E quando precisamos de sair com urgência para uma reunião e descobrimos que o carro ficou sem bateria porque, na véspera, deixámos o nosso filho de 2 anos brincar ao volante e ele deixou as luzes ligadas? E se o carro estava estacionado à frente da garagem, impedindo a saída de um outro carro que felizmente temos, mas que dessa forma não pode sair? E se temos de empurrar o carro "morto" da frente da garagem para conseguir tirar o outro? E se não sabemos mexer no outro porque é a relíquia do papá? E se ainda temos que ir deixar um dos filhos com o pai antes da reunião? E se chegamos atrasados à reunião e a reunião dura horas e, pelo meio, temos de sair para ir buscar um filho que ficou em casa de um amigo e dois que ficaram na escola porque o papá está sem o carro que leva todos, para depois voltar para a reunião? E se entretanto se faltou a outra reunião que havia pelo meio e se teve que mudar o horário da natação e da música dos filhos ao telemóvel, entre semáforos? E se, no meio disto, não se almoça nem se lancha porque a essa reunião segue-se outra reunião? E se, depois disto tudo, ainda se tem de ir ao supermercado comprar jantar para 7 e se tem de contar uma história aos dois mais novos, e depois outra ao mais velhos, lavar os dentes, meter os filhos na cama, dar um beijinho ao marido e pôr o portátil ao colo para começar a trabalhar o que não se trabalhou durante o dia por causa de tanta confusão?
Há dias em que acho que não vou dar conta do recado. Hoje foi um deles. Vamos ver que surpresas me aguardam o dia de amanhã...
Este Domingo decidi ir mostrar o Convento de Mafra à miudagem. Senti-me o verdadeiro José Hermano Saraiva, misturando partes do "Memorial do Convento" com coisas de que me lembrava das minhas visitas de infância ao Convento, e outras tantas inventadas que normalmente suscitavam mais a curiosidade dos miúdos do que as outras. O pai também contribuiu com umas boas, a lembrar as vinhetas do "Calvin & Hobes", por isso a minha esperança é que eles um dia façam outra visita ao Convento com a escola, e tenham um guia a sério que lhes conte tudo como deve ser. E que eles se esqueçam entretanto do dia em que as ratazanas lutaram com os monges, das caçadas dos reis pançudos e dos morcegos leitores...
Entretanto o meu filho Afonso (7) deparou-se com um confessionário "à antiga", e lá lhe expliquei que, no próximo ano, há-de chegar o momento em que ele terá de ir ter com um padre e contar-lhe os seus pecados. Resposta do maroto:
- Ihhhh, mami! Nunca mais de lá vou sair! Faço asneiras a toda a hora!
Nem é verdade, coitadinho. O problema é que, ou muito me engano, ou o padre vai mesmo ter que o expulsar do confessionário, sob risco de passar o dia inteiro a ouvir os pecados reais e inventados do Afonso, as suas dúvidas sobre o mundo, os seus sonhos, as suas histórias, as canções do Nickelodean, as ideias para histórias, as suas naves espaciais... Pobre padre! Já estou a vê-lo, desesperado, a tentar mandar o meu filho embora:
- Agora o acto de contrição, meu filho.
- Não, espere. Ainda não lhe contei que estou a fazer uma banda com os meus amigos. Vou-lhe cantar a música principal...
E pronto! Durante uma hora ou duas a professora dele vai ter descanso, e a mãe também. Não vai é haver Avé Marias que cheguem para combater tanta tagarelice!
A minha Leonor adora-se. Para ela, tudo gira à volta da Nonô. Bem... se for azul, pode girar à volta do Dudu (o irmão gémeo). Mas só se for azul...
O seu egocentrismo de 2 anos vai ao cúmulo de, durante uma história em que eu decidi imitar um carro dos bombeiros, ela se sair com esta:
(Mamã) E o carro dos bombeiros fez Tinoni, Tinoni, Tinoni.
(Leonor) Nãooooo, mamã! Tinonô, Tinonô, Tinonô!
No outro dia estava ao telefone com uma amiga e comentei com ela que, estar sem os filhos, lembra-nos o quanto gostamos de estar com eles. É bom para sentir saudades e nos lembrarmos de como a vida era menos saborosa antes de eles existirem. Mas também desabafei que esse sentimento bonito passa depressa! No final do dia já estamos outra vez com vontade de os mandar de férias para qualquer lado!
Claro que o meu filho Afonso estava de orelhas no ar. Os pais acham que os filhos estão distraídos com a televisão, que não ouvem ou não entendem, mas a verdade é que não lhes escapa nada. E o Afonso, regressado de férias da casa dos avós, sai-se com esta:
- Lembras-te do que disseste no outro dia à tua amiga, sobre teres saudades dos teus filhos, mas elas passarem depressa? Tinhas razão. Eu também só estou há um dia contigo e já me fartei de ti!

Murro no estômago. Senti-me a pior mãe do mundo, mãe do filho mais cruel do mundo. Mas felizmente, descobri-lhe um sorriso maroto no canto da boca. Era apenas uma vingançazinha à la Afonso. Apanhei-o pelo fundilho das calças e cobri-o de beijos.
- Tu cansas-me, Afonso. Mas a mãe não pode passar sem ti.
- É como tu, mami. Também me cansas...
- E...?
Não disse o resto, o safado. Mas eu sei que ele sabe que também não passa sem mim (ou, pelo menos, vou acreditar que sim :))
(Mãe chata, a pensar já no arranque do ano lectivo):
- Afonso e Sebastião, para a mesa, já! Vamos fazer umas fichinhas...
(Afonso sabidão, esparramado no sofá)
- Ó mami... deixa-nos desfrutar da vida!

Mai'nada!
(Sebastião no carro)
- Ó mãe, eu gostava tanto de ser cão...
- Então porquê, Sebastião?
(pausa)
- Podia fazer cocó em todo o lado...
As histórias da noite costumam variar entre as escolhas do Afonso e do Sebastião (que geralmente pede opinião ao Afonso). O Duarte ainda nem sempre se aguenta até à hora da história (é o dorminhoco cá de casa), mas a Leonor já não perde uma. E hoje apareceu na cama das histórias com um livro: também ela, do alto dos seus 2 anos, queria ter direito a escolher uma história! E não esteve para modas, escolheu nada mais nada menos do que um cor-de-rosa e piroso "Docinho de Morango", um dos raros exemplares de literatura infantil feminina que existem cá em casa, oferecidos pelo meu editor há uns anos, quando ele ainda desconhecia o sexo dos meus filhos (na altura ainda só rapazes). Os livros estiveram remetidos durante anos a uma prateleira alta do quarto do Afonso, depois a uma prateleira escondida do quarto do Sebastião, e agora que tenho finalmente uma menina, os livros foram enxutados para o seu quarto, onde poisam outras piroseiras similares, cheias de frou-frous e lacinhos (e a mãe encantada, claro!).
O Afonso e o Sebastião torceram o nariz! Livro abebezado ainda ia, mas um "Docinho de Morango" era pedir demais! Mas a Nonô insistia e abria o livro à minha frente, exigindo os seus direitos:
- Vá lá, meninos - disse-lhes. - A mana também tem direito. Mas não se preocupem porque a mãe vai contar uma versão que vos vai agradar...
E só vos digo que há muito que não nos divertíamos tanto com uma história! Foi de ir às lágrimas!!! Muito resumidamente, a Nonô dos Morangos da nossa horta (que cresceram entretanto, mas só na nossa imaginação, porque os outros continuam sem dar o ar da sua graça) organizou uma festa para os amigos. E quem levou os convites foi o Afonso Pão-de-Ló, um lindo cavalinho com cabelos no rabo, presos por umas malcheirosas flores cor-de-rosa. Um dos convites perde-se, logo o da Mami Docinha, que vive com o Papi lanzudo, uma linda ovelhinha cheia de cabelo (o sonho do papá!). Quando aconteceu a festa, apareceram todos - até o bebé Sebastião maçãzinha podre e o Dudu escaldado (a Mila esquecera-se do protector) - mas da Mami Docinha e do Papi lanzudo, népia. O Afonso Pão-de-Ló lembra-se então de ter perdido um convite e a Mami Docinha é finalmente convidada para a festa, com o Papi lanzudo. Acaba tudo em bem. Nós é que rimos tanto, que ficámos com dor de barriga. Ou muito me engano, ou amanhã vai haver Docinho de Morango outra vez...
Afonso em mais uma dissertação sobre anatomia:

- Mami, sabes que eu antes de ver o meu primeiro coração na televisão, achava que o coração era uma espécie de pedra com uma cordinha a prender um martelo. Não era bem uma cordinha. Era uma veia, e o sangue a correr fazia com que o martelo batesse na pedra. Era isso que se sentia quando púnhamos a mão no peito. Mas também servia também digerir a comida.

Fiquei uns segundos a digerir a imagem.

- Mami, podes pôr esta no blogue, para não te esqueceres?
Afonso e Sebastião de volta da barriga da mamã:

(Afonso) Eu ainda me lembro de quando estava na tua barriga, mami. Tive de conquistar o mundo da Sarazina. Não foi fácil, porque os sarazinos têm cabeças esquisitas, que são sacos com buracos a fazer de olhos e bocas, e corpos de massa. E também me lembro de como nasci. Estava num barco pirata, e os piratas metem-nos nos canhões e atiram-nos, envolvidos em fogo, para os mundos. Eu fui parar ao da Sarazina.
(Sebastião, intervindo) Eu não nasci assim...
(Mãe exausta de mais um dia de trabalho com filhos à mistura) Pois não, Sebastião. O teu irmão está a delirar...
(Sebastião) Eu nasci na casa de um homem que estava a fazer uma lareira. Ele enganou-se e fez-me a mim. Mas eu também estava cheio de fogo e ele teve de me apagar.
(Afonso) Ah, então também vieste do fogo, como eu. Quase todos os meus amigos vieram do fogo, mami.
(Mãe) Os teus amigos da escola?
(Afonso) Não, mami. Os meus amigos que ainda vivem na tua barriga.
(Mãe) Ah...
(Sebastião) Eu era muito pobrezinho, mas um dia encontrei um ladrão, fui atrás dele e tirei-lhe um saco que ele tinha cheio de moedas. Fui entregá-las ao Presidente, e ele ficou muito contente, porque eram moedas de chocolate.
(Mãe, entrando finalmente no espírito) Era o Presidente da Sarazina?
(Sebastião) Era.
(Mãe) E não viste lá um busto do Afonso, o conquistador desse mundo?
(Sebastião) Vi, sim. Também tinha uma cabeça de saco, e corpo de esparguete.
(Afonso) Nós ainda temos muitos amigos na Sarazina, mãe.
(Mãe) E esses vossos amigos vão todos nascer?
(Afonso) Não, mami. Só nascem alguns.
(Mãe) E só a barriga da mãe é que tem essa gente toda?
(Afonso) Não. Há mundos em todas as barrigas das mães...

Por isso é que nós temos estrias, e pregas, e pele estragada. São os rios, montanhas e praias do vasto universo que reside por debaixo do nosso umbigo...
Todos os dias, à hora do jantar, o Sebastião (5 anos, de férias em casa dos avós) relatava-me as suas aventuras do dia. E não se identificava como Sebastião. Não, ele era o Homem da Guerra. E eu era a Senhora Esquisita a quem ele contava, com voz grossa, a sua guerra com alguém. No primeiro dia guerreou com um monstro marinho na piscina do avó. E venceu. No segundo dia guerreou com um fantasma, mas com a sua espingarda deixou-o sem pernas. Venceu. No terceiro dia...

- É a Senhora Esquisita?
- Sou sim, Homem da Guerra. Então com quem é que guerreaste hoje?
- Com vespas. E fiquei todo picado.

De facto, o Homem da Guerra teve um encontro (real) com um vespeiro, e valeu-lhe um senhor esquisito chamado Avô que, com a água fria da mangueira, afastou as vespas. Venceu, mas ficou com 4 picadas da façanha.
Quem vai à guerra... dá e leva!
Balanço de um Domingo sem os filhos mais velhos (mas com 2 gémeos de 2 anos que me põem os cabelos em pé):

- Leonor mordeu 3 vezes o mesmo braço do irmão gémeo
- O Duarte arrancou alguns punhados de cabelo da irmã gémea
- A Leonor experimentou a máquina de depilação da mãe nas suas pernas (felizmente ainda sem pêlos)
- O Duarte não lhe quis ficar atrás e dei com ele fechado na casa de banho a experimentar a máquina de barbear do pai (felizmente numa cara também sem pêlos)

A coisa boa de terem feito tantas asneiras, é que já ficam sentados quietinhos no sofá dos castigos, a pensar na vidinha. Também já pedem desculpa um ao outro, com uma festinha.

Mas o best-off do dia foi a conversa entre os dois, no banho:
(Leonor) Nonô pipi. Dudu "piuinha".
(Duarte) Mamã pipi.
(Leonor) Papá pipi? Ou "piuinha"?


Sete dias com quatro filhos e cinco sobrinhos, três avós e dois tios, no meio da "movida" da Isla Canela, e o balanço não podia ter sido mais positivo:
- Afonso (7) perdeu o medo das alturas e já quer ir ao Parque Aventura de Monsanto
- Sebastião (5) já nada bem sozinho, já se atira sem medo dos escorregas de água e já dá um belos "chapões" que se assemelham bastante a mergulhos de cabeça
- O Duarte e a Leonor desataram a língua. Já pedem tudo, repetem tudo o que se lhe diz, chamam os manos, primos, tios e avós pelos nomes e estão uns despachados do pior. Já dão mergulhos (com bóia) e calçam chinelos sem elásticos atrás.

Os pais chegaram cansados e a precisar de namorar, depois de sete dias em quartos separados (o pai com os mais velhos, a mãe com os bebés), a confessar saudades nocturnas por SMS, e a desejar os bons dias pela varanda, com um muro de distância. "Para o ano será mais calmo" - prometia-lhe eu. - "A tendência será sempre para melhorar". Os mais velhos vão começar a ajudar, os mais novos hão-de ficar cada vez mais autónomos... E tenho a certeza de que, no dia em que eles começarem a dizer-nos que querem trocar a confusão das férias em família pela borga com os amigos ou os passeios românticos com as namoradas, vamos sentir valentes saudades disto...
Pais e crianças (muitas!) a saírem de um restaurante, depois de uma refeição barulhenta. Senhor de idade, com má cara, a comentar com sobranceria:
- Deixem passar o Jardim Zoológico...
Resposta de um adulto indignado:
- Veja lá se não é o Jardim Zoológico que lhe vai pagar a reforma...

É caso para dizer que quem diz o que não deve, ouve o que não quer...
Enquanto árvore nesta vida, gosto de pensar que flori de amor, e de mim nasceram quatro frutos que agora vejo crescer e amadurecer. Gosto de os ter assim, a pesarem-no nos ramos. Gosto de os proteger dos pássaros. Gosto de ver como a sua casca muda. Como o seu conteúdo se adoça e fortalece. Mas lá chegará o dia em que eles ficarão crescidos e pesados demais para eu os segurar. Eu vou achar que sim, vou dizer-lhes que os meus braços ainda são fortes mas, mais do que crescidos e pesados, eles estão maduros. Um dia chegará a hora de os deixar partir...
(Afonso na lavagem dos dentes)
- Mami, sabes o que é que eu vou ser quando for grande?
- Sei, Afonso. Vais ser escritor.
- Não, mami. Vou ser escritor profissional.
- A mãe também é escritora profissional, filho...
- Mas tu não és famosa. As pessoas não te pedem autógrafos na rua. Eu vou escrever um livro por ano e vou ser muito rico.

E pronto. Assim se reduz uma mãe à sua insignificância...
O Sebastião, 5 anos, adora bebés. E hoje, no carro, perguntei-lhe se ele, quando crescesse, não queria ser médico dos bebés. Ou educador de infância.
- Não, mãe. Eu quero ser pai.
Claro que o Afonso (7 anos) tinha de intervir...
- Mas isso não é profissão, Titão.
- Não posso ser só pai, mãe? É que eu quero ter 22 filhos.
- Mas não podes, Titão - explicou o Afonso. - Tens de trabalhar, senão não vais ter dinheiro para sustentar os teus filhos.
Lá expliquei que nem sempre era assim. Às vezes há um dos pais que ganha o suficiente, e o outro pode ficar a tomar conta dos filhos.
- Então o Sebastião tinha que arranjar uma mulher rica... - disse logo o Afonso.
- E uma mulher corajosa... para ter 22 filhos! Queres mesmo ter 22 filhos, Sebastião? - perguntei.
Ele confirmou. E a conversa ficou por ali, entre um semáforo e outro. Mas o Afonso não ficou convencido, e uns kms à frente saiu-se com esta:
- Ó Sebastião, e se tu fosses antes Director de um orfanato com 22 meninos? Assim era como tivesses 22 filhos, e como eras Director recebias dinheiro...
Com dois anos e dois meses, o Dudu está a entrar na minha fase irresistível de filho. (Claro, a Leonor também, mas pelo facto de ser menina, já estava em estado de graça há mais tempo) E o dia de hoje, talvez por estarmos fora e com mais disponibilidade para ele, foi fértil em gracinhas:
- O Dudu acordou primeiro da sesta e não descansou enquanto não foi acordar a irmã. Puxava-me pela mão em direcção ao quarto onde a irmã estava a dormir na cadeirinha de passeio, e dizia "A mana? Nonôoooo...". A dada altura tive de lhe fazer a vontade e deixei-o entrar. E o Dudu, que é sempre tão bruto e às vezes morde a irmã e arranca-lhe cabelos, aproximou-se dela e acordou-a com beijinhos...
- Na despedida da festa, o Dudu foi dar beijinhos a toda a gente. Quando dei por ele, estava a beijar, com o mesmo empenho, também o cão da família...
- Para terminar bem o dia, hoje o Dudu ouviu pela primeira vez a história da noite. Como ele é o mais dorminhoco da família, e às 8 da noite tem sonhinho e vai para a cama, nunca ouve a história que acontece todas as noites cá em casa à 9. Mas hoje foi um dia diferente... Às 8 o Dudu pediu para ficar, a mãe fez-lhe a vontade, e às 9 perguntou-lhe: Queres ouvir uma história? E o Dudu, entusiasmado, sentou-se no chão para me ouvir. E foi o mais entusiasmado dos 4 filhotes! Claro que a mãe, porque era a estreia, também se empenhou nas maluquices, mas ele foi o que fez mais vozes, o que imitou mais animais, e o que se riu mais das minhas palhaçadas. Está decidido. O Dudu, a partir de hoje, vai começar a ir dormir uma hora mais tarde...
O meu Sebastião perdeu mais um dente. Ou melhor, o pai obrigou mais um dente do Sebastião a sair. A abanar há uma série de tempo, o pai lá lhe deu o toquezinho mágico que o fez saltar do sítio, e o Sebastião foi imediatamente pô-lo debaixo da almofada, à espera que a fadinha dos dentes o trocasse por mais uma moeda.
O problema é que a fadinha dos dentes (leia-se "Mãe") anda cheia de trabalho, e no dia a seguir o Sebastião continuava com o seu dente embrulhadinho no guardanapo, debaixo da almofada.
- Ó mãe, a fadinha dos dentes não me trouxe nenhuma moeda! - resmungou logo, ao acordar.
A mãe, que até tenho vergonha de dizer que sou eu, ficou muito aflita, procurando uma desculpa, e até o Afonso (7 anos), que já não acredita em Fadas dos Dentes, lhe disse baixinho "Se quiseres eu distraio-o e tu vais lá pôr uma moeda...". Mas não achei que o caso fosse para tanto.
- Se calhar esta noite ela estava muito ocupada, filho. Mas não te preocupes que ela vem de certeza amanhã.
E o Sebastião voltou a pôr o guardanapo com o seu precioso dente debaixo da almofada. E a mãe, que continuou cheia de trabalho, prometeu a si própria que da noite seguinte não passaria.
O problema é que o dia seguinte nasceu, o Afonso acordou, a Leonor acordou, o Dudu acordou, e nada de Sebastião... Acordou às 9 e meia da manhã (tarde!!!) e desceu as escadas com os olhos cheios de lágrimas.
- Então, Sebastião? Isso é que foi dormir, hã?
- Sabes porque é que eu fiquei mais tempo na cama? Porque estava à espera, a ver se a fadinha dos dentes ainda vinha...
Raios partam a fadinha desnaturada! Como é que foi possível esquecer-se do dente do Sebastião pela segunda vez?! Não havia direito. E o Sebastião ainda conseguia desculpá-la...
- Se calhar ela não viu o guardanapo, porque ele é branco e o lençol também é branco. Ou será que a minha cabeça é muito pesada, e ela não conseguiu levantar a almofada para tirar o dente?
Pobre Sebastião! A fadinha dos dentes não tinha qualquer desculpa. Tinha que actuar, e era já!
- Fazemos assim, Sebastião... Embrulha o dente neste papel verde e põe debaixo da almofada. Vais ver que com este papel ela já vai encontrar o dente...
O Sebastião assim fez e, enquanto tomava o pequeno-almoço, a fadinha lá se redimiu e trocou rapidamente o dente por uma moeda e por um bilhetinho, onde pedia desculpa ao Sebastião. Era um bocado míope, e não conseguiu encontrar o dente nas noites anteriores. Agradeceu ao Sebastião ter trocado o guardanapo por um papel verde e, em troca, em vez da tradicional moeda de 1 euro, deixou-lhe uma de 2. Agora já podia voltar para o reino dos dentes, e ia ver se trocava de óculos para não causar estas chatices ao Sebastião das próximas vezes.
Quando o Sebastião, depois do pequeno-almoço, subiu ao quarto para ir espreitar a almofada, gritou de alegria! E assim mantivemos viva a boa fama da fadinha dos dentes... até que caia mais um!
(21.30 Sebastião, 5 anos, a estranhar o pai ainda não estar em casa)
- Mami, o pai não devia estar em casa?
- O pai foi andar de bicicleta, deve estar a chegar.
(Silêncio)
- Mami, eu acho que o pai tem um caso com outra mulher...

Definitivamente, não os posso deixar ver tantas séries de adolescentes nas férias...
(Afonso e Sebastião em casa, de férias. A mãe com eles, cheiiinha de trabalho para fazer)
- Ó mãe, não queremos comer sopa, está salgada!
- Pela décima vez, CALEM-SE E COMAM!
- Ó mãe, mas está mesmo salgada.
- Só vos dou mais dez minutos.
(Relógio avança, tempo passa. Filhos comem umas colheradas e começam a chorar)
- Ó mãe, mas é que está mesmo salgada.
- A mãe também comeu sopa e está muito boa.
- Mas é que, enquanto tu foste à casa de banho, nós fomos buscar o sal e deitámos por cima da sopa...
(Mãe prova a sopa dos filhos. Cospe o pouco que ingeriu para não vir a ter problemas de hipertensão. E os filhos... a mãe esteve a pontos de os abanar com força, para ver se o sal se diluía)
Depois de dois dias em casa a fazer-me a vida negra e a portarem-se o pior possível, hoje a mãe, que sou eu, decidiu que a vida dos seus dois filhos mais velhos vai mudar.
Hoje vamos passar o dia (com os meus trabalhos à mistura, claro) a colar cartazes por toda a casa com as regras que eles devem cumprir em cada uma das divisões. Se se portarem bem e cumprirem as regras, para a semana podem convidar uns amigos para vir cá passar o dia. Vamos ver se ajuda...
Mais sugestões aceitam-se...
(Pai com Sebastião a lanchar num café. Nota importante: o Sebastião NÃO sabe falar baixinho):

- Papi, estes senhores que estão aqui ao lado são do Peso Pesado?

(Papi envergonhado. Pesos pesados fingem que não ouvem. Mas de certeza que o lanche não lhes caiu tão bem...)
A minha barriga não vai voltar a crescer (acho eu)... Depois de os meus gémeos ma terem esticado até ao limite, e me ter sido diagnosticada uma diástase tão grande que até me desapareceu o umbigo, tive de costurar os músculos rectos para "não me saltarem os intestinos para fora" (foi isto, literalmente, o que me explicou o meu médico). Não conto, por isso, vir a ter mais filhos, pelo menos da minha barriga (do coração, não sei, não sei...), mas isto não quer dizer que não sinta uma enorme nostalgia quando observo as barrigas enormes das outras grávidas, e recordo os tempos em que a minha barriga orgulhosamente crescia, e crescia, e crescia (e cresceu sempre tantoooo!). Disseram-me uma vez que as barrigas cresciam na medida do desejo das mulheres em estarem grávidas. Não acredito nem um bocadinho, mas lá que o meu desejo era muito, e a minha barriga ficou enorme, isso é verdade! E há melhor sensação do que carregar no nosso próprio corpo uma criatura que foi feita por nós, que é do nosso "material", e que se desenvolve cá dentro, e vive, e mexe-se, e o seu coração bate de vida e de vontade de um dia conhecer o mundo do lado de fora? É maravilhoso! Já não tenho saudades de ter um bebé pequenino em casa (não sei se foi de ter 4 de enfiada, mas o meu relógio biológico parou. Ficou sem pilhas), mas terei sempre saudades de ter um novo ser dentro da minha barriga...

PS - Mulheres orgulhosamente grávidas, espreitem o site http://www.conversascombarriguinhas.pt/barrigamaisgira/.
O passatempo Barriga Mais Gira do Mundo desafia mensalmente todas as grávidas a  pintarem a sua barriga de forma original  e enviarem uma foto. A vencedora ganha uma criopreservação no valor de 1.330 euros.
O meu filho mais velho teve dois episódios de dores de cabeça repentinas e vómitos, que me levaram a ter uma conversa com a médica... à sua frente. Menos Playstation e consulta de oftalmologia são as indicações por agora. Alarme só se...
- ... ele começar a acordar a meio da noite enjoado. Aí é melhor fazer um TAC.
O Afonso estava a vasculhar as bonecadas do consultório mas, ao que parece, estava demasiado atento às indicações da médica. E, a meio da noite, resolveu acordar para me revelar as suas preocupações:
- Estás bem, Afonso? Sentes-te maldisposto?
- Não, mãe. Só estou preocupado.
- Com o quê, filho?
- Com aquilo que a médica disse. Eu não quero ser operado.
- Operado, filho?! Mas a médica não falou em operação. Disse que, se começasse a ficar muito enjoado, tinhas de fazer um exame. Mas uma coisa muito simples, parecido ao RX que fizeste. Não custa nada, nem dói.
- (Afonso aliviado) Ah, que bom. Já estava aqui a pensar que tinham de me abrir a cabeça, e meter-me assim uns parafusos, como aquele... como é que ele se chamava... o Frankenstein...
É para vermos como às vezes a imaginação também dá dores de cabeça...
Os meus filhos mais velhos (5 e 7 anos) jogaram pela primeira vez no EuroMilhões. Não costumamos jogar cá em casa, mas o pai quis arriscar desta vez (ou não fosse o prémio capaz de nos fazer voltar a sonhar sem pensar no preço dos nossos sonhos) e levou os dois mais velhos a preencher com ele os boletins.
Nunca os vi tão ansiosos em frente à televisão. O Sebastião tentava adivinhar os números que estavam nas bolas, o Afonso ficou incumbido de os escrever num papel, e no final foram eles que confirmaram aquilo que os pais já esperavam: os sonhos terão que continuar a ter orçamento, e bem apertadinho.
Mas antes de a Marisa aparecer no ecrã para tirar as bolas da sorte, eu e o pai quisemos saber o que fariam os nossos filhos se recebessem o dinheiro (que nós não conseguimos imaginar, de tanto, por isso muito menos os nossos filhos). Falaram em cromos e em brinquedos. Falaram em viagens. Até que o Sebastião se lembrou desta:
- Eu comprava os Maristas! Depois podíamos brincar todo o dia.
O dinheiro, pelos vistos, serviria para mudar todo o sistema de ensino português. Espero que Ministro Nuno Crato nunca ganhe o EuroMilhões... (a não ser que o fizesse para melhor)
Depois de uma directa em que vi os meus filhos desaparecerem para a cama (sem história :() e os vi aparecer de manhã na cozinha depois de 12 horas de sono (e 12 horas de trabalho meu, ainda com umas boas horas pela frente), dei com o meu filho Afonso a reflectir sobre o assunto:
- Não dormiste nem um bocadinho, mami?
- Nem um bocadinho, Afonso.
- Ah...
- Tic tic tic (as teclas em sobe e desce furioso)
- Então espero que a seguir te compensem e te dêem muitas folgas...

Não sei onde o meu filho terá ouvido isto. Mas um dia terei de lhe explicar que a mãe não tem ninguém que lhe dê folgas. Quanto mais trabalhar mais ganha (e vice-versa) e já é muito bom se nunca lhe faltar trabalho...
Descobri que na escola do meu filho mais velho (1º ciclo) os alunos estão divididos entre populares e idiotas chapados. Já tinha ouvido falar de betos, dreads e nerds. Agora populares e idiotas chapados foi uma completa novidade para mim. Explicação do meu filho:
- Os populares são aqueles que jogam a coisas fixes, como à bola, e não se dão com as miúdas. Os idiotas chapados jogam jogos de bebé, como a apanhada, levam bonecos para a escola e têm risinhos parvos.
- E esses dão-se com as miúdas?
- Também não. Porque não querem ser gozados pelos populares.
Resumindo: as crianças mais infantis, no primeiro ciclo, são chamadas de idiotas chapadas. Ou crescem ou são gozadas. E as miúdas, coitadas, que aguentem a distância dos rapazes, e esperem uns aninhos até a popularidade deles ser sinónimo de ter as miúdas todas à volta.
Quanto ao meu filho, felizmente é popular. Digo felizmente porque ser gozado pelos colegas não é fácil e lidar com uma criança com baixa auto-estima também não. Só trabalho no sentido de evitar que ele quebre a auto-estima dos outros.
- Mas tu não gozas com os outros, pois não?
- Não, mãe. Eu não. Eu sou amigo de todos. Mas dou-me mais com os populares.
- E as miúdas? Tens de te dar com elas, Afonso. Mesmo que os outros gozem contigo. Tens de ser superior a isso e falares com quem te apetecer.
- Eu às vezes até falo com as miúdas. Mas baixinho, quando os outros não estão a ver...
Menos mal. Pode ser que isso jogue a favor dele daqui a uns anos...
A Leonor não gosta de misturas. Sabe exactamente o que é dela e do irmão. Ela tem as bonecas, ele os carros. Ela tem os pratos e talheres cor-de-rosa, ele os azuis. Ela veste os vestidos e calça as sandálias com flores, ele veste calções e tem sandálias de menino.
A Leonor, com apenas 2 anos, sabe respeitar o que é do mano, mas ai dele que queira interferir nesta meticulosa separação. E às vezes o Dudu tem vontade de comer com a colher cor-de-rosa ou de calçar as sandálias com flores, e a mana chora imediatamente: "É da Nônô!" E corre a ir buscar o correspondente do irmão, para estabelecer a ordem que a deixa tranquila.
Hoje, no entanto, resolvi vestir nela e no irmão pijamas iguais que a avó ofereceu. E a Leonor olhou muito aflita para o pijama dela e do irmão e dizia, intrigada: "Nônô - Dudu - Nônô - Dudu". Confundi-a sem querer e ela olhava para mim com aqueles seus olhos grandes e azuis quase a rebentar de choro, como que dizendo: "Assim não vale, mamã. Quebraste a minha regra dos gémeos. Como é que eu agora vou saber de quem é o quê?".

Mães de casais de gémeos, ajudem-me: os vossos filhos também são assim? Devemos separar as águas ou fomentar a partilha e a "desorganização"?
(Sebastião em Alhandra, à porta da casa de banho pública, onde estava desenhada a letra "S")

- Olha mãe, uma casa de banho para pessoas com nomes que começam pela letra "S". Ainda bem que tu te chamas Sara e eu Sebastião...
Agora o assunto assaltou a cabecinha redondinha do meu pequeno Sebastião. Muito mais terra-a-terra do que o irmão mais velho, saiu-se com esta à hora do jantar:

- Ó mãe, é verdade que quando morremos vamos para o céu?
A mãe recusou-se a responder. A mãe não sabe mentir e não tem verdades sobre este assunto. O pai facilitou a vida à mãe e soltou um redondo...
- Sim, Sebastião.
- Opá! E o que é que há lá para fazer?
Sorrisos. Silêncios. Mais uma vez foi o pai a dar segurança ao nosso pequenote de 5 anos:
- Tudo aquilo que quiseres, Sebastião.
- Podemos comer hamburgueres e Ice Tea todos os dias?
Mais sorrisos. Mais silêncios. A mãe continuou sem responder, e o pai também não disse mais nada porque o Sebastião já parecia confortado. Pelo estômago. A refeição a mim é que já não me caiu tão bem...Não sei o que se come no céu. Nem sequer sei se existe um céu. Mas definitivamente prefiro que o Sebastião se delicie com as iguarias terrestres.
E quando a mãe, porque está afónica (e como é que uma mãe pode ficar afónica? Quem é que depois berra as ordens lá em casa?), resolve ligar o rádio do carro bem alto e dançar em todos os semáforos vermelhos a caminho de casa? Nada que uma não-mãe não pudesse fazer. A diferença é que, no meu caso, os filhos estavam no banco de trás, e vi-os entreolharam-se pelo espelho retrovisor, com aquele ar de "Coitada, passou-se...". Antigamente dançávamos e cantávamos como loucos no carro, mas depois a viagem começou a ser de conversa sobre o dia de escola, intercalada com os meus telefonemas através do alta-voz. Hoje, quando me deu a louca, pensei mesmo: Ainda bem que o meu Dudu me estragou o alta-voz com uma valente patada. E até pensei: E ainda bem que fiquei sem voz. Diverti-me nos poucos quilómetros que há entre a escola e casa. E os meus filhos lembraram-se que à mãe chata dos ralhetes também lhe dá a louca de vez em quando.
Agora era conveniente que a voz me voltasse até à hora dos banhos e do jantar... :(
Hoje eu e o pai levámos o Afonso e o Sebastião às urnas. O Afonso queria votar no "Movimento Esperança Portugal" porque era aquele que tinha o nome mais bonito. O Sebastião queria ver as caras dos candidatos, mas afinal só havia letras. E, por mais que lhes explicássemos que o voto era secreto, acho que amanhã, na escolinha, todos ficarão a saber que partido(s) mereceu a nossa cruzinha.
- Ó mami, eu quero desistir do judo.
- Mas porquê, Afonso?
- Porque eu preciso de tempo para brincar com os meus amigos. E como o Judo é logo a seguir às aulas e eu tenho de me vestir, às vezes acabo as coisas à pressa e depois não ficam bem feitas. E às vezes nem consigo lanchar!

(Afonso 1 - Mãe 0)

- Ó mami, anda jogar Super Mario comigo.
- A mãe não gosta, Afonso.
- Mas é a maneira de passarmos mais tempo um com o outro...

(Afonso 2 - Mãe 0)

O Afonso quer ser escritor, mas também dava um excelente advogado! Pelo menos a mim consegue-me sempre dar a volta...
A minha pequenina Leonor, agora com 2 anos, aprendeu finalmente a dar beijinhos! E agora está aquilo que se pode chamar de "beijoqueira do pior". Não dá beijinhos a toda a gente, mas não resiste a fotografias e personagens de livros infantis. Resultado: as molduras cá de casa estão todas engorduradas e cheias de migalhas. E as folhas do livro estão coladas com cuspo, que a Leonor deixa nas ilustrações.
Ontem inventou uma nova modalidade. Depois de beijar as imagens, trazia-mas para eu as beijar também. E senti aquilo que sentia quando, em pequenina, me levavsm a beijar o Menino Jesus. Por muito que o padre limpasse cada beijo com um guardanapo, havia sempre restos de beijos a misturar-se com o meu. Os da minha filha são sempre agradáveis e recebo-os com muito agrado (ainda que ela esteja cheia de febre e com suspeitas de escarlatina), mas restos de migalhas e leite seco, por muito que goste da minha filha, não deixam de ser pequenos miminhos nojentos. Vou arranjar um guardanapo...
(Sebastião aninhado numa rede brasileira que o pai montou no pinheiro cá de casa)
- Ó mãe, sabes que eu gostava de ser bebé? Quando estou na escola às vezes brincamos aos Pais e às Mães e eu peço sempre para ser o bebé...

Aninhei-me ao lado dele na rede e cobri-o de miminhos. Se calhar não devia ter começado a escrever no dia em que regressei da maternidade. Nem devia ter ido trabalhar fora de casa três meses depois de ele ter nascido. Nem o devia ter tido 23 meses depois do irmão, que era uma criança tão difícil. Nem devia, nem devia, nem devia. Ou devia, sei lá. O Sebastião é o meu menino mais doce. O meu menino mais sensível. E o meu eterno bebé. Espero ter a vida toda pela frente para lhe dar o colinho que ele merece.
(Afonso aparece esbaforido, meio desnudo, da casa de banho)
- Ó mãe, ó mãe, não acredito... Já me estão a nascer pêlos na pilinha!


(Afonso na escola a falar com a mãe de um colega)
- Então, Afonso, vais ao lançamento do livro da mamã?
- Oh... já fui para aí a uns três e não tem nada de especial. Ainda se a minha mãe lançasse mesmo o livro para cima das pessoas...


(Afonso na "Pais & Filhos" de Junho, pg 43, num artigo da jornalista Ana Sofia Rodrigues)
"Os adultos não sabem tudo. Não sabem coisas de brinquedos nem o que vai acontecer à República no próximo ano."
Depois de mais uma escapadinha com o marido, desta vez a um lançamento, foi com grande satisfação que cheguei a casa e percebi que a Mila tinha acabado de deitar os piolhos mais velhos. Tirei o sapato de festa e galguei as escadas para chegar a tempo de um beijo de boa noite.
O primeiro a saltar-me para o colo foi o Afonso, que nem esperou que eu chegasse ao quarto. Atacou-me logo com mimos no corredor. Reclamou, claro!, que a Mila não lhes tinha contado história, mas o Afonso precisa sempre de reclamar com alguma coisa. Mas estava um docinho, agarrado a mim como uma carracinha sorridente.
Depois apareceu o Sebastião, com ar ensonado:
- Bom dia, mamã. É para ir tomar o pequeno-almoço?
Tinha adormecido e acordado poucos minutos depois a pensar que já era de manhã! Comi-lhe as bochechas rechondudas de beijos antes de o voltar a pôr na cama.
Já não cheguei a tempo dos bebés. Mas daqui a pouco vou tapá-los e sentir o seu cheirinho especial de champô de maçã com hidratante Mustela. E, se tiver sorte, ainda apanho aqueles seus suspiros de quem está na paz dos anjos. Alguém resiste a uma criança a dormir?
A minha Mila voltou da Uncrânia!!! Dei-lhe um abraço forte e dois beijos repenicados, e expliquei-lhe delicadamente que ela ia passar o fim-de-semana com os meus 4 filhos e a minha mãe enquanto eu ia de fim-de-semana com o meu marido. Tive sorte em ela já não perceber muito bem o português outra vez, ou acho que me tinha mandado à fava. Assim, acho que não percebeu nada, viu-me sair de malas aviadas com o meu marido, e só voltou a ver-me no Domingo à noite, depois de eu dormir 24 horas em 2 noites, e pôr o trabalho e o namoro em dia. Domingo ao fim da tarde era a Sara outra vez, a mãe que adora o filhos e fala pausadamente, que explica tudo direitinho e escreve as coisas engraçadas que os filhos dizem, que não tem manchas escuras debaixo dos olhos nem os cabelos desgrenhados... e até pintei as unhas!!! Das mãos e dos pés, por causa das coisas.
Ufa! O que vale é que só há um mês de férias por ano. Tenho 11 meses para me recompor desta...
(Afonso) Ó mãe, porque é que algumas pessoas dormem na rua?
(Mãe) Sabes que há pessoas que não têm dinheiro para ter uma casa... Outras estão sozinhas no mundo, andam perdidas, ou têm algum problema grave. Percebes?
(Afonso) Ah... pensei que as pessoas dormiam na rua para ver o William e a Kate.
Ao fim de duas semanas a correr a toda a hora para o colégio dos meus gémeos (para quem não acompanhou a saga, explico que a minha empregada foi um mês de férias para a Ucrânia e não vimos outra alternativa que não fosse inscrevê-los já na escolinha), e a trabalhar sentada no carro enquanto ouvia o Dudu gritar por mim agarrado às grades, os meus filhos começaram finalmente a passar 6 horas seguidas na escola. Este "finalmente" faz-me sentir uma péssima mãe, porque devia era estar triste por não estar 6 horas sem eles, mas a verdade é que estas 6 horas sem trabalhar durante o dia me andavam a obrigar a trabalhar mais 6 horas durante a noite. E digamos que, sem dormir, a paciência para aturar 4 filhos já ia pelas ruas da amargura...
Esta semana decidi com a educadora que era "ou vai ou racha". Depositei a Leonor e o Duarte e vim-me embora de coração partido enquanto os ouvia berrar na sala. Um anjinho no meu ombro direito dizia-me em voz mansinha: "Coitadinhos... Como trouxeste o computador, escreve mais um bocadinho entalada no carro, e vem buscá-los daqui a uma hora ou duas...". Mas, no meu ombro esquerdo, tinha um diabinho maroto que me sussurrava com voz hipnotizante: "Já te livraste deles, miúda! As educadores que os aturem. E se, em vez de ires trabalhar, fosses à praia apanhar um bocadinho de sol? Está branca e magrela que até metes dó. Vai tratar de ti e volta às 5 da tarde..."
O diabinho deu-me a volta. Não fui para a praia nem tratar de mim, mas trabalhei saborosamente numa cadeira confortável sem um volante à frente. Até que, por volta das 2, me pesou a consciência e liguei para o colégio. Atendeu-me a educadora mais despachada que eu conheço, aquela que conseguiu "domar" o meu Afonso e que, só por isso, eu adoro de paixão.
- Então, Flora, a Leonor dormiu?
- Lindamente. É uma senhorinha.
- E o Dudu?
- Custou. Andava de roda da irmã e não ficava quieto. Mas como hoje era "ou vai ou racha", eu a dada altura embrulhei-o todo num cobertor e deitei-o no colchão. Ele tentou mexer-se para a direita, não conseguiu. Tentou mexer-se para a esquerda, não conseguiu. Então dormiu. Mas fique descansada que eu deixei-lhe o narizinho de fora para ele respirar...
Não sei se a psicologia infantil aconselha tal método, mas eu achei-o perfeito. Depois disso, o Dudu tem dormido a sesta na escola como se sempre o tivesse feito. Só continuam a chorar quando os deixo, e a chorar quando os vou buscar. Como são 2, e berram alto que se fartam, parece que os deixei num orfanato mas arrependi-me ao fim do dia. Ou talvez seja só a minha consciência a fazer-me sentir assim (rai's partam as consciências das mães!)
(Sebastião, a propósito da beatificação do Papa)

- Ó mãe, quem é o Papa?
- Então, Sebastião? Tu sabes...
- É aquele marinheiro, não é?
- Marinheiro?!
- Sim. Eu e o Afonso víamos os desenhos animados quando éramos mais pequeninos.

Desculpem-me a heresia, mas imaginar o Papa com um cachimbo a comer espinafres, tem muita graça...
13 dias depois de a minha empregada ir de férias, as mudanças cá em casa já são notórias:

"Senões"
- De noite, quando acordo para ir ver os miúdos, tenho de atravessar o corredor como se estivesse num campo minado
- Só posso vestir as poucas roupas passadas que tenho no armário
- Por baixo da roupa limpa, os meus filhos passaram a usar cuecas, camisolas interiores e bodys por passar
- Mãos ressequidas e unhas cortadas rentes sem verniz (as minhas, entenda-se)
- 5 horas de sono por dia em vez de 7 (hoje 6, à custa deste post)
- Desisti do ginásio (onde só fui umas 3 ou 4 vezes)
- Trabalho ATRASADÍIIIIIISSSSSSIIIIMMMMOOOOOO!

"Sessins"
- Estou tão cansada, que até oiço menos os miúdos de noite. No outro dia o Duarte estava a dormir sobre a cama toda vomitada. Se chorou ou não quando vomitou, não me perguntem...
- Com menos roupa no armário, é vira o disco e toca o mesmo. Demoro muito menos tempo a escolher...
- Os meus filhos adoram as minhas unhas rentes. "Ó mãe, agora arranhas muito menos..."
- Estamos muito mais organizados cá em casa e os mais velhos dos mais pequenos ajudam muito mais nas tarefas. O pai raspa os pratos e o afonso e o sebastião apanham os quilos de brinquedos que andam espalhados pelo chão.
- Desisti de trabalhar nas horas loucas em que fico sozinha com os 4, o que me deu mais tempo de qualidade com eles.

Vendo bem, o balanço começa a ser positivo. Mas os meus filhos que não se habituem mal... Vou tentar manter o tempo de qualidade com eles, mas das unhas pintadas não abdico!
Primeira manhã sem Mila (o meu braço direito cá em casa há um ano e meio) que foi um mês de férias para a Ucrânia. Balanço:

- Afonso e Sebastião continuam de pijama
- Três mensagens de clientes a pedir-me para lhes atender o telefone
- Cozinha com cheio insuportável dos 4 cocós que os bebés fizeram só hoje de manhã, e que repousam no balde à espera que alguém leve o saco para a rua
- vinte e-mails por responder e mais de quarenta livros por fechar (não estou a exagerar!)
- Sala transformada em pista de obstáculos
- Cozinha varrida, mas com manchas de molho de tomate que alguém terá de ir esfregar (Quem és tu, Sara? Ninguém...)
- Panelas espalhadas por toda a casa. Os meus filhos instauraram o Dia da Panela, e passaram a manhã a marchar com panelas na cabeça.

Só faltam 29 longos dias...
- Nocas, vai ver se o Dudu tem cocó...

Nocas vai, cheira o rabinho do irmão e responde:

- Não há cocó.

- Dudu, vai ser se a Nocas tem cocó...

Dudu vai cheirar o rabinho da irmã e responde:

- Nonô cocó.

A um mês e meio de fazer 2 anos, os meus gémeos já começam a participar nas tarefas cá de casa. E não é nada fácil cheirar o rabinho de um bebé! Eu diria mesmo que é uma tarefa bem arriscada...
Hoje consegui, finalmente, que o meu filho Sebastião (5) contasse um dos seus pesadelos. O pai não pôde tomar o pequeno-almoço connosco, e eu aproveitei para desligar as notícias e puxar por eles. O Afonso contou os seus trezentos e sessenta e cinco sonhos do ano inteiro (e mais contaria, se eu deixasse), eu contei o meu sonho de hoje, e o Sebastião, levado pelo entusiasmo do irmão, lá contou o pesadelo que o tinha levado a enfiar-se hoje na minha cama: pois que o Sebastião tinha entrado sem querer numa gruta e nessa gruta havia um ovo gigante. Ele tocou no ovo e o ovo partiu-se. Então chegou um dinossauro gigante que viu que o ovo estava partido e ficou muito zangado. Pegou numa guitarra e começou a tentar acertar no Sebastião. O Sebastião começou aos saltinhos, a tentar fugir, até que foi salvo por um unicórnio que o levou dali a voar. Levou-o então até ao céu onde estava o Jesus. O Sebastião ficou com medo porque o Jesus tinha ao pé dele uma caixa fechada onde metia as pessoas que se portavam mal. E ele tinha partido um ovo! Ficou com medo e pediu ao Jesus para chamar a mãe, e o pai e os irmãos.
Saltou imediatamente o Afonso, que estava a ouvir o irmão com muita atenção:
- Fogo, Sebastião! Para que é que me chamaste? Eu não quero ir para os anjinhos!
Mas o Sebastião só não queria ficar sozinho, por isso o Jesus mandou-o outra vez para a Terra, no unicórnio.
Expliquei ao Sebastião que partir um ovo não é nada de grave, ainda que o ovo seja de dinossauro, mas o Afonso tratou de dramatizar a situação:
- Sabes que mais, Sebastião? Acho que Deus te quis mandar uma mensagem...

O que é que eu faço com a criatividade dos meus filhos?
O Afonso (7) continua, convictamente, a dizer que quer ser escritor.

(Mãe) Ó Afonso, mas como é que tu queres ser escritor, e não escreves nada?
(Afonso) Então, mãe... eu estou nas minhas folgas. Não vês que eu vou ser daqueles escritores que só escreve 3 livros por ano?

Definitivamente, o meu filho vai ser um escritor muito mais bem sucedido do que eu... :(
Desta vez foi o Sebastião (5) a abordar o tema da morte, e a conversa também não foi meiguinha...

(Sebastião) Ó mãe, tu já alguma vez morreste?
(Mãe) Não, Sebastião. E tu?
(Sebastião) Também não.

...

(Sebastião) Ó mãe, se tu um dia morreres, contas-me como é que é o céu?
(Mãe) Porquê, Sebastião? Achas que é um sítio bonito?
(Sebastião) Não, acho que é um bocadinho feio. Porque as pessoas que se portam mal vão para dentro de uma caixa escura.

(Mãe respira fundo antes de retomar a conversa)

(Mãe) Quem é que te disse isso, Sebastião?
(Sebastião) A minha professora de Catequese hoje contou a história de um homem mau que dava com o chicote nas pessoas. Quando ele morreu chegou ao céu e o Jesus disse que ele tinha que ficar fechado numa caixa. Ele queria pedir desculpa às pessoas a quem tinha dado com o chicote, mas não podia porque já estava morto...

Tentei explicar-lhe que a caixa escura não existe, e que ele vai sempre a tempo de pedir desculpa quando se porta mal. Mas estou a crer que, graças à aula de hoje de Catequese, o Sebastião vai acabar mais uma noite na minha cama...

Entendo que a sociedade precise de regras e de castigos (se fizeres mal vais para a prisão), e que as religiões também se tenham desenvolvido nesse espírito, embora com castigos mais "transcendentais" (se fizeres mal vais para o inferno, ou vais reencarnar em qualquer coisa ou qualquer vida pouco agradável). Não sei se os meus filhos vão ter alguma religião quando crescerem, nem sequer se eles vão acreditar na sociedade como a conhecemos hoje em dia. Mas prefiro ensiná-los que é preciso fazerem o bem e serem correctos em tudo o que fizerem, porque é a única forma de fazermos os outros felizes e sermos também felizes, do que por receio de qualquer castigo, humano ou transcendente. Claro que eles às vezes ainda não sabem bem o que é o correcto, e eu também os castigo. Se calhar, não estou a fazer nada assim de tão diferente... Mas quero acreditar que um dia os meus filhos vão crescer e já não precisarão nem de mim, nem de ninguém, nem de algo, para serem homens correctos. A ver vamos...
Afonso a conversar no carro com o seu vizinho Duarte:

(Afonso) Mas porque é que tu não tens os novos cromos do futebol?
(Duarte) Os meus pais não me compram. Dizem que anda alguém a fazer negócio com isso lá na escola.
(Afonso) Não é negócio. Nós trocamos uns com os outros.
(Duarte) E também não tenho caderneta.
(Afonso) Eu também não. Mas se tiveres cromos podes entrar na nossa sociedade. Eu, o Zé Maria e o Diogo temos uma caderneta a meias.
(Duarte) Ah...

(Dois segundos de silêncio raro)

(Afonso) Ó mãe, estavas a ouvir?
(Mãe) Sim, Afonso.
(Afonso) Diz lá se eu não parecia o Zé Sócrates a falar sobre o governo das cadernetas...

Querem ver que o rapaz, em vez de escritor, ainda me sai político?
A história de hoje à noite era sobre flores que falam. Mas não falavam como nós, humanos. Falavam através do seu perfume.
(Mãe) Já alguma vez cheiraram uma flor e ouviram o que ela diz através do seu perfume?
(Afonso) Eu já!
(Mãe) Já? E o que é que ela te disse, Afonso?
(Afonso) Sai daqui! Tens mau hálito!
O meu post sobre as conversas do meu filho Afonso acerca do facto de as pilinhas crescerem (2 posts atrás) deu que falar. Algumas mães ligaram-me preocupadas: Onde é que ele ouviu essas coisas? Eles falam disso na escola?!
Falam. De facto, falam. Eu, por acaso, tenho a sorte de o meu filho Afonso contar tudo (lá chegará talvez o dia em que não me vai contar nada...), e de eu conseguir ir percebendo os temas que eles abordam. E, de facto, o tema do sexo é um dos assuntos na ordem do dia. O Afonso diz frequentemente coisas como:
- O (...) diz que o (...) vai fazer "sexy" com a (...). O que é que é "sexy", mãe?
- Estou tão cansado... Vou fazer sexy com uma parede...
- Eu sei como é que nascem os bebés. Os pais enfiam a pilinha no pipi das mães.
Não são coisas que ele ouve em casa, não são coisas que ele ouve na televisão. A informação circula na escola, por todo o lado, e eles digerem-na como sabem e podem. Devemos nós começar a ensiná-los e a explicar-lhes conceitos de sexualidade mais cedo? Neste momento acho que sim. Tive alguma dificuldade em perceber o porquê da urgência das aulas de sexualidade nas escolas, sobretudo quando falamos em miúdos do 1º ciclo (a antiga Primária). Mas hoje em dia acho que essas aulas são importantes e tenho uma amiga sexóloga (Vânia Beliz) que está a fazer um trabalho muito interessante nas escolas, junto dos miúdos. Tem sido muito solicitada pelas escolas para dar uma palestra aos miúdos sobre sexualidade, e a resposta deles é muito interessante, porque eles estão ávidos de explicações e têm muito mais dúvidas do que se pensa.
Antigamente falava-se pouco sobre estes assuntos, e muitos de nós fomos digerindo a informação sozinhos. Não veio mal ao mundo, por isso, mas, nos dias de hoje, com a informação que circula e os perigos que espreitam à porta, parece-me importante falarmos com os nossos filhos sobre estas matérias, se queremos uma sexualidade mais feliz e responsável.
Tenho um único filho com orelhas "saídas". É o meu duendezinho Sebastião, que tem as bochechinhas mais apetitosas do universo. Quanto às orelhas, não sei o que lhes deu para se afastarem da cabeça, mas hoje dei por mim a pensar se a culpa não terá sido da minha gigantesca barriga cheia de líquido amniótico, e da natação que fiz até quase à véspera dele nascer. Com tanta água, dentro e fora da minha barriga, talvez o meu Sebastião tenha começado a desenvolver características que o aproximam de uma espécie de "Homem da Atlântida" (sim, eu sou do tempo dessa mítica série!).
Não, o meu filho não tem orelhas saídas. Tem barbatanas ligadas à cabeça por membranas aquáticas! O Sebastião ainda não sabe nadar, mas talvez no dia em que aprender ele desapareça 5 minutos debaixo de água e reapareça depois, com aquele seu sorriso irresistível, a soltar um pirolito de água: "Então, não vêm?"
Depois de ler um livro aos meus filhos sobre Sentimentos (ao Afonso, ao Sebastião e à Leonor, porque o Duarte continua a ir dormir às 8 da noite, e a perder grande parte da paródia que se segue ao jantar), comecei a fazer-lhes perguntas difíceis: O que se sentia quando tínhamos vergonha, onde nos doía quando estávamos tristes, onde é que ficava guardada a inveja...
Até que, a dada altura, resolvi perguntar-lhes:
- E vocês sabem o que é que se sente quando ficamos apaixonados?
Responde-me logo o Afonso (7 anos), prontamente:
- Eu sei! Sente-se a pilinha a crescer e a levantar-se...
Definitivamente, há sentimentos que os homens não guardam só no coração...

PS - Aulas de Sexualidade precisam-se, pf.
Se os meus filhos um dia pertencerão à Geração Rasca, à Geração À Rasca ou à Geração Carrasca, não sei bem. Mas sei que pertencerão, pelo menos, à Geração da Reciclagem, da boa Nutrição e do Não ao Tabaco. Volta e meia, lá entram em campanha e massacram o pai que, por ter nascido noutra Geração, deixou-se viciar em tabaco na adolescência. Ontem, o Afonso (filho mais velho) resolveu ter uma conversa séria comigo:
- Ó mãe, nós temos que pensar em alguma coisa para fazer o pai deixar de fumar.
- Não é fácil, filho...
- Temos que pensar num plano...
E deixou-se ficar em silêncio, pensativo, até o pai s juntar a nós.
- Ó pai... já sabes o que é que vai ser o teu jejum nesta Quaresma?
Ao ouvir falar em jejum, na Catequese, o Afonso decidiu propor ao pai que, em vez de comida, abdicasse do tabaco! Era bom que fosse assim tão simples. Mas foi uma boa tentativa...
A escrever sobre o Futuro, decidi pedir umas ideias ao meu filho Afonso (7), cuja imaginação consegue sempre surpreender-me. E esta vez não foi excepção:

(Mãe)
Afonso, se fosses ao Futuro, o que é que encontravas?
(Afonso)
Dinossauros.
(Mãe)
Dinossauros? Isso não é no Passado?
(Afonso)
No futuro também. Criaram um vírus informático que fez com que os Dinossauros do meu Jogo de Computador ganhassem vida.

Definitivamente, isto é muito à frente para mim. Vou mas é escrever para os adultos, antes de ser chamada de "cota"...
(Afonso a caminho da cama)
- Ó mãe, o primo Zé Maria diz que o Pai Natal não existe... e que é o Jesus que entrega os presentes aos pais, para eles os darem no Natal.
- Mas tu afinal acreditas no Pai Natal?
- Não. Nem acredito no Jesus. Como é que ele podia dar os presentes aos pais, se ele está morto?
- Está morto, filho?
- Claro! O Natal é em Dezembro, e ele só ressuscita em Março, na Páscoa...

Pois...
Diácono Rodrigues, importa-se de ter uma conversinha com o seu neto?
Um sol esplendoroso. 4 filhos enfiados em casa a fazer disparates. Mila de fim-de-semana de folga. A casa de pantanas. A mãe aflita com trabalho. Disse "Basta!" às 11 da manhã, e convenci o pai, que acordara coxo, a ir pelo menos a qualquer lado. A qualquer um. Podíamos nem sair do carro...
Metemos todos no carro, deixámos o cão a fazer mais uns cocós e xixis pela cozinha, e aí fomos nós. Uma rotunda, duas... vomita o Duarte. Três rotundas, quatro... vomita a Leonor. Com um cheiro indescritível no carro, e o Afonso e o Sebastião já quase também a vomitar, voltámos para casa. Onde o cão nos esperava depois de 2 cocós e 3 xixis. Que bela manhã...
Enquanto limpava os cocós e xixis do cão, e dava banho aos gémeos, lembrei-me de uma outra manhã, igualmente linda, que me aconteceu há uns anos. Ainda só tinha o Afonso e o Sebastião, que era bebé. Íamos ao casamento de dois grandes amigos meus, no Alentejo profundo, e eu ia tocar a Avé Maria da entrada. Tinha passado a semana a ensaiar sozinha, mas era suposto chegar mais cedo à Igreja para ensaiar ainda com a rapariga que ia cantar. Claro que saí de casa atrasada. Já não me lembro exactamente porquê, mas metia certamente roupinhas, e cadeirinhas, e xixis, e birras... Chegámos à ponte 25 de Abril e estava tudo parado. Stress! Um calor de morte, e os miúdos já a resmungar. O atraso a acumular. Quando passámos a fase crítica, pedi ao meu marido para pôr o pé no acelerador. A cantora já estava à minha espera, e eu ainda estava a 100 e tal quilómetros! Até Montemor fomos lindamente, prego a fundo. O problema foi depois. Metemo-nos por atalhos para tentar chegar mais depressa, perdemo-nos e, entre as curvas e contra-curvas, o Sebastião vomitou. Depois foi o Afonso. Eu chorava. E a noiva a esturricar dentro do carro, às voltas, à espera que eu chegasse... E eu não cheguei. A horas, não. A noiva entrou. A cantora cantou à capela. Eu entrei de maquilhagem esborratada, de chorar. E, enquanto via a minha amiga noiva dizer o Sim ao meu amigo noivo, e pensava para comigo que aqueles dois já deviam ser tudo menos meus amigos, o meu marido andava pelo jardim que havia em frente à Igreja, com um filho em cuecas e outro de fralda, enquanto as suas roupinhas pipis secavam em cima de uma sebe...
Ter filhos é maravilhoso. Mas ele há dias e dias...
Depois de uma dia intenso de filhos e sobrinhos, daqueles que parece que nunca mais acabam, mas que, depois de acabarem, nos deixam umas saudades imensas, resolvi desafiar o meu filho Afonso para uma meia-hora musical. O meu filho tem sempre preguiça de estudar guitarra, mas quando o acompanho ao piano, nunca se nega. Claro que a façanha só pode acontecer ao fim-de-semana, porque durante a semana o tempo mal chega para os TPCs, os banhos, os jantares e a história. Quando chega a hora da guitarra já os manos bebés estão na cama, e o piano não é, definitivamente, o melhor instrumento para adormecer gémeos. Mas de vez em quando, ao Domingo, lá arranjamos um buraquinho para o concerto, e como as músicas dele são cada vez mais elaboradas, também o são os seus acompanhamentos, e hoje soou-me mesmo bem a nossa comunhão musical. O Sebastião juntou-se a ouvir, e até os gémeos ficaram mais calminhos. Esqueci as birras deles, as más-educações, os vícios da playstation, as preguiças, os gritos e as correrias. Esqueci as minhas faltas de paciência, os meus gritos, o meu vício no trabalho e as minhas pressas. Senti-me a mãe perfeita da família perfeita, qual Von Trapp. Claro que só durou meia-hora. Depois o Afonso já estava fatigado, era hora de jantar, o cão já tinha feito mais um cocó na sala e o pai queria ouvir o futebol. Mas pronto. Se todos os dias tivermos meia-hora de Música no Coração, já teremos direito a um Óscar...
Como se não bastassem os 2 mais velhos e os gémeos, agora temos um pequeno cachorro cá em casa. Sempre disse que gostava de ter mais um filho, mas não estava nos meus planos uma pequena bola de pêlo que despeja cocó e xixi por onde quer que passe. É lindo, fofo, só dá vontade de apertar, mas de repente as xuxas que caíam no chão correm o risco de cair em cima do xixi que ainda não limpámos, as mãos sapudas dos gémeos que mexem em tudo aquilo que alcançam, correm agora um risco acrescido de se embodegarem nos cocós escondidos nos mais recônditos recantos da nossa casa. E, se os meus gémeos já comiam a comida do chão, agora também se lambuzam com a ração do cão e a água que está junto à caminha do cachorro. É mais um bebé cá em casa, para chorar de noite e exigir dois olhos atrás dele. Mas quem resiste a ver 4 crianças doidas com um pequeno cãozinho, esquecendo desenhos animados e playstations?
A afortunada cachorra (se resistir aos apertões e puxões de orelhas dos gémeos) chama-se Cuca, porque das poucas palavras que os meus filhos bebés dizem é "Uca". Assim "Uca" dá para Ruca e dá para Cuca. Economia das palavras. Temos de nos valer de tudo em tempos de crise...
- Ó mãe, se o mano sem querer deixar cair a mana e ela morrer o que é que fazes?
(Mãe ignora)
- Ó mãe, diz lá... se o Sebastião puser a mana ao colo e sem querer a deixar cair pelas escadas abaixo e ela morrer, o que é que tu fazes?
- Afonso... por favor!
- E se for a Mila? Se a for a Mila a matar a mana o que é que tu fazes?

Raios parta o miúdo! Com tanta coisa para herdar de mim, logo tinha que ficar com a projecção da desgraça. Lá acabará a escrever novelas...
Depois de uma ida (atribulada) ao concerto para bebés com os filhos mais novos, levei os mais velhos a ver os Deolinda. Eles conhecem grande parte das músicas, sabem algumas das letras de cor, e achei que seria boa ideia levá-los pela primeira vez a um concerto "a sério". Com o senão de que os concertos "a sério" começam à hora a que eles habitualmente já estão deitados. Resultado: o Sebastião durou 4 músicas. Afonso durou mais umas quantas, mas porque o Pai se lembrou de dizer que no final caíam confetis do tecto e ele queria assistir. Lá chegará o tempo em que eles vão querer ir aos concertos todos e eu vou querer ir atrás (já me imagino aos moches no meio de um estádio qualquer, ou às cavalitas deles, que vão crescer muito mais do que eu...). E também lá chegará o tempo em que eles não vão querer que eu vá atrás deles. Mas, por enquanto, vamos deixar-nos de concertos "a sério" e ficarmo-nos pelos Festivais do Panda e matinés ao Domingo...
E pronto. É isto que os pais sentem quando os professores os mandam chamar e dizem que o filho anda esquisito, a portar-se mal, aéreo e com chamadas de atenção. Os pais estiverem 4 dias no bem bom, deixaram os filhos com os avós para irem dormir e comer à grande e à francesa, sem gritos, nem confusões, nem choros, nem birras, nem fraldas, nem horários, nem TPCs, nem Pandas, nem pesadelos a meio da noite, e quando voltam ouvem estas coisas. E sentem-se mal. Muito mal. E pensam que não deviam ter ido... mas soube-lhes tão bem! Fazia-lhes tanta falta. E eles vieram de lá tão descansadinhos da vida, com os sonos em dia e saudades dos filhotes...
Ser pai é viver neste dilema de termos filhos, mas termos de pensar que eles não são só nossos, e nós não somos só deles, e por isso culpamo-nos quando vivemos demasiado para eles, mas também quando resolvemos pensar um bocadinho em nós.
No caso do Sebastião (o filho em causa, que anda a chamar a atenção), existe um problema acrescido, que não é destes dias, é de sempre. O Sebastião é o "entalado" dos irmãos, aquele que, em virtude de ter nascido no meio e ser um bonzão, nunca ter dado trabalho nenhum, sempre foi aquele com que menos nos preocupávamos. Na fase dos "2", o Afonso ia sempre à frente, foi ele a fazer as primeiras gracinhas, a dizer as primeiras palavras, a fazer as primeiras observações engraçadas, a descobrir as letras, e os números, a entrar na Primária... O Sebastião perdeu a vez da "primeira vez". Já tínhamos assistido às suas novidades, e a nossa reacção foi muitas vezes de "mais uma vez" do que "primeira vez". Com todo o amor do mundo. Mas indisfarçadamente menos surpresa.
Depois começou a fase dos "4". E o Sebastião teve que fazer parelha com o irmão mais velho, porque a mãe estava demasiado ocupada com os irmãos bebés. E, sempre que a mãe conseguia tempo para a "dupla" mais velha, era para dar atenção ao Afonso, por causa dos TPC, das suas exigências, da sua ininterrupta conversa, das suas permanentes negociações, das suas agitações. O Sebastião, pacholas, sempre ficou com os restinhos da mãe. De que lhe tem valido, afinal, ser bonzinho e paciente? Pois que agora começou a dar sinais de impaciência. Talvez estas chamadas de atenção sejam para reivindicar o seu lugar. E com justa causa. Por isso desde hoje que há novas medidas cá em casa:
- À hora dos TPC do Afonso, a mãe faz também uma ficha ou um jogo com o Sebastião (que assim não fica por casa esquecido até à hora do banho e do jantar)
- A escolha dos livros que lemos à noite é alternada, uma noite é o Afonso, na outra o Sebastião (já era assim há umas semanas, mas o Afonso acabava sempre por escolher pelo Sebastião, cujo poder de decisão deixa muito a desejar)
- Os programas do fim-de-semana também vão ser à vez.
- Sempre que o Afonso tiver festas de anos, em vez da mãe aproveitar para trabalhar, vai fazer um programita com o Sebastião.
E pronto. Vamos ver como corre. O problema vai ser quando os gémeos também começarem a chamar a atenção... Inventem-se pais com mais braços e dias com mais horas, por favor!
Este ano os nossos filhos mais velhos foram votar com os pais. Como eu e o pai votávamos em locais diferentes, o Afonso (mais velho) foi com o pai, e o Sebastião (do meio) foi comigo. No caminho, o Pai explicou ao Afonso como decorriam as eleições. Como eram as campanhas, como se votava, como se contavam os votos e o que acontecia ao vencedor e ao vencido. E o Afonso aconselhou o Pai a votar no "Sovaco Silva". Porquê? Porque era o único que conhecia... (e não terá sido por isso que ele teve tantos votos?)
Já eu, que tinha passado o fim-de-semana a trabalhar e estava sem vontade alguma de votar, pedi ajuda ao Sebastião para me escolher um candidato.
- Quais é que são os candidatos, mãe?
- Então... há o Cavaco Silva, que quer que o país seja mais rico. Depois há o Manuel Alegre, que quer que o país seja mais...
- Alegre!
- Isso, Sebastião. E há o Fernando Nobre que quer que o país seja mais...
- Nobre!
- Sim. Pode ser. Os outros... a mãe não se lembra dos nomes. (eu sei, eu sei! Pouco zelosa da sua responsabilidade cívica. Mas a minha capacidade de memória, com tanta personagem e cliente e crianças na escola, está no seu limite. Sem um disco externo não consigo guardar nem mais um nome!)
- Ó mãe... e como é que vai ser? Os candidatos vão pôr-se todos alinhados e eu depois aponto?
- Não, filho... Eles não vão estar lá. Tens que escolher pelas fotografias.
- Ah... Mas eu já sei qual é que vou escolher.
- E qual é, Sebastião?
- Aquele primeiro que tu disseste. Se o país ficar mais rico tu podes comprar mais beyblades...
E pronto. Perante a minha fraca abordagem dos candidatos, ele até fez uma escolha acertada...
E quando os filhos chegam com as suas mãozinhas sapudas e carregam com força no teclado do nosso computador, onde estava aberto um trabalho importantíssimo? O documento desaparece do ecrã. E depois saber em que teclas eles teclaram? E quando o documento tem 200 páginas que vamos ter que rever novamente?
Há dias em que ser mãe é um verdadeiro teste à nossa paciência...
Tive uma vez um cão que não sabia alçar a perna para libertar as suas necessidades líquidas. A sua companhia, lá em casa, era uma velha cadela que baixava a parte traseira com delicadeza, sem sujar qualquer parede, tronco, poste ou pneu. E assim esse cão, que se chamava Arco-Íris mas era preto, não tinha um macho por perto para lhe explicar que os cães, dizem que por uma questão de dominação, levantam a pata e sujam o território ao nível do dorso. E ele fazia como via. Com delicadeza. Nos cantinhos da quinta.
Pois a minha Leonor, quando vê os irmãos mais velhos abeirarem-se da sanita e puxarem as pilinhas para fora para fazer o último xixi do dia, aproxima-se também ela da sanita, levanta o robe e empurra o corpo para a frente. E faz xxxxxxx... Talvez esteja na hora de começar a levá-la comigo à casa de banho para ela perceber que existem outras opções mais confortáveis à sua anatomia... Ou talvez desviar-lhe a atenção quando os irmãos estão de calcinhas em baixo. Mas também acho que não se deve limitar a curiosidade natural das crianças... Também já dei por ela, uma vez que estavam todos nus, prestes a entrar na banheira, a procurar no seu corpinho um pendericalho semelhante aos dos irmãos...
As diferenças de género, nela, psicologicamente, são evidentes. Ela é arrumadinha, senta-se direitinha, adora vestir-se e calçar-se, e pentear-se, e andar com malinhas e pulseiras e colares. Só ainda não percebeu que as diferenças também são físicas, e cada dia que passa se tornarão mais evidentes. E lá chegará o dia em que já não os terei todos nus a enfiarem-se na banheira ou a fazerem xixi ao mesmo tempo...
Afonso, 7 anos. Já deitado na cama e mãe a tapá-lo, com a cabeça já a pensar no trabalho que ainda tem para fazer antes de ir dormir.


- Ó mãe, existem minotauros?
- Não, filho. Já viste algum?
- Ó mami, e existem fantasmas?
- Não, filho. Já viste algum?
- Ó mami, e existem deuses da água, da terra, do ar e do fogo.
- Não, filho. Já viste algum?
- Mas se Deus existe, e também ainda ninguém o viu, porque é que os minotauros, os fantasmas e os deuses também não podem existir?

Pois...
(Mamã) Ca-fé
(Dudu) Lo-mó
(Nocas) Co-qué
(Mamã) No-dy
(Dudu) Mo-mé
(Nocas) No-ni
(Mamã) Sa-pa-to
(Dudu) Ta-ta-ta
(Nocas) Ta-ta-to
E é assim o dia todo. Os gémeos adoram brincar às sílabas, mas as letras fogem-lhes da língua, saltitam e trocam-se umas às outras para resultarem noutras palavras que ninguém entende. Talvez as letras não queiram que os adultos entendam as crianças. Queiram que as crianças fiquem só delas, e dão-se-lhes para que elas criem a sua própria linguagem. Mas se elas tentam ir ao encontro da língua dos adultos... ficam furiosas e saltam no palato, penduram-se no sininho e rebolam na língua para saírem do sítio certo... Até um dia se cansarem (ou talvez crescerem também, como os meninos que as dizem) e decidirem render-se à linguagem dos homens. Dão as mãos e saem direitinhas pela boca, duas a duas, três a três ou quatro a quatro, como meninas e meninos da escola, para toda a gente as entender.

PS - Nunca aprofundei o assunto, mas acho curioso que haja crianças que primeiro conseguem acertar no som, e outras que comecem por acertar o ritmo. O meu Sebastião dizia a primeira sílaba de tudo, mas "comia" o resto. Os gémeos acertam na quantidade de sílabas, mas falham os sons. A Nocas, no entanto, já deu um passo à frente, e já consegue acertar no último som das palavras, e muitas vezes também na primeira letra. O Duarte ainda só vai no ritmo, mas está bem provado, cá em casa, que as miúdas são mais despachadinhas...
Agora também digamos que nós cá em casa não lhes facilitamos a vida... é que todos nós temos pelo menos 4 nomes pelos quais somos chamados:
PAI:
- Pai
- Papá
- Papi
- Pedro

MÃE:
- Mãe
- Mamã
- Mami
- Sara

AFONSO:
- Afonso
- Fonseto
- Fonfas
- Filho
- Mano

SEBASTIÃO:
- Sebastião
- Titão
- Titaneco
- Sebastian
- Filho
- Mano

DUARTE:
- Duarte
- Dudu
- Duduski
- Duqui
- Filho
- Mano

LEONOR:
- Leonor
- Nocas
- Nonô
- Nonoski
- Noqui
- Filha
- Mana

Coitadas das crianças... Se calhar o que as letras pensam é que nós, os seres falantes, somos MUITO complicados!
Porque é que os adultos, quando acordam, ficam de meter medo ao susto, e as crianças, ao acordar, ficam deliciosas? Capazes de as mordermos ou cobrirmos de beijos?
Será das bochechas?
Dos olhinhos sem rugas?
Dos sonhos sem pesadelos?
Quando vou buscar os meus filhos ao quarto, de manhã, abraço-os e lambuzo-os e não consigo não desejar que eles fiquem sempre pequeninos... (na maior parte do restante tempo, desejo que eles cresçam e deixem de fazer birras, de usar fraldas, de ter de comer a horas, de se sujarem, de mexerem em tudo, de não terem noção do perigo, de terem de levar vacinas, de vomitarem tantas vezes... uff! O problema é que, quando estas coisas todas acabarem, vai bater aquela saudade...)
Com o pai a trabalhar e corte de electricidade em casa, resolvi pegar nas tropas e rumar ao Oceanário. Desde que a Leonor aprendeu a dizer "Petche" que eu andava com vontade de lá ir. E hoje não pensei duas vezes. "Saíste mesmo com os 4??" - perguntava o Pai ao telefone. E, já na bilheteira do Oceanário, foi a vez da Funcionária se surpreender: "Vai mesmo entrar sozinha com eles todos??". O Afonso fez-se logo ouvir e argumentou que ele era um excelente condutor do carro da irmã. Saltou logo o Sebastião a dizer que quem levava a mana era ele (e ele continua a querer tudo o que o irmão quer! Maldito síndrome de irmão mais novo, que neste caso é do meio). E estive quase tentada a deixar que fossem eles os 2 a levar os irmãos, enquanto eu descansadamente via os peixinhos. Não ia durar muito tempo... aliás, nem a disputa pela irmã durou, porque os peixinhos falaram mais alto e eles passaram a disputar foi a máquina fotográfica e a descoberta do peixinho mais belo.
Balanço da manhã:
- A Leonor gritou uma centena de vezes "Petche" e o Duarte outras tantas vezes "Pê".
- Fomos repreendidos por comer bolachas e Bolycaos no Oceanário (mas quem suporta ouvir os filhos reclamar por comida?)
- Tirámos dezenas de fotos (sem flash, ok?). 90% delas são borrões negros ou imagens desfocadas.
- No final comprámos lembranças. Um kit ciência para o Afonso, um dinossauro para montar para o Sebastião, uma raia para a Leonor e um lagarto para o Duarte (embora ele, num momento de distracção minha, tenha mordido e enchido de baba todas as tartarugas de peluche que apanhou. Eu, como boa e tesa mãe, fingi que não vi e segui caminho)

Amanhã é dia de Concerto para bebés em Sintra. OS miúdos vão ficar esgotados com tanto programa... e a mãe deles idem idem aspas aspas!
Quando chego a casa mais tarde, já com a criançada toda por lá, sinto-me a verdadeira mãe-pássara, que chega com as minhocas (uma ou outra coisa que comprei para eles, que mais não seja comida já pronta para o jantar) e tem de escolher quem alimentar primeiro. Os meus filhotes abrem o bico e correm para mim à procura de algo. Debicam-me de alto a baixo, e em vez de Pius oiço "Mamã, mamã, mamã, mamã". E, assim como a Mãe Pássara se deve perguntar quem há-de alimentar primeiro (como escolher? O bico maior? O mais frágil? O que pia mais?), eu pergunto-me quem pegar primeiro ao colo, quem beijar primeiro, a quem dar miminhos e a quem perguntar primeiro como correu o dia. Independentemente da minha escolha (que normalmente se baseia em quem é mais ágil para trepar por mim acima, ou quem grita mais alto por atenção) fico sempre com vontade de ter mais braços, e mais bocas e mais colos e mais beijinhos para dar ao mesmo tempo. E ainda há que arranjar em um espacinho (de tempo, de corpo, de atenção) para o passarão...
O meu Sebastião teve um pesadelo esta noite. Acordou a chorar e gritou por mim, ainda atordoado com as imagens que o assustaram a dormir.

- Ó mãe... não existem fantasmas, pois não?
- Não, Sebastião... Dorme descansado.
- Ó mãe... e não existem ladrões, pois não?
- Aqui não, Sebastião. Dorme descansado.
- Ó mãe... e não existem mexicanos, pois não?

Ri-me a nachos. Então agora os mexicanos também causam pesadelos? Tive que lhe dizer que não. Homens de chapéu grande e colchas às costas, só mesmo nos piores sonhos das crianças...
Não resisto a contar as últimas. É o que dá não trocar o computador ao fim da tarde por uma boa conversa com os meus filhos...

(Afonso no banho) Ó mami, olha como eu tenho tantos pêlos nos braços!
(Mami) E ainda vais ter mais, Afonso...
(Afonso assustado) Vou transformar-me num carneiro...

(Sebastião) Mãe, estou com comichão no rabinho...
(Mami) A mãe vai arranjar-te um remédio.
(Sebastião) Um remédio para os bichinhos?
(Mami) Sim. Para eles morrerem.
(Sebastião) Vais pôr-me uma tomada?!? (usamos uma tomada cá em casa para afastar as melgas) No rabinho?
(risos da mãe) Não, filho.
(Sebastião) Ufa! (pausa) Quem vive em Tomada é a Madalena...
(era em Tomar... mas a esta altura já a conversa estava tomada pelo meu riso)
O meu filho Afonso, agora com 7 anos, tem refinado as suas graçolas. Aqui ficam as últimas:

- Mami, sabes porque é que eu não comi passas na passagem do ano? Para não ficar passado...
(minutos depois)
- Se eu para o ano, em vez de passas, comer pedaços de fiambre, achas que fico afiambrado?


(Afonso a comer uma banana)
- Mami, é verdade que nós descendemos dos macacos?
- É possível que sim, Afonso.
- É que eu gosto tanto de bananas... Acho que ainda não evoluí...
Em vésperas de ter 12 adultos em casa e 11 crianças, resolvi deixar despachada a feijoada e o cabeleireiro. Mas agora a feijoada levantou o problema de esconder a loiça na máquina de lavar sem que os gémeos partam nada (ter um de cada lado a querer entrar na máquina não ajuda), e o cabelo levanta o problema de conseguir manter-me penteada até amanhã à noite. Já usei o truque dos ganchos para manter o efeito, mas o piorzinho mesmo são as mãos sujas de cérelac e os miolos de bolacha. Comecei por tentar fugir deles com esticanços de pescoço, mas resolvi recorrer agora a outra técnica poderosa: a touca do banho na cabeça. Claro que esta técnica só resulta se enfiar toucas também nos gémeos, senão eles vão passar o tempo a tentar roubara minha e lá se vai o penteado. Tudo isto ficaria na banalidade (mãe louca fechada em casa com os filhos com calças de fato de treino embodegadas e touca plástica na cabeça) se o guarda-nocturno não tivesse batido à porta a pedir o pagamento mensal e eu não tivesse aberto a porta nessa linda figurinha. Enfim... com os filhos a fazer raccord, pode ser que o senhor ainda pense que é a nova moda do pedaço: moletão embolachado e touca na cabeça. Vai ser o sucesso da próxima estação...
Boas entradas para todos!
Quando se é pai vive-se, através dos filhos, a magia do Natal. E sobrevive-se às birras de sono, às constipações da época, às dores de barriga motivadas pelo excesso de chocolate e às disputas de brinquedos entre primos e irmãos. É uma alegria imensa. E uma tremenda canseira... Talvez por isso os telefonemas pós-Natal que fiz para algumas amigas com filhos começaram todos da mesma maneira: "então? Sobreviveste ao Natal?". Todas sobreviveram. Mas todas estavam KO, a precisar de férias das férias. E a saga ainda não terminou. Segue-se uma semana sem aulas, com quilos de brinquedo espalhados pela casa, restos de ranho colados à roupa, refeições em barda (para darmos valor ao que pagamos à escola de alimentação) e gritos estridentes por detrás dos telefonemas de trabalho que não puderam ser adiados para 2011.
O Duarte hoje chorou entre a 1 e as 4 da manhã. A Leonor, mal-habituada nos 2 últimos dias, não quer sair do meu colo e volta e meia deita a mão ao teclado para chamar a atenção. O Sebastião ainda não parou de vomitar. E o Afonso já fugiu 100 vezes à cadeira onde está sentado a fazer os trabalhos de férias. Estou de pijama, sem saber quando conseguirei fugir para a casa de banho, e o caos está instalado à minha volta, entre peças de LEgos, pistas de Hotwheels, Beyblades, loiças de plástico, ferramentas de brincar, canetas Carioca e meias (muitas meias!) oferecidas pelas primas. Adoro o Natal, mas ainda bem que ele não é sempre que o homem quiser... é uma vez por ano e basta!
(Afonso) Ó mãe, ó mãe! A nossa missão falhou! O Sebastião já não acredita no Pai Natal!

Acorri à cozinha, onde o Afonso ainda mastigava a comida que acumulara nas bochechas. Ele deixara de acreditar no Pai Natal há uns meses, mas tinha como missão não deixar que o Sebastião parasse de acreditar.

(Mãe) Então, Sebastião? Não acreditas no Pai Natal?
E ele disse que não com a cabeça, e aquele ar maroto que ele tem.
(Mãe) Mas porquê?
(Sebastião) Porque o Pai Natal apareceu lá na escola, e era a Guida (auxiliar da escola). Eu vi logo, porque ela não tinha sapatos de Pai Natal. A Eduarda ainda disse que a Guida tinha ido ao hospital, mas eu vi que era ela...

Hesitei em tentar protelar a mentira, e dizer-lhe que a Guida só se tinha feito passar por Pai Natal porque o Pai Natal adoecera, mas tendo o Sebastião já 5 anos, idade em que eu própria deixei de acreditar no Pai Natal, preferi não forçar a aldrabice. Tentei só perceber até que ponto a verdade se tinha instalado...

(Mãe) Então mas todos os anos aparecem presentes na nossa lareira, Sebastião... Se não é o Pai Natal, quem é que tu achas que põe lá os presentes?
(Sebastião) Se calhar é a Guida...

Mesmo sem sapatos, a Guida ganhou um estatuto especial. Talvez para o Sebastião não tenha uma rena voadora, mas continua a entrar-me pela chaminé adentro...
Corro o risco de generalizar, quando a minha situação é meramente particular, mas hoje dei por mim a pensar que ter filhos é mais próximo de ter cães, e ter filhas é mais próximo de ter gatos.
Os cães são meigos mas estouvados, batem em tudo, roem tudo, correm aos trambolhões e batem com a cauda em todo o lado. Mas depois são os melhores amigos do homem. Qualquer coisa os põe com a cauda a dar a dar, e correm para nós quando chegamos a casa. São assim os meus meninos cá em casa. Irrequietos. Loucos. Desengonçados. Mas uma ternura. E uma dependência de nós e de carinho que é impossível resistir-lhes.
Os gatos adoram festas mas são felinos, independentes, têm personalidade e, se for preciso, afiam a garra. Aparecem à hora da comida, sabem onde fazer xixi e como tirar o peixe do aquário sem o partir. São espertos. Muito espertos. E não dão ponto sem nó. Irresistíveis por isso mesmo. Porque têm vida própria, fora de nós e sem nós, e damos por nós maravilhados a olhá-los. É assim a menina cá de casa. Independente. Felina. Espertalhona. Irresistível.
Tenho três cães e uma gata cá em casa. E aposto que é ela que vai mandar neles todos...
Enquanto preparava o meu pequeno-almoço, o Pai tentava pela enésima vez convencer o meu filho mais velho das suas mais loucas façanhas. Como ainda não estava à mesa para o meu filho me olhar nos olhos e perceber que o Pai estava a mentir, ele esticou-se um bocadinho mais do que habitual...

- Sabes que o pai, antes de conhecer a mãe, era espião. Lembras-te da Casa Laranja, aquela empresa que o pai teve? Era uma empresa de espiões.
(Afonso olha para a mãe, que vira costas para esconder os olhos que só sabem dizer a verdade... e se rir sozinha)
- Escusas de olhar para a mãe, Afonso. A mãe também não sabe de nada. Eu nunca lhe contei, porque se tivesse contado tinha que a matar depois... Mas isso ainda foi antes da guerra...
- O quê? Também estiveste na guerra, papi?
- Claro! Em várias. No Azerbeijão, na Rússia, no Iraque... Tinhas de ver o pai a saltar dos helicópteros.
- O quê? Tu voas?
- Claro que não, Afonso. Ninguém voa. O pai saltava de pára-quedas. Mas por acaso estás a fazer-me lembrar de uns homens que eu conheci na selva, e que saltavam de árvore em árvore. Eles quase que voavam...

O Afonso vai arregalando os olhos, enquanto as bochechas se enchem de pão e ele fica tipo hamster. Mas lá no fundo, no fundo, ele sabe que o Pai, de mais extraordinário, tem a sua grande criatividade (ok, e um parafusinho a menos de vez em quando...)
Perdi a aposta! Contra todos os meus receios, o torneio de Beyblades dos mais velhos e as cabeçadas voluntárias do Dudu a tudo o que mexe não deitaram a árvore de Natal abaixo. Só a minha Nhô, que eu achei que se ia comportar à altura, tira da árvore as renas para passeá-las no carrinho do Nenuco, e hoje fui chamada em pleno banho para vir conter a desgraça:
- Sara, desce rápido! A Leonor está a comer a árvore de Natal!
Quem me manda enfeitá-la com bolachas de plástico...
(Conversa com o meu filho Sebastião, de 5 anos)

- Ó mãe, as pessoas que estão vivas podem dar vida às outras pessoas?
- Como assim, filhote? Dar vida?
- Tu tens vida, não é, mãe? Podes dar vida a outra pessoa?
- A uma pessoa que já morreu, é isso?
- Sim. Ou então a outra pessoa que está viva. Se tu desses vida à Mila, por exemplo, ela nunca ficava velhota...
- Hum... Acho que isso não é possível, filho. Pelo menos por enquanto.
- Ohhhh...

E eu que costumava dizer que este era o menos místico dos meus filhos...
Enquanto os gémeos dormiam, montámos a árvore de Natal...
Os gémeos estão quase, quase a acordar e as apostas já começaram cá em casa: durará a árvore até ao final da semana? Até ao fim do dia? Não durará uma hora? (eu apostei nesta!)
(Afonso) Ó mãe... se fosse eu a fazer a Kidzania, ela tinha um labirinto no ar... e naves espaciais, para quem queria ser astronauta. Cá em baixo tinha uma floresta, para os exploradores. E animais selvagens...
(Pausa. Mãe continua a cortar-lhe as unhas. São 80 ao todo. Não se pode perder tempo em conversas)
(Afonso) Ó mãe... porque é que as coisas nunca são tão boas como na minha imaginação?

Aperto no coração, que me paralisou a mãe e por pouco não lhe trespassava um dedo. Com tanta coisa para herdar de mim, o raio do miúdo logo tinha que herdar a frustração de nunca conseguir que a realidade supere a sua ficção... (bem... também herdou as unhas dos pés...)
O Tico e o Teco tiveram 4 filhotes: o Ticotico, o Tecotecto, o Tocotoco e o Tucutuco. O Ticotico tirou um bico a um passarico, o Tecototeco escondeu um boneco num beco, o Tocotoco levou com um coco, ficou louco. E o Tucutuco comeu um cuco, ficou maluco.
E o Tico, com tanto mexerico, fez xixi no penico. E o Teco, com um caneco, ficou marreco.

(É mais ou menos assim que o meu cérebro fica depois de um longo fim-de-semana sem empregada...)
O meu Afonso teve o seu primeiro 0 no ditado! Pode parecer uma coisa menor, um feito sem grande importância, mas para quem andava há semanas com 1, 2 erros, e não passava daquilo, isto foi um feito e tanto! O meu filho nem é daqueles que se preocupe por aí além com as notas. Como ele diz "não te preocupes, mami. Eu não sou o melhor, mas sou o melhor dos médios". Mas aquela coisa de ter sempre 1 ou 2 erros, e nunca conseguir um ditado limpinho, já me andava cá a chatear. Por isso resolvi pegar na folha do texto que ia ser ditado (e que percebi entretanto que era o texto do TPC da véspera) e pus-me a ver com ele aquelas palavras que eu sabia que ele podia errar. Escovar é com "o" porque vem de "Escova". "Esburacar" é com "u" porque vem de "buraco". Dizemos "muinto", mas o gato comeu o "n". E por aí fora... Andei de roda do meu filho uma série de tempo, entre as garfadas de comida e o escovar dos dentes. E, no dia seguinte, o 0 apareceu. Assim que cheguei à escola o Afonso veio a correr ter comigo, com os olhinhos a brilhar:
- Quando a professora pegou nos testes e começou a ler os nomes, o meu coração começou a bater tão forte... Tum-tum-tum! E tive zero, mami! Zero! Ainda bem que me deste aquelas dicas. Obrigado.
E tive de ter cuidado para não molhar o ditado de baba, quando escrevi: "Tomei conhecimento. Ass: Mãe"
(Afonso) Ó mãe, o meu professor de Catequese diz para eu fazer uma coroa e acender uma vela aos poetas.
(Mãe) Quais poetas, Afonso?
(Afonso) Então, mami? Os poetas amigos de Jesus...

Eram os profetas. Mas na Bíblia do meu filho Afonso, tudo é possível...
Depois de aprender a puxar os cabelos à irmã gémea e a abocanhá-la nas pernas para conseguir ganhar a disputa por algum brinquedo, o meu Dudu aprendeu uma nova táctica infalível: aproxima-se da irmã, puxa a sua cabecinha linda atrás e PUMBAS! Cabeçada nela. Assisti à primeira vez e achei que lhe tinha escapado a cabeça. Um acto involuntário. À segunda achei que ele tinha achado graça à primeira e resolvera experimentar uma segunda. À terceira... à terceira levou uma palmada no rabo! E ainda se afastou a resmungar, balançando a cabecinha para a frente e para trás, como quem diz "Ora bolas! Então agora nem umas cabeçadas posso dar? Toma ar! Toma mosca!" E a Nhocas, com beicinho e ar de ofendida, veio aninhar-se no meu peito e tocou com o dedo na testa, a chamar maluco ao irmão. Ou muito me engano, ou estas são só as primeiras dores de cabeça que os irmãos lhe vão causar...
Os pais têm que estar preparados para tudo: murros e pontapés involuntários, baba, ranho, maus odores... e, claro, não podemos esquecer, o vomitado.
Ontem o Afonso levantou-se às 10 da noite e, do cimo das escadas, lançou golfadas de vomitado. Para as escadas, para a parede, para os quadros da parede... e para mim, que tentava alcançá-lo entre um vómito e outro. O cenário era indescritível. O cheiro nem se fala. Ser mãe é também isto: cheia de salpicos de vomitado, sorrir e dizer: "Pronto, meu querido. Já acabou..."
(Afonso sobre as meninas)
- Mãe... as meninas são tão irritantessssss!
- Não são nada, Afonso. Não digas isso. Porque é que são irritantes?
- Estão sempre a fazer grupinhos. Depois zangam-se umas com as outras, dizem que não são amigas, depois dizem mal umas das outras, depois choram, depois fazem queixinhas, depois estão sempre a falar das roupas e dos ganchos, depois dizem umas às outras que estão feias...
Ok. Fiquei sem argumentos. São irritantes, mesmo. (Somos?)
Filho mais velho doente em casa. Filho a seguir acabadinho de chegar da escola cheio de coisas para contar, com um pacote de leite de chocolate na mão que apanhara pelo caminho. Gémeos espalhados pela sala a fazer disparates. Toca o telefone. Hesitação. É de trabalho mas era importante atender. A mãe atende. Espera o melhor. Acontece o pior. Gémea menina apanha o livro de cheques da empresa. Mãe faz sinais aos filhos mais velhos para que eles ajudem. O telefonema continua. Mãe tapa o bocal e grita: "Tirem-lhe os cheques da mão!". O filho mais velho faz-se ainda de mais doente do que está. Filho do meio corre a ajudar. Puxa os cheques da mão da irmã com uma mão, enquanto a outra aperta involuntariamente o pacote de chocolate. O leite esguicha sobre o sofá e sobre as facturas da empresa que a mãe estava a organizar. A próxima empresa a receber um cheque vai recebê-lo amassado. As facturas vão para a contabilista com nódoas de leite com chocolate. O sofá... sem comentários. E o telefonema... "Desculpem... Teremos que falar noutra altura quando estiver tudo mais calmo". Talvez daqui a 20 anos.
Se eu escrevesse isto para uma série diriam: "Muito improvável... Só mesmo numa sitcom é que isto aconteceria..."
O meu filho Sebastião tem as orelhas saídas. Tem a cara mais fofa do mundo e os olhos mais meigos do universo, mas as orelhas desataram-lhe a saltar do rosto por volta dos 2 meses de idade, e nem as fita-colas que eu lhes pregava para dormir resolveram o assunto. Durante muito tempo usou cabelo à tigela, que eu lhe cortava meticulosamente para tapar as pendências, mas um dia o pai resolveu que ele ficava bem era com o cabelo rentinho à pente 3... e não é que ficava? Primeiro estranhei as orelhas. Depois entranhei. E agora adoro as suas orelhinhas a dar a dar, que só dão vontade de trincar. No outro dia o dr. Póvoas, amigo da família, disse-nos que com uma pequena cirurgia se corrigiam quaisquer orelhas mais saídas. E hoje, a passar as mãos pela alcatifa fofinha que o Sebastião tem na cabeça, enquanto ele lavava os dentes, resolvi apertar-lhe as orelhas, para ver como ele ficava. Ui! Que esquisito! E o seu arzinho de boneco de peluche? Esqueci as experiências e deixei-lhe as orelhas fugirem para o lugar que lhes pertence. Talvez um dia o Sebastião queira ter umas orelhas coladinhas à cabeça. Mas por agora, o Titão da mãe é lindo com as suas orelhas bem abertas, para ouvir muito bem tudo aquilo que a mãe lhe diz...
COISAS DE AFONSO (7 anos)

- Ó mãe, eu sou vosso filho da parte da mãe ou da parte do pai?
- Hãaa?
- Acho que sou da parte da mãe... e o Sebastião da parte do pai. Porque eu sou magrinho como tu e o Sebastião é gordinho como o pai.
- Ó, Afonso... Nem tu nem o teu irmão são da parte de nenhum dos dois... vocês são os dois do pai e da mãe. São da parte dos dois.
- Mas antes de vocês se conhecerem, eu era da parte de quem?
- Ó Afonso... antes de o pai e a mãe se conhecerem, tu ainda não eras nascido.
- Ah, pois é... Dah! Mas mesmo assim eu acho que sou mais da tua parte...


- Ó mami, há filhos que dizem às mães que elas são as melhores do mundo, mas elas não são.
- E o que é que tu achas da mãe, Afonso?
- Eu também digo que tu és a melhor do mundo. Mas acho que és mesmo...

Quanto vale um filho destes?
(MÃE TANSA)
O Sebastião chegou a casa com um lindo desenho, feito em massa. Tinha uma cabeça com dois olhos enormes e um nariz, e quatro fios de massa a sair dela.
- Olha, mãe, é para ti.
- Que lindo polvo, Sebastião! Sabes que a mãe gosta muito de polvos? Quando a mãe casou com o pai, comprámos polvos em vários materiais, fazíamos colecção... E o teu é o mais lindo de todos!
- Ó mãe, mas isto não é um polvo... Isto és tu!

(MÃE BABADA)
O Sebastião desenhou uma menina com dois corações, um no peito e outro em cima da cabeça.
- Porque é que tem dois corações, Sebastião?
- Um está aqui, a bater (apontou o peito). O outro está na cabeça dela, porque ela está a pensar no amor. Está apaixonada...
(Afonso, depois de uma aula de informática) Ó mami, tu com a minha idade já sabias fazer desenhos no computador?
(Mami a trabalhar... ao computador) Quando a mami tinha a tua idade, ainda nem existiam computadores, Afonso.
(Afonso surpreendido) Ai não? Então quem é que os inventou?
(Mami a precisar de trabalhar) Não sei, Afonso. Depois a mãe diz-te.
(Afonso, alguns minutos depois) Já sei, mami. De certeza que foi o avô.
(...)
(Afonso) Ó mami, tu já inventaste alguma coisa?
(Mami a precisar MESMO de trabalhar) Não, Afonso.
(Afonso) Eu acho que já inventei. Estás a ver o Bionicle? Não fui eu que inventei o Bionicle. Mas eu inventei que podia misturar as peças do Bionicle. Quer dizer... acho que inventei. Como é que eu sei que fui que inventei, mami? Se calhar já alguém inventou antes de mim e eu não sei...
(Mami desiste de trabalhar e vai ver na Wikipedia quem inventou o computador, e como funciona o mercado das patentes).
Ler o blog, no outro dia, fez-me constatar que o meu filho mais velho, com a idade do meu filho do meio (5 anos), já sabia as letras todas, já sabia juntá-las, e lia pequenas palavras. Aliás, começou a fazê-lo com 4 anos. O Sebastião ainda só conhece parte das letras, e ainda custa a identificá-las nos sons. É verdade que todos os filhos são diferentes, cada um tem o seu ritmo, e as suas aptidões, mas neste caso o que explica esta discrepância é uma só: o Afonso teve-me dias a fio a ensinar-lhe as letras, a fazer jogos com as sílabas, a procurar letras nos jornais... enquanto o irmão bebé dormia. O Sebastião tem-me ocupada com os TPCs do Afonso, e com as tropelias dos gémeos. O máximo que ouve, de vez em quando, é um: Mas tu ainda não sabes escrever o teu nome?! Toma lá uma folha e escreve as vezes que conseguires, enquanto a mãe vai ali e já volta...
Hoje resolvi redimir-me. Fui buscar os velhos cartões do Afonso, com letras, e estive uma boa hora a puxar por ele. Resultado: uma hora foi o suficiente para que ele ficasse a conhecer mais um punhado de letras, e já percebeu como identificar os sons. Talvez seja mesmo assim... os segundos filhos são menos estimulados pelos pais... mas no pouco tempo em que os têm para si, rentabilizam-nos melhor. É que não fazem a menor ideia quando será a próxima vez...
Os pais são os mesmos. Os irmãos são os mesmos. Os brinquedos são os mesmos. Os ensinamentos são os mesmos. E os ralhetes também. E, apesar de ser tudo o mesmo, na mesma dose e medida, os meus gémeos são tão diferentes! Quem os vê à primeira vista, os dois lourinhos, de olho azul, da mesma altura e quase o mesmo peso, não acredita em mim. Mas as evidências aparecem logo em seguida:
- O Duarte brinca às lutas e faz grunhidos que tentam imitar os dois irmãos. A Leonor senta a Kitty na sanita e diz-lhe "Cocó! Cocó!"
- O Duarte, por onde passa, deixa rasto de papéis e sujidade. A Leonor vai buscar o pano para limpar, e pega nos papéis e vai deitar ao lixo.
- O Duarte ri-se de tudo e de nada, sobretudo se for disparate. A Leonor só se ri quando ganha confiança. Primeiro estuda a pessoa e a situação a ver se pode confiar.
- O Duarte trepa a tudo, vai ser o mais ágil dos irmãos, mas se cai chora como um bebé pequenino. A Leonor é mais cautelosa. Quando cai levanta-se e dá tau-tau ao sítio onde bateu.
- O Duarte, quando quer uma coisa da irmã, pega nessa coisa e puxa o cabelo da irmã. A Leonor, quando quer uma coisa do irmão, guincha e aponta para o irmão. Se ele lhe faz mal, toca o dedo na sua testa a chamar-lhe tonto.

Pela primeira vez, estou a ter oportunidade de ver como crescem os meninos e as meninas. Como, a partir das mesmas coisas que lhes damos, desbravam caminhos traçados pelo género (e pela sua própria personalidade também, claro). Pela novidade, estou absolutamente deslumbrada com a esperteza feminina. Imagino-me a ir às compras com a minha filha, a escolher as roupas, os penteados, as depilações, os soutiens, os ciclos menstruais... Mas não consigo deixar de pensar também que as duas vamos chocar, vamos ver quem é mais esperta, vamos ver quem consegue dar mais a volta aos "nossos" homens, quem é mais teimosa e quem tem mais vezes razão. E nessa altura vão-me valer os meus "meninos da mamã", três matulões (fora o pai) para me vão amparar nas quedas, para me dar miminhos, para dizer que eu sou a mais bonita, a mulher da vida deles (o pai não conta porque vai estar do lado da sua menina)... Por isso é tão bom ter meninos e meninas. Para termos confronto e consolo. Acção e reacção. Tensão e atracção. E para percebermos finalmente as diferenças entre os nossos pais e as nossas diferentes ligações com eles. Para percebermos as diferenças entre nós e a nossa cara metade. E para aceitarmos essa tão natural e espontânea diferença, que já nasce connosco, e que sempre, desde sempre, tem posto o mundo a mexer!

PS - Famílias só de meninos ou só de meninas... aceito umas trocas de vez em quando.
Sempre que recebo um comentário no meu blog dou por mim a pensar que vale a pena andar a "perder tempo" a escrever estas coisas todas neste espaço. É bom partilhar. É bom ouvir os outros. É bom ir também espreitá-los e ver que não estamos sós nas nossas angústias, mas também nas nossas alegrias. E eu agora até já vou acreditando que há mesmo pessoas a ler o meu blog! (o meu cunhado, nos dois primeiros anos, criava personagens fictícias para comentar os meus posts. Um grande beijo para ele! Que continue a metamorfosear-se sempre que puder!) E também lá vou pensando: Um dia os meus filhos vão gostar de ler isto!
A verdade é que esse momento chegou mais cedo do que eu esperava. A professora do Sebastião pediu que escrevêssemos sobre as conquistas dos nossos filhos aos 1, 2, 3 e 4 anos, e eu nem sabia por onde começar. Reli posts e mais posts e mais posts! O problema foi escolher! As conquistas eram tantas! Os diálogos dele com o irmão deliciosos. E rabisquei as folhas todas que a professora tinha mandado, babada. Com o meu filho e comigo mesma: ainda bem que fiz este blog! Sou uma g'andessíssima de uma mãe!
E ler aos meus filhos o que escrevi foi ainda mais delicioso. O Sebastião ria com as bochechas encarnadas, e só dizia, agarrado à barriga: Conta outra vez essa anedota! Conta! E o Afonso foi buscar uma resma de folhas para eu fazer o mesmo para ele: Não é justo, mãe! Também tens que fazer para mim! Eu falo mais que o Sebastião!
Não sei por quanto mais tempo conseguirei manter este blog, mas uma coisa é certa: já valeu bem a pena!