irmãos são os mesmos. Os brinquedos são os mesmos. Os ensinamentos são os mesmos. E os ralhetes também. E, apesar de ser tudo o mesmo, na mesma dose e medida, os meus gémeos são tão diferentes! Quem os vê à primeira vista, os dois lourinhos, de olho azul, da mesma altura e quase o mesmo peso, não acredita em mim. Mas as evidências aparecem logo em seguida:
- O Duarte brinca às lutas e faz grunhidos que tentam imitar os dois irmãos. A Leonor senta a Kitty na sanita e diz-lhe "Cocó! Cocó!"
- O Duarte, por onde passa, deixa rasto de papéis e sujidade. A Leonor vai buscar o pano para limpar, e pega nos papéis e vai deitar ao lixo.
- O Duarte ri-se de tudo e de nada, sobretudo se for disparate. A Leonor só se ri quando ganha confiança. Primeiro estuda a pessoa e a situação a ver se pode confiar.
- O Duarte trepa a tudo, vai ser o mais ágil dos irmãos, mas se cai chora como um bebé pequenino. A Leonor é mais cautelosa. Quando cai levanta-se e dá tau-tau ao sítio onde bateu.
- O Duarte, quando quer uma coisa da irmã, pega nessa coisa e puxa o cabelo da irmã. A Leonor, quando quer uma coisa do irmão, guincha e aponta para o irmão. Se ele lhe faz mal, toca o dedo na sua testa a chamar-lhe tonto.

Pela primeira vez, estou a ter oportunidade de ver como crescem os meninos e as meninas. Como, a partir das mesmas coisas que lhes damos, desbravam caminhos traçados pelo género (e pela sua própria personalidade também, claro). Pela novidade, estou absolutamente deslumbrada com a esperteza feminina. Imagino-me a ir às compras com a minha filha, a escolher as roupas, os penteados, as depilações, os soutiens, os ciclos menstruais... Mas não consigo deixar de pensar também que as duas vamos chocar, vamos ver quem é mais esperta, vamos ver quem consegue dar mais a volta aos "nossos" homens, quem é mais teimosa e quem tem mais vezes razão. E nessa altura vão-me valer os meus "meninos da mamã", três matulões (fora o pai) para me vão amparar nas quedas, para me dar miminhos, para dizer que eu sou a mais bonita, a mulher da vida deles (o pai não conta porque vai estar do lado da sua menina)... Por isso é tão bom ter meninos e meninas. Para termos confronto e consolo. Acção e reacção. Tensão e atracção. E para percebermos finalmente as diferenças entre os nossos pais e as nossas diferentes ligações com eles. Para percebermos as diferenças entre nós e a nossa cara metade. E para aceitarmos essa tão natural e espontânea diferença, que já nasce connosco, e que sempre, desde sempre, tem posto o mundo a mexer!

PS - Famílias só de meninos ou só de meninas... aceito umas trocas de vez em quando.
Sempre que recebo um comentário no meu blog dou por mim a pensar que vale a pena andar a "perder tempo" a escrever estas coisas todas neste espaço. É bom partilhar. É bom ouvir os outros. É bom ir também espreitá-los e ver que não estamos sós nas nossas angústias, mas também nas nossas alegrias. E eu agora até já vou acreditando que há mesmo pessoas a ler o meu blog! (o meu cunhado, nos dois primeiros anos, criava personagens fictícias para comentar os meus posts. Um grande beijo para ele! Que continue a metamorfosear-se sempre que puder!) E também lá vou pensando: Um dia os meus filhos vão gostar de ler isto!
A verdade é que esse momento chegou mais cedo do que eu esperava. A professora do Sebastião pediu que escrevêssemos sobre as conquistas dos nossos filhos aos 1, 2, 3 e 4 anos, e eu nem sabia por onde começar. Reli posts e mais posts e mais posts! O problema foi escolher! As conquistas eram tantas! Os diálogos dele com o irmão deliciosos. E rabisquei as folhas todas que a professora tinha mandado, babada. Com o meu filho e comigo mesma: ainda bem que fiz este blog! Sou uma g'andessíssima de uma mãe!
E ler aos meus filhos o que escrevi foi ainda mais delicioso. O Sebastião ria com as bochechas encarnadas, e só dizia, agarrado à barriga: Conta outra vez essa anedota! Conta! E o Afonso foi buscar uma resma de folhas para eu fazer o mesmo para ele: Não é justo, mãe! Também tens que fazer para mim! Eu falo mais que o Sebastião!
Não sei por quanto mais tempo conseguirei manter este blog, mas uma coisa é certa: já valeu bem a pena!
É oficial. O meu filho Afonso quer ser escritor e anda a escrever histórias nos intervalos da escola, para depois oferecer. Bem... começou por oferecê-las... Mas, felizmente, para além dos genes da mãe, herdou também os genes do pai, por isso a dada altura resolveu começar a vendê-las.
- Vendê-las, Afonso?!
- Sim. Mas o Diogo Alves (leia-se compincha das escritas e do negócio) quer vender as histórias dele a 1 euro. E as minhas, como são mais pequenas, ele diz que só podem ser 50 cêntimos.
- Mas vocês estão mesmo a vender as histórias?! - eu ainda estava incrédula.
- Sabes que mais? Quem perde é ele... Como as minhas histórias são mais baratas as pessoas vão preferir as minhas... e eu vou ganhar mais.
Definitivamente, o meu filho vai safar-se muito melhor do que eu...

PS - O Duarte já corre tudo! Acabaram-se os gatinhanços em nossa casa. Já anda tudo a duas patas!
(Afonso) Ó mãe, eu acho que tenho o poder da água...

Tinha acabado de abrir uma caixa para um novo post. Não tinha nada a ver com poderes, mas o rumo da conversa não me deixou alternativa.

(Afonso) Eu não sei bem... mas acho que controlo a água. Vinha um bocado de água contra mim e eu afastei-a com a minha mão. Não tenho a certeza, mas acho que fui eu que a afastei...

Definitivamente, o meu filho anda a ver televisão a mais...
E, definitivamente, a mãe também...

(Mãe) Que sorte, Afonso. Agora só te falta controlar o ar, a terra e o fogo...
Gostava de não fazer tantas coisas. E de ter mais coisas feitas.
Gostava de não precisar de dormir. E de poder dormir mais.
Gostava de ter estado com o meu filho Sebastião quando ele levou 6 pontos no lábio. De ter atendido o telefonema da minha amiga no momento em que fez o teste de gravidez. De ter curado a gripe do meu marido. De ter estado na sala do Afonso quando ele teve azul na leitura. De não me ter esquecido de ligar à minha cliente a fazer o ponto da situação. De ter tido tempo para cortar a franja ao Duarte. De ter sido eu a ensinar a Leonor a chamar tonto ao irmão. De já ter acabado o meu romance. De não me ter esquecido de dar o antibiótico ao Sebastião. E de já ter pago o Seguro. Gostava de ter feito metade da lista de coisas que programei para hoje. E de ter jantado com a minha família sem ouvir o telemóvel. Gostava de hoje não ter pesadelos. E de amanhã já achar outra vez que chego para as encomendas.
Enquanto as televisões dissecavam o orçamento de Estado, e alarmavam o país com a palavra de ordem repetida vezes sem conta (CRISE, CRISE, CRISE, CRISE) resolvi ter uma conversa séria com os meus filhos mais velhos sobre o futuro.
- Então digam-me lá... o que é que vocês pensam fazer no futuro? - perguntei, depois de me cansar de berrar para eles comerem os cereais antes que estes empapem.
O Sebastião disse que queria ser polícia. Para matar os ladrões.
- Mas olha que ser polícia é perigoso... - disse o Afonso, preocupado com o irmão.
- Então não quero. Vou ser antes jogador de futebol.
- E consegues passar o dia todo a treinar? - perguntei eu. Ok, tendenciosa. Mas não me apetecia nada ter um filho futebolista, e ter que andar de estádio em estádio a dar-lhe força para ele enfiar uma bola na baliza.
- Ah, não... Assim ficava cansado.
- Então o que é que vocês gostavam de fazer o dia todo, que nunca vos cansasse?
Ficaram os dois calados. Mas a resposta era óbvia: brincar. O pai deu uma boa ideia ao Afonso:
- Podes ser tester de jogos. Passavas o dia a jogar.
Também podiam ser animadores da kidzania e passar o dia a brincar. Ou ser tratadores de animais e passar o dia no Zoo. E a conversa descambou para o disparate, mas a verdade é esta: mesmo com os tempos de crise que se avizinham, o melhor conselho que posso dar aos meus filhos é que eles descubram o que gostam realmente de fazer e o que lhes apetece fazer o dia todo, sem parar, com todo o gosto e vontade de fazer cada vez mais e melhor. Porque, com mais ou menos dinheiro, com melhor ou pior orçamento de Estado, com mais imposto ou menos portagem, não tenho dúvidas que é isso que os fará felizes...
Fim-de-semana sem Mila (leia-se o meu braço direito com a casa e com a filharada) é fim-de-semana de arrancar cabelos. Os mais velhos ainda conseguem estupidificar-se um pouco em frente à televisão, sossegados, enquanto eu arrumo a cozinha, e faço as camas, e preparo as refeições, entre telefonemas profissionais que não se compadecem do meu fim-de-semana por mês sem apoio (sim, felizmente a minha Mila só me abandona um fim-de-semana por mês. Um longuíiiissimo fim-de-semana de três dias que parecem três semanas). Mas os mais catititos não dão tréguas. Nem a televisão trava a sua ânsia de vida. A Leonor já corre tudo e o Duarte, embora mais preguiçoso, já faz longos trajectos sozinhos, e a melhor imagem que me ocorre é de duas baratas que, soltas no chão, disparam em velocidade contra o primeiro disparate. Ora é um que deita uma cadeira abaixo, ora é outro que despeja uma prateleira com roupa, outro entala os dedos na gaveta, outro trepa para cima da mesa, depois é um cocó até à costas, e outro logo a seguir que me obriga a mudar um e outro enquanto o outro e o outro se empoleira nas minhas pernas a gritar por atenção... São lindos, são a melhor coisa do mundo, mas o raio dos gaiatos dão trabalhooooo... Parecem caracóis, por onde passam deixam rasto, e por mais que eu lhes dê brinquedos eles sentem uma atracção fatal pelos talheres, os comandos, os telemóveis, os papéis da mãe, os TPCs dos manos, a máquina fotográfica do pai, o cabo do computador da mãe, as tomadas... e tudo o que tenha um grande P de Perigoso ou D de Disparate.
Amanhã pego neles todos e ponho-os a correr num sítio qualquer (depois de os vestir, preparar os lanches, as fraldas, as mudas, metê-los a todos no carro, chegar a qualquer lado... ui! Acho que vou sonhar com um plano B qualquer...)
É oficial! O Afonso aprendeu a andar de bicicleta. Depois de umas investidas da mãe, sem grande jeito para a didáctica do desporto (e eu lá conseguia largar o selim do rapaz? Só o imaginava a despenhar-se no passeio, por isso percorri quilómetros agarrada ao selim da bicicleta mínima, o que me valeu uma grandessíssima dor nas costas), o pai resolveu intervir e resolveu os medos do nosso filho mais velho (e os receios da mãe) com uns empurrões certeiros que o puseram a pedalar. Falta aperfeiçoar, mas se é como dizem, e de andar de bicicleta nunca se esquece, hoje o Afonso teve uma lição para a vida toda...
Enquanto os meus filhos cresciam, fiz tantos planos para o dia em que eles estivessem na escola Primária (ah, desculpem... 1º ciclo!). A escola vai ser uma descoberta, pensava. Vou transformar os TPC em magia, e a aprendizagem numa saborosa aventura. Imaginei-me a fazer teatros, a criar textos com eles, a desenhar letras nas paredes e a cantar a tabuada.
A verdade é que o meu único filho que já anda na Primária (ah, desculpem... 1º ciclo) chega a casa cansado de um dia inteiro na escola, eu também já estou cansada de um dia inteiro a trabalhar, e as fichas cinzentonas que ele traz para fazer não têm qualquer cor ou magia. Nem eu tenho já forças para transformá-las em tudo aquilo que tinha imaginado. Por isso saem-me aquelas frases que eu jurei a mim mesma que nunca iria dizer: "Escreve!", "Despacha-te", "Faz o que lá está", "Apaga e torna a fazer", "Não distraias o teu irmão", "Tens um boneco escondido no meio das pernas?!", "Não jogas Nintendo a semana toda" - e isto, claro, num crescendo absurdo de décibeis, enquanto o Sebastião aproveita para fazer disparates, os gémeos gritam para chamar a atenção e o jantar queima no forno.
Não é fácil... e todos os dias me deito e penso: Bolas! Eu queria tanto fazer da escola uma coisa mais divertida!
Felizmente, há dias diferentes. Hoje estava particularmente aliviada de trabalho, a Mila tratou dos gémeos, o jantar esperou porque amanhã é feriado e que se lixem as 8 horas em ponto para jantar, e estive a folhear revistas com o meu filho para descobrir animais, recortar partes deles e criar uma criatura imaginária a quem teríamos de dar um nome, um habitat, um tipo de alimentação e actividades preferidas. Não foi criação minha (com pena), era mesmo uma proposta do livro de Português do 2º ano, e fiquei feliz por saber que aqueles que se preocupam com a educação dos nossos filhos e concebem os manuais também procuram dar magia à vida deles...
Para que conste, a criatura cá de casa chama-se Olivar, tem cabeça de zebra, corpo de ovelha, pernas de cavalo, cauda de martim-pescador, chifre de veado e asas de andorinha, vive na casinha de plástico do nosso jardim, come gomas e adora brincar... comigo. (É como eu... - terminou o Afonso. Vivam os manuais escolares!)
Acho que os pais têm um dom. Um dom de nos tirar do sério quando os filhos choram à noite e eles não ouvem, quando eles estão a fazer uma asneira ao lado deles e eles não notam, quando os deixámos a cargo deles e eles se esqueceram da hora do almoço ou do lanche, ou lhes deram fast food para não terem trabalho. Os pais têm o dom de se esquecer dos filhos e usufruírem das férias em casal, e ainda acharem que podiam ter ficado mais dias. Os pais têm o dom de se esquecerem de tudo quando dá futebol, e de não conseguirem distinguir que roupas pertencem a que filho, nem a arrumação que a mãe resolveu dar às roupas.
Pais e mães são de espécies diferentes, definitivamente. E isso é tãooo bom! É verdade que estes pequenos dons dos homens (e atenção que estou a generalizar, para além de estar a exagerar, claro) às vezes nos irritam, mas os homens, depois, têm outros dons maravilhosos que nos escapam. Como brincar com os filhos sem os stresses do chapéu, e do agasalho, e da hora de comer e da hora de dormir. Brincam com gosto, e geralmente brincam melhor do que nós. Ontem à noite o pai dos meus filhos soltou esse seu dom maravilhoso e apareceu no quarto do Afonso enquanto eu lia a história. E começou a fazer batuques nas prateleiras dos livros. Um batuque aqui, um batuque acolá... uns minutos depois os meus filhos estavam a dançar que nem uns doidos no quarto, ao som dos ritmos improvisados do pai, e a noite terminou com grandes abraços e beijinhos de todos, e uma noite muito descansada. Os homens são assim (generalizando outra vez). Cozinham pouco, mas quando cozinham são grandes chefs. Brincam pouco, mas quando brincam criam momentos verdadeiramente mágicos aos filhos. Somos, de facto, de espécies diferentes, e por isso é que os filhos crescem dentro de nós, porque nós estamos cá para o bom e para o mau, para as brincadeiras e para os cocós e as birras. Mas sem um pai ao nosso lado a tornar o bom ainda melhor, também não teria tanta graça...
O meu Sebastianeto fez anos. 5. Uma mão cheia, como ele diz. O problema é que o irmão mais velho está quase nos 7 e põe e dispõe da vida do Sebastião. É sempre assim com os irmãos mais novos. E então quando eles ficam entalados no meio de outros, não há nada a fazer. São os esquecidos e aqueles que mais facilmente tendem a copiar uns e outros, em busca de um lugar e do merecido reconhecimento dos pais.
(mãe) - Sebastião, queres um bolo do quê?
(Sebastião) - Afonso, o meu bolo vai ser do quê?
O Afonso já ia mandar a sua laracha e comandar os destinos do aniversário do irmão, mas travei-o a tempo.
(mãe) - O teu irmão é que vai escolher o bolo! Estás proibido de dar sugestões, Afonso!
Depois de muito pensar (e como é indeciso este meu pequeno Balança) lá se decidiu pelo Odd do Code Lyoko. Não sabem o que é? Pois... eu também não sabia. Lá fui pesquisar na net e descobrir o boneco maravilha, difícil à brava de adaptar a um bolo, mas lá descobri uma senhora que me fizesse um bolo com aquele tema.
(mãe) - Sebastião, a mãe já conseguiu um bolo do Code Lyoko.
(Sebastião com olhinhos a brilhar) - A sério, mãe?
(mãe) - A sério. Quem vai fazer o teu bolo é uma senhora chamada Maria Biscoito.
(Sebastião com olhos tristes) - O quê? Não vais ser tu, mamã?
Não resisti a uma mentirinha piedosa. Disse que era eu... e a Maria Biscoito. Uma espécie de bolo a 4 mãos. Só omiti que a minha parte foi só a logística, mas quem aguenta ver uns olhos tristes como os do meu Sebastião?
O meu piolho mais velho escreveu o seu primeiro livro... (baba, baba, baba). Prestes a fazer 7 anos, quase que escapava àquele que eu desejava ser o desígnio da nossa família: escrever o primeiro livro aos 6 anos. A minha mãe ajudou-me a escrever o meu primeiro aos 6 ("Um pico meu amigo", qualquer dia vem a lume) e eu já andava de roda do Afonso há algum tempo para o ajudar a escrever o dele: Ó filho, se queres ser escritor, tens de escrever, okay? Foi com mais preguiça do que a mãe (mas pronto, não se pode herdar tudo. Ele tem outras coisas que eu gostava de ter herdado, como a lábia, tão importante nos dias que correm...), mas lá pegou nos lápis e escreveu na folha dobrada que eu lhe arranjei. Fez 2 pequenas histórias, inspiradas no meu livro das 100 Histórias do Outro Mundo, e escreveu "No planeta das caixas" e "No planeta dos jogos", cada uma com um pequeno desenho (ilustrados nunca será... valha-me Deus!). No dia seguinte fez a capa: escolheu o título, fez o desenho e pôs o nome (Afonso do Ó, nome artístico), e depois perguntou-me o que pôr na contra-capa. "Não precisas de pôr nada, Afonso. Já está muito giro assim", disse-lhe eu. Pedir-lhe que fizesse uma pequena sinopse do livro para encher o olho aos potenciais leitores era um pouco too much. Mas ele lá achou que tinha de pôr qualquer coisa nas costas, e passado algum tempo apareceu-me com algo escrito:

P: O que é um ladrão em cima de um saco de arroz?
R: Arroz malandro.

Resolvera pôr uma anedota... Nada mau para encher o olho aos colegas. Depois fizemos cópia para as avós, para a professora e para 2 amigos da escola. No meu tempo não havia scanners nem cópias a cores, por isso o original (e único exemplar) de "O Pico meu amigo" ficou mesmo perdido nas gavetas da minha querida professora da primária. Como os tempos são outros, e há que zelar pela matéria-prima, cedi as cópias scanerizadas e fiquei com o original. Não vá o rapaz ter mesmo futuro na área e o primeiro "livro", ainda que tirado meio a ferros, valha muito dinheiro. Uma coisa já valeu certamente, e essa não tem preço: o orgulho da sua "mami"...
Pronto, já está. Livros forrados, farda aprumada, mochila e material arrumado e identificado, e miudagem toda na escola a horas de se conseguir trabalhar sem a Disney de fundo, as picardias de irmãos, os pulos no sofá, as bolachas esmigalhadas no chão...
Poder trabalhar em casa é muito bom, mas o mês de Agosto é de arrancar cabelos. A verdade é que, agora que os "despejei" na escola, sinto a casa tãoooooo vazia... Valham-me os guinchos ultra-femininos da Leonor e os tombos do destravado do Duarte para dar algum colorido à coisa. Quando chegar a altura de também os "despejar" na escola, acho que arrendo um escritório no edifício dos Maristas só para não perder o "barulhinho" de fundo...
É oficial! A minha Leonor já anda!!! Aos 15 meses começou a dar uns passinhos sozinha, e hoje perdeu o medo e lançou-se pela casa fora, debitando aquele enxurrilho de sílabas que só ela entende, meio português meio ucraniano. Está esperta como tudo. Ralha com os irmãos, põe o chapéu para ir à rua, calça os sapatos, quer vestir-se sozinha, finge que está a ler livros, e agarra na sua escova dos dentes cor-de-rosa e no copo para lavar os dentes, tal e qual os irmãos!
O Dudu, mais abebezado, ainda dá uns passinhos de bailarinha, mas quando se trata de trapar às coisas passa à frente da mana. Já conseguiu saltar de uma cadeira da papa (atado!) e de uma cama de viagem, trepa pelas costas do sofá e pelas costas das cadeiras, para tentar ir para as minhas cavalitas. É bruto como tudo a defender o seu território, sobretudo da irmã. Mas quando se trata de receber miminhos da mamã, todo ele se enrosca e aninha como um bebé.
É impressionante como dois gémeos criados da mesma forma podem ser tão diferentes. Ele tão rapazola. Ela tão menininha. Ele tão abrutalhado mas ao mesmo tempo tão menino da mamã. Ela tão independente, de nariz no ar a querer fazer tudo sozinha. E ainda dizem que a educação dos pais é tudo. Eles já nascem com tanto, mas tanto deles... Nós, pais, fazemos o que podemos. Mas eles, de facto, são muito mais deles próprios do que nossos, e a nós cabe-nos (para além de fazermos o que podemos) assistir ao milagre da vida que se desenrola sob o nosso tecto, todos os dias...
(Sebastião a caminhar para mim, puxando os dois olhos com os dois):
- Ó mãe, os chineses devem ver mesmo mal...

(Afonso a chegar à esplanada):
- Estou a ver o pai ali ao fundo. Está a tomar café com outra loura...
(Mãe pitosga)
- O quê?! Aonde, Afonso?
(Afonso gozão, ultimamente viciado em séries juvenis da Disney e Nick)
- A mamã tem ciúmes do papá, a mamã tem ciúmes do papá...

Juro que nunca mais o deixo ver o Drake & Josh!
Depois de uma versão muito própria do "wakawakaué" do Mundial, os meus filhos mais velhos (4 e 6 anos. Tão velhos que eles são...) resolveram dedicar as viagens de ida e volta até Espanha a novas conspirações musicais. O primeiro alvo foi o hino dos Maristas, que acabou assim:

Somos Maristas de Carcavelos,
a nossa mãe é Sarinha
(supostamente era Maria...)
Somos Maristas de Carcavelos
e o Pai Pedro é o nosso guia,
E o pai Pedro é o nosso guia...
(pobre Champagnat, completamente relegado para segundo plano)

Em seguida resolveram discutir a letra de "Carta", dos Toranja:

(Afonso)
É que hoje acordei, lembrei-me, sou magro e feiticeiro...
(Sebastião)
Não é magro!
(Afonso)
Então como é que é?
(Sebastião)
É que hoje acordei, lembrei-me, de chamar o feiticeiro...
(Afonso)
Não é nada! Isto é a história de um homem e uma mulher! Vão chamar o feiticeiro para quê?
(Sebastião)
Por causa da bola de cristal que é feita de papel... Dahhh!
Depois de muito insistir, o Afonso lá teve a sua primeira carteira, para guardar o dinheiro que a avó lhe dera nas férias.
- Ó mami, posso ter semanada, posso? O Diogo Alves já tem...
Lá decidi com o pai que era demasiado cedo, e que ele teria de mostrar primeiro como geria o seu dinheiro, para nós começarmos a confiar nele.
- E cartões, mãe? Quando é que posso ter cartões?
- Se estiveres um mês sem perderes a tua carteira, a mãe dá-te um cartão.
O Afonso rejubilou. E desde então que não larga a sua preciosa carteira. Guarda-a, sobretudo, do Sebastião, irmão lampão que, como bom filho mais novo (ainda que tenha outros mais novos, mas que ainda não têm idade para entrar no campeonato), cobiça tudo o que o mais velho tem.
- Só podes ter carteira quando tiveres 6 anos, Titão. Ainda te faltam 2 anos. Mas o mano paga-te um Happy Meal.
Depois de dois dias a fazer contas, a pensar de que forma poderia dar uso ao seu dinheiro (decidiu inclusive ajudar o seu amigo Diogo Alves a juntar 50 euros. Porque ele gastava tudo o que recebia e precisava de ajuda...), resolveu que o primeiro gasto seria mesmo no Mac Donald's. Ainda comprou um pequeno dragão na livraria do Pingo Doce (para partilhar com o irmão) e depois levámo-lo ao Mac Donald's, para ele mostrar o que valia. Nervoso, fez a encomenda ao senhor. Um Happy Meal para ele e outro para o irmão. Pagou com a sua nota. Recebeu e guardou o troco. E ficou feliz. Muito feliz.
- Sebastião, quando tiveres 6 anos e tiveres a tua carteira, também vais pagar um Happy Meal ao mano, não vais?
E o Sebastião abanou a cabeça, contente. Foi quando o Afonso se saiu com esta:
- Ó mãe... daqui a quantos dias é que vou ter o meu cartão de crédito?
Bem... estava mais a pensar num cartão de uma loja... Quanto muito, no cartão de cidadão... Se bem que o meu filho portou-se à altura. Poupou, ponderou, acabou por gastar o dinheiro em comida, e ainda ajudou o irmão. Talvez ganhe um cartão de crédito a fingir...
Mas o melhor de tudo ainda foi vê-lo entrar no Aki, constatar que tinha dinheiro para comprar um tapete, e uma pequena torneira, e exclamar, satisfeito:
- É bom viver no mundo do dinheiro...
Bem, meu filho... Nem sempre é assim tão bom. Mas goza lá todas as vantagens enquanto podes...
A Leonor deu o seu primeiro passinho. Sozinha. Cheia de vontade de fazer sozinha e mostrar que não precisa de ninguém. A Leonor é assim. Mulher, nos seus quase 15 meses. Primeiro treinou sozinha a pôr-se de pé sem se segurar a nada. Treinou, treinou, treinou, e até batia palminhas a si própria quando conseguia. Ontem estava de pé, olhou para mim com aquele ar maroto, de desafio, que ela tem, e deu um passo. Depois riu-se, divertida, e bateu palminhas a si própria. Estava farta de tentar que ela andasse sozinha. "Anda, Nhocas! Vá... Um passinho... Aqui, Leonor...!" Mas nada. Ela nunca se deixou enganar. Pela mão já vai. Sem mão, não há nada para ninguém. Mas ontem fê-lo sozinha. Fez questão de fazer sozinha. E mostrar-me que era capaz. Promete...
Depois de uns dias sem os filhotes mais velhos, que foram para a praia com a avó, foi tempo de regressar a casa, aos quartos, aos brinquedos, aos mealheiros (para guardar a notinha de despedida da avó)... e também aos velhos disparates, claro. E também às histórias antes do deitar, que nas férias foram substituídas pelo Quem Quer Ser Milionário, dentro na cama, na ronha com a avó (e é para estas diferenças que também servem as férias... e os avós). E a história de hoje terminava com o velho provérbio "Mais vale tarde do que nunca". O Afonso aproveitou logo para concluir:
- Mais vale fazer os trabalhos no último dia de férias do que não os fazer...
Pois é, querido Afonso, mas não vais ter sorte nenhuma...
A conversa depois descambou (ou descambei-a) para os nossos sonhos mais profundos.
- Que sonhos é que vocês gostavam mesmo de realizar, meninos? Têm de ser aqueles sonhos que, mesmo que os realizem já muito velhinhos, valerão a pena...
- (Sebastião, o prático) Ter um Gormitti.
- (Afonso, o místico) Nunca morrer.
Definitivamente, tenho filhos muito diferentes... Só espero ter unhas para tocar as cordas todas...
Antes de mandar os mais velhinhos de férias, tive de proceder à sessão quinzenal de cortadela de unhas. Entre os 4 foram oitenta unhacas... Ainda tentei ir às do pai para chegar à centena, mas ele rabuja mais que os filhos...
Qualquer dia tenho unhas cortadas que cheguem para um diploma de manicura.


PS - Já como cabeleireira nunca conseguirei diploma... Cortei a franja ao Dudu mas não ousei tirar-lhe os caracóis que lhe serpenteiam o rosto. Resultado: transformei-o num pequeno Bee Gee... Lá se vão 10 euros no cabeleireiro, para remediar os estragos.
A propósito da morte do actor António Feio, voltou o tema da morte. Não nos filhos. Na mãe. Recebi vários mailes hoje sobre palavras que o actor tinha dito, conselhos que tinha deixado aos amigos, despedidas ao público em geral... e lembrei-me da carta que, em tempos, escrevi aos meus filhos. Não era uma carta qualquer. Era a carta que eu queria que eles lessem se um dia morresse de repente. Os gémeos ainda não existiam (e tempo para reescrever a carta?), e ainda não me pesava tanto a pergunta que carrego hoje: Como é que o meu marido se desenrascaria sozinho com 4 filhos?! Naquela altura a preocupação maior era outra (e ela continua grande): Que memórias guardarão os meus filhos da mãe, se eu partir agora? Sei que a memória é traiçoeira, e a das crianças apaga-se frequentemente para deixar espaço para tudo o que elas têm de aprender ainda (como perguntava o meu sobrinho Manel: Eu depois vou-me esquecer disto?). Quando se é adulto e nos morre alguém querido, guardamos dessa pessoa o melhor dela. Apaga-se o resto. E isso não é mau. Quando se é criança e morre alguém querido, não se apaga só o mau. Apaga-se também o bom. Frequentemente, apaga-se toda a pessoa. Tudo. Por isso, se eu desaparecesse naquela altura, desapareceria tudo. Na memória dos meus filhos ficaria apenas aquilo que o pai, a família e os amigos lhe diriam. A explicação das fotografias que veriam. A tristeza dos adultos, que passaria para as crianças. Ao ponto de as marcar. Ao ponto de os fazer associar à ideia da mãe uma tristeza infinita. Uma perda irreparável, de uma memória que nem é real, porque foi fabricada pelos outros.
Posso não estar certa. Espero continuar por cá para não ter de o comprovar. Mas, pelo sim pelo não, escrevi uma carta aos meus filhos. Uma carta bem disposta, a dizer-lhes que fui muito feliz com eles, e que a felicidade deles, daí em diante (depois de me perderem) não estava de modo nenhum dependente de mim. Chegara a altura de seguirem o seu caminho, e outras pessoas igualmente competentes os acompanhariam nessa viagem. E que eu tinha pena de não estar presente, mas que o exemplo de me perderem cedo lhes fizesse sentir uma responsabilidade maior de serem felizes todos os dias.
Poderia ter-lhes dito que ia ficar numa estrelinha. Num céu. Sempre ao lado deles. Mas essas mentiras (só porque não tenho a felicidade de acreditar nelas) deixaria para a boca dos outros. A minha carta seria para o caso de eles, assim como eu, não terem também a capacidade de acreditar em algo para além daquilo que temos aqui em baixo. Seria a minha verdade. E eu nunca minto aos meus filhos.

A carta existe. Terá de ser reescrita. E espero ainda escrevê-la muitas e mais vezes. Não porque conto ter mais filhos que me forcem a uma necessária actualização. Mas porque espero viver o suficiente para ver os meus filhos seguir os seus sonhos e serem felizes, anulando (por ausência de necessidade) linhas de conselhos e vontades minhas, até que a minha partida seja entendida como natural, a lei da vida, a memória já não seja uma traição, e não sejam já precisas mais cartas de despedida... Ou, a ela ainda existir, que seja apenas uma linha: "Foi um prazer estar convosco".
Amo os meus bebés! Mas não é que amo mesmo? E se estou espantada é que, depois de ter o Afonso e o Sebastião, perguntei-me várias vezes se ter mais filhos não implicaria ter de gostar menos de todos. Distribuir amor por tantos, não daria menos a cada um? E, de facto, quando os gémeos nasceram, senti-me culpabilizada, sem tempo para as histórias dos "mais velhos" (coitadinhos, tão pequeninos!), sem tempo para os miminhos, para as conversas, para as idas e vindas do colégio, os programas ao fim-de-semana... Pouco a pouco, felizmente, tenho recuperado isso tudo e agora... também estou apaixonada pelos meus gémeos. O Duarte com o seu sorriso fácil, destravado nas horas, trepa a tudo e gatinha mais veloz que um aranhiço, mas depois chora com o som da batedeira e dos estores, e trepa por mim acima quando vê a irmã a aproximar-se. Depois a Leonor, esperta como tudo, que faz gracinhas e bate palmas a si próprio, grita "três" depois de dizermos "um, dois" e só quer comer e vestir-se sozinha. É a minha bonequinha espertalhona. Amo-os muito, e penso, sempre que entro na cozinha, a preparar-me para os ouvir chorar e estender os bracinhos para eu lhes pegar: "em qual pego primeiro? Se eu gosto o mesmo e tanto dos dois..." Faço à vez, começo pelo que grita mais alto, ou pelo primeiro que apanho, e quase sempre acabo com os dois ao colo, a atropelarem-se pela minha atenção. Com os "mais velhos" (coitadinhos, tão pequeninos!) de férias, sou puxada daqui e dali, de atenção em atenção, de conversa em conversa, de proeza em proeza, de asneira em asneira... e é tãooooo bom! Se o meu amor chega para todos? Chega para estes e para muitos mais! Mas, pelo sim pelo não, acho que me vou ficar por aqui...
- Afonso, como hoje temos cá a prima Maria, vamos fazer um g'anda programa... ajudas-me?

(olhos de Afonso a brilhar. Alguns minutos depois)

- Ó mãe... mas um programa é... tipo um filme, ou tipo uma série?

(Só tinha pensado num jantar... mas o rapaz faz logo filmes!)



Caiu mais um dente ao meu filho Afonso (caiu, salvo seja, foi arrancado pelo metal assassino de um alicate, no dentista. O pai é que foi com ele, e diz que ele foi um fortalhaço, mas eu bem vi os restos de lágrimas que lhe vinham nos olhos, no regresso... grande herança a que eu lhe deixei, de dentes a nascer por cima uns dos outros), e a fadinha dos dentes voltou a visitar a nossa casa. Não sei por quanto tempo o meu filho vai acreditar (talvez já nem acredite, mas as moedas dão-lhe jeito para comprar Calipos...), por isso decidi investir no embuste. Em vez do simples dentinho debaixo da almofada, desta vez incentivei o meu filho a escrever uma cartinha à fada. Afinal de contas, ele tinha perdido um dente em casa do amigo e não tinha recebido moeda... E, devido ao seu sofrimento no dentista, merecia a duplicação da do prémio. Enfim... ele lá se desenrascou, e até decidiu pôr uns quadradinhos para a fadinha dizer se SIM, se NÃO satisfazia as suas reivindicações.
E claro que a fadinha disse sim. Respondeu e lá deixou 4 euros no saquinho de plástico que o Afonso colocou debaixo da almofada. Mais uns dentes com mais umas quantas reivindicações, e acabam-se as moedas que o pai deixa no cinzeiro da entrada...
Ontem, antes das compras da semana (que cada vez menos duram uma semana. Nem sequer meia... Mais um ou dois anos - quando esta maltinha estiver toda a comer a sério - e compro uma vaca para não ter de carregar mais paletes de leite. E troco a palmeira e o pinheiro por uma macieira e uma pereira, em vez de rosas planto batatas para a sopa. Será que as pescadas e os polvos se reproduziriam na piscina?), levei o Afonso e o Sebastião à Bulhosa, desta vez não para comprar um livro (ok, acabei por trazer 3 :() mas antes uma revista. Freneticamente, busquei a Pais e Filhos de Julho por entre quinhentas outra mil de interesses mil.

(Sebastião) Mãe, podemos ir para o Barco?
(Mãe) Esperem... a mãe tem de encontrar uma revista.
(Afonso) É a revista do Póvoas? (private joke)
(Mãe) Não, queridos. É outra...

Bordados, fotografia, signos, gadgets... e, finalmente, lá estava ela! Com uma menina quase tão linda como a minha Nhocas na capa. Peguei, trinquei (para romper o plástico de oferta) mas não meti na boca. Meti em cima da mesa do café, onde os livros sabem a scones deliciosos e chupas que deliciam os meus filhos.

(Afonso) Estás à procura do quê, mãe?

Uma página, outra, mais outra... e, finalmente, ele lá estava! O artigo da Sónia Morais Santos, a mãe Cocó (coconafralda.blogspot.com, para quem ainda não conhece), com um cheirinho da revista que O Livro da Minha Vida construiu para a celebração do seu 10º aniversário de casamento. Mesmo sem scones nem chupas, deliciei-me a ler o artigo. É tão bom ter clientes assim... Recordei o pouco tempo que me falta para também eu fazer 10 de casada... Os meus 4 filhos. As surpresas do meu marido. Ai, ai... Suspirava eu para um lado, resmungavam os meus filhos por outro.

(Sebastião) Porque é que estamos aqui sentados, mãe? Estamos de castigo?
(Mãe) Não, Titão. A mãe só estava aqui a ler uma coisa.
(Afonso, lendo o título do artigo) A-mu-lher-mais-fe-liz. Foste tu que escreves, mami?
(Mãe) Não, filho. Foi uma senhora que a mamã conhece.
(Afonso) Ó mãe... mas a mulher mais feliz és tu...

E seguiram-se duas horas de carrinho pelo Continente, ora a puxar um, ora a ralhar com outro, o carrinho a encher, a conta bancária a decrescer, o pai a desesperar com os gémeos em casa... e foi tão bom! Não sei das outras, mas eu cá sou bem feliz!